Ficção e realidade estão muito próximas e tantas vezes a realidade supera a ficção. A realidade, na sua riqueza inventiva vai produzindo, apresentando, criando, afeiçoando, modelando, fingindo; tudo isto é ficção, é o exacto e mesmo processo dela. Quando o inventar tem reserva mental e neste sentido mente, dizemos que se finge. Este sentido negativo cabe no seio original desta palavra, numa maneira já figurada. Ficção é também imaginação e fingir é imaginar. Ao mesmo tempo que faz uma obra, o artista (a realidade) vai-a pensando, imaginando o passo seguinte.
A realidade supera a ficção e toda a gente percebe. Isto, para dizer que gostei da tentativa de Sérgio Tovar, para se aproximar a uma definição de nós, portugueses, comunidade político-social. O que ali está não é absoluto e enfia a carapuça quem quiser, mas há muita verdade no que diz. Desenhou um quadro duro; todavia, temos esperança (que de resto nasce do que aprendemos nas suas palavras). Começamos a ficar desapalermados.
Roubando um título** de Agostinho da Silva, afirmo: é uma boa «aproximação».
O farol: um caso de escola
Publicado em 16-07-2015 | Escrito
por Rui
Tovar de Carvalho*
O farol é um exemplo de escola em
qualquer manual de finanças públicas, para se explicar o motivo do recurso ao
investimento público. Na verdade, não é possível impedir terceiros de
retirarem benefício gratuito dessa obra, já que qualquer navio se pode orientar
pelo farol que, no local onde se encontra, emite avisos à navegação; e nenhum
investidor privado sente motivação para construir a expensas suas e manter em
funcionamento um equipamento que serve um público geral e até anónimo, quando
não tem a perspectiva de vir a obter retorno do investimento feito. Salvo
excepções, claro, que por o serem não fazem o caso de escola.
Ora, a história que vos venho contar
parte daqui: do carácter eminentemente público do investimento em faróis. Era
uma vez...
...um reino distante onde, mercê da
leitura atenta dos melhores manuais de finanças públicas, o governo de um rei
palerma - podia tratar-se apenas de um príncipe com orelhas de burro, ou nem
por isso, mas o nome derivava do povo, pois ele era o rei dos palermas, como o
há dos belgas, ou dos britânicos - decidiu fazer muitas obras "para
estimular a economia", como se podia ler nas justificações jurídico-económico-financeiras
da política de estímulos empreendida.
Contudo, havia já muitas obras feitas,
levadas a cabo sobretudo após uma revolução que pretendera desenvolver o reino
e torná-lo um país moderno e evoluído, mas o governo decidiu que não ficaria de
braços cruzados e, assim sendo, onde havia rios fez barragens umas a seguir às
outras, onde havia escolas construiu escolas por cima; onde havia
auto-estradas, riscou auto-estradas ao lado.
O que não havia era lá muito dinheiro,
mas havia bancos e crédito, este barato e aqueles tão generosos que só queriam
era dar... enfim, emprestar... quer dizer, desde que o governo palerma
assumisse os riscos e, sobretudo, assegurasse os lucros dos consórcios de
investidores que formaram sociedades anónimas muito atractivas, cujos créditos
seriam, se necessário, cobrados pela polícia do fisco. Chamaram a isso PPP
(Para os Palermas Pagarem).
O governo, assessorado - com quatro
"s" - por grandes especialistas, munidos de formidáveis tratados de
finanças públicas, achou que não havia problema nenhum, até porque quem pagava
não era quem estava no governo, nem os autores dos manuais, nem os donos dos
bancos, mas o povo em geral, o qual, como é humano, até se animava muito quando
os ordenados subiam e a equipa de futebol do reino marcava golos.
Daí a terem-se feito muitos campos para
a prática do jogo da bola foi um pulo. E como não parecesse prático construir
outros campos por cima dos mesmos, mas mesmo assim fosse imperioso prosseguir a
política pateta de investimentos públicos - pois não nos esqueçamos de que era
um reino onde reinava uma dinastia palerma - lembraram-se os sábios das suas
primeiras lições de finanças e recordaram aquelas primeiras páginas dos manuais
velhinhos, onde os eméritos professores discorriam sobre o caso do farol.
Ora, aqui a nossa história deriva um
pouco para os meandros da ficção, mas estamos em crer que assim é apenas porque
os ficcionistas costumam chegar antes (mas nem sempre, nem sempre...) àquilo
que a realidade, com a força das coisas, consagra como evidência.
Aconteceu pois que, à falta de petróleo,
ou jazidas de diamantes, ou de outra riqueza natural qualquer, o governo do
reino descobriu outra mina de investimentos públicos: a construção de faróis!
Começou por aumentar a altura e a envergadura das primitivas construções;
multiplicou depois o alcance das lanternas para 10, 20, 100 vezes mais (e
ficou-se por aí, devido às reclamações entretanto surgidas ao abrigo da
regulamentação marítima constante dos tratados internacionais); e desatou a construir
faróis, primeiro por toda a costa; depois, para evitar os protestos
internacionais, no interior do reino. E foi um farolar vilanagem!
Ele era farol à beira das lagoas e das
charcas, no meio dos pinhais, na paisagem árida e abandonada, na paisagem protegida,
onde confundia as aves... O reino ficou de tal modo enfarolado, que até se
conseguia ir de norte a sul, na noite mais escura, sem acender as luzes do
carro.
Ora, apesar de muitos defeitos - e quem
os não tem? - o povo palerma tinha também qualidades e uma delas era a
democracia: no reino havia eleições regulares. Dessa forma, o governo mudava
consoante a vontade do povo, o que naturalmente não impedia que qualquer
governo saído das eleições fosse um governo de palermas, porque a nacionalidade
dos ministros era essencial para se poder fazer parte do governo.
Assim, houve eleições e o governo
palerma que construíra os faróis deu lugar a outro governo, tão palerma quanto
o primeiro, mas com uma orientação ideológica completamente diferente (pelo
menos, na aparência).
Decidiu então esse governo, empossado
pelo rei palerma, que era essencial, para o bem do povo, vender tudo o que o
reino tinha, para se pagar as dívidas impagáveis (sim, estes eram, como os
outros, uns tipos impagáveis!), que o outro governo tinha contraído. E assim
vendeu as barragens a uns chineses que iam a passar em direcção ao norte da
Europa, a caminho da América; vendeu a companhia da electricidade a outros,
amigos dos primeiros; vendeu portos, vendeu combóios, vendeu aviões, vendeu, vendeu...
- e como a dívida (uma dívida palerma, contraída por palermas) não dava mostras
de se reduzir efectivamente, em desespero de causa recorreu aos sábios das
finanças públicas. E de que se lembraram estes?
O caro leitor, por certo, adivinhou:
pois claro, lembraram-se dos faróis! Mas como?!, obstaram alguns críticos - os
habituais invejosos, que andam pelos corredores das faculdades a disputar as
cátedras uns aos outros... -, isso é que nunca tinha sido privado, estava nos
livros!
Mas esses críticos não tinham imaginação
nenhuma! O actual governo palerma conseguira, mercê de uma notável criatividade
financeira e jurídica, tornar apetecível o investimento privado em faróis, à
semelhança do que fizera com os transportes públicos da capital. Os investidores
privados compravam os faróis; e depois o reino pagava-lhes para os manter em
funcionamento.
Ora essa!, exclamaram alguns homens do
povo, desses que não percebem nada de finanças públicas, mais umas quantas
donas-de-casa pespinetas, que percebem de finanças domésticas: mas assim, quem
paga... são os palermas, evidentemente!, responderam em uníssono e com um mal
disfarçado sorriso de satisfação nos lábios os sábios que aconselhavam aqueles
que, na proximidade das eleições, se anteviam já de novo no governo.
Bom, a história já vai longa e pede um
epílogo. Foi o caso de um dia o primeiro-ministro (em abstracto, pois já todos
percebemos que todos servem a mesma causa) ir inaugurar uma feira e dar com um
antigo ministro, cujas qualidades empresariais muito elogiou, apontando-o como
um exemplo para as gerações vindouras, apesar de este ter administrado um banco
cuja falência duvidosa tinha custado milhões ao reino.
O homem fez um esgar de modéstia.
Afinal, como ele, havia muitos, como os que tinham comprado os faróis - pela
primeira vez entregues à iniciativa privada - e criado uma próspera empresa de
formação de técnicos autárquicos que acendiam e desligavam os faróis nos
aeródromos do reino.
Como ele, diremos também, há muitos, a
quem o reino tanto deve! Sim, porque depois de saírem dos consecutivos governos
tornaram-se administradores das empresas constituídas para as obras em PPP,
cujas acções foram paulatinamente adquirindo.
O natural instinto de conservação do
capital -bastamente estudado nos manuais - levou a que os filhos de uns e de
outros fossem casando entre si. À sua maneira, as castas apuraram-se e foram-se
nobilitando: fizeram brasões e adquiriram outros, onde de alguns retiraram
inocentes pombas brancas de genealogias perdidas na voragem das cotações e
sobre escudos de armas em plástico chinês colocaram faróis no lugar do timbre.
E se não podemos dizer que foram felizes para sempre, pois apesar dos inúmeros
manuais que insuspeitos autores têm tido a estultícia de escrever sobre o
assunto, a felicidade é assunto demasiado complexo e imprevisível, pelo menos é
de crer que tenham sido ricos por algum tempo.
Por seu lado, o rei palerma cessou
funções e foi substituído por outro; parece que já não tem acções cotadas na
Bolsa. Quanto aos habitantes do reino, há dois traços de carácter que continuam
a cultivar: um é a crença na democracia; o outro é serem irremediavelmente
palermas.
*Advogado
Nota: o autor escreve segundo a antiga ortografia
Nota: o autor escreve segundo a antiga ortografia
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(Com a devida vénia ao autor e a Badaladas, semanário de Torres Vedras)
** Aproximações