Encontro-me com esta maneira de ver o turismo. O turismo bem entendido — e não deve ser mal — é para todos, incluindo os que vivem no país. Nas conversas, não precisamos de concordar com tudo. Seria, talvez, uma má conversa, não-conversa.
Esta é uma boa conversa...
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Daniel Oliveira no Expresso
Turismo: Para que a
prosperidade não nos mate
Em
política, o debate faz-se, por hábito e com algumas vantagens, numa lógica
adversarial. Mas a tendência para a transformação do confronto político num
espetáculo televisivo, fácil de acompanhar, transforma todos os debates em
confrontos de “prós” e “contras”. Em alguns casos isso faz sentido, noutros é
simplista, noutros é apenas idiota. Na discussão sobre a explosão de turismo em
Portugal, sobretudo nas grandes cidades, é idiota.
Ninguém no seu prefeito juízo é contra o turismo. Ele é, na sua
essência, positivo: abre horizontes, permite contacto entre culturas, tende a
promover a tolerância e alguma relativização da diferenças. Tudo isto em doses
modestas e quase sempre em versões estereotipadas e passíveis de ser vendidas
em pacote. Mas, ainda assim, é melhor viajar do que não viajar. E é positivo
para as economias.
Como todas as atividades económicas, o excesso mata. Quem decida
ir a Veneza percebe que o turismo matou aquilo a que podemos chamar uma cidade:
um lugar onde pessoas vivem o seu quotidiano. Veneza está cheia de turistas mas
está morta. Tão morta como qualquer palácio desabitado. Por isso, ninguém
minimamente sensato é a favor de um turismo sem travões. Só mesmo o
neoliberalismo niilista, tão ao gosto de alguma adolescência política dos
nossos tempos, não percebe que qualquer atividade económica sem regulação se
destrói a si mesma e a tudo o mais que a rodeie. E isso é especialmente verdade
com o turismo. Só uma forte gestão pública do turismo, o que com fronteiras
abertas passa por um forte planeamento urbano, fiscal e económico, pode impedir
que ele se transforme numa atividade destrutiva.
As “low cost” (que permitiram uma democratização do turismo), o
crescimento da classe média em novos mercados, a instabilidade no norte de
África e algum fenómeno de moda também graças a algumas escolhas acertadas nas
duas principais cidades, fizeram explodir o turismo em Portugal e especialmente
em Lisboa e Porto. A explosão deu-se no melhor e no pior momento. No melhor
momento porque nos apanhou numa brutal crise económica e serviu de boia de
salvação para a economia e até para muitas famílias a braços com créditos
imobiliários que não conseguiam saldar. No pior momento porque nos apanhou numa
brutal crise económica e sem grandes alternativas ou capacidade para escolher o
que nos interessa e o que não nos interessa. Seja como for, qualquer decisão
sobre o turismo não pode deixar de ter em conta a nossa situação económica e os
empregos que o turismo criou e salvou. Mas isto não nos pode levar a cometer
erros que poderão vir a ser muito caros no futuro, incluindo para o próprio
turismo.
Precisamos do turismo para sobreviver. Mas a única forma disso
não se traduzir na expulsão de toda a gente para as periferias é ter um poder
político capaz pensar para lá do ano seguinte. A questão não é se somos contra
ou favor do turismo. Esse é um debate idiota. É se aqueles que elegemos querem
gerir o turismo
Um desses erros é evidente: não podemos baixar os braços perante
mais uma crise no mercado de arrendamento que leve as pessoas a endividarem-se
ainda mais para a compra de casa própria, o que corresponde ao agravar a nossa
dívida externa, um dos problemas estruturais portugueses. Não podemos permitir
que os habitantes das cidades sejam expulsos dos centros urbanos, seguindo o
caminho de várias grandes cidades que se transformaram, pelos preços
incomportáveis da habitação, em grandes hotéis e residência temporária para ricos.
E não podemos permitir que Lisboa e Porto se descaracterizem até se
transformarem em parques temáticos. Não em nome da defesa da tradição – o que
seria legítimo –, mas para garantirmos a sustentabilidade do próprio turismo e
a certeza de que não nos transformamos em figurantes nas nossas cidades. Põe-se
com o turismo a mesma questão que se põe com quase todas as atividades
económicas: a dose deve ser gerida para que a prosperidade não nos mate. E é
por isso que é estúpida a dicotomia entre os que defendem o turismo e os que
são contra ele.
Esta dicotomia resulta dos olhares estreitos e autocentrados dos
que sofrem de forma mais direta e evidente os efeitos positivos e negativos do
turismo. Os que não conseguem encontrar casa nas cidades ou, tendo-a, são
massacrados por hóspedes em festa, não pensam que a sua própria qualidade de
vida depende do crescimento económico e que ele hoje se sustenta, em parte, no
turismo. Os que têm as suas casas em alojamento local ou sentem que a sua
situação económica depende do turismo não conseguem pensar a longo prazo e
perceber que só travando os excessos se garante a sustentabilidade do negócio.
Cabe à política pensar para lá do interesse imediato de cada um.
A resposta não é sexy: precisamos de cidades multifuncionais.
São as únicas que prosperam e onde podemos querer viver. Foi esta mesma ideia
que me levou, há uns anos, a defender a sobrevivência do terminal de
contentores em Alcântara, independentemente das dúvidas sobre o negócio que em
torno dele se fez, que é outra questão. Porque me opus àqueles que se
concentram apenas na questão estética, ignorando a necessidade da cidade de
Lisboa manter atividades económicas para as quais a existência de um porto de
mercadorias é central. Mais uma vez, opus-me à cidade “cartão postal” que tem
de expulsar tudo o que é feio mesmo que seja necessário. Entre os mais ferozes
estetas dessa polémica surgem agora os mais violentos críticos do turismo. O
que não deixa de ser curioso. Porque se o único critério na gestão de uma
cidade for o estético, a única atividade que prosperará nela será o turismo. Só
ele exige cartões postais em vez de cidades vivas, onde há portos, contentores
e algumas coisas menos bonitas.
Precisamos do turismo para sobreviver. Mas a única forma de isso
não se traduzir na expulsão de toda a gente para as periferias – o que
significaria que o turismo prejudicaria mais pessoas do que aquelas que
beneficiaria –, é termos um poder político capaz de pensar para lá do ano
seguinte. Foi o que se fez quando se criou, perante os protestos de Pires de
Lima, a taxa turística, que permitiu que esta atividade contribuísse para fazer
face aos desafios e dificuldades que ela própria punha a Lisboa. Pode
perfeitamente ser aumentada, sem qualquer efeito na procura, e o investimento
deve descentrar-se da “fachada” bonita da cidade. Mas a medida mais urgente é
transformar o registo de alojamento local em licenciamento, dando às autarquias
o poder de gerirem a oferta nas diversas zonas das cidades. A questão não é se
somos contra ou favor do turismo. Esse é um debate idiota. É se aqueles que
elegemos para tratar da coisa pública querem ou não querem gerir o turismo.