segunda-feira, 7 de agosto de 2017

A divulgação da semana - sobre o turismo

Encontro-me com esta maneira de ver o turismo. O turismo bem entendido — e não deve ser mal — é para todos, incluindo os que vivem no país. Nas conversas, não precisamos de concordar com tudo. Seria, talvez, uma má conversa, não-conversa. 
Esta é uma boa conversa...
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Daniel Oliveira no Expresso
Turismo: Para que a prosperidade não nos mate
Em política, o debate faz-se, por hábito e com algumas vantagens, numa lógica adversarial. Mas a tendência para a transformação do confronto político num espetáculo televisivo, fácil de acompanhar, transforma todos os debates em confrontos de “prós” e “contras”. Em alguns casos isso faz sentido, noutros é simplista, noutros é apenas idiota. Na discussão sobre a explosão de turismo em Portugal, sobretudo nas grandes cidades, é idiota.
Ninguém no seu prefeito juízo é contra o turismo. Ele é, na sua essência, positivo: abre horizontes, permite contacto entre culturas, tende a promover a tolerância e alguma relativização da diferenças. Tudo isto em doses modestas e quase sempre em versões estereotipadas e passíveis de ser vendidas em pacote. Mas, ainda assim, é melhor viajar do que não viajar. E é positivo para as economias.
Como todas as atividades económicas, o excesso mata. Quem decida ir a Veneza percebe que o turismo matou aquilo a que podemos chamar uma cidade: um lugar onde pessoas vivem o seu quotidiano. Veneza está cheia de turistas mas está morta. Tão morta como qualquer palácio desabitado. Por isso, ninguém minimamente sensato é a favor de um turismo sem travões. Só mesmo o neoliberalismo niilista, tão ao gosto de alguma adolescência política dos nossos tempos, não percebe que qualquer atividade económica sem regulação se destrói a si mesma e a tudo o mais que a rodeie. E isso é especialmente verdade com o turismo. Só uma forte gestão pública do turismo, o que com fronteiras abertas passa por um forte planeamento urbano, fiscal e económico, pode impedir que ele se transforme numa atividade destrutiva.
As “low cost” (que permitiram uma democratização do turismo), o crescimento da classe média em novos mercados, a instabilidade no norte de África e algum fenómeno de moda também graças a algumas escolhas acertadas nas duas principais cidades, fizeram explodir o turismo em Portugal e especialmente em Lisboa e Porto. A explosão deu-se no melhor e no pior momento. No melhor momento porque nos apanhou numa brutal crise económica e serviu de boia de salvação para a economia e até para muitas famílias a braços com créditos imobiliários que não conseguiam saldar. No pior momento porque nos apanhou numa brutal crise económica e sem grandes alternativas ou capacidade para escolher o que nos interessa e o que não nos interessa. Seja como for, qualquer decisão sobre o turismo não pode deixar de ter em conta a nossa situação económica e os empregos que o turismo criou e salvou. Mas isto não nos pode levar a cometer erros que poderão vir a ser muito caros no futuro, incluindo para o próprio turismo.
Precisamos do turismo para sobreviver. Mas a única forma disso não se traduzir na expulsão de toda a gente para as periferias é ter um poder político capaz pensar para lá do ano seguinte. A questão não é se somos contra ou favor do turismo. Esse é um debate idiota. É se aqueles que elegemos querem gerir o turismo
Um desses erros é evidente: não podemos baixar os braços perante mais uma crise no mercado de arrendamento que leve as pessoas a endividarem-se ainda mais para a compra de casa própria, o que corresponde ao agravar a nossa dívida externa, um dos problemas estruturais portugueses. Não podemos permitir que os habitantes das cidades sejam expulsos dos centros urbanos, seguindo o caminho de várias grandes cidades que se transformaram, pelos preços incomportáveis da habitação, em grandes hotéis e residência temporária para ricos. E não podemos permitir que Lisboa e Porto se descaracterizem até se transformarem em parques temáticos. Não em nome da defesa da tradição – o que seria legítimo –, mas para garantirmos a sustentabilidade do próprio turismo e a certeza de que não nos transformamos em figurantes nas nossas cidades. Põe-se com o turismo a mesma questão que se põe com quase todas as atividades económicas: a dose deve ser gerida para que a prosperidade não nos mate. E é por isso que é estúpida a dicotomia entre os que defendem o turismo e os que são contra ele.
Esta dicotomia resulta dos olhares estreitos e autocentrados dos que sofrem de forma mais direta e evidente os efeitos positivos e negativos do turismo. Os que não conseguem encontrar casa nas cidades ou, tendo-a, são massacrados por hóspedes em festa, não pensam que a sua própria qualidade de vida depende do crescimento económico e que ele hoje se sustenta, em parte, no turismo. Os que têm as suas casas em alojamento local ou sentem que a sua situação económica depende do turismo não conseguem pensar a longo prazo e perceber que só travando os excessos se garante a sustentabilidade do negócio. Cabe à política pensar para lá do interesse imediato de cada um.
A resposta não é sexy: precisamos de cidades multifuncionais. São as únicas que prosperam e onde podemos querer viver. Foi esta mesma ideia que me levou, há uns anos, a defender a sobrevivência do terminal de contentores em Alcântara, independentemente das dúvidas sobre o negócio que em torno dele se fez, que é outra questão. Porque me opus àqueles que se concentram apenas na questão estética, ignorando a necessidade da cidade de Lisboa manter atividades económicas para as quais a existência de um porto de mercadorias é central. Mais uma vez, opus-me à cidade “cartão postal” que tem de expulsar tudo o que é feio mesmo que seja necessário. Entre os mais ferozes estetas dessa polémica surgem agora os mais violentos críticos do turismo. O que não deixa de ser curioso. Porque se o único critério na gestão de uma cidade for o estético, a única atividade que prosperará nela será o turismo. Só ele exige cartões postais em vez de cidades vivas, onde há portos, contentores e algumas coisas menos bonitas.
Precisamos do turismo para sobreviver. Mas a única forma de isso não se traduzir na expulsão de toda a gente para as periferias – o que significaria que o turismo prejudicaria mais pessoas do que aquelas que beneficiaria –, é termos um poder político capaz de pensar para lá do ano seguinte. Foi o que se fez quando se criou, perante os protestos de Pires de Lima, a taxa turística, que permitiu que esta atividade contribuísse para fazer face aos desafios e dificuldades que ela própria punha a Lisboa. Pode perfeitamente ser aumentada, sem qualquer efeito na procura, e o investimento deve descentrar-se da “fachada” bonita da cidade. Mas a medida mais urgente é transformar o registo de alojamento local em licenciamento, dando às autarquias o poder de gerirem a oferta nas diversas zonas das cidades. A questão não é se somos contra ou favor do turismo. Esse é um debate idiota. É se aqueles que elegemos para tratar da coisa pública querem ou não querem gerir o turismo.