sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Sinais identitários

Estão nas casas das nossas ruas e às vezes detemo-nos a olhar para eles. Dizem algo sobre quem habitou a casa que os ostenta ou sobre a utilização que lhe era dada. Pode tratar-se apenas de lápides com duas palavras ou mais extensamente comemorativas. Hoje, partilhamos um desses sinais, que já havia chamado a nossa atenção, sem saber, ainda, que objecto ali estaria figurado. Talvez alguma boa alma me soubesse informar. Venho a saber, agora — agradável surpresa pela bondade do texto —, de que se trata.
Num breve texto, como composição musical, o tema é anunciado numa primeira parte, quando se fala nas duas Leonor, e desenvolvido, poucas linhas depois, numa segunda parte, em que vamos sendo progressivamente iluminados, ascendendo no caminho da luz. Voando, com os pés, ali, nas coisas terrenas.
(Com a devida vénia à C. M. de Torres Vedras e ao autor do texto; publicado em revista municipal Torres Vedras, n.º 25, disponível em linha.)



sexta-feira, 11 de setembro de 2015

O Desnarigado


Deste mapa, publicado em 1813, reproduzimos para melhor legibilidade as informações do canto inferior direito, com reserva do que está escrito, mesmo ao cantinho, e que poderá ser: D. Wright esculpiu, ou gravou. Escala: em varas e em fathoms (medida inglesa equivalente à braça).

Price Six Pence
PLAN OF THE
TOWN AND FORTIFICATIONS
of
CEUTA IN AFRICA.
SURVEYED BY
FraS. Wheatley Esq, late Lt. Royl. Artillery.
____________

LONDON
Published by W. Fuden Geographer to His Majesty,
and to His Royal Highness, the Prince Regent.
Charing Cross Augt. 12th. 1813.  [OU 23?]

                                                                       D. Wright sculp [?]


O Desnarigado, porventura, teve um grande nariz, antes de ser desnarigado. Daí virá a confusão de se ler no Plano da Cidade e Fortificações de Ceuta, a assinalar uma saliência, em baixo à direita, Fort of the Desnarigado or Great Nose. Talvez o autor se queira referir às duas épocas da vida deste pirata marroquino, antes e depois do acidente, ou terá sido simplesmente uma incorrecção da tradução para a língua inglesa que deu origem a esta confusão de narizes.
«O Castelo do Desnarigado tem a sua origem na necessidade de controlar uma pequena enseada próxima de Ceuta que era lugar de reunião habitual de corsários procedentes de Marrocos. Um destes piratas, o Desnarigado, dá o nome tanto à enseada como à fortaleza. Já utilizado pelos árabes, foi aproveitado desde 1415 pelos portugueses. (Ver mais...)
Porquê esta curiosidade? Procurámos uma reprodução deste plano de Ceuta, um pouco melhor do que a da fotografia que damos em aterraeagente, obtida na exposição Torres Vedras no caminho de Ceuta. 600 anos. Ao ler alguns nomes (nem sempre fáceis de deslindar), ao meter o nariz onde talvez não fosse chamado, dei com o Desnarigado!... 

Die Hausbücher der Nürnberger Zwölfbrüderstiftungen e outras fontes para o conhecimento da vida em tempos idos

O interesse pelos «Livros de Casa» (Hausbücher) foi induzido, a partir da  exposição «Torres Vedras no caminho de Ceuta.600 anos», patente no Museu Municipal de Leonel Trindade, até 10 de Outubro. Este aspecto dos mesteres da vida quotidiana interessou-me particularmente.
O dicionário de H. MICHAELIS, na PARTE SEGUNDA: ALEMÃO-PORTUGÊS, regista: Hausbuch, n. livro das contas m.,agenda f.; penso que é melhor a tradução literal. Em inglês, Housebook — livro das contas da casa.
A «casa» é a Instituição dos Doze Irmãos de Nuremberga, aliás, duas instituições de solidariedade social; a primeira a ser fundada foi a de Mendel, seguindo-se a de Landauer, dos nomes dos respectivos fundadores. Sobre «Die Hausbücher der Nürnberger Zwölfbrüderstiftungen», encontra, abaixo, dois textos suficientemente esclarecedores e a respectiva tradução.
No painel AS GENTES figuram quatro imagens, representando as três ordens em que o imaginário medieval dividia a sociedade, tal como vem expresso nas Ordenações Afonsinas. No painel UMA VILA MARCADAMENTE RURAL, outras oito imagens mostram várias actividades necessárias na passagem dos dias. Em ambos os painéis, vemos  folhas d'Os Livros de Casa de Mendel e de Landauer.

As outras fontes, são: Gladiatoria fechtbuch, O Livro de Horas de Barbavara, Ulrich Richental: Konzilschronik, Livre des Profits Ruraux, Les Très Riches Heures du Duc de Berry e Livre des Propriétés des Choses.
Não deixe de ver  a exposição!
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I
AS GENTES

Tirado daqui.

Tirado daqui.

Tirado daqui.

Tirado daqui.

Mestre de Walters
Exposições em que se pôde apreciar esta folha do Livro de Horas de Barbavara:
God's Minstrel: St. Francis of Assisi. The Walters Art Gallery, Baltimore. 1982.
The Illuminated Initial. The Walters Art Gallery, Baltimore. 1991-1992.
The Book within the Book: Images of Books and Readers in Manuscripts. The Walters Art Gallery, Baltimore. 1995.

O livro foi adquirido por Henry Walters. Doado ao Walters Art Museum, em 1931.

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UMA VILA MARCADAMENTE RURAL

Tirado daqui


Tirado daqui

Tirado daqui

Tirado daqui

Tirado daqui

Tirado daqui

Tirado daqui

Tirado daqui

 *

II
Die Mendelschen und Landauerschen Hausbücher


Die beiden Nürnberger Zwölfbrüderbücher waren als Chroniken und Totenbücher zweier Nürnberger Sozialstiftungen des späten Mittelalters angelegt worden. Ohne Unterbrechung wurden sie bis zum Ende der reichsstädtischen Selbständigkeit im Jahr 1806 mit strenger Kontinuität gepflegt: vorderhand der steten Erfüllung des Stiftungszwecks Ausdruck verleihend - und gleichzeitig ein immens reiches Bildmaterial erzeugend.
Der vermögende Handelsmann Konrad Mendel hatte 1388 ein Altenheim zur Wohnstätte und Verpflegung für jeweils zwölf bedürftige, alte Nürnberger Handwerker erbauen und mit Kapital für eine dauerhafte Führung ausstatten lassen. Seit etwa 1425/26 wurde jeder „Mendelbruder“ mit einem ganzseitigen Bildnis im Mendelschen Hausbuch porträtiert. Es wuchs bis zum Ende der reichsstädtischen Zeit auf einen Umfang von insgesamt 857 Bildseiten mit 765 Handwerkerdarstellungen im Folioformat an.
Die Darstellungen zeigen die Brüder vorwiegend in Ausübung ihres Handwerks, mit kennzeichnenden Herstellungsverfahren, typischen Werkzeugen, Werkstattausstattungen, Werkstoffen und Erzeugnissen - motivisch detailliert und von großer, unmittelbarer Authentizität. Jeweils hinzugefügt wurde ein Text; zunächst nur die Namen und biografischen Daten des Bruders, in späteren Jahrhunderten um Kurzbiografien erweitert.
Mendels Stiftungsmodell fand im frühen 16. Jahrhundert eine prominente Nachfolge, als der Montanunternehmer Matthäus Landauer ein zweites Nürnberger "Zwölfbrüderhaus" mit ähnlicher Funktion und gleicher Memorialbuchform ins Leben rief: die Landauersche Zwölfbrüderstiftung mit ihrem gleichnamigen, 1511 begonnenen Hausbuch, das 439 Bildseiten mit 406 Handwerkerbildnissen umfasst. Auch diese Stiftung hatte bis 1806 Bestand.


Beschreibungen

Detaillierte Beschreibungen der einzelnen Bände mit weiteren Informationen zu ihrer Ausstattung, zur Entstehungsgeschichte, weiterführender Literatur und mehr finden Sie in folgenden Kurzabhandlungen.
Die Dateien werden im PDF-Format angeboten. Um sie öffnen zu können, benötigen Sie den Adobe Reader, den Sie kostenlos herunterladen können.
Informationen zur Sammlung Amberger finden Sie im

ab Seite 134.
Os Livros de Casa de Mendel e de Landauer
Os dois livros dos doze irmãos de Nuremberga foram ordenados como livros de crónica e obituários de duas instituições sociais de Nuremberga da Idade Média tardia. Foram cuidados sem interrupção, com rigorosa continuidade até ao fim da autonomia das cidades do Reich, no ano de 1806: desde logo dando expressão ao constante cumprimento dos fins da Instituição e gerando simultaneamente um acervo de imagens imensamente rico.
O abastado comerciante Konrad Mendel tinha fundado em 1388 um lar de idosos para domicílio e assistência de cada vez doze necessitados, velhos artífices de Nuremberga, e com capital que permitisse o equipamento a uma administração duradoura. Desde cerca de 1425/26, cada «irmão de Mendel» foi retratado no Livro de Casa de Mendel com uma imagem de página inteira. Cresceu até ao fim do tempo da autonomia das cidades do Reich a uma envergadura de um totral de 857 páginas de imagem com 765 representações de artífices, in-folio.
As representações mostram os irmãos preponderantes na prática do seu ofício, com métodos de produção característicos, ferramentas típicas, equipamentos da oficina, materiais e produtos – com o respectivo motivo detalhado e da maior, imediata autenticidade. Era sempre acrescentado um texto; em primeiro lugar, só os nomes e dados biográficos do irmão; em séculos mais tardios, acrescidos de curtas biografias.
O modelo de instituição de Mendel encontrou nos começos do século XVI uma continuação proeminente, quando o industrial de Montan, Mathäus Landauer chamou à vida uma segunda «Casa de Doze Irmãos», com função semelhante e igual forma de livro memorial: a Instituição dos Doze Irmãos de Landauer, com o seu Livro de Casa homónimo iniciado em 1511, que abrange 439 imagens de página inteira com 406 retratos de artífices. Também esta instituição teve existência até 1806.
Descrições
Encontra descrições pormenorizadas dos tomos isolados com informações adicionais sobre equipamento, sobre a história da origem, literatura que aprofunda e mais, nos pequenos ensaios seguintes.
Os ficheiros de dados são apresentados em formato PDF. Para os poder abrir, precisa do Adobe Reader, que pode descarregar gratuitamente.

Encontra informações sobre a colecção Amberger no
  • Handbuch der historischen Buchbestände in Deutschland.
    Band 12: Bayern I-R. Herausgegeben von Eberhard Dünninger.
    Bearbeitet von Irmela Holtmeier unter Mitarbeit von Birgit Schaefer
    Georg-Olms-Verlag, Hildesheim 1996, ISBN 3-487-09586-6


Vom "Ablader" bis zum "Zuckermacher"
Mit den sogenannten Hausbüchern der Mendelschen und Landauerschen Zwölfbrüderhausstiftungen besitzt die Stadtbibliothek Nürnberg die umfangreichste und wertvollste serielle Bildquelle zum historischen Handwerk in Europa.
Vom Bäcker bis zum Zimmermann, vom „Ablader“ bis zum „Zuckermacher“ schildern ihre über 1.300 Darstellungen zahlreiche Herstellungsverfahren und Handwerkserzeugnisse vom 15. bis zum 19. Jahrhundert. Als Forschungsmaterial wie auch als Illustrationsvorlagen sind die Handwerkerdarstellungen der „Zwölfbrüderbücher“ in fach- wie populärwissenschaftlicher Literatur seit langem bekannt und beliebt. Dennoch blieb ihr größter Teil bis heute unveröffentlicht.
Von Oktober 2007 bis Februar 2009 wurde ein von der Deutschen Forschungsgemeinschaft gefördertes Projekt zur Digitalisierung und Erschließung der Hausbücher durchgeführt. Auf dieser Website werden die Ergebnisse der Öffentlichkeit präsentiert und zur wissenschaftlichen Nutzung zur Verfügung gestellt.
Die Stadtbibliothek Nürnberg als Eigentümerin und das Germanische Nationalmuseum als informationstechnologischer Kompetenzträger dokumentieren die Hausbücher nun erstmals komplett und gemäß aktueller Standards digital. Recherchierbar sind die transkribierten Inschriften der vollständig fotografierten Handschrift sowie die handwerkstechnische Ikonografie.

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Do «Descarregador» ao «Refinador do Açúcar»
Com os chamados Livros de Casa das Instituições dos Doze Irmãos de Mendel e de Landauer possui a Biblioteca da Cidade de Nuremberga o mais abrangente e valioso manancial de imagens em série sobre o trabalho de artífices histórico na Europa.
De Bäcker a Zimmermann, de «Ablader» a «Zuckermacher», as suas mais de 1300 representações figuram numerosos métodos de fabrico e produtos artesanais do século XV ao XIX. Como material de investigação e também como modelo dos «Livros dos Doze Irmãos» na literatura científica especializada ou popular são de há muito conhecidas e apreciadas. Contudo, a sua maior parte ficou até hoje por publicar.
De Outubro de 2007 até Fevereiro de 2009, fomentado pela Sociedade Alemã de Investigação, foi levado a cabo um projecto para a Digitalização e Acessibilização dos Livros de Casa. Neste Website são apresentados os resultados da publicitação e disponibilizados para aproveitamento científico.
Biblioteca da Sociedade de Nuremberga, como proprietária, e o Museu Nacional Germânico como autoridade em informação tecnológica certificam os Livros de Casa agora completos e conformes aos actuais padrões digitais.
São pesquisáveis as informações transcritas do manuscrito fotografado na íntegra, bem como a iconografia da técnica artesanal.
[http://www.nuernberger-hausbuecher.de/]


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Informações na internet das primeiras doze imagens
http://www.nuernberger-hausbuecher.de/index.php?do=page&mo=2 (Os Livros de Casa de Mendel e de Landauer)
http://www.nuernberger-hausbuecher.de/ (Vom "Ablader" bis zum "Zuckermacher")
https://de.wikipedia.org/wiki/Ulrich_von_Richental (Ulrich von Richental, na wikipédia)
(Les Très Riches Heures du duc de Berry, novembre, imagem)
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Les_Tr%C3%A8s_Riches_Heures_du_duc_de_Berry_novembre.jpg (Les Très Riches Heures du duc de Berry, novembre; mais pormenores)
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Les_Tr%C3%A8s_Riches_Heures_du_duc_de_Berry_mars.jpg (Les Très Riches Heures du duc de Berry, mars, descrição)
https://fr.wikipedia.org/wiki/Les_Tr%C3%A8s_Riches_Heures_du_duc_de_Berry (Artigo sobre Les Très Riches heures du duc de Berry, 75 imagens)
https://commons.wikimedia.org/wiki/Tr%C3%A8s_Riches_Heures_du_Duc_de_Berry (133 imagens de Les Très Riches Heures du duc de Berry)

A noite antes da conquista de Ceuta

Numa grande multidão, há homens de todo o metal, os corajosos e fortes e os outros, os de pequenos corações. Bela página de Zurara, em que nos sentimos no meio daqueles homens, como em vigília; somos mesmo um deles..., e o outro e todos; o de pior madeira ou metal e o da melhor. Primeiro, somos e vemos os pensamentos dos de pequenos corações; depois, os de mais ânimo e valentia, que «esquecem» a noite que talvez os espere e anseiam pela luz do dia que tarda. Olham mais para o que podem conseguir para si e os seus descendentes do que para uma morte antecipada, sem sepultura e longe do agasalho dos seus.
A seguir, é apresentado o capítulo LXVII da Crónica da Tomada de Ceuta, de Zurara, primeiro reproduzido de uma edição diplomática e, depois, em português moderno, mas afastado o menos possível do original. O primeiro motor deste meu texto foi a exposição, Torres Vedras no caminho de Ceuta.600 Anos patente no Museu Municipal de Leonel Trindade até ao dia 10 de Outubro. «Primeiro motor[1]» é expressão de Aristóteles. O autor grego é citado mais do que uma vez nesta crónica por Zurara, que o refere simplesmente por «o filósofo», tal foi a sua importância na Idade Média.
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 Como os da frota traziam por essa mesma guisa lume por seus navios, e das tenções que entre si haviam.   Capítulo LXVII.
Posto que aqueles mouros assim alumiassem sua cidade, a fim de acrescentar na semelhança de sua multidão, os outros que estavam nos navios, não alumiariam menos sua frota, mas isto era mais por necessidade, que por mostrar grandeza. Que tanto que assim os navios tiveram suas âncoras lançadas, logo cada um começou a cuidar no que lhe cumpria para o dia seguinte. E entre as tochas que os capitães tinham ante si, e as candeias que os homens traziam nas mãos, quando andavam corregendo suas cousas, era a frota muito alumiada, e parecia ainda muito mais aos que estavam na cidade, porque o fogo feria na água do mar, e parecia que tudo era lume; a qual cousa não punha pequeno espanto àqueles mouros, que o direitamente podiam olhar. Mas depois que se a noite se começou a gastar e os senhores se meteram em suas câmaras para filharem seu repouso, começaram cada uns daqueles de se acostar em seus alojamentos. E porque em semelhante tempo os homens têm vagar de cuidarem de quaisquer cousas, porque enquanto lhes a força do sono não tira o natural sentir, não podem arredar de si desvairadas imaginações, onde cada um leva seu entender àquilo que traz mais acerca da vontade; e certo é que em tal tempo pode homem melhor considerar o dano ou proveito que lhe pode vir, que em nenhum outro; que é dito pelo filósofo que o coração sendo se faz prudente. E estando assim aqueles deitados, começaram a considerar qual seria o seu fim no outro dia. Que posto que aí houvesse muitos corajosos e fortes, também estavam outros de pequenos corações; porque na grande multidão necessário é que haja de todo o metal; os quais toda aquela noite não podiam dormir senão a bocados, e batiam em seu peito tão desvairados pensamentos, que os não queriam deixar livres a um só cuidado. E assim como a nau quando traz pequena carga, a árvore seca anda sobre as ondas duma parte para a outra, sem ter rumo certo por que faça a sua viagem, bem assim andavam os pensamentos daqueles aluindo, sem curso certo. E uma vez se lhes apresentava ante a imagem da alma, como os mouros eram homens, que receavam pouco suas mortes, contanto que eles pudessem cumprir suas vontades, matando seus inimigos; outra vez pensavam que se ali falecessem, no que eles punham grande dúvida, quais sepulturas haveriam; e como não seriam acompanhados de seus filhos e de seus parentes, quando lhe fizessem sua derradeira honra, nem poderiam gemer sobre suas covas aqueles que grande sentido que grande sentido de sua morte tivessem. Ou diziam eles entre si, como foram bem-aventurados todos aqueles a que Deus deixou acabar seus dias no apartamento de seus leitos; os quais em tal tempo são acompanhados de suas mulheres e filhos, e aconselhados pelos seus abades com grande proveito de suas consciências; e estão fazendo a repartição de seus bens segundo o movimento das suas vontades. Mas nós outros que aqui morrermos, não veremos nenhuma destas coisas, antes jazeremos sem sepulturas, desprezados de todos os vivos. E assim se gastarão nossas carnes, sem de nós saber alguém parte, senão depois da derradeira ressurreição do juízo. E que proveito nos pode trazer o ganho dos trabalhos que levamos de nossas mocidades e mancebias, se não havemos de ter poder em nossos dinheiros para os darmos para saúde de nossas almas. Por certo mais nobres pensamentos tinham aqueles, a quem a natureza guarnecera de verdadeira fortaleza; os quais considerando em este feito, diziam entre si. Bem-aventurados somos nós, a quem Deus entre todos de Espanha outorgou primeiramente graça de cobrar terra nas partes de África; e que havemos primeiramente de despregar nossas bandeiras sobre a formosura de tamanha cidade. Vá com Deus, diziam eles, por bem empregado nosso trabalho em semelhante serviço, pois que o nosso sangue há-de ser espargido por remimento de nossos pecados. E que perda receberemos aqueles que aqui fizermos fim de nossas vidas, quando temos conhecimento certo que as nossas almas, que são espirituais, verão verdadeiros prazeres no outro mundo. E os autores das histórias apartados nos seus estudos, estarão contemplando na bondade de nossas forças; e escreverão os nossos feitos para ensinança de muitos vivos; e voará a fama de nossa morte por todas as partes, onde os homens conhecerem escrituras. E a nossa fortaleza será como espelho de todas aquelas gentes, que descenderem de nossa linha; os quais sempre viverão em favor de nosso merecimento; pois os reis que depois vierem a Portugal sempre terão razão de se lembrarem de tamanho feito. E pensando assim nestas coisas, muito amiúde se levantavam o olhar o movimento das estrelas, para conhecer que+ parte ficava por andar da noite; porque tarde lhes parecia que chegava a claridade do dia, para verem a hora antes desejavam.
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Guisa - maneira; acostar-se - recostar-se, deitar-se; jazendo - forma verbal de jazer: estar deitado, estar morto, estar sepultado, estar situado ou colocado...; Da Grande Enciclopédia P. e B.: árvore seca - mastreação sem as velas envergadas ou com elas todas ferradas; aluindo - aluindo - forma verbal de aluir: como intransitivo, vacilar, cair.



[1]  Aristóteles fala do primeiro motor na Física e na Metafísica. «Todo móvel deve ser movido por um motor.» (Física); «Uma vez que o motor deve ser eterno e nunca cessar, é necessário que haja um primeiro motor… e que o primeiro motor seja imóvel.» (Física); «É preciso que haja uma substância eterna e imóvel…. e que o primeiro motor seja imóvel.» (Metafísica) [As palavras de Aristóteles são retiradas de Rodolfo Mondolfo, O Pensamento Antigo, II, Editora Mestre Jou, São Paulo, 1965.]

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O Infante Dom Henrique luta em Ceuta

O Infante Dom Henrique quer ter um papel de primeiro plano. Neste e noutros textos isso se verifica. Já desde a preparação da frota, no Porto; em Lisboa, e no afã de ser o primeiro a tomar terra, em Ceuta. O quadro pintado por Zurara alça-o a alturas quase míticas. Penso em Aquiles. Penso, também, na instabilidade que acompanha a acção de Dom Henrique, no que podia ter corrido mal. O jovem de vinte e um anos, chega a ser desertado de alguns dos seus, fugindo dos mouros, sem dar por ele. Uma figura de militar e homem seguro parece providencial. Dom Henrique ouve-o. O homem a quem o Infante ouve é Garcia Moniz. «O Iffante conheçia bem Garçia Moniz, que era homem sesudo e boom caualleiro, e conheçeo que o comsselhaua muy bem.»

[Como Garçia Moniz filhou atreuimento de passar aquella porta pera hir buscar o Iffamte, e das rrezoões que lhe disse. Capitullo Lxxxii.]

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Apresenta-se um dos capítulos da crónica, em que se descreve a luta de Dom Henrique, dentro dos muros de Ceuta. Reproduz-se o texto em linha da edição da Academia das Ciências, por Francisco Maria Esteves Pereira, 1915, seguido de versão em ortografia de agora, ligeiramente modernizada.




Como o Infante Dom Henrique tornou à Rua Direita, e das cousas que ali fez. Capítulo LXXVIII.


Dissemos nos outros capítulos, como o Infante Dom Henrique presumiu que seu irmão era em outra alguma parte. E por isso desceu-se contra a Rua Direita para ir atentar a fortaleza do castelo, pelo vencimento em que os mouros andavam. E menos era seu desejo contente de nenhuma boa dita, que naquele feito houvesse, não porque ele bem não conhecesse a grandeza da vitória, mas porquanto se houvera com tão pequeno trabalho. Que certo é que aquela cousa é de nós mais amada e prezada, cujo senhorio por grande trabalho cobramos; e, portanto, diz o filósofo no livro da económica, que os // mancebos desprezam as riquezas, porque as cobraram ligeiramente, e portanto naturalmente são liberais e gastadores, o que os velhos são pelo contrário. E por isso finge aqui o autor que dizia o Infante entre si mesmo. que me prestou a mim ser o primeiro capitão, que el-Rei meu senhor e pai mandou que filhasse terra, pois com tão pouco trabalho havia de haver a minha vitória, ou que glória poderei ter no dia da minha cavalaria, se a minha espada não for molhada no sangue dos infiéis. E indo assim em este pensamento, chegou à Rua Direita, pela qual seguindo um pequeno espaço chegaram a ele muitos cristãos, os quais segundo justa estimação seriam até quinhentos, que vinham fugindo ante os mouros. E vendo-os o Infante cerrou a cara do bacinete, e embraçou um escudo que trazia, e deixou passar por si todos os cristãos, até que chegaram os mouros, os quais muito asinha conheceram os seus golpes entre todos os outros, pois assim os cometeu rijamente, que os fez por força virara as espáduas, para onde antes traziam os rostos. E os cristãos, tanto que conheceram o Infante, cobraram esforço e fizeram outra vez a volta sobre os mouros; e começaram de o seguir, até que chegaram com eles a umas casas, onde descarregavam as mercadorias que vinham de fora; e ainda pousavam ali Genoveses, e chamava-se a aduana, e ainda se agora chama; as quais casas tinham uma porta barreirada daquela parte de Almina. E quando ali chegaram os mouros, ou por haverem outros de novo em sua ajuda, ou por sentirem que os cristãos não traziam tamanho esforço como da primeira, voltaram outra vez os rostos sobre eles e fizeram-lhes virar as costas com muito maior força que da primeira, e trazendo-os ante si, toparam outra vez com o Infante, o qual àquele tempo era de idade de vinte e um anos; e havia os membros grossos e fortes e coração não lhe falecia nem ponto para lhe fazer suportar os trabalhos. E quando assim viu outra vez os cristãos desbaratados, dobrou-se-lhe a sanha, e saltou outra vez entre eles, e tão fortemente os cometeu, que os fez desborralhar para uma parte e para a outra; mas os cristãos traziam consigo tamanho temor, que a maior parte deles passaram pelo Infante sem ter dele nenhum conhecimento; e não tornaram mais atrás. E os outros que ficaram, saltaram com o Infante no meio daquela pressa e revolveram o feito por tal guisa, que alguns dos mouros caíram ali, e os outros não puderam suportar a fortaleza daqueles golpes, e voltaram // as espáduas, por cuja razão receberam muito maior dano. Mas o Infante não os quis deixar assim como fizeram da primeira, antes os seguiu levando-os ante si até que chegaram à sombra dos muros do castelo. Mas aquela passagem se podia bem conhecer pelo rasto dos mouros, que jaziam mortos na rua, pois em breve espaço tinham companhia uns aos outros. E assim o diziam eles em seus brados, quando falavam aos dianteiros, que se abalassem rijamente, que os seus parentes e irmãos não podiam suportar tamanho dano. E era isto porque aquela rua era àquele tempo estreita, e os mouros eram muitos, e recresciam cada vez muitos mais, de guisa que os cristãos primeiros e os mouros derradeiros não podiam pelejar senão muito poucos, dos quais o dianteiro foi sempre o Infante, cujos golpes eram bem conhecidos entre todos os outros. E assim foram os mouros recolhendo-se os que podiam, até que chegaram à sombra dos muros, onde receberam algum acorro, porque se juntam ali três muros, a saber, o muro do castelo, e um muro de Barbaçote, e o outro muro que departe as vilas ambas. 
[Nota: Respeitou-se geralmente as palavras usadas pelo autor e a ordem delas. Algumas pequenas cosméticas podiam não ter sido aplicadas, mas o leitor pode facilmente comparar com o texto, mais acima, da edição diplomática de Francisco Maria Esteves Pereira.
Algumas palavras e expressões:  - «Iffante» - Infante; »Hamrrique» - Henrique; - «porem» (sílaba tónica: rem) - por isso; «contra» - em direcção a; «boa dita» - boa sorte; verbo «haver» - distinguir entre o sentido de existir e de ter; «o filósofo no livro da económica» -  «O filósofo» é, por antonomásia, no período medieval, Aristóteles; Económicos é o título de uma obra do estagirita, que versa assuntos também tratados no livro V, em particular o capítulo V, da Ética a Nicómaco (ver recensão de Pedro Cardim, à tradução portuguesa); «filhar» - tomar, receber, conquistar; «leixar» - deixar; «asinha» - depressa; «acorro» - de acorrer, significa socorro, ajuda, auxílio.]