30 de Janeiro de 2023, em Dornes
(Ver, também, Em Dornes e Centro Geodésico de Portugal)
Estivemos lá, os alunos da AUTITV – Associação para a Universidade da Terceira Idade - Torres Vedras, em mais um ROTEIRO FOTOGRÁFICO, dirigido pelo professor da disciplina Oficina da Fotografia, Sr. António Lourenço Luís.
Uma das poucas ruas da cativante povoação ribeirinha do rio Zêzere é a Rua da Barca. Um painel de azulejos mostra-nos um barco a remos com dois jovens em passeio. À esquerda deles e em frente do observador, algumas casas de boa construção, brancas. Num plano superior e isoladas a torre pentagonal e a igreja de Nossa Senhora do Pranto, com a fachada principal virada ao rio. Mesmo à beira da margem, pequeno, em discretos traços de azul, está parado outro barco, com três traços transversais. São os assentos.
Vale a pena ouvir o último artesão, Mestre José Alberto, em breve conversa com o jornalista da Antena 1, Rui Gomes, 2 minutos e 13 segundos, que parecem mais..., muito nutritivos — e também de culinária se fala...
(Pode ler e ouvir, mais abaixo, no primeiro linque)
«Antena 1 – Já foi camioneta local, agora
é mais para pesca e lazer e há apenas um artesão a construir os abrangéis, também
conhecidos como barcos de três tábuas. É o mestre José Alberto, que vive em
Dornes, no concelho de Ferreira do Zêzere.
José Alberto – O barco é tipo chata e
vamos partir do princípio que ele é feito só de três tábuas; faz-se o fundo,
que agora são duas tábuas, que com o corte da árvore, já não é tão grande, não
é !?, fica uma tábua com as travessas, que chamamos aqui o fundo do barco, e as
laterais que aqui chamamos as costaneiras, há um processo de dobragem, que a
gente aqui chama-lhe o incudadoiro, e aquelas três peças dobram ao mesmo tempo
até se juntarem umas com as outras, fica a estrutura do barco, com as três
tábuas feitas.
A.1– São barcos a remos, com cerca de
cinco metros de comprimento e a madeira é de pinho. José Alberto leva no mínimo
dois dias a construir um abrangel e as encomendas são essencialmente para pesca
tradicional na albufeira.
J. A. – O ano passado fiz só quatro. Este
ano tenho mais um ou dois de encomenda, mas o meu recorde de fazer barcos foi
em 1998. Fiz trinta e três barcos.
A. 1 – A utilização desses barcos, são famílias
daqui que compram!?
J. A. – Não é só daqui, é da albufeira
toda. A todos os lugares da borda do rio onde ainda há aquele pessoal de... da
tradição.
A. 1 – As pontes e os açudes dão maior
mobilidade e há muito menos habitantes, em comparação com o tempo da camioneta do
passado…
J. A. – Quando eu era moço, o barco era
aqui pa(ra) tudo… e mais alguma coisa; eu até costumo chamar que era a
camioneta cá do sítio, (es)tá a perceber? Porque nós íamos à horta, trazíamos o
milho, trazíamos o azeite, metíamos as cabras no barco, íamos pastá-las à
horta. Daquele lado do rio, havia a resina, vinha nos bidões no barco cá para
este lado; era denominado a camioneta cá do sítio.
A. 1 – Nessa altura, praticamente, cada
família tinha um barco, foi esta a arte que evitou que tivesse deixado Dornes,
começou a construir barcos de três tábuas, com trinta e um anos de idade e
aprendeu com o pai. A sua oficina é junto à estrada na entrada de Dornes, mas
também é conhecido pelos seus dotes culinários; além de assar leitões, é exímio
em pratos de peixe no rio. Tem ainda uma outra qualidade. Percebe rapidamente,
quando o sino da torre templária toca fora de horas e com ritmo irregular. Uma
qualidade que merece o meu agradecimento, porque foi ele que me abriu a porta
da torre, que, entretanto, alguém tinha trancado às sete chaves.» (Da palavra «azeite», na última fala de J. A., não tenho uma percepção precisa.)
https://www.rtp.pt/play/p3534/e395315/vou-ali-e-ja-venho (Antena 1, 20mar2019)

