Estive umas horas em Campelos, onde já não ia há bastante tempo, o que fez com que a impressão fosse a de estar em algo quase completamente novo. Um café na Pastelaria Flor e, a seguir, logo ali, o Largo, a estátua de Santo António sentado no banco corrido de pedra, a olhar para o rapazito, vestido como ele, de cabeça baixa, por respeito e como absorvido em meditação. A igreja e o espaço envolvente veio depois...
Pelo chão os peixes do milagre, na calçada à portuguesa. O menino, ali, está no lugar do peixe que quer ouvir atentamente. António, «sal da terra», quer salgá-lo e que se dê ao sal.
Fui à procura de informação sobre o milagre e lembrei Vieira. Aqui fica para quem quiser ler o que disse o grande pregador no dia 13 de Junho de 1654 na cidade de S. Luís do Maranhão, sobre o que aconteceu em Rimini (Itália). António diz «Arimino». O Santo pregava contra os hereges, «que eram muitos»; o povo se alevantou contra ele e pouco faltou para lhe tirarem a vida. Dirigiu-se, então, para a beira do mar e começou a ensinar a doutrina. E eis senão quando...
Transcrevo o texto, na grafia de 1945, para facilitar um pouco a leitura. Há boas edições (da INCM, do Círculo de Leitores e dos Clássicos Sá da Costa) actuais.
(Ver mais, aqui)
Biblioteca Nacional – purl.pt/25775
*
§.
I.
Vós,
disse Cristo Senhor nosso, falando com os Pregadores, sois o sal da terra: e
chama-lhe sal da terra, porque quer que façam na terra, o que faz o sal. O
efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta como
está a nossa, havendo tantos nela, que têm ofício de sal, qual será, ou qual
pode ser a causa desta correpção? Ou é porque o sal não salga, e os Pregadores
não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os
ouvintes, sendo verdadeira a doutrina, que lhe dão, a não querem receber; ou é
porque o sal não salga, e os Pregadores dizem uma coisa, e fazem outra, ou
porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que
eles fazem, que fazer o que eles dizem; ou é porque o sal não salga, e os
Pregadores se pregam a si, e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa
salgar, e os ouvintes em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é
tudo isto verdade? Ainda mal.
Suposto
isto, que, ou o sal não salgue, ou a terra se não deixe salgar; que se há-de
fazer a este tal, e que se há-de fazer a esta terra? O que se-há de fazer ao
sal, que não salga, Cristo o disse logo: Quod
si sal evanuerit, in quo salietur, ad nihilum valet ultra, nisi ut mittatur
foras, et conculcetur ab hominibus. Se o sal perder a substância, e a
virtude, e o Pregador faltar à doutrina, e ao exemplo; o que se lhe há-de
fazer, é lança-lo fora como inútil, para que seja pisado de todos. Quem se
atrevera a dizer tal coisa, se o mesmo Cristo a não pronunciara? Assim como não
há quem seja mais digno de reverência, e de ser posto sobre a cabeça, que o
Pregador, que ensina, e faz o que deve; assim é merecedor de todo o desprezo, e
// de ser metido debaixo dos pés, o que com a palavra, ou com a vida prega o
contrário.
Isto
é o que se deve fazer ao sal, que não salga. E à terra, que se não deixa
salgar, que se lhe há-de fazer? Este ponto não resolveu Cristo Senhor nosso no
Evangelho; mas temos sobre ele a resolução do nosso grande Português Santo
António, que hoje celebramos; E a mais galharda, e gloriosa resolução, que
nenhum Santo tomou. Pregava S. António em Itália na cidade de Arimino contra os
Hereges, que nela eram muitos; e como erros de entendimento são dificultosos de
arrancar, não só não fazia fruto o Santo, mas chegou o povo a se levantar
contra ele, e faltou pouco, para que lhe não tirassem a vida. Que faria neste
caso o ânimo generoso do grande António? Sacudiria o pó dos sapatos, como
Cristo aconselha em outro lugar? Mas António com os pés descalços não podia
fazer esta protestação, e uns pés, a que se não pegou nada da terra, não tinham
que sacudir. Que faria logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia? Daria
tempo ao tempo? Isto ensinaria porventura a prudência, ou a covardia humana;
mas o zelo da glória divina, que ardia naquele peito, não se rendeu a semelhantes
partidos. Pois que fez? Mudou somente o púlpito, e o auditório, mas não
desistiu da doutrina. Deixa as praças, vai-se às praias, deixa a terra, vai-se
ao mar, e começa a dizer a altas vozes: Já que me não querem ouvir os homens,
ouçam-me os peixes. Oh maravilhas do Altíssimo! Oh poderes do que criou o mar,
e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a concorrer os peixes, os
grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por sua ordem com as cabeças
de fora da água, António pregava, e eles ouviam. Se a Igreja quer que preguemos
de Santo António sobre o Evangelho, dê-nos outro. Vos estis sal terrae. É muito bom Texto para os outros Santos
Doutores: mas para S. António vem-lhe muito curto. Os outros Santos Dou // tores
da Igreja foram sal da terra, Santo António foi sal da terra, e foi sal do
mar. Este é o assunto, que eu tinha para tomar hoje. Mas há muitos dias, que
tenho metido no pensamento, que nas festas dos Santos é melhor pregar como
eles, que pregar deles. Quanto mais, que o sal* da minha doutrina, qualquer que ele seja, tem tido nesta terra uma fortuna tão
parecida à de Santo António em Arimino, que é força segui-la em tudo. Muitas
vezes vos tenho pregado nesta Igreja, e noutras de manhã, e de tarde, de dia, e
de noite, sempre com doutrina muito clara, muito sólida, muito verdadeira, e a
que mais necessária, e importante é a esta terra, para emenda, e reforma dos
vícios, que a corrompem. O fruto, que tenho colhido desta doutrina, e se a
terra tem tomado o sal, ou se tem tomado dele, vós o sabeis, e eu por vós o
sinto.
Isto
suposto, quero hoje à imitação de Santo António voltar-me da terra ao mar, e já
que os homens se não aproveitam, pregar aos peixes. O mar está tão perto, que
bem me ouvirão. Os demais podem deixar o Sermão, pois não é para eles. Maria,
quer dizer Domina maris: Senhora do
Mar: e posto que o assunto seja tão desusado, espero, que me não falte com a
costumada graça. AVE MARIA.
§.
II.
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* No original está «são».








