domingo, 16 de julho de 2017

Sermão de Santo António aos Peixes

Estive umas horas em Campelos, onde já não ia há bastante tempo, o que fez com que a impressão fosse a de estar em algo quase completamente novo. Um café na Pastelaria Flor e, a seguir, logo ali, o Largo, a estátua de Santo António sentado no banco corrido de pedra, a olhar para o rapazito, vestido como ele, de cabeça baixa, por respeito e como absorvido em meditação. A igreja e o espaço envolvente veio depois...
Pelo chão os peixes do milagre, na calçada à portuguesa. O menino, ali, está no lugar do peixe que quer ouvir atentamente. António, «sal da terra», quer salgá-lo e que se dê ao sal. 
Fui à procura de informação sobre o milagre e lembrei Vieira. Aqui fica para quem quiser ler o que disse o grande pregador no dia 13 de Junho de 1654 na cidade de S. Luís do Maranhão, sobre o que aconteceu em Rimini (Itália). António diz «Arimino». O Santo pregava contra os hereges, «que eram muitos»; o povo se alevantou contra ele e pouco faltou para lhe tirarem a vida. Dirigiu-se, então, para a beira do mar e começou a ensinar a doutrina. E eis senão quando...
Transcrevo o texto, na grafia de 1945, para facilitar um pouco a leitura. Há boas edições (da INCM, do Círculo de Leitores e dos Clássicos Sá da Costa) actuais.
(Ver mais, aqui)

 


Biblioteca Nacional – purl.pt/25775

*
§. I.
Vós, disse Cristo Senhor nosso, falando com os Pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhe sal da terra, porque quer que façam na terra, o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela, que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta correpção? Ou é porque o sal não salga, e os Pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina, que lhe dão, a não querem receber; ou é porque o sal não salga, e os Pregadores dizem uma coisa, e fazem outra, ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que eles dizem; ou é porque o sal não salga, e os Pregadores se pregam a si, e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal.
Suposto isto, que, ou o sal não salgue, ou a terra se não deixe salgar; que se há-de fazer a este tal, e que se há-de fazer a esta terra? O que se-há de fazer ao sal, que não salga, Cristo o disse logo: Quod si sal evanuerit, in quo salietur, ad nihilum valet ultra, nisi ut mittatur foras, et conculcetur ab hominibus. Se o sal perder a substância, e a virtude, e o Pregador faltar à doutrina, e ao exemplo; o que se lhe há-de fazer, é lança-lo fora como inútil, para que seja pisado de todos. Quem se atrevera a dizer tal coisa, se o mesmo Cristo a não pronunciara? Assim como não há quem seja mais digno de reverência, e de ser posto sobre a cabeça, que o Pregador, que ensina, e faz o que deve; assim é merecedor de todo o desprezo, e // de ser metido debaixo dos pés, o que com a palavra, ou com a vida prega o contrário.
Isto é o que se deve fazer ao sal, que não salga. E à terra, que se não deixa salgar, que se lhe há-de fazer? Este ponto não resolveu Cristo Senhor nosso no Evangelho; mas temos sobre ele a resolução do nosso grande Português Santo António, que hoje celebramos; E a mais galharda, e gloriosa resolução, que nenhum Santo tomou. Pregava S. António em Itália na cidade de Arimino contra os Hereges, que nela eram muitos; e como erros de entendimento são dificultosos de arrancar, não só não fazia fruto o Santo, mas chegou o povo a se levantar contra ele, e faltou pouco, para que lhe não tirassem a vida. Que faria neste caso o ânimo generoso do grande António? Sacudiria o pó dos sapatos, como Cristo aconselha em outro lugar? Mas António com os pés descalços não podia fazer esta protestação, e uns pés, a que se não pegou nada da terra, não tinham que sacudir. Que faria logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia? Daria tempo ao tempo? Isto ensinaria porventura a prudência, ou a covardia humana; mas o zelo da glória divina, que ardia naquele peito, não se rendeu a semelhantes partidos. Pois que fez? Mudou somente o púlpito, e o auditório, mas não desistiu da doutrina. Deixa as praças, vai-se às praias, deixa a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a altas vozes: Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes. Oh maravilhas do Altíssimo! Oh poderes do que criou o mar, e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por sua ordem com as cabeças de fora da água, António pregava, e eles ouviam. Se a Igreja quer que preguemos de Santo António sobre o Evangelho, dê-nos outro. Vos estis sal terrae. É muito bom Texto para os outros Santos Doutores: mas para S. António vem-lhe muito curto. Os outros Santos Dou // tores da Igreja foram sal da terra, Santo António foi sal da terra, e foi sal do mar. Este é o assunto, que eu tinha para tomar hoje. Mas há muitos dias, que tenho metido no pensamento, que nas festas dos Santos é melhor pregar como eles, que pregar deles. Quanto mais, que o sal* da minha doutrina, qualquer que ele seja, tem tido nesta terra uma fortuna tão parecida à de Santo António em Arimino, que é força segui-la em tudo. Muitas vezes vos tenho pregado nesta Igreja, e noutras de manhã, e de tarde, de dia, e de noite, sempre com doutrina muito clara, muito sólida, muito verdadeira, e a que mais necessária, e importante é a esta terra, para emenda, e reforma dos vícios, que a corrompem. O fruto, que tenho colhido desta doutrina, e se a terra tem tomado o sal, ou se tem tomado dele, vós o sabeis, e eu por vós o sinto.
Isto suposto, quero hoje à imitação de Santo António voltar-me da terra ao mar, e já que os homens se não aproveitam, pregar aos peixes. O mar está tão perto, que bem me ouvirão. Os demais podem deixar o Sermão, pois não é para eles. Maria, quer dizer Domina maris: Senhora do Mar: e posto que o assunto seja tão desusado, espero, que me não falte com a costumada graça. AVE MARIA.
§. II.
+++
* No original está «são».

sábado, 8 de julho de 2017

A tomada de três pinos

A tomada de três pinos foi inventada por ser diferente? Ninguém se lembra dela, quando utiliza a tomada de dois pinos. Ouvir, clicando no linque, abaixo.
Frases da conversa entre Ricardo Araújo Pereira e Gregório Duvivier:
«Estou no acostamento, porque a minha perua não tem estepe.» Isto é português, mas não percebemos o que quer dizer.
(Estou na berma, porque a minha carrinha não tem tem pneu sobresselente)
Segue um exemplo da aplicação do acordo ortográfico, em Portugal. Aqui é que nos dói...
«Ninguém para o Benfica.» (pára)
«Ninguém para o Benfica.» (para)
Gregório Duvivier brinca...
«Não posso com esse trema!» (No Brasil ninguém lê por causa do trema)
Li uma vez um texto de grande autor brasileiro, creio que era poesia, sobre a abolição do trema. E ele tinha saudade do trema, que comparava a duas lágrimas sobre o «ü». Era num manual da instituição antecessora da Universidade Aberta, de apoio ao Ano Propedêutico, ano de espera pela entrada na Universidade. Vigorou algum tempo, a seguir ao 25 de Abril de 1974. Conversa / espectáculo muito agradável
«Agradável», palavra que os portugueses dizem com pressa de chegar ao fim e os brasileiros, devagar, degustando todas as sílabas. Na Baía, todas as sílabas são tónicas: á-grá-dá-vél, tonicidade máxima. O carioca usa um bordão, terminando qualquer palavra com «ã»... Aqui, lembrei Évora. «Então, está bo...ã?...»
A conversa de um português com um brasileiro foi muito para além do acordo ortográfico. Ricardo Araújo Pereira leu uma crónica de Gregório Duvivier e este a de Ricardo sobre a IKEA. Numa visita de cliente a uma loja — lembra Ricardo —, foi convidado pelo empregado a entrar em zona reservada e aí lhe mostrou a peça crítica exposta numa parede. «Foi uma honra», lhe diz o companheiro de conversa. A fechar, sobre a situação actual, em Portugal, no mundo, Brasil..., Gregório:

— Mas o Brasil, queria dizer que não está num momento tão maluco, não, está num momento bem unido, eu sinto que o Brasil inteiro está pensando a mesma coisa, que é: Fica, Temer!...  … Na Rússia… Fica! O Brasil inteiro exclama isso. Fica, cara…Volta, não… […]
*

https://www.youtube.com/watch?v=hK0zHiZpHWI (Começa aos 12 minutos. Toda a conversa / espectáculo. Muito interessante. A partir de 1:12:35, abertura à plateia para perguntas)

sexta-feira, 7 de julho de 2017