Sábado, 21 de Outubro
Festival FOLIO 2017, 19 a 29 de Outubro
Mais uma vez pedimos ao carro que nos leve em direcção a Óbidos, o que ele faz de boa vontade sobre um tapete suave de alcatrão. À esquerda, uma daquelas aldeias ao pé do mar fazem sentir uma atracção gravítica, um chamamento que conto se vai tornar mais exigente e audível. «Venham ver-me, venham ver-me!»
Em Óbidos, com o mesmo de sempre, o mesmo encanto de sempre, vamos
caminhando no terreiro, antes do posto de Turismo, logo a seguir se pode tomar
um café. Passada a Porta da Vila, a Rua Direita com muita gente, caminhamos, já
está perto a igreja-livraria de Santiago, deixamo-la à esquerda e entramos no
espaço entre muralhas do castelo, ainda com os recintos habituais desprovidos
de atendimento. Ali, o teatro vazio, ali, o restaurante que parece deserto,
ali, a casinha onde no último Natal entrámos, com o Pai Natal, crianças,
famílias, animação... Saímos, procurámos a recepção, passámos ao miradouro e...
foi mirar..., admirar, contemplar... Óbidos é ainda uma maravilha e queremos
que assim continue, com o cuidado e a inteligência de quem a vive e de quem tem
a responsabilidade da administração.
Vamos entrando de novo no castelo, pelo pátio da zona residencial — pousada
administrada pelo grupo PESTANA. Na gárgula de três rostos, postada no chão a
receber o visitante, no ângulo de passagem à escadaria para o andar nobre, há
muito que não corre água; é, agora, figura de cortesia, de convite. Sentimo-la,
como se fosse gente.
Fica para uma próxima vez a subida à pousada, visitável, apenas,
nos espaços comuns, caso não se tenha reservado alojamento.
***
Um homem de camuflado na praça de Óbidos, de costas para a
belíssima igreja de Santa Maria, declama; o soldado perdeu a vida, verteu o
sangue na terra. Depois, a terra vai dar vinho e pão e flores. Dirigi-me ao
homem, falei um bocadinho com ele, um tanto baixo, bem constituído sem ser
gordo, alegre. Está satisfeito e sente-se-lhe dentro o impulso de continuar.
Vai declamar noutro sítio, não falta gente, hoje, ali mesmo na praça grande ou
noutro lugar. Com a mesma poesia ou outra, quiçá... Quase lhe riem os olhos.
Acamaradei. Digo bem..., acamaradei. Esteve em Moçambique, de 67 a 69. Tem
setenta e dois anos e faz parte do grupo de teatro de Óbidos.
Bem hajam estes grupos!
«Poema da Terra Adubada», de António Gedeão, foi o que ouvimos.
«Não me lembro de ter lido este poema», lhe digo, pensando que deveria vir
incluído nas Poesias Completas.
A uns metros de distância, junto ao edifício dos Correios e também
perto da Igreja de Santa Maria, uma obra de arte amovível desperta a atenção do
passante. É um relicário de que pode ver mais abaixo as imagens, bem como
informação sobre o autor, nos linques indicados.
COMEMORAÇÕES DOS 650 ANOS DA MORTE
DE INÊS DE CASTRO
1355 - 2005
RELICÁRIO
(1977)
JOSÉ AURÉLIO
[Da ficha metálica, aplicada sobre a peanha onde assenta a cruz]
***
No quintal do Jardim do Solar - Praça de Santa Maria, a árvore ficou privada de sol o
dia todo, dentro da tenda literária. Sentamo-nos. Começamos a ouvir a palestra
de uma senhora, falando sobre a experiência chinesa de Camilo Pessanha. Ainda
ouvimos o suficiente sobre os dois jovens professores do liceu de Macau, no
primeiro ano da sua existência, o autor de Clepsidra e Wenceslau de
Moraes, mas foi sobre o primeiro que houve maior desenvolvimento. Camilo
Pessanha não terá apreciado a China que lhe foi dado conhecer directamente, ao
contrário da admiração que nutria pela China clássica. Foi aprendendo a língua
de que veio a traduzir textos de poetas [1]. No final, quis conhecer
quem era a senhora que tinha acabado de ouvir e dirigi-me a ela, tendo ficado a
saber que se chama Ana Paula Laborinho. É professora da Faculdade de Letras,
desempenhando actualmente as funções de presidente do Conselho Directivo do
Instituto Camões. (Ver, mais, aqui.) Ouvi-la foi entrar no conhecimento de Camilo Pessanha, quase como se o tivesse
visto viver, digo, aproveitando o título de livro de Vitorino Nemésio: Quase
que os vi viver.
Estamos de novo na Rua Direita e do muito que nos oferece alguma
coisa aceitámos, calmamente, repousadamente, e nunca faltando a ginjinha, que
não chega a ginja, por o copo de chocolate ser pequeno.
Foi uma boa tarde.
[1] Ver, para exemplo, o que diz
Camilo Pessanha da sua tradução das elegias de poetas da dinastia Ming n’O Progresso, de 13 de Setembro de 1914. Agradeço
ao autor do blogue Macau Antigo a
possibilidade de acesso à imagem do texto que transcrevo, com a devida vénia:
***
O relicário traz-nos Pedro e Inês, história e lenda tão vivamente marcada no imaginário português. Conta-a Fernão Lopes na Crónica de D. João I; Garcia de Resende, no Cancioneiro Geral, dedica extensas «Trovas [...] à morte de Dona Inês de Castro, que el-Rei Dom Afonso, o Quarto de Portugal, matou em Coimbra [...]»; Camões lembra-a n'Os Lusíadas e António Ferreira compôs a tragédia Castro.
«Pedro e Inês», juntos, «até ao fim do mundo»
Os dois túmulos na igreja do mosteiro de Alcobaça estão colocados de tal modo, que, quando Pedro e Inês se erguerem no dia do Juízo Final e puserem de pé, ficarão em frente um do outro. Um pequeno túmulo, figurando na parte central da rosácea do túmulo de Pedro ele próprio e três filhos, tem uma legenda, assim:
Salvador Dias Arnaut, na «sebenta», não aceita a interpretação «Até a fim do mundo». «Parte-se do princípio que se tratava de iniciais de palavras, vendo no A AQUI e no E ESPERA. »*
AQUI ESPERA A FIM DO MUNDO
Hoje, dizemos:
AQUI ESPERA O FIM DO MUNDO
A palavra «fim» era do género feminino na época de Inês e Pedro.
* APONTAMENTOS DE HISTÓRIA DE PORTUGAL
Segundo as lições do Prof. Doutor Salvador Dias Arnaut, compiladas por um Grupo de Estudos Pedagógicos da Faculdade de Letras, UNITAS, Cooperativa Académica de Consumo, Coimbra, 1969, pp.. 62 e 63.
***
Poema da Terra Adubada
Por detrás das árvores
não se escondem faunos, não.
Por detrás das árvores
escondem-se os soldados
com granadas de mão.
As árvores são belas com
os troncos dourados.
São boas e largas para
esconder soldados.
Não é o vento que
rumoreja nas folhas,
não é o vento, não.
São os corpos dos
soldados rastejando no chão.
O brilho súbito não é do
limbo das folhas verdes
reluzentes.
É das lâminas das facas
que os soldados apertam
entre os dentes.
As rubras flores
vermelhas não são papoilas, não.
É o sangue dos soldados
que está vertido no chão.
Não são vespas, nem
besoiros, nem pássaros a
assobiar.
São os silvos das balas
cortando a espessura do ar.
Depois os lavradores
rasgarão a terra com a
lâmina aguda dos arados,
e a terra dará vinho e
pão e flores
adubada com os corpos
dos soldados.
António Gedeão,in Linhas
de Força, 1967
***
https://www.jornaldeleiria.pt/noticia/obidos-eleita-vila-literaria-pela-unesco-2665http://obidosvilaliteraria.com/
https://vistaalegre.com/pt/c/jos%C3%A9-aur%C3%A9lio#
https://www.armazemdasartes.pt/pt/o-fundador--jose-aurelio
http://areas.fba.ul.pt/escultura/pt/6_escultores_e_curriculos.pdf
http://www.tintafresca.net/News/newsdetail.aspx?news=eebeb952-1d2d-4f0a-b73f-de1d25fcc3a0&edition=90
http://macauantigo.blogspot.pt/2012/09/elegias-chinesas-por-camilo-pessanha.html (Página de O Progresso, Macau, 13Set1914, com artigo «Literatura Chinesa» e tradução de «Elegias Chinesas», por Camilo Pessanha)
http://purl.pt/14369/1/index.html (De Daniel Pires: Apresentação; Cronologia da Vida e Obra de Camilo Pessanha. Explore o restante da informação fornecida pela Biblioteca Nacional)







