Com a devida vénia…
Partilho de Maria do Carmo Vieira, sobre a
educação, o respeito pelo futuro dos jovens…
Preocupa-a, naturalmente, O Ensino do Português, tendo publicado
um livro com este título na colecção Ensaios, da Fundação Francisco Manuel dos
Santos.
O cuidado com a língua em que somos está
intimamente ligado ao artigo que aqui divulgo…
[Do facebook]
Gostei.
Além do primeiro, abaixo, deixo três linques para ajudar a dar uma percepção da amplitude do olhar de MCV sobre o mundo que nos rodeia.
https://www.publico.pt/2019/09/18/opiniao/opiniao/pensar-livremente-1887025
Escola do
século XXI ou falta de respeito pelo futuro dos mais jovens?
Quanta caricatura de escola! Quanto discurso enganoso!
Por isso é tão importante ensinar os nossos alunos a pensar, para não se
deixarem seduzir por facilidades e falsas liberdades e autonomias!
31 de Agosto de 2020, 15:20
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“A escola do
século XXI”, artigo no Público
de 24 de Agosto p.p., da autoria
de Aurora Cerqueira (professora de Português) e de Pedro Selas (activista
licenciado em Direito), é uma semi-mastigação do relatório “O Ensino e a
Aprendizagem do Português na Transição do Milénio” (Associação Professores de
Português – APP – 2001”), no qual se vislumbrava a barbárie cultural que se
reflectiu na Reforma de 2003, defendendo a “nova escola” e o “novo professor”,
tudo em prol de uma sociedade global (o novo mundo), incontrolável, que todos
sabemos estimular uma corrupção desenfreada, sendo simultaneamente apologista
do cansaço, cansaço esse que se inicia, como treino, logo nos primeiros anos
escolares (“horários mais preenchidos compensam o sucesso”, disse Andreas
Schleicher, OCDE, 2016). Todo um discurso vendido, na invocação do “novo
mundo”, e que a OCDE ajuda a orquestrar, apontando o modus faciendi no
ensino, “centrado nos interesses dos alunos”, “no desenvolvimento da
criatividade, do pensamento crítico, de competências […], tomada de decisões,
formas de trabalho que implicam comunicação e colaboração”. Ideias que os seus
adeptos fervorosamente difundem, adaptando-as ao seu estilo: a “aprendizagem
partindo dos interesses manifestados” pelo aluno, a “construção de conhecimento
pelo próprio, favorecendo a autonomia, a responsabilidade, o espírito crítico e
a criatividade […], a promoção da comunicação e a construção de relações
interpessoais sólidas”. Em uníssono, o uso da designação de “resistentes à
mudança” para os opositores, os que reagem criticamente a imposições que
escondem objectivos que não vão a favor do Homem nem do progresso, antes alimentam
a ganância e a falta de respeito pelo futuro dos mais jovens.
Não surpreende que a OCDE, no seu discurso, sempre
“pedagógico” e eivado de uma pretensa bondade e preocupação pelos cidadãos, e
pelo seu futuro, defenda que, no séc. XXI, ter-se-á de ir mais longe, já que a
ruína do sistema financeiro foi fruto de banqueiros, “provavelmente, pessoas
altamente criativas e com espírito crítico”, e que “alguns dos que têm o
espírito mais empreendedor estão à frente de organizações mafiosas, em vez de
servirem o seu país” (quem diria?), preconizando agora a preocupação com
qualidades, como “a empatia, a resiliência, a curiosidade, a coragem e a
liderança” (Andreas Schleicher, 2016). Será para rir ou para chorar?!
Sabemos que o mundo mudou, o que exige forçosamente
adaptações, mas não é tolerável que se continue a apostar na exploração do
Homem, nesta sociedade globalizante que atingiu o clímax ao manter-se
perfidamente focada na apologia do cansaço, na mais obscena exploração do
trabalho intelectual e físico, na completa ausência de compaixão, na
transformação da verdade em sucessivas mentiras ou pérfidas bondades, no
aviltamento do papel de Escolas e Universidades onde interferem a seu
bel-prazer os “diktats” de inúmeras empresas, desvirtuando a função milenar da
escola. Um mundo, em suma, onde a tecnologia, os interesses superiores de uma
certa economia e a banca são dominantes, tendo-se consequentemente disseminado
um feroz desprezo pelas Humanidades e pelas Artes que, na verdade, ensinam a
pensar, educando a sensibilidade, desenvolvendo o espírito crítico, alimentando
o espírito, estimulando a imaginação e a criatividade. Porque “sem criatividade
e imaginação não [haverá] evolução científica e tecnológica” (António Damásio,
2006).
Como reagiriam a APP, a OCDE, o Ministério da Educação
ou os autores do artigo se confrontados com as palavras de António Damásio
anteriormente transcritas ou com as que se seguem: “Pensou-se que a educação
deveria produzir indivíduos eficazes nesta sociedade e, por isso, deixou-se de
lado as artes e as humanidades” ou “Como se explica a uma criança o que é a
alegria, a dor, a violência, a frustração? Claro que podemos usar as ciências
para definir estes conceitos, mas não será mais fácil torná-los compreensivos
se recorrermos a um soneto de Shakespeare, um quadro de Pollock, um filme de
Spielberg ou um tema de Mahler?”. Não tenho a menor dúvida de que
hipocritamente aplaudiriam, distribuindo sorrisos forçados e sublinhando, em
voz sonante, para que se ouvisse à volta, a importância do “espírito crítico” e
da criatividade”, mas sem qualquer relação com o ensino das Humanidades ou das
Artes, num papaguear vazio de conceitos.
Regressando ao artigo acima referido, a sua leitura
não só me remeteu para o Relatório da APP, mas e, sobretudo, para um “mestre”
da “École Dynamique”,[1]
Ramin Farhangi, cujas ideias conheci numa entrevista de Bárbara Wong, no jornal
Público de 6.2.2020. Segundo parece, veio abrilhantar “La Nuit des
Idées: Ser e Estar Vivo”, numa parceria Instituto Francês, Embaixada de França
e Fundação Gulbenkian. Fiquei com a sensação de estar num mundo às avessas ou
no mundo do absurdo, da insensatez generalizada, relendo, por vezes, as
respostas do professor, por desconfiar de inadvertidas faltas de atenção da
minha parte, um pouco à semelhança do que me aconteceu com a leitura do artigo
“A escola do século XXI”. Em comum, a escola perspectivada como “uma comunidade
de aprendizagem”, “libertadora dos indivíduos”, que “desistiu da divisão dos
alunos em turmas e em ciclos”, e “favorece percursos individuais de
aprendizagem a partir dos interesses manifestados por cada educando”,
fortalecendo “a autonomia, a responsabilidade, o espírito crítico e a
criatividade”, o que significa que são os próprios alunos a “promover a
construção do conhecimento”, podendo tornar-se “inútil” a figura do professor
porquanto “flexíveis os papéis de educador (já não professor) e de educando”,
anulando-se assim a autoridade do primeiro que assenta na sua competência. A
mesma fobia às disciplinas curriculares que devem desaparecer pelo facto de
“compartimentarem os saberes”, privilegiando-se “aprendizagens essenciais” (não
reveladas) em cujos “percursos” se envolvem não só “professores”, mas também
“assistentes administrativos e operacionais, famílias, alunos e todos os
voluntários (…).” Escusado será dizer que provas finais, exames ou trabalhos de
casa são inovadoramente banidos.
Ramin Farhangi, a dada altura da sua entrevista, e
indo ao encontro dos autores do artigo, explicita mesmo que as escolhas das
crianças (entre os 5 e os 18 anos) “podem ser loucas, parvas, inteligentes,
boas ou más, mas são as suas e têm de viver com as consequências”, numa análise
que ostenta uma agressividade e crueldade darwinistas, para além de um abandono
que perturba qualquer um. Afinal, qual o papel dos adultos, qual o papel do
mundo velho em que foram recebidos os mais novos? Nascem já preparados para a
vida, não necessitam do acompanhamento e da ajuda dos mais velhos? Se assim
fosse, teriam morrido à nascença. E a este propósito, lembro a situação por mim
vivenciada, a de uma colega que justificou não ter corrigido os erros
ortográficos dos alunos, nos seus trabalhos expostos na biblioteca, “dado que
as palavras haviam saído assim do seu punho, daí a obrigação de as respeitar”.
Questionada sobre qual afinal o papel de um professor, a resposta foi célere e
parafraseio-a: o tempo e a solidariedade dos colegas iria sanando as falhas
ocasionais. Perfeitas anedotas trágico-cómicas, fruto de teorias educativas que
têm recebido o apoio incondicional dos vários Ministérios de Educação e por
isso mesmo os autores do artigo, acima referido, lembram a quem de direito que
“a legislação” existente “desde 2018, já permite todos estes avanços”.
Avanços!?
E porquê esta chamada de atenção? Porque no Ministério
da Educação existe um ministro que não honra a sua função, e um secretário de
Estado, também reconduzido, João Costa, que esteve profundamente embrenhado na
implementação e imposição da famigerada Reforma de 2003. Conseguem impor o
insensato e o absurdo, pondo em causa o futuro dos alunos e ludibriando os pais
e a própria sociedade, mas não travam a inqualificável sobrecarga horária que
pesa sobre os alunos, do Básico ao Secundário, um reflexo da selvajaria desta
sociedade global que extenua qualquer um. Preferem acabar com os programas,
apesar de sempre os terem aceitado excessivamente longos e quando bondosamente
intervieram, fingindo fazer qualquer coisa, foi para os esvaziar de qualidade e
impor o funcional e o superficial que de forma alguma influencia a formação da
personalidade dos alunos, muito menos lhes alimenta o espírito ou prepara para
a vida que se avizinha difícil. Cantos desafinados de sereias que apenas
seduzem os incompetentes e os negligentes!
Só gostaria que me permitissem acompanhar o
desenvolvimento destas novas estratégias e metodologias educativas e avaliar os
seus resultados. Houve já quem me dissesse que iria convidar-me para observar o
trabalho de uma “nova escola”, mas aguardo há dois anos o convite. Recuperando,
a este propósito, Ramin Farhangi, ficámos a saber que com “cinco anos de
experiência”, neste tipo de escola, os resultados foram: “temos pessoas que
entraram na indústria de vídeo, outro a estudar Geografia, outro Teatro e Artes
Marciais”. Vale a pena comentar?
Quanta caricatura de escola! Quanto discurso enganoso!
Por isso é tão importante ensinar os nossos alunos a pensar, para não se
deixarem seduzir por facilidades e falsas liberdades e autonomias!
[1] Querendo aprofundar o funcionamento
desta “nova escola”, deixo o site http://www.ecole-dynamique.org/
Professora
[Maria do Carmo Vieira, no Público]
