sábado, 13 de maio de 2017

Chico Buarque e Georges Moustaki

Aqui se pode ver a letra de Fado Tropical (1972-1973) e uma versão de Georges Moustaki. Terão sido estes os versos cantados em Coimbra no Teatro Gil Vicente, a seguir ao 25 de Abril de 1974. Não lembro, no entanto, as duas quadras em português; o que me ficou gravado foi esta parte:
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal,
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal.

O «primeiro abril» de que se fala é referência à ditadura militar brasileira e «un 21 avril», a 21 Abril de 1967, dia do golpe de estado grego, que iniciou a ditadura dos coronéis.
Portugal e Fado Tropical

Georges Moustaki, Portugal (1974)


Ô muse, ma complice,
Petite sœur d’exil.
Tu as les cicatrices
D’un 21 avril.

Mais ne sois pas sévère
Pour ceux qui t’ont déçue,
De n’avoir rien pu faire
Ou de n’avoir jamais su.

Refrain
À ceux qui ne croient plus
Voir s’accomplir leur idéal,
Dis leur qu’un œillet rouge
A fleuri au Portugal.


On crucifie l’Espagne,
On torture au Chili,
La guerre du Viêt-Nam
Continue dans l’oubli.

Aux quatre coins du monde,
Des frères ennemis
S’expliquent par les bombes,
Par la fureur et le bruit.

Refrain
À ceux qui ne croient plus
Voir s’accomplir leur idéal,
Dis leur qu’un œillet rouge
A fleuri au Portugal.


Pour tous les camarades
Pourchassés dans les villes,
Enfermés dans les stades,
Déportés dans les îles,

Ô muse, ma compagne,
Ne vois-tu rien venir!?
Je vois comme une flame,
Qui éclaire l’avenir.

Refrain
À ceux qui ne croient plus
Voir s’accomplir leur idéal,
Dis leur qu’un œillet rouge
A fleuri au Portugal.


Ó musa do meu fado,
Ó minha mãe gentil.
Te deixo, consternado,
No primeiro Abril.

Mas não sê tão ingrata,
Não esquece quem te amou.
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou.


[Instrumental]


Débouche une bouteille,
Prends ton accordéon,
Que de bouche à oreille
S’envole ta chanson.

Car enfin le soleil
Réchauffe les pétales
De mille fleurs vermeilles,
En avril au Portugal.

Refrain
Et cette fleur nouvelle,
Qui fleurit au Portugal,
C’est peut-être la fin
D’un empire colonial.

Et cette fleur nouvelle,
Qui fleurit au Portugal,
C’est peut-être la fin
D’un empire colonial.
(Segue o disco reproduzido em «A Nossa Rádio». Em «Instrumental» ouve-se apenas a música que acompanha em fundo toda a canção. Ver a hiperligação, no final, em REFERÊNCIAS.)
Chico Buarque / Ruy Guerra, Fado tropical (1972-1973)
(Luz isola Mathias, que começa a cantar «Fado Tropical».)

Ó musa do meu fado,
Ó minha mãe gentil,
Te deixo, consternado,
No primeiro abril.
Mas não sê tão ingrata,
Não esquece quem te amou.
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou.



Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal,
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal.

Sabe, no fundo eu sou um sentimental. Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo. Além da sífilis, é claro. Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, meu coração fecha os olhos e, sinceramente, chora.
  
Com avencas na caatinga,
Alecrins no canavial,
Licores na moringa,
Um vinho tropical.
E a linda mulata,
Com rendas do Alentejo,
De quem, numa bravata,
Arrebata um beijo.

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal,
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal.


(Declamando, sempre acompanhado de guitarras)
Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto.
De tal maneira que, depois de feito,
Desencontrado eu mesmo me contesto.

Se trago as mãos distantes do meu peito,
É que há distância entre intenção e gesto.
E se meu coração nas mãos estreito,
Me assombra a súbita impressão do incesto.

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadura à proa,
Mas meu peito se desabotoa.

E se a sentença se anuncia bruta,
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa.

[…]

(Cantando)
Guitarras e sanfonas,
Jasmim, coqueiros, fontes,
Sardinhas, mandioca,
Num suave azulejo.
O rio Amazonas
Que corre trás-os-montes
E, numa pororoca,
Deságua no Tejo.


















Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal,
Ainda vai tornar-se um Império Colonial.
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal,
Ainda vai tornar-se um Império Colonial.
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal,
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal.
(Texto reproduzido do texto da peça Calabar..., de que damos a referência electrónica, no final. A parte a verde é repetição, acrescentada no disco CHICOCANTA e pode ouvir-se, aí, a partir do minuto 19:30. Este refrão é cantado a seguir à estrofe iniciada em «Guitarras e sanfonas». Deslocámo-lo, para ficar a par do refrão da coluna do lado, na versão de Georges Moustaki. Ver, no final, a referência.)

Tanto Mar

1975 – 1.ª versão, em concerto com Maria Betânia e… A letra foi proibida no Brasil, tendo saído em disco apenas a parte instrumental. A gravação com a letra só foi editada em Portugal, no mesmo ano.

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz Primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim
1978 – 2.ª versão





Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E 'inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto de jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canto a Primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim
(Ver, abaixo, REFERÊNCIAS)


*

REFERÊNCIAS
https://etudesromanes.revues.org/1348?lang=enFado tropical de Chico Buarque et Portugal de Georges Moustaki. De la dictature de Salazar à la Révolution des œillets au Portugal Adriana Coelho-Florent». Em anexo, as letras: Georges Moustaki, Portugal (1974) e Chico Buarque / Ruy Guerra, Fado tropical (1972-1973).

books.openedition.org/pulm/958L’adaptation par Georges Moustaki de chansons brésiliennes Manuel Ramos». Ver, no fim, a Troisiéme Chanson, antes da bibliografia, pondo lado a lado a letra de Portugal, de Moustaki, e a de Fado Tropical.)

https://www.youtube.com/watch?v=Ki5WDlppPiI [CHICOCANTA - CHICO BUARQUE. Calabar - O Elogio da Traição. «Lançado em 1973 pela C.B.D. Phonogram, foi reeditado em 1977 pela Phonogram com a adição de uma foto.» 30:52. Fado Tropical, com as partes cantadas e ditas, do minuto 19:30 a 23:38.]

https://www.youtube.com/watch?v=LImcXq3zMH0 (Sei que estás em festa, pá... - Versão original de Tanto Mar. Clique em «show more», para ver a letra.)

https://www.youtube.com/watch?v=ST30-i7cZJk (Foi bonita a festa, pá... - 2.ª versão de Tanto Mar, no álbum «Chico Buarque, editado em 1978. Clique em «show more».)


http://www.chicobuarque.com.br/letras/tantomar_75.htm (letra das duas versões de Tanto Mar. Clique no ícone, páginas, canto superior direito, para ler a nota sobre Tanto Mar.)

Mais variada informação, a terra e a gente.