Aqui se pode ver a letra de Fado Tropical (1972-1973) e uma versão
de Georges Moustaki. Terão sido estes os versos cantados em Coimbra no Teatro
Gil Vicente, a seguir ao 25 de Abril de 1974. Não lembro, no entanto, as duas
quadras em português; o que me ficou gravado foi esta parte:
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu
ideal,
Ainda
vai tornar-se um imenso Portugal.
O «primeiro abril» de que se fala é
referência à ditadura militar brasileira e «un 21 avril», a 21 Abril de
1967, dia do golpe de estado grego, que iniciou a ditadura dos coronéis.
Portugal e Fado Tropical
Georges Moustaki, Portugal (1974)
Ô muse, ma complice,
Petite sœur d’exil.
Tu as les cicatrices
D’un 21 avril.
Mais ne sois pas sévère
Pour ceux qui t’ont déçue,
De n’avoir rien pu faire
Ou de n’avoir jamais su.
Refrain
À ceux qui ne croient plus
Voir s’accomplir leur idéal,
Dis leur qu’un œillet rouge
A fleuri au Portugal.
On crucifie l’Espagne,
On torture au Chili,
La guerre du Viêt-Nam
Continue dans l’oubli.
Aux quatre coins du monde,
Des frères ennemis
S’expliquent par les bombes,
Par la fureur et le bruit.
Refrain
À ceux qui ne croient plus
Voir s’accomplir leur idéal,
Dis leur qu’un œillet rouge
A fleuri au Portugal.
Pour tous les camarades
Pourchassés dans les villes,
Enfermés dans les stades,
Déportés dans les îles,
Ô muse, ma compagne,
Ne vois-tu rien venir!?
Je vois comme une flame,
Qui éclaire l’avenir.
Refrain
À ceux qui ne croient plus
Voir s’accomplir leur idéal,
Dis leur qu’un œillet rouge
A fleuri au Portugal.
Ó musa do meu fado,
Ó minha mãe gentil.
Te deixo, consternado,
No primeiro Abril.
Mas não sê tão ingrata,
Não esquece quem te amou.
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou.
[Instrumental]
Débouche une bouteille,
Prends ton accordéon,
Que de bouche à oreille
S’envole ta chanson.
Car enfin le soleil
Réchauffe les pétales
De mille fleurs vermeilles,
En avril au Portugal.
Refrain
Et cette fleur nouvelle,
Qui fleurit au Portugal,
C’est peut-être la fin
D’un empire colonial.
Et cette fleur nouvelle,
Qui fleurit au Portugal,
C’est peut-être la fin
D’un empire colonial.
(Segue o disco reproduzido em «A Nossa
Rádio». Em «Instrumental» ouve-se apenas a música que acompanha em fundo toda
a canção. Ver a hiperligação, no final, em REFERÊNCIAS.)
|
Chico Buarque / Ruy Guerra, Fado tropical (1972-1973)
(Luz isola Mathias, que começa a cantar
«Fado Tropical».)
Ó
musa do meu fado,
Ó
minha mãe gentil,
Te
deixo, consternado,
No
primeiro abril.
Mas
não sê tão ingrata,
Não
esquece quem te amou.
E
em tua densa mata
Se
perdeu e se encontrou.
Ai,
esta terra ainda vai cumprir seu ideal,
Ainda
vai tornar-se um imenso Portugal.
Sabe,
no fundo eu sou um sentimental. Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa
dosagem de lirismo. Além da sífilis, é claro. Mesmo quando as minhas mãos estão
ocupadas em torturar, esganar, trucidar, meu coração fecha os olhos e, sinceramente,
chora.
Com
avencas na caatinga,
Alecrins
no canavial,
Licores
na moringa,
Um
vinho tropical.
E
a linda mulata,
Com
rendas do Alentejo,
De
quem, numa bravata,
Arrebata
um beijo.
Ai,
esta terra ainda vai cumprir seu ideal,
Ainda
vai tornar-se um imenso Portugal.
(Declamando,
sempre acompanhado de guitarras)
Meu
coração tem um sereno jeito
E
as minhas mãos o golpe duro e presto.
De
tal maneira que, depois de feito,
Desencontrado
eu mesmo me contesto.
Se
trago as mãos distantes do meu peito,
É
que há distância entre intenção e gesto.
E
se meu coração nas mãos estreito,
Me
assombra a súbita impressão do incesto.
Quando
me encontro no calor da luta
Ostento
a aguda empunhadura à proa,
Mas
meu peito se desabotoa.
E
se a sentença se anuncia bruta,
Mais
que depressa a mão cega executa
Pois
que senão o coração perdoa.
[…]
(Cantando)
Guitarras
e sanfonas,
Jasmim,
coqueiros, fontes,
Sardinhas,
mandioca,
Num
suave azulejo.
O
rio Amazonas
Que
corre trás-os-montes
E,
numa pororoca,
Deságua
no Tejo.
Ai,
esta terra ainda vai cumprir seu ideal,
Ainda
vai tornar-se um Império Colonial.
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal,
Ainda vai tornar-se um Império Colonial.
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal,
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal.
(Texto reproduzido do texto da peça Calabar..., de que damos a referência electrónica, no final. A parte a verde é repetição, acrescentada no disco CHICOCANTA e pode ouvir-se, aí, a partir do minuto 19:30. Este refrão é cantado a seguir à estrofe iniciada em «Guitarras e sanfonas». Deslocámo-lo, para ficar a par do refrão da coluna do lado, na versão de Georges Moustaki. Ver, no final, a referência.) |
Tanto
Mar
1975
– 1.ª versão, em concerto com Maria Betânia e… A letra foi proibida no Brasil,
tendo saído em disco apenas a parte instrumental. A gravação com a letra só foi
editada em Portugal, no mesmo ano.
Sei
que estás em festa, pá
Fico
contente
E
enquanto estou ausente
Guarda
um cravo para mim
Eu
queria estar na festa, pá
Com
a tua gente
E
colher pessoalmente
Uma
flor do teu jardim
Sei
que há léguas a nos separar
Tanto
mar, tanto mar
Sei
também quanto é preciso, pá
Navegar,
navegar
Lá
faz Primavera, pá
Cá
estou doente
Manda
urgentemente
Algum
cheirinho de alecrim
|
1978
– 2.ª versão
Foi
bonita a festa, pá
Fiquei
contente
E
'inda guardo, renitente
Um
velho cravo para mim
Já
murcharam tua festa, pá
Mas
certamente
Esqueceram
uma semente
Nalgum
canto de jardim
Sei
que há léguas a nos separar
Tanto
mar, tanto mar
Sei
também quanto é preciso, pá
Navegar,
navegar
Canto
a Primavera, pá
Cá
estou carente
Manda
novamente
Algum
cheirinho de alecrim
(Ver, abaixo, REFERÊNCIAS) |
*
REFERÊNCIAS
https://etudesromanes.revues.org/1348?lang=en
(«Fado tropical de
Chico Buarque et Portugal de Georges
Moustaki. De la dictature de Salazar à la Révolution des œillets au Portugal Adriana Coelho-Florent». Em anexo, as letras: Georges Moustaki, Portugal
(1974) e Chico Buarque / Ruy Guerra, Fado
tropical (1972-1973).
books.openedition.org/pulm/958
(«L’adaptation par Georges Moustaki de chansons
brésiliennes Manuel Ramos». Ver, no fim, a Troisiéme Chanson, antes da bibliografia, pondo lado a lado
a letra de Portugal, de Moustaki, e a de Fado Tropical.)
https://www.youtube.com/watch?v=Ki5WDlppPiI
[CHICOCANTA - CHICO BUARQUE. Calabar - O Elogio da Traição. «Lançado em 1973 pela
C.B.D. Phonogram, foi reeditado em 1977 pela Phonogram com a adição de uma
foto.» 30:52. Fado Tropical,
com as partes cantadas e ditas, do minuto
19:30 a 23:38.]
https://www.youtube.com/watch?v=LImcXq3zMH0 (Sei que estás em festa, pá... - Versão original de Tanto Mar. Clique em «show more», para ver a letra.)
https://www.youtube.com/watch?v=ST30-i7cZJk
(Foi bonita a festa, pá... - 2.ª versão de Tanto Mar, no álbum «Chico
Buarque, editado em 1978. Clique em «show
more».)
http://www.chicobuarque.com.br/letras/tantomar_75.htm
(letra das duas versões de Tanto Mar. Clique no ícone, páginas, canto
superior direito, para ler a nota sobre Tanto Mar.)
Mais variada informação, a terra e a gente.