Encontrei um vídeo no facebook que me fez rir... Lembrei Vitorino Nemésio e
pesquisei. O resultado foi compensador. Deixo hiperligações para quem quiser
dar-se ao trabalho de as abrir e, mais que tudo, a evocação feita por Vitorino
em «Primeiro Corso», do livro Corsário das Ilhas. Deslumbrante, a prosa
do grande Mestre. Não pelo artifício, pois é singelo, de curso leve, não pela
pobreza, que não tem, pois é rico na maneira de ver e transmitir. A prosa não é
soberba, por si só; por estar ao serviço de dar um mundo que sentimos verdade e
sublimado pelo espírito do autor, sem perder de vista o barro humano... Fiquei
preso, por exemplo, na descrição da carroça com a família. É tudo belo.
Continuamos empolgados até ao fim, na visão certeira sobre a morte antevista
daquele mundo...
«É a vida!» É o mais que podemos dizer, sem desistir de construir um mundo
sempre outro, embora com a mesma vivência de proximidade e respeito pela
natureza, comunhão com ela...
[…]
Vamos à primeira tourada à corda desde que
chegámos à ilha. Agualva. É uma das raras freguesias interiores e montanhosas.
A serra da Agualva negreja de longe aos olhos de quem, atravessando o
descampado e húmido interior, demanda os ramais norte e leste da estrada
central. Uma tourada à corda é um divertimento incrível… Os caminhos coalham-se
de gente. Ranchos de rapazes, de bordão às costas, arredam-se à passagem das
carrocinhas típicas da ilha: dois curtos assentos perpendiculares ao da boleia,
anteparos laterais e portinhola atrás. O exterior da caixa é sarapintado de
cores vivas. O machinho ou o garrano, enfiados nos varais e sacudindo as
guizeiras, avivam o trote tropicado. Mas também há éguas e cavalos de rompante
que, ajaezados de amarelo, fazem arredar a fila compassada e sendeira.
Lá vão, nas carrocinhas alceiras, as seis
pessoas da praxe: o pai, a mãe, as duas ou três raparigas, os dois irmãos ou o
irmão e o vizinho de mais perto. Parece milagre que caiba em tão escassa boceta
tão complicada família. Mas cabe… E às vezes ainda se arranja lugar para um
inesperado ou intrometido…
No arraial compacto, junto do largo da
igreja, abre-se uma clareira de pânico. É o toiro que assomou na ponta de uma
corda comprida, embolado e amarrado pelo pescoço. Uns seis pastores de camisa
branca acocoram-se na estrada empunhando o outro extremo. Com a força do
impulso, são projectados alguns metros adiante; mas o toiro quebra de ímpeto.
Isto é «dar pancada». Então os engraçados vêm abrir e agitar diante do boi os
guarda-chuvas, os casacos, os chapéus, as verdasquinhas… Uma atmosfera de
assuada e de pó envolve tudo — até que, ao bombão que anuncia a recolha do
último toiro, começa o desfile da retirada. A alma da Terceira encontrou mais
uma vez no toiro preso o pretexto para a sua expansão ruidosa e pueril. Dois chocalhos
ao longe e uma guizalhada perto marcam este búcio fim de festa. O farol verde
do campo de aviação das Lajes, à margem deste mundo castiço e labroste que
retira, pilota outro mundo que avança e que o matará.
[…]
[1996, Herdeiros de Vitorino Nemésio e Parque EXPO 98,
S. A.
A publicação de Primeiro Corso, extraído do livro Corsário das Ilhas,
foi gentilmente autorizada pelos herdeiros de Vitorino
Nemésio]
***
Parecem de borracha, figurinos, bonecos...