segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Tourada à corda

Encontrei um vídeo no facebook que me fez rir... Lembrei Vitorino Nemésio e pesquisei. O resultado foi compensador. Deixo hiperligações para quem quiser dar-se ao trabalho de as abrir e, mais que tudo, a evocação feita por Vitorino em «Primeiro Corso», do livro Corsário das Ilhas. Deslumbrante, a prosa do grande Mestre. Não pelo artifício, pois é singelo, de curso leve, não pela pobreza, que não tem, pois é rico na maneira de ver e transmitir. A prosa não é soberba, por si só; por estar ao serviço de dar um mundo que sentimos verdade e sublimado pelo espírito do autor, sem perder de vista o barro humano... Fiquei preso, por exemplo, na descrição da carroça com a família. É tudo belo. Continuamos empolgados até ao fim, na visão certeira sobre a morte antevista daquele mundo...
«É a vida!» É o mais que podemos dizer, sem desistir de construir um mundo sempre outro, embora com a mesma vivência de proximidade e respeito pela natureza, comunhão com ela...
[…]
Vamos à primeira tourada à corda desde que chegámos à ilha. Agualva. É uma das raras freguesias interiores e montanhosas. A serra da Agualva negreja de longe aos olhos de quem, atravessando o descampado e húmido interior, demanda os ramais norte e leste da estrada central. Uma tourada à corda é um divertimento incrível… Os caminhos coalham-se de gente. Ranchos de rapazes, de bordão às costas, arredam-se à passagem das carrocinhas típicas da ilha: dois curtos assentos perpendiculares ao da boleia, anteparos laterais e portinhola atrás. O exterior da caixa é sarapintado de cores vivas. O machinho ou o garrano, enfiados nos varais e sacudindo as guizeiras, avivam o trote tropicado. Mas também há éguas e cavalos de rompante que, ajaezados de amarelo, fazem arredar a fila compassada e sendeira.
Lá vão, nas carrocinhas alceiras, as seis pessoas da praxe: o pai, a mãe, as duas ou três raparigas, os dois irmãos ou o irmão e o vizinho de mais perto. Parece milagre que caiba em tão escassa boceta tão complicada família. Mas cabe… E às vezes ainda se arranja lugar para um inesperado ou intrometido…
No arraial compacto, junto do largo da igreja, abre-se uma clareira de pânico. É o toiro que assomou na ponta de uma corda comprida, embolado e amarrado pelo pescoço. Uns seis pastores de camisa branca acocoram-se na estrada empunhando o outro extremo. Com a força do impulso, são projectados alguns metros adiante; mas o toiro quebra de ímpeto. Isto é «dar pancada». Então os engraçados vêm abrir e agitar diante do boi os guarda-chuvas, os casacos, os chapéus, as verdasquinhas… Uma atmosfera de assuada e de pó envolve tudo — até que, ao bombão que anuncia a recolha do último toiro, começa o desfile da retirada. A alma da Terceira encontrou mais uma vez no toiro preso o pretexto para a sua expansão ruidosa e pueril. Dois chocalhos ao longe e uma guizalhada perto marcam este búcio fim de festa. O farol verde do campo de aviação das Lajes, à margem deste mundo castiço e labroste que retira, pilota outro mundo que avança e que o matará.
[…]
[1996, Herdeiros de Vitorino Nemésio e Parque EXPO 98, S. A.

A publicação de Primeiro Corso, extraído do livro Corsário das Ilhas,
foi gentilmente autorizada pelos herdeiros de Vitorino Nemésio]

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Parecem de borracha, figurinos, bonecos...