15
de Junho de 2018, sexta-feira, tarde
Ainda
agora lá passei, em visita à Cantareira, a ver a casa em que morou Raul Brandão.
Estamos na Foz. Passo na Avenida do Brasil e leio os versos de um autor de que intimamente
gosto. Aquele mundo, o de António Nobre, pode já não existir, não estou certo
disto, porque o trazemos no coração. Ao ler o Só, temos aquele mundo em nós, tornando-nos maiores. Se nos tirarem
a casa onde o Poeta morreu — era do irmão —, também morremos um pouco, vamos
morrendo aos poucos…
É
disto que fala, em outras palavras, o artigo de Patrícia Carvalho, no Público, aqui reproduzido, com a devida vénia.
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Casa onde morreu António Nobre
vai ser demolida
Plataforma Fórum Cidadania Porto divulgou um protesto dirigido à Câmara do
Porto e pede que esta tome posse administrativa do edifício que será substituído
por prédio de habitação.
24 de Fevereiro de 2018, 8:00
A casa onde morreu o poeta (a mais baixa) vai ser substituída por um prédio
novo Nelson Garrido
O escritor Mário Cláudio anda há mais de
dez anos a pedir à Câmara do Porto que preserve a casa da Avenida Brasil, na
Foz do Douro, onde morreu o poeta António Nobre e, em 2015, promoveu mesmo uma
petição nesse sentido, mas a oportunidade parece, agora, definitivamente
perdida. A casa de dois pisos, que há muito estava ao abandono, vai ser
demolida e substituída por um novo edifício, que irá integrar o projecto imobiliário
Panorama e que inclui, ainda, o prédio contíguo, com características Arte Nova.
Um protesto já seguiu para a câmara liderada por Rui Moreira.
O novo empreendimento, que prevê a
recuperação do palacete com características Arte Nova e a construção de um novo
prédio no local onde ainda está a casa arruinada do irmão de António Nobre,
onde o poeta morreu, em 1900, pretende oferecer nove apartamentos nesta zona
privilegiada da cidade, voltada para o mar. O projecto de arquitectura é do
gabinete Pedra Líquida, que é parceiro da Alfa Atlântica, a imobiliária que
está a promover a venda do complexo habitacional.
Na quinta-feira, a plataforma online
Fórum Cidadania Porto divulgou uma carta aberta dirigida a Rui Moreira, e com
conhecimento da Área Metropolitana do Porto, em que é apresentado um “protesto
pela pré-anunciada destruição da casa onde morreu António Nobre”. Referindo
que, apesar da petição
lançada por Mário Cláudio, em
2015, a casa de dois pisos “nunca foi intervencionada pela Câmara Municipal do
Porto, para grande espanto de todos quanto se preocupam com a identidade e a
memória da cidade”, os signatários apelam a Rui Moreira “para que evite esta
demolição e diligencie para a posse administrativa da moradia, sustendo a sua
derrocada e recuperando-a enquanto casa-museu, negociando com o proprietário a
eventual concessão de créditos de construção em terrenos municipais, longe de
afectarem a história e o património da cidade”.
Imagem virtual do projecto previsto para os lotes da casa dos Nobre e de
uma casa Arte Nova DR
A carta, disponível online na página do Fórum Cidadania Porto, refere-se
ainda ao edifício contíguo, lançando um novo apelo à câmara para que “não
autorize o desfigurar irreversível do ainda interessante edifício vizinho da
casa dos irmãos Nobre”.
O PÚBLICO questionou a Câmara do Porto sobre este processo e, em concreto,
sobre se a autarquia pretendia responder de alguma forma aos apelos feitos, mas
apenas recebeu como resposta escrita que o projecto de arquitectura dos prédios
em causa “foi aprovado por despacho do senhor vereador Correia Fernandes, em
Maio de 2017” – o último mês em que o socialista exerceu aquelas funções. Já o
gabinete de arquitectura não esteve disponível para prestar esclarecimentos
durante o dia.
Também não foi possível ouvir o escritor Mário Cláudio que já por várias
vezes falou publicamente sobre a que entendia ser a necessidade de preservar um
edifício que, não tendo um especial valor arquitectónico, o tinha em termos
culturais e patrimoniais. Em 2007, Mário Cláudio lamentava o desaparecimento da
placa colocada na fachada da casa que a identificava como o local onde morrera
o autor de Só e dizia, já nessa altura, que estava a tentar sensibilizar
o executivo de Rui Rio para que protegesse o edifício e ali instalasse uma
casa-museu dedicada ao poeta.
Em 2015, o escritor avançou mesmo com uma petição online, que chegou a
reunir 566 assinaturas, e era dirigida a Rui Moreira e ao então vereador da
Cultura, Paulo Cunha e Silva, pedindo que a autarquia mobilizasse “todos os
meios para impedir o desaparecimento um importante rasto físico da passagem
daquele que foi um das grandes figuras da literatura portuguesa de todos os
tempos”.
“A nosso ver a classificação do imóvel como de interesse publico, ou mesmo
municipal, como primeiro passo na salvaguarda do edifício, poderá constituir
medida imediata para o efeito, e o precioso espólio do autor do Só,
propriedade da autarquia, guardado na biblioteca pública municipal, bem poderá
vir a ser adequadamente alojado nesse espaço, uma vez restituída a memória de
todos nós”, referia-se no texto da petição.

