A entrevista, um diploma e o mais...
Terei
ido umas três vezes como cliente à barbearia do Senhor Vítor Hugo, a última das
quais no passado sábado, por ter sabido na noite anterior pelo próprio que
seria este o último dia em que estava aberta ao público. Ali cheguei pelas onze
e meia… O Senhor Vítor Hugo estava
presente e a certa altura saiu, ficando apenas o barbeiro e eu. O Sr. Vítor já
não exercia a profissão.
Aqui
fica uma página de jornal — A BOLA, certamente —, assinada por Elsa Bicho e
publicada em 3 de Janeiro de 2004. Achei-a importante, um diploma de adepto e
membro da direcção do TORREENSE, como o da TOMADA DE POSSE dos Corpos Socais do Sport Clube União
Torreense, emoldurado e exposto numa das paredes, entre outras memórias. Ambos os
documentos nos falam do torreensista, mas vão além disso. A transcrição, tal
qual, do texto e o recorte das imagens são partilha do prazer que tive ao ler e
ver tudo com atenção. Há aqui ligação à vida, no que ficamos a conhecer e mais
no que se deixa imaginar… Foi no adeus que fiquei a conhecer. As coisas, as
pessoas estiveram sempre lá. Dentro delas, mundos…
A
barbearia era uma tertúlia, com duas (ou três) pessoas residentes, sentadas de costas
viradas para a janela. Lembro o Senhor Bezerra ali sentado. Sei agora, pela foto
da equipa campeã da Zona Sul, 1963/64, que foi jogador do Torreense.
Não
resisto, também, a transcrever as informações do diploma da tomada de posse,
por a imagem ser de difícil leitura, sobretudo na parte superior.
(Esta
mensagem tem relação e deve ser completada por esta e esta.)
«Fotografias e galhardetes enchem as paredes da carismática barbearia de Torres Vedras»
«Vítor Hugo é dirigente do Torreense há trinta anos»
«Torres Vedras — terra dos afamados pastéis de feijão»
SÁBADO, 3 de Janeiro de 2004 |31
FUTEBOL
|
REPORTAGEM → II DIVISÃO B
SE É ADEPTO FERVOROSO DO CLUBE DE TORRES VEDRAS, ENTÃO
ENTRE NA BARBEARIA CARECA
Barba
e cabelo à Torreense
Por ELSA BICHO
DESDE os onze anos
que corta cabelos, na altura empoleirado em caixotes para chegar aos clientes
com quem sempre teve por predilecto um único assunto — o Torreense. Na
Barbearia Careca, como é conhecido o estabelecimento decorado com fotografias e
galhardetes do clube de Torres Vedras, toda a população lá para para comentar
com o senhor Vítor Hugo se a jornada correu de feição ao clube local. Muitos
até dispensam o estádio. Não faz mal, o barbeiro careca faz o relato.
É
no largo da igreja matriz que, em Torres Vedras, se reúnem muitos dos
indefectíveis torreenses. Mais concretamente à porta da Barbearia Careca, como
é conhecido na terra o salão do senhor Vítor Hugo que, há 60 anos tem a porta
aberta, herança de seu pai também barbeiro. Duas gerações de ferrenhos torreenses,
clube de que é dirigente desde os 42 anos.
«Faço
parte da Direcção do clube há 30 anos. Tenho 72 e desde que sou gente que me
recordo de viver, intensamente, a vida do clube. Nasci cá, chegeuei a jogar nos
juniores do Torreense, o meu filho, Rui Agostinho, é lá treinador das camadas
jovens e os meus dois netos jogam no Torreense. Um deles atá já foi treinar-se
à experiência na Academia do Sporting, mas cá no clube é que ele está bem. Eu
até sou benfiquista», contrapõe, denunciando a sua outra cor clubística.
«São
tantas as recordações de anos a fio… mas a mais saborosa foi a vitória sobre o
F. C. Porto na Taça de Portugal. Não esperava. Fiquei maluco», prossegue, feliz
por o quererem ouvir falar do Torreense.
Frutos do tempo
Muitas
são as diferenças encontradas por quem segue a par e passo a vida de uma colectividade
que, forçosamente, muto se alterou com os anos. «A vida é outra, claro. Antes
Torres Vedras era uma cidade com muita indústria, tinha várias empresas que
puxavam pelo clube, apoiavam-no, incitavam o futebol da terra. Agora a maioria
das empresas faliu, acabaram-se as costas quentes. O clube tem menos
possibilidades, os sócios nem chegam aos três mil. Enfim, fruto do tempo»,
justifica assim o senhor Vítor Hugo a perda de algum fulgor do clube de Torres
Vedras.
Assunto
inesgotável
Quem
tão desinteressadamente se dedica ao futebol local só se sente à vontade quando
este é o tema da conversa. «Aqui na barbearia, sítio de homens, estamos sempre
a falar de futebol e, claro, do nosso Torreense. Agora, que estão em segundo
lugar da zona Centro, ainda mais. Começaram bem esta época, depois foram-se um
bocado abaixo e agora estão de novo a conseguir resultados», analisa o
barbeiro, pronto a ali ficar o resto da manhã a debater o assunto com os
companheiros que, diariamente, consigo trocam dedos de conversa.
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[Destaque]
ALDEIA GRANDE
Numa
das principais praças de Torres Vedras lia, tranquilo, o seu jornal o sócio n.º
918 do Torreense, o senhor Teófilo Gregório. «Se querem alguém que vos fale do
Torreense até amanhã de manhã vão à barbearia Careca», informou quem também
segue o futebol local: «Isto é uma aldeia grande. Claro que quando o clube está
bem puxa mais gente, caso contrário, sem carne não se fazem chouriços.»
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CLIENTE
DO COSTUME
Bom ouvinte
Francisco
Sousa é habitual cliente da barbearia. Quanto mais não seja é habitual
companhia do barbeiro de Torres Vedras que sempre o põe a par do que,
eventualmente, possa perder. «Não vou ao estádio do Torreense há três anos.
Vi-os uma vez jogar tão mal com o Beira-Mar que disse a mim mesmo — tão
depressa não venho cá. E foi o que fiz. Mas continuo sócio», vinca quem mais
escuta o barbeiro torreense a falar do seu estimado clube. «Mas não há qualquer
tipo de problema. Venho cá à segunda-feira de manhã e o Vítor Hugo conta-me
tudo sobre o jogo. Ele é que me faz o relato», diz sorridente, aproveitando
para mais uma escovadela.
ENCHENTES
ACABARAM
Juventude dedicada
A
doze quilómetros de torres Vedras já na auto-estrada se recebem as boas-vindas
do clube: «O Torreense e a C. M. Torres Vedras saúdam-vos», lê-se no placard.
Ao entrar na cidade, seja pelo lado Norte ou Sul, estrategicamente colocados
nas rotundas, estão outros placards actualizados com o calendário do clube.
«Torreense, domingo, dia 11, 15 horas, Estarreja», informa por estes dias.
«Mesmo assim não há comparação com as assistências de antigamente. A juventude
de cá até vai ao estádio, vai sim senhora. Até lá costumam estar muitos miúdos
das escolas, por vezes até acompanhados de pais e familiares. Mas, claro, o
estádio enchia-se na I Divisão, quando apareciam mais de dez mil pessoas,
recorda o barbeiro que, todos os dias, às 8.30 horas, em ponto, abre a porá do
estabelecimento.
ALÉM
DE MOINHOS E PASTÉIS DE FEIJÃO
Torreense e
Joaquim Agostinho
As
paredes da Barbearia Careca são um tributo ao Torreense, num estabelecimento
onde até está emoldurado o papiro da tomada de posse da primeira Direcção de
Vítor Hugo. Numa outra parede não falta, refira-se, a fotografia de Joaquim
Agostinho, pródigo filho da cidade de Torres Vedras.
Animado
e bem-disposto está sempre o ajudante Carlos, confirmando em alto e bom som o
quanto é ferrenho pelo Torreense o patrão. «Faça agora risco ao meio para
aparecer bonito na fotografia», brinca, divorciando-se do clube que não lhe dá
assim tantas alegrias.
«Fui
lá na última jornada, eles ganharam mas foi só pontapé para o ar e fé em Deus»,
demarca-se. À porta da barbearia habituais da zona espreitam para ver o
barbeiro careca», retorquia quem achava graça a ímpar situação daquela manhã.