domingo, 31 de dezembro de 2017

José Luís Peixoto na UP MAGAZINE


Já há letreiros nos cafés de Coimbra a proibirem o estudo...
Para leitura de quem nunca ouviu falar em José Luís Peixoto e para os que já o conhecem, aqui fica um texto muito lindo, mormente para quem viveu em Coimbra. Não se trata de um roteiro, é a cidade, o mundo filtrado pela sua experiência, vida familiar, presentes os mortos e os vivos, vivos todos.
(Clique duas vezes nas imagens)

Ver, também, n'a terra e a gente, sobre o artigo de José Luís Peixoto.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

INTEGRAL DAS SINFONIAS DE BRAHMS II -- No Teatro THALIA

Sábado, 11 de Novembro
Reproduz-se, com a devida vénia à OML e à entidade que tutela o espaço, o caderno-programa do espectáculo INTEGRAL DAS SINFONIAS DE BRAHMS II, que teve lugar no Teatro Thalia.
O Thalia continua a fazer sonhar e a albergar dentro das suas paredes nuas actividades ligadas à fantasia, criatividade, conhecimento, educação e ensino; tudo isto, afinal, é solidariedade para com quem ali se dirige.
Recuperado há poucos anos, é uma homenagem permanente ao seu criador, o 1.º conde do Farrobo e 2.º barão de Quintela. 
                    (Depois de clicar numa imagem, com o cursor do rato na página ampliada, aparece o sinal +. Torne a clicar.)









segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Óbidos - Festival FOLIO 2017

Sábado, 21 de Outubro
Festival FOLIO 2017, 19 a 29 de Outubro


Mais uma vez pedimos ao carro que nos leve em direcção a Óbidos, o que ele faz de boa vontade sobre um tapete suave de alcatrão. À esquerda, uma daquelas aldeias ao pé do mar fazem sentir uma atracção gravítica, um chamamento que conto se vai tornar mais exigente e audível. «Venham ver-me, venham ver-me!»
Em Óbidos, com o mesmo de sempre, o mesmo encanto de sempre, vamos caminhando no terreiro, antes do posto de Turismo, logo a seguir se pode tomar um café. Passada a Porta da Vila, a Rua Direita com muita gente, caminhamos, já está perto a igreja-livraria de Santiago, deixamo-la à esquerda e entramos no espaço entre muralhas do castelo, ainda com os recintos habituais desprovidos de atendimento. Ali, o teatro vazio, ali, o restaurante que parece deserto, ali, a casinha onde no último Natal entrámos, com o Pai Natal, crianças, famílias, animação... Saímos, procurámos a recepção, passámos ao miradouro e... foi mirar..., admirar, contemplar... Óbidos é ainda uma maravilha e queremos que assim continue, com o cuidado e a inteligência de quem a vive e de quem tem a responsabilidade da administração.
Vamos entrando de novo no castelo, pelo pátio da zona residencial pousada administrada pelo grupo PESTANA. Na gárgula de três rostos, postada no chão a receber o visitante, no ângulo de passagem à escadaria para o andar nobre, há muito que não corre água; é, agora, figura de cortesia, de convite. Sentimo-la, como se fosse gente.
Fica para uma próxima vez a subida à pousada, visitável, apenas, nos espaços comuns, caso não se tenha reservado alojamento.
***
Um homem de camuflado na praça de Óbidos, de costas para a belíssima igreja de Santa Maria, declama; o soldado perdeu a vida, verteu o sangue na terra. Depois, a terra vai dar vinho e pão e flores. Dirigi-me ao homem, falei um bocadinho com ele, um tanto baixo, bem constituído sem ser gordo, alegre. Está satisfeito e sente-se-lhe dentro o impulso de continuar. Vai declamar noutro sítio, não falta gente, hoje, ali mesmo na praça grande ou noutro lugar. Com a mesma poesia ou outra, quiçá... Quase lhe riem os olhos. Acamaradei. Digo bem..., acamaradei. Esteve em Moçambique, de 67 a 69. Tem setenta e dois anos e faz parte do grupo de teatro de Óbidos.
Bem hajam estes grupos!
«Poema da Terra Adubada», de António Gedeão, foi o que ouvimos. «Não me lembro de ter lido este poema», lhe digo, pensando que deveria vir incluído nas Poesias Completas. 
A uns metros de distância, junto ao edifício dos Correios e também perto da Igreja de Santa Maria, uma obra de arte amovível desperta a atenção do passante. É um relicário de que pode ver mais abaixo as imagens, bem como informação sobre o autor, nos linques indicados.
COMEMORAÇÕES DOS 650 ANOS DA MORTE
DE INÊS DE CASTRO 1355 - 2005
RELICÁRIO
(1977)
                                                                                       JOSÉ AURÉLIO
[Da ficha metálica, aplicada sobre a peanha onde assenta a cruz]

***
No quintal do Jardim do Solar - Praça de Santa Maria, a árvore ficou privada de sol o dia todo, dentro da tenda literária. Sentamo-nos. Começamos a ouvir a palestra de uma senhora, falando sobre a experiência chinesa de Camilo Pessanha. Ainda ouvimos o suficiente sobre os dois jovens professores do liceu de Macau, no primeiro ano da sua existência, o autor de Clepsidra e Wenceslau de Moraes, mas foi sobre o primeiro que houve maior desenvolvimento. Camilo Pessanha não terá apreciado a China que lhe foi dado conhecer directamente, ao contrário da admiração que nutria pela China clássica. Foi aprendendo a língua de que veio a traduzir textos de poetas [1]. No final, quis conhecer quem era a senhora que tinha acabado de ouvir e dirigi-me a ela, tendo ficado a saber que se chama Ana Paula Laborinho. É professora da Faculdade de Letras, desempenhando actualmente as funções de presidente do Conselho Directivo do Instituto Camões. (Ver, mais, aqui.) Ouvi-la foi entrar no conhecimento de Camilo Pessanha, quase como se o tivesse visto viver, digo, aproveitando o título de livro de Vitorino Nemésio: Quase que os vi viver.

Estamos de novo na Rua Direita e do muito que nos oferece alguma coisa aceitámos, calmamente, repousadamente, e nunca faltando a ginjinha, que não chega a ginja, por o copo de chocolate ser pequeno.
Foi uma boa tarde.


[1] Ver, para exemplo, o que diz Camilo Pessanha da sua tradução das elegias de poetas da dinastia Ming n’O Progresso, de 13 de Setembro de 1914. Agradeço ao autor do blogue Macau Antigo a possibilidade de acesso à imagem do texto que transcrevo, com a devida vénia:
Traduzi litteralmente, — tanto quanto a radical differença entre o genio das duas linguas o permite. Esforcei-me por não supprimir nenhuma das ideas contidas no original, por adjectiva e accessoria que fosse, — embora tendo por vezes que sacrificar a essa imposição de fidelidade os longes de rithmo e a relativa symetria de forma que eu desejaria dar á traducção de cada quadra chineza, na impossibilidade de os traduzir em quadras de versos portuguezes. Menos ainda acrescentei fosse o que fosse, no intuito de relevar pormenores, ou com a preocupação de falsos exotismos. Isolei a traducção de cada um dos versos, e dentro d’ella conservei, nos limites do possivel, ás ideas e symbolos a ordem original. Isto é, da poesia chineza busquei trasladar com exactidão o que era trasladável — o elemento substantivo ou imaginativo; — porquanto o elemento sensorial ou musical, resultando de uma technica especialissima (em que há sabiamente aproveitados recursos prosodicos de que as linguas europeas não dispoem), é absolutamente inconversivel.







***

O relicário traz-nos Pedro e Inês, história e lenda tão vivamente marcada no imaginário português. Conta-a Fernão Lopes na Crónica de D. João I; Garcia de Resende, no Cancioneiro Geral, dedica extensas «Trovas [...] à morte de Dona Inês de Castro, que el-Rei Dom Afonso, o Quarto de Portugal, matou em Coimbra [...]»; Camões lembra-a n'Os Lusíadas e António Ferreira compôs a tragédia Castro. 

«Pedro e Inês», juntos, «até ao fim do mundo»
Os dois túmulos na igreja do mosteiro de Alcobaça estão colocados de tal modo, que, quando Pedro e Inês se erguerem no dia do Juízo Final e puserem de pé, ficarão em frente um do outro. Um pequeno túmulo, figurando na parte central da rosácea do túmulo de Pedro ele próprio e três filhos, tem uma legenda, assim:
Salvador Dias Arnaut, na «sebenta», não aceita a interpretação «Até a fim do mundo». «Parte-se do princípio que se tratava de iniciais de palavras, vendo no A AQUI e no E ESPERA. »*

AQUI ESPERA A FIM DO MUNDO

 Hoje, dizemos: 
AQUI ESPERA O FIM DO MUNDO
A palavra «fim» era do género feminino na época de Inês e Pedro.

* APONTAMENTOS DE HISTÓRIA DE PORTUGAL
Segundo as lições do Prof. Doutor Salvador Dias Arnaut, compiladas por um Grupo de Estudos Pedagógicos da Faculdade de Letras, UNITAS, Cooperativa Académica de Consumo, Coimbra, 1969, pp.. 62 e 63.



 ***
Poema da Terra Adubada

Por detrás das árvores não se escondem faunos, não.
Por detrás das árvores escondem-se os soldados
com granadas de mão.

As árvores são belas com os troncos dourados.
São boas e largas para esconder soldados.

Não é o vento que rumoreja nas folhas,
não é o vento, não.
São os corpos dos soldados rastejando no chão.

O brilho súbito não é do limbo das folhas verdes
reluzentes.
É das lâminas das facas que os soldados apertam
entre os dentes.
As rubras flores vermelhas não são papoilas, não.
É o sangue dos soldados que está vertido no chão.

Não são vespas, nem besoiros, nem pássaros a
assobiar.
São os silvos das balas cortando a espessura do ar.

Depois os lavradores
rasgarão a terra com a lâmina aguda dos arados,
e a terra dará vinho e pão e flores
adubada com os corpos dos soldados.

António Gedeão,in Linhas de Força, 1967
***
https://www.jornaldeleiria.pt/noticia/obidos-eleita-vila-literaria-pela-unesco-2665
http://obidosvilaliteraria.com/
https://vistaalegre.com/pt/c/jos%C3%A9-aur%C3%A9lio#
https://www.armazemdasartes.pt/pt/o-fundador--jose-aurelio
http://areas.fba.ul.pt/escultura/pt/6_escultores_e_curriculos.pdf
http://www.tintafresca.net/News/newsdetail.aspx?news=eebeb952-1d2d-4f0a-b73f-de1d25fcc3a0&edition=90
http://macauantigo.blogspot.pt/2012/09/elegias-chinesas-por-camilo-pessanha.html (Página de O Progresso, Macau, 13Set1914, com artigo «Literatura Chinesa» e tradução de «Elegias Chinesas», por Camilo Pessanha)
http://purl.pt/14369/1/index.html (De Daniel Pires: Apresentação; Cronologia da Vida e Obra de Camilo Pessanha. Explore o restante da informação fornecida pela Biblioteca Nacional)

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Quinta das Laranjeiras e Teatro das Laranjeiras

Estas imagens do Universo Pittoresco: Jornal de Instrucção e Recreio, tomo 3.º, 1843-1844, Lisboa, complementam a mensagem Teatro Thalia, Viagem ao Invisível.

Universo Pittoresco, capa do Tomo 3.º

Universo Pittoresco, extra-texto, antes da página 241


Gabriel Pereira: A Quinta das Laranjeiras

Estas imagens complementam a mensagem Teatro Thalia, Viagem ao Invisível.



[Extraído de ESTUDOS DIVERSOS (ARQUEOLOGIA . HISTÓRIA . ARTE . ETNOGRAFIA) / COLECTÂNEA ORGANIZADA POR JOÃO ROSA E ILUSTRADA COM DESENHOS DO AUTOR / PREFÁCIO DE D. JOSÉ PESSANHA, COIMBRA, IMPRENSA DA UNIVERSIDADE, 1934]  Ver http://www.bdalentejo.net/

TEATRO THALIA

        Esta mensagem, para além da divulgação que em si mesma oferece, pode complementar as que vêm publicadas noutro lugar sobre o THALIA e a exposição Viagem ao Invisível, que nele teve lugar.
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https://pt.wikipedia.org/wiki/Teatro_T%C3%A1lia

Teatro Tália

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Vista da fachada principal do Teatro Thalia
O Teatro Tália ou Teatro Thalia, mais conhecido por Teatro das Laranjeiras, foi um pequeno teatro, inicialmente pertença de Joaquim Pedro Quintela, 1.º conde de Farrobo, situado na Estrada das Laranjeiras, Laranjeiras (Lisboa), nas imediações do actual Jardim Zoológico de Lisboa. Apesar da sua pequena dimensão (560 espectadores), foi um dos principais teatros lisboetas do século XIX, onde actuaram as grandes figuras do panorama musical dessa época. Hoje, é um dos locais de concerto da Orquestra Metropolitana de Lisboa.
Construído em 1825, foi reedificado e renovado no ano de 1842, segundo um projecto do arquitecto Fortunato Lodi. Em 1862 o teatro foi praticamente destruído por um incêndio ocorrido a 9 de Setembro, só tendo sido poupada à destruição a fachada. Já no Século XXI, os ateliês de Gonçalo Byrne Arquitectos e Barbas Lopes Arquitectos, efectuaram o projecto de recuperação do edifício[1].
Na fachada do teatro pode ver-se a inscrição "Hic Mores Hominum Castigantur" (Aqui serão castigados os costumes dos homens)[2].
Em 1974, o edifício foi classificado como Imóvel de Interesse Público[1].
A denominação Teatro Thália não é a original. No dia da inauguração deste teatro, em 26 de fevereiro de 1843, com um espetáculo a que assistiu a Rainha D. Maria I, o libreto então publicado com o título da produção e o respectivo elenco, é inequívoco ao designá-lo por “Theatro das Laranjeiras”.   Como não pode haver dúvidas que o momento da inauguração de um teatro é fundacional e a designação adoptada foi “das Laranjeiras”, não é natural que tivesse mudado depois. A mais antiga referência a este teatro como “Thália” parece ter sido feita por Pinto de Carvalho, tardiamente, já em 1898[i].  Mas outras fontes da mesma época, como Fonseca Benevides[ii], ou Sousa Bastos[iii], usam o nome original: Teatro das Laranjeiras.  É possível que a designação “Thalia” tenha resultado de uma qualquer efabulação no fim do século XIX, para acrescentar pitoresco. E que depois, no mesmo espírito, se terá ido replicando. A recente remodelação desta construção como espaço de eventos, oficializando o nome Thalia, também veio reforçar e expandir aquela designação.

Bibliografia

  • CARNEIRO, Luis Soares - Teatros Portugueses de Raiz Italiana. Tese de Doutoramento apresentada na FAUP, Porto, FAUP, 2002.
  • CARVALHO, Pinto de (Tinop) - Lisboa d’outros tempos. Lisboa: Livraria Antonio Maria Pereira, 1898-1899, 1º Vol. p.107.
  • BENEVIDES, Francisco da Fonseca - O Real Teatro de S. Carlos de Lisboa. Estudo histórico por Francisco da   Benevides. Lisboa: Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 1993. Edição fac-similada da original de 1883 (parte 1); e de 1902 (Parte 2).
  • BASTOS, Sousa - Dicionário de Teatro Português. Coimbra: Minerva, 1994, p.347. Edição fac-similada da original, de 1908.

Referências



  • Duarte Ivo Cruz. «TEATRO DAS LARANJEIRAS (TEATRO THALIA)». Centro Nacional da Cultura. Consultado em 4 de Junho de 2014. Cópia arquivada em 4 de Junho de 2014

    1. «Reconversão do Teatro Thalia, Lisboa». Arq'a (Arquitectura e Arte Contemporânea). Fevereiro de 2013. Consultado em 4 de Junho de 2014. Cópia arquivada em 4 de Junho de 2014

    Ligações externas

    O Commons possui uma categoria contendo imagens e outros ficheiros sobre Teatro Tália

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    TEATRO DAS LARANJEIRAS (TEATRO THALIA)
    Distrito : Lisboa
    Concelho : Lisboa
    TEATRO DAS LARANJEIRAS (TEATRO THALIA)
    Património Classificado:SimClassificação:Imóvel de Interesse Público;Proteção Jurídica:Dec nº 735/74 DG 297 dd 21/12/1974Proprietário/Instituições Responsáveis:Ministério da Educação e Ciência
    Descrição Histórica/Artística
    O Teatro que o Conde de Farrobo instalou junto do Palácio das Laranjeiras, hoje edifico oficial ligado pelos jardins ao Jardim Zoológico de Lisboa, surge referido na literatura especializada como Teatro Thalia ou Teatro das Laranjeiras. Em qualquer caso, o que realmente interessa é que o velho teatro, inaugurado em 1825, modificado em 1842 sob a traça de Francisco Lodi e destruído, em 9 de setembro de 1862 por um incêndio, que só poupou a fachada de belo estilo clássico, é reconstruido e restaurado em 2012, segundo projeto de arquitetura de Gonçalo Byrne e Barbas Lopes, o qual manteve as reminiscências do projeto inicial, designadamente a formidável fachada, devidamente restaurada.

     O conjunto polivalente servirá de apoio a todas as espécies de espetáculo. E repare-se numa  curiosa cronologia: o Teatro começa a ser construído cerca de 1820; é inaugurado em 1825;  arde em 1862; renasce em 2012 exatos 150 anos depois. E o resultado é um edifício eclético, com o  mérito da modernidade conciliada com o restauro da fachada e a conservação do que restou do teatro primitivo do Conde de Farrobo.

    O Palácio das Laranjeiras, hoje edifício oficial, foi habitado pelo Conde de Farrobo, e posteriormente pelo Conde de Burnay, que iniciou a instalação, na quinta anexa, do Jardim Zoológico. Nele se realizaram nos anos 20 do século passado os bailados da Condessa de Castelo Melhor a que esteve ligado Almada Negreiros. O Conde de Farrobo, Joaquim Pedro Quintela, herdou do pai o titulo de barão de Quintela, depois “promovido” a Conde de Farrobo. Mas já o pai surge envolvido na edificação do Teatro de São Carlos, inaugurado em 1793. O filho seguiu-lhe as pisadas, como veremos adiante.

    Morreu arruinado em 24 de setembro de 1869. E pode ter contribuído para essa decadência, ou foi símbolo dela, o incêndio do Teatro, ocorrido em 9 de setembro de 1862, exatos 42 anos após o inicio das obras do teatro. Eduardo de Noronha conta que nessa madrugada fatídica, foram acordar o Conde, então a residir no chamado Palácio Quintela, na Rua do Alecrim. Perguntou se havia mortes ou danos pessoais e, tranquilizado a esse respeito, despediu quem o informava e continuou a dormir… ou pelo menos a fingir que dormia! E já estava semiarruinado.

    O teatro foi inaugurado com uma ópera hoje esquecida, “II Castello de Spiriti” de Mercadante, compositor e maestro então responsável pelas temporadas de ópera que Farrobo durante décadas organizou, e em não poucas  participou, como executante - foi aluno de Domingos Bomtempo em composição e tocava contrabaixo - ou  como cantor, acompanhado por vezes no canto pela própria Condessa. Tal como noutro lado recordo, como mero exemplo da vida cultural e mundana de Farrobo no seu teatro, as Memórias do Marechal francês Castellae, recebido nas Laranjeiras, referem enfaticamente “uma festa espaventosa, que seria por ele comparado às Tulherias do primeiro Império”. 

    De assinalar que o repertório tinha qualidade e certa modernidade para a época: Rossini, Donizetti, Auber. E os cantores eram do melhor que vinha a Lisboa.

    Refira-se aliás que Farrobo foi episódico diretor do Conservatório. O pai, já vimos, surge elencado entre os fundadores do Teatro de São Carlos. E o Conde esteve envolvido na gestão do  São Carlos e surge também ligado a Garrett e a Passos Manoel na criação do que viria a ser, em  1846, o Teatro de D. Maria II.

    Ana Isabel P. T. de Vasconcelos evoca aliás a presença frequente de Passos no Palácio e no Teatro das Laranjeiras, e recorda a colaboração dos cenógrafos Rambois e Cinatti, do melhor que havia na época a nível europeu. Cita Francisco Cancio, que descreve com pormenor uma  receção a D. Maria II e remete ainda para Fialho de Almeida.

    E finalmente, refere-se aqui também Raul Proença, que evoca “um grandioso teatro para 360 espetadores, com salão de baile revestido de espelhos e, desde 1830, iluminado a gás, o que era  grande novidade para o tempo”…

    Veremos o que vai fazer-se, em matéria de arte e cultura, no novo Teatro Thalia das Laranjeiras.

    DUARTE IVO CRUZ


    Morada:Estrada das Laranjeiras

    1600-134 Laranjeiras
    Fonte de Informação:Duarte Ivo CruzBibliografiaSousa Bastos - "Dicionário do Teatro Português" - 1908;
    Raul Proença - "Guia de Portugal - Lisboa e Arredores" - 1924;
    Eduardo de Noronha - "O Conde de Farrobo - Memórias da sua Vida e do seu Tempo" - 1945;
    Francisco Câncio - "Lisboa no Tempo do Passeio Público" - 1962;
    Ana Isabel P. Teixeira de Vasconcelos - "O Teatro em Lisboa no Tempo de Almeida  Garrett" - 2003;
    Duarte Ivo Cruz - "História do Teatro Português" - 2001 e "Teatros de Portugal" - 2005;
    Sandra Leandro e Fernando Mota de Matos - "Palácio Quintela ou Farrobo/Teatro Tália/ Jardins", in "Portugal Património" vol. VI - 2006: - "Reconversão do Teatro Thalia" - in "Revista ARQA" - janeiro/fevereiro 2012
    Data de Actualização:27-08-2013

    quarta-feira, 4 de outubro de 2017

    O Senhor Vítor Hugo - a entrevista ao MILA GAIPA

    O Senhor Vítor Hugo deu uma entrevista ao MILA GAIPA, que vale a pena recordar, com a devida vénia a este {jornal do centro histórico de torres vedras}.
    Texto e fotos de Mário Verino Rosado. Foto da capa - Inês Mourão
    Estas informações completam as mensagens que agora publico nos blogues a terra e a gente e estaleiro.

    Vítor Hugo Agostinho - a entrevista de 3 de Janeiro de 2004

    A entrevista, um diploma e o mais...
    Terei ido umas três vezes como cliente à barbearia do Senhor Vítor Hugo, a última das quais no passado sábado, por ter sabido na noite anterior pelo próprio que seria este o último dia em que estava aberta ao público. Ali cheguei pelas onze e meia… O  Senhor Vítor Hugo estava presente e a certa altura saiu, ficando apenas o barbeiro e eu. O Sr. Vítor já não exercia a profissão.
    Aqui fica uma página de jornal — A BOLA, certamente —, assinada por Elsa Bicho e publicada em 3 de Janeiro de 2004. Achei-a importante, um diploma de adepto e membro da direcção do TORREENSE, como o da TOMADA DE POSSE dos Corpos Socais do Sport Clube União Torreense, emoldurado e exposto numa das paredes, entre outras memórias. Ambos os documentos nos falam do torreensista, mas vão além disso. A transcrição, tal qual, do texto e o recorte das imagens são partilha do prazer que tive ao ler e ver tudo com atenção. Há aqui ligação à vida, no que ficamos a conhecer e mais no que se deixa imaginar… Foi no adeus que fiquei a conhecer. As coisas, as pessoas estiveram sempre lá. Dentro delas, mundos…
    A barbearia era uma tertúlia, com duas (ou três) pessoas residentes, sentadas de costas viradas para a janela. Lembro o Senhor Bezerra ali sentado. Sei agora, pela foto da equipa campeã da Zona Sul, 1963/64, que foi jogador do Torreense.
    Não resisto, também, a transcrever as informações do diploma da tomada de posse, por a imagem ser de difícil leitura, sobretudo na parte superior.
    (Esta mensagem tem relação e deve ser completada por esta e esta.)



    «Fotografias e galhardetes enchem as paredes da carismática barbearia de Torres Vedras»

    «Vítor Hugo é dirigente do Torreense há trinta anos»

    «Torres Vedras — terra dos afamados pastéis de feijão»
    SÁBADO, 3 de Janeiro de 2004 |31
    FUTEBOL | REPORTAGEM → II DIVISÃO B
    SE É ADEPTO FERVOROSO DO CLUBE DE TORRES VEDRAS, ENTÃO ENTRE NA BARBEARIA CARECA
    Barba e cabelo à Torreense
    Por ELSA BICHO
    DESDE os onze anos que corta cabelos, na altura empoleirado em caixotes para chegar aos clientes com quem sempre teve por predilecto um único assunto — o Torreense. Na Barbearia Careca, como é conhecido o estabelecimento decorado com fotografias e galhardetes do clube de Torres Vedras, toda a população lá para para comentar com o senhor Vítor Hugo se a jornada correu de feição ao clube local. Muitos até dispensam o estádio. Não faz mal, o barbeiro careca faz o relato.

    É no largo da igreja matriz que, em Torres Vedras, se reúnem muitos dos indefectíveis torreenses. Mais concretamente à porta da Barbearia Careca, como é conhecido na terra o salão do senhor Vítor Hugo que, há 60 anos tem a porta aberta, herança de seu pai também barbeiro. Duas gerações de ferrenhos torreenses, clube de que é dirigente desde os 42 anos.
    «Faço parte da Direcção do clube há 30 anos. Tenho 72 e desde que sou gente que me recordo de viver, intensamente, a vida do clube. Nasci cá, chegeuei a jogar nos juniores do Torreense, o meu filho, Rui Agostinho, é lá treinador das camadas jovens e os meus dois netos jogam no Torreense. Um deles atá já foi treinar-se à experiência na Academia do Sporting, mas cá no clube é que ele está bem. Eu até sou benfiquista», contrapõe, denunciando a sua outra cor clubística.
    «São tantas as recordações de anos a fio… mas a mais saborosa foi a vitória sobre o F. C. Porto na Taça de Portugal. Não esperava. Fiquei maluco», prossegue, feliz por o quererem ouvir falar do Torreense.
    Frutos do tempo
    Muitas são as diferenças encontradas por quem segue a par e passo a vida de uma colectividade que, forçosamente, muto se alterou com os anos. «A vida é outra, claro. Antes Torres Vedras era uma cidade com muita indústria, tinha várias empresas que puxavam pelo clube, apoiavam-no, incitavam o futebol da terra. Agora a maioria das empresas faliu, acabaram-se as costas quentes. O clube tem menos possibilidades, os sócios nem chegam aos três mil. Enfim, fruto do tempo», justifica assim o senhor Vítor Hugo a perda de algum fulgor do clube de Torres Vedras.
    Assunto inesgotável
    Quem tão desinteressadamente se dedica ao futebol local só se sente à vontade quando este é o tema da conversa. «Aqui na barbearia, sítio de homens, estamos sempre a falar de futebol e, claro, do nosso Torreense. Agora, que estão em segundo lugar da zona Centro, ainda mais. Começaram bem esta época, depois foram-se um bocado abaixo e agora estão de novo a conseguir resultados», analisa o barbeiro, pronto a ali ficar o resto da manhã a debater o assunto com os companheiros que, diariamente, consigo trocam dedos de conversa.
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    [Destaque]
    ALDEIA GRANDE
    Numa das principais praças de Torres Vedras lia, tranquilo, o seu jornal o sócio n.º 918 do Torreense, o senhor Teófilo Gregório. «Se querem alguém que vos fale do Torreense até amanhã de manhã vão à barbearia Careca», informou quem também segue o futebol local: «Isto é uma aldeia grande. Claro que quando o clube está bem puxa mais gente, caso contrário, sem carne não se fazem chouriços.»
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    CLIENTE DO COSTUME
    Bom ouvinte
    Francisco Sousa é habitual cliente da barbearia. Quanto mais não seja é habitual companhia do barbeiro de Torres Vedras que sempre o põe a par do que, eventualmente, possa perder. «Não vou ao estádio do Torreense há três anos. Vi-os uma vez jogar tão mal com o Beira-Mar que disse a mim mesmo — tão depressa não venho cá. E foi o que fiz. Mas continuo sócio», vinca quem mais escuta o barbeiro torreense a falar do seu estimado clube. «Mas não há qualquer tipo de problema. Venho cá à segunda-feira de manhã e o Vítor Hugo conta-me tudo sobre o jogo. Ele é que me faz o relato», diz sorridente, aproveitando para mais uma escovadela.
    ENCHENTES ACABARAM
    Juventude dedicada
    A doze quilómetros de torres Vedras já na auto-estrada se recebem as boas-vindas do clube: «O Torreense e a C. M. Torres Vedras saúdam-vos», lê-se no placard. Ao entrar na cidade, seja pelo lado Norte ou Sul, estrategicamente colocados nas rotundas, estão outros placards actualizados com o calendário do clube. «Torreense, domingo, dia 11, 15 horas, Estarreja», informa por estes dias. «Mesmo assim não há comparação com as assistências de antigamente. A juventude de cá até vai ao estádio, vai sim senhora. Até lá costumam estar muitos miúdos das escolas, por vezes até acompanhados de pais e familiares. Mas, claro, o estádio enchia-se na I Divisão, quando apareciam mais de dez mil pessoas, recorda o barbeiro que, todos os dias, às 8.30 horas, em ponto, abre a porá do estabelecimento.
    ALÉM DE MOINHOS E PASTÉIS DE FEIJÃO
    Torreense e Joaquim Agostinho
    As paredes da Barbearia Careca são um tributo ao Torreense, num estabelecimento onde até está emoldurado o papiro da tomada de posse da primeira Direcção de Vítor Hugo. Numa outra parede não falta, refira-se, a fotografia de Joaquim Agostinho, pródigo filho da cidade de Torres Vedras.
    Animado e bem-disposto está sempre o ajudante Carlos, confirmando em alto e bom som o quanto é ferrenho pelo Torreense o patrão. «Faça agora risco ao meio para aparecer bonito na fotografia», brinca, divorciando-se do clube que não lhe dá assim tantas alegrias.
    «Fui lá na última jornada, eles ganharam mas foi só pontapé para o ar e fé em Deus», demarca-se. À porta da barbearia habituais da zona espreitam para ver o barbeiro careca», retorquia quem achava graça a ímpar situação daquela manhã.