quarta-feira, 12 de abril de 2017

Maria Helena da Rocha Pereira, na sua morte

11 de Abril de 2017  


Hoje, o Público traz dois artigos sobre Maria Helena da Rocha Pereira (3 -9-1925 – 10-04-2017). É edição para guardar.
De cada um dos artigos recolho uma ideia, uma informação. Do primeiro, fica aqui «Eu vivo com os antigos», o que se compreende muito bem, tal é o fascínio que sempre exerceram até os nossos dias em quem tem tido o privilégio de os frequentar. É um mundo exemplar, iluminando tanta situação com que a humanidade se vai confrontando. Os antigos são, no fundo, nossos contemporâneos. Do segundo, retive a proeza da menina, que aos treze anos leu a Oresteia, de Ésquilo, leitura que foi «um dos factores que a levaram a escolher o curso de Clássicas».

O resto é consigo. Acrescento no final alguns endereços electrónicos para saber mais sobre esta grande portuguesa e ainda Frederico Lourenço, pois há muito em comum entre eles e dela fala com admiração.

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Morreu a mulher que aprendeu com os gregos que as coisas belas são difíceis
10 de Abril de 2017, 9:10 actualizado a 10 de Abril às 20:55
Maria Helena da Rocha Pereira (1925-2017) foi durante décadas o rosto dos Estudos Clássicos em Portugal. Deixa uma obra vastíssima e um exemplo de determinação e rigor. As suas traduções das grandes tragédias gregas são uma referência, assim como os trabalhos que fez à volta da literatura portuguesa
Os seus olhos azuis, tão claros e incisivos quanto as suas ideias, garantem colegas e amigos, denunciavam com facilidade grande entusiasmo quando falava dos gregos e dos latinos, quer fosse na literatura, quer fosse na ciência ou na história de arte. “Eu vivo com os antigos”, dizia, os antigos que estudou durante décadas e que, aparentemente, nunca deixaram de lhe despertar a curiosidade.
Maria Helena da Rocha Pereira, a mais importante especialista portuguesa em Estudos Clássicos, morreu esta segunda-feira no Porto, aos 91 anos, avançou ao PÚBLICO fonte próxima da família. A cidade onde nasceu é também a cidade onde será sepultada, depois das cerimónias fúnebres que se realizam a partir das 15h de terça na Igreja da Lapa.
“Vou ensinar aquilo que sei, [digo aos meus alunos]. Em muitos casos vamos ficar na dúvida. A dúvida é científica. Às vezes mais científica que a verdade”, afirmava numa entrevista ao Diário de Notícias, em 2003, sublinhando o gosto pelo ensino, actividade que encarou como uma verdadeira missão, fazendo da vida académica o seu “sacerdócio”. Em 1956 tornou-se a primeira mulher doutorada pela Universidade de Coimbra (UC), instituição onde deu aulas até se jubilar, em 1995, e que em 1964 faria dela a sua primeira catedrática.

Com mais de 300 obras no currículo, entre livros e artigos publicados em Portugal e no estrangeiro, Rocha Pereira foi responsável pela divulgação da cultura clássica a várias gerações que foram lendo os seus dois volumes dos Estudos de História da Cultura Clássica (o primeiro dedicado à cultura grega, o segundo à romana), de 1965, as suas compilações de textos gregos e latinos (Hélade e Romana), e as traduções que fez das grandes tragédias de Sófocles (Antígona, Ajáx) e Eurípides (Medeia, Troianas, As Bacantes).
“Aprendi as línguas como acesso às respectivas literaturas: era para ler os grandes autores no original. Não há nada que substitua o original”, dizia esta mulher que tanto se dedicou à tradução, embora não gostasse de o fazer. E é porque tanto traduziu que hoje os alunos de Estudos Clássicos espalhados pelo país têm “ferramentas de trabalho incríveis”, assegura Fátima Silva, uma discípula que é hoje professora na UC e que faz questão de sublinhar a sua "competência extrema" e o “rigor absoluto” que colocava em tudo o que fazia. “Mesmo depois de se jubilar continuou a acompanhar teses e a ler, a estudar. Estava sempre na linha da frente, actualizada, porque nunca perdeu o desejo de saber mais, nunca perdeu a curiosidade”, diz ao PÚBLICO.
Oxford, uma aventura
Nascida no Porto, em 1925, numa família com dinheiro e que vivia num palacete no meio de um jardim, Maria Helena da Rocha Pereira deu provas da sua inclinação para o ensino desde muito cedo. Tendo aprendido a ler aos quatro anos, aos seis já ensinava as empregadas da casa a fazê-lo. O pai, um médico e professor que conseguia ser muito austero mas também lhe dizia versos da Eneida de cor, e a mãe, que se encarregava da educação de Rocha Pereira e da sua irmã mais velha que haveria de se formar em Matemática, fizeram questão que as filhas completassem o liceu e, mais tarde, o curso universitário, algo que na época provocou escândalo. “As meninas de bem iam para o colégio” não para o liceu, lembrava na mesma entrevista de 2003, e, naquela altura, uma mulher aspirar a uma carreira académica era algo “impensável”. Mas foi precisamente isso que fez, até ao topo, com uma determinação imensa.
Quando chegou à Universidade de Coimbra foi-lhe fácil acabar o curso de Filologia Clássica com 17 valores, difícil foi convencer o conservador meio académico de que não queria ficar por ali. Só um professor, o de Grego, em toda a UC a encorajou a continuar e foi ele que a aconselhou a ir para a Universidade de Oxford, que tinha na época um dos melhores centros de estudos clássicos.
“É incrível pensarmos que ela, uma menina do Porto, parte sozinha naquela altura para estudar em Oxford, quando quem saía, raríssimos, o fazia para Paris... Uma mulher no Portugal do Estado Novo, fechado a tudo, numa área dominada por homens. Foi precisa uma enorme coragem, determinação, vontade de aprender, coisas que a Maria Helena da Rocha Pereira teve toda a vida”, diz Frederico Lourenço, tradutor e professor de Grego na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
A sua ligação aos estudos clássicos que se faziam no Reino Unido e também na Alemanha – “ela falava muito bem alemão e isso ajudou muitíssimo porque lhe deu acesso a fontes que muitos não liam por não estarem traduzidas” – permitiu abrir Portugal nesta área, defende o também escritor de 54 anos, Prémio Pessoa 2016.
Rocha Pereira chegou pela primeira vez a Oxford em 1950, aos 25 anos, quando Londres estava ainda sob racionamento e na universidades havia uma série de professores fugidos ao nazismo. Foi lá que fez parte da investigação que levaria ao seu doutoramento, cuja tese defendeu em 1956 (Concepções Helénicas de Felicidade no Além, de Homero a Platão).
Bastaram-lhe quatro anos e meio para concluir um doutoramento que poderia ter feito em seis, gostava de recordar. Quando terminou a tese não havia júri para a avaliar e, como era impensável convidar um professor estrangeiro para arguir, Rocha Pereira teve de esperar um ano e meio para a poder defender. “O meu doutoramento foi o primeiro de uma senhora numa universidade que tinha 666 anos, na altura. Eu queria atingir essa meta, indispensável para poder continuar e para ensinar. Gosto muito de ensinar.”
Foi também em Inglaterra que fez uma das especializações de que mais se orgulhava, em vasos gregos, com aquele que continua a ser dos maiores estudiosos na área, John Davidson Beazley (1885-1970), professor de arqueologia e arte clássicas (a ele se deve a categorização dos vasos gregos segundo o seu estilo). Dela resultou aquela que é para Fátima Silva, 66 anos, professora catedrática do Instituto de Estudos Clássicos de Coimbra, uma das suas obras mais importantes, Greek Vases in Portugal (1962).
"O que interessa é o mestre vivo"
Terminado o doutoramento, Rocha Pereira continuou a leccionar e a estudar, publicando sempre o que escrevia. Em 1964 chegaria a etapa seguinte, o concurso para professora catedrática em que seria aprovada por unanimidade. O dia em que, pelo braço do pai, subiu a escadaria da universidade para prestar provas está entre os momentos de grande felicidade do seu percurso. Talvez o equiparasse, de certa forma, a uma condução ao altar em dia de casamento, algo muito comum para as mulheres da sua geração, mas que nunca aconteceu na vida de Maria Helena da Rocha Pereira. Casar e ser mãe era algo que só concebia num regime de absoluta dedicação, algo que não era, por isso, compatível com a docência. E, na hora de escolher, escolheu ensinar, explicava aos que lhe perguntavam por que abdicara de constituir família.
Rocha Pereira fez do ensino a sua missão, dedicando-se de forma invulgar à vida universitária, continua Fátima Silva. De uma “objectividade rara”, espalhou discípulos por várias universidades do país porque, garante esta sua antiga aluna, entendia ser dever de um professor deixar uma escola. “Um professor que não crie discípulos não é completo […]. O que interessa é o mestre vivo”, defendia.
Delfim Leão, director da Imprensa da Universidade de Coimbra, é um desses discípulos. Foi aluno e assistente de Rocha Pereira, que também orientou a sua tese de doutoramento. É este professor de História da Cultura Clássica, uma das cadeiras que a investigadora leccionou durante décadas, que está à frente do programa editorial que está a disponibilizar, em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian, dez volumes que reúnem textos que Rocha Pereira escreveu e traduziu ao longo da sua carreira (em Maio saem mais dois, um com traduções de poetas gregos com destaque para os grandes trágicos como Sófocles e Eurípides, o outro inteiramente dedicado à Arte Antiga).
Aos 47 anos, este coordenador do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da UC explica por que razão se pode dizer sem medo de errar que Rocha Pereira “refundou os estudos clássicos em Portugal”, dando-lhes uma dimensão internacional inédita até então: “A sua formação em Oxford junto de grandes nomes dos estudos clássicos, o que escreve sobre os vasos gregos e os inúmeros artigos que publica no estrangeiro reflectem a abertura que ela impôs nesta área.”
Frederico Lourenço concorda, chamando a atenção, num breve texto de cinco parágrafos que publicou no Facebook, para a edição crítica da obra completa do geógrafo Pausânias que fez para a editora alemã Teubner, “uma subida ao topo do Olimpo académico que, até hoje, nenhum português conseguiu emular”, escreve o tradutor.
Lourenço nunca a teve como professora porque estudou em Lisboa, mas leu muito do que ela escreveu e contou com Rocha Pereira no júri do seu doutoramento. “Havia um certo terror quando se sabia que a professora fazia parte do júri, simplesmente porque ela era de uma exigência extraordinária, em primeiro lugar consigo mesma, e depois com os outros.”
Para este professor, tradutor de clássicos como Odisseia e Ilíada, Rocha Pereira é um exemplo de dedicação à cultura e ao ensino. Entre as muitas obras fundamentais que deixou, salienta a tradução que fez de A República, de Platão. “A professora Rocha Pereira dá-nos uma panorâmica extraordinária da cultura grega com os textos de Sófocles, Eurípedes, mas a mais fantástica das suas traduções é, na minha opinião, A República. É uma tradução que vai ficar para sempre porque é de uma imensa qualidade. E estamos a falar de um texto que é dificílimo de traduzir porque obriga a conhecimentos de grego muito exigentes e a um enquadramento filosófico muito sério.”
“Sempre me surpreendeu que uma pessoa desta envergadura nunca tivesse recebido o prémio Camões ou o prémio Pessoa”, diz o editor portuense da Modo de Ler, José da Cruz Santos, responsável pelas mais recentes edições (na Asa e na Guimarães) das duas grandes antologias de Maria Helena Rocha Pereira – a Hélade e a Romana –, e ainda de Portugal e a Herança Clássica (2004), que considera “um livro importantíssimo”, e que mostra bem que as leituras da professora de Coimbra estavam longe de se restringir à sua área de especialidade académica. “Tem nesse livro dois capítulos muito interessantes sobre Camilo, e também deixou um trabalho sobre Guerra Junqueiro, escreveu um texto fantástico sobre Eugénio de Andrade, e interessava-se pelo Aquilino, o Torga, o Manuel Alegre”.
Lamentando que o Porto “não tenha feito por ela o que deveria ter feito”, mas contente por ter sabido que a autarquia estará a ponderar homenageá-la na feira do livro do próximo ano, Cruz Santos observa que “não é por acaso que a Hélade e a Romana são obras que nunca foram ultrapassadas, ninguém se arriscou a aparecer com novas edições que pudessem fazer frente às dela”. E conta que, nas últimas reedições revistas da antologia da poesia latina, Maria Helena Rocha Pereira foi dispensando algumas traduções antigas feitas por outros autores que ainda aproveitara nas primeiras versões, substituindo-as por traduções da sua própria lavra. Com uma só excepção. “Manteve sempre as traduções de Ovídio feitas pelo Bocage, porque dizia que era impossível fazer-se melhor.”
Rocha Pereira, mostra-o bem o seu percurso académico, não recuava perante nenhuma dificuldade. Foi com ela, aliás, que Delfim Leão diz ter aprendido a nunca desistir. O que mais o impressionou sempre foi a forma como conciliava uma “grandeza intelectual inalcançável” com uma “generosidade incrível” para com os seus alunos: “Ela não partilhava apenas os seus conhecimentos, aquela maneira que tinha de contar histórias sobre a Grécia Antiga, partilhava também a sua biblioteca pessoal, durante muito tempo bem melhor do que a da faculdade no que à História da Cultura Clássica dizia respeito. Estava sempre aberta para nós.”
Como o PÚBLICO destacava em 2006, quando lhe foi atribuído o prémio Universidade de Coimbra, um dos muitos que ganhou, a autora estudou as influências clássicas na literatura e cultura portuguesas, analisando inúmeros autores — de Camões a Pessoa, passando por Camilo e Torga, entre muitos outros. Trabalho recolhido nos volumes Temas Clássicos na Poesia Portuguesa (1972), Novos Ensaios sobre Temas Clássicos na Poesia Portuguesa (1982) e Portugal e a Herança Clássica e Outros Textos (2003). O latim medieval também foi alvo da sua investigação, reunida no volume Pedro Hispano: Obras Médicas (1973), Vida e Milagres de São Rosendo (1970), Vida de Santa Senhorinha (1970) e Vida de São Teotónio (1987).
O que fizeram os gregos e os romanos ajuda a explicar o que somos hoje, defendia, e é por isso que a contemporaneidade lhe interessava. “Eu vivo com os antigos”, dizia numa entrevista a Alexandra Lucas Coelho nas páginas do PÚBLICO, em Setembro de 2001, para acrescentar em seguida que os homens não tinham mudado assim tanto desde os poemas homéricos que são, “talvez”, do século VIII a.C.: “Em relação aos antigos, a diferença espiritual, intelectual não é tão grande como parece: o homem é sempre o mesmo. Infelizmente, não perde os defeitos que tinha, por vezes não conserva as virtudes.” E continuava: “Há Antígonas por toda a parte, na América, em países africanos… As grandes tragédias gregas vão à essência do homem, do que o homem pode viver. E continuam entre nós, em metamorfoses do original.”
Não sabemos o que Maria Helena da Rocha Pereira gostaria que sobre ela se dissesse depois da sua morte porque, como afirmou numa entrevista, nunca pensou escrever o seu epitáfio e não sabia conceber o infinito. Citava os gregos para dizer que a vida lhe ensinara, isso sim, que as coisas belas são difíceis. O que não é pouco.
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Clássica, mas muito moderna
Maria Helena da Rocha Pereira (1925- 2017) é um caso exemplar de uma paixão pela Grécia clássica que se traduziu num trabalho de enorme alcance, no domínio da tradução, da edição e dos estudos da cultura e da literatura.

António Guerreiro
10 de Abril de 2017

Maria Helena da Rocha Pereira (1925- 2017) foi, durante décadas, o rosto dos estudos clássicos — sobretudo da cultura e da literatura gregas — em Portugal. Aos méritos do seu trabalho, enquanto professora, tradutora, estudiosa e divulgadora, somou-se o papel pioneiro e fundador que desempenhou: contribuiu muito, com o seu trabalho filológico e de tradutora, para introduzir na universidade uma visão muito mais alargada do estudo da cultura clássica, rompendo com aquela estrita visão que fazia dos textos dos autores gregos e latinos meros campos de exercício para satisfazer esta exigência: “Conjuga e declina, saberás a língua latina.” As competências de âmbito linguístico e gramatical foram sempre, para ela, um instrumento para aceder à riqueza cultural e literária dos textos da Antiguidade. Por razões que já não são de ordem científica, coube-lhe também o papel pioneiro de ter entrado, isolada, num mundo estritamente masculino.
Segundo o seu testemunho, foi a leitura de uma tragédia grega, a Oresteia, de Ésquilo, quando tinha 13 anos, um dos factores que a levaram a escolher o curso de Clássicas. Mas quando entrou para a Universidade de Coimbra não tinha aprendido Grego no Liceu, apenas Latim. Por isso, no fim do curso, não conseguia ainda ler os textos gregos mais complicados. Três anos depois de ter acabado a licenciatura, e apenas com quatro anos de Grego, foi estudar para Oxford. Aí, na Faculdade de Litterae Humaniores (era assim que se chamava), teve como director de estudos o professor Dodds, autor de um famoso livro, Os Gregos e o Irracional, e, para além de aperfeiçoar bastante a sua competência na língua grega, iniciou-se em Crítica Textual, Paleografia Grega e Epigrafia.
E estudou os vasos gregos (um domínio da arte em que se tornou uma reputada especialista; e chegou a ensinar História da Arte Grega) com a maior autoridade da época: John Bazley. Esta estadia em Oxford e também alguns conhecimentos da língua alemã permitiram-lhe uma abertura, importante em todo o seu trabalho, às tradições filológicas dos dois países mais importantes na filologia clássica: a Inglaterra e a Alemanha. Foi, aliás, da Alemanha, da Academia das Ciências de Berlim, que lhe chegou o convite para fazer uma edição crítica de Pausânias, para a prestigiada Biblioteca Teubneriana. E considerava que esse tinha sido o seu trabalho mais importante (ainda neste domínio da edição crítica, recordemos que também editou os textos em latim de Pedro Hispano). A sua tese de doutoramento intitulou-se “Concepções Helénicas de Felicidade no Além, de Homero a Platão”. Se procurarmos a linhagem em que se inscreve, Maria Helena da Rocha Pereira está muito mais próxima da lição de um Wilamowitz (o importante filólogo alemão que morreu em 1931) do que de quaisquer mestres nacionais.
 Para além dos muros da universidade, o nome de Maria Helena da Rocha Pereira irradiou sobretudo enquanto tradutora. Não admira: a tradução das grandes obras clássicas era mais do que deficiente e, na maior parte dos casos, nem era feita do original. Confessou, algumas vezes, que nem gostava de traduzir, mas fê-lo por necessidade, para tornar acessíveis, na universidade, os textos fundamentais da cultura grega. Essas traduções começaram por ser distribuídas em folhas e destinavam-se sobretudo aos alunos de História da Cultura Clássica. Foi assim que nasceu, em 1959, a primeira edição da sua famosa antologia, Hélade. Depois traduziu obras tão importantes como A República, de Platão, a Medeia, de Eurípedes, a Antígona, de Sófocles. A tradução destas duas tragédias nasceu da sua colaboração para o Teatro Universitário de Coimbra, foi a resposta a um pedido de Paulo Quintela — o que ajuda a perceber a vasta dimensão literária e cultural que presidia a todo o seu trabalho.
Se foi também uma divulgadora da cultura grega (e alguém que se serviu da sua autoridade para reivindicar o reforço do ensino das línguas e culturas clássicas), não foi por ter acedido a entrar em simplificações, nem para se encerrar no passado, mas porque via o mundo em que viveu, o mundo contemporâneo, através da mediação da cultura grega e latina. Sempre teve a preocupação de mostrar que essa cultura não era uma relíquia de museu ou objecto de uma historiografia mortuária. Por isso, escreveu ensaios importantes sobre a presença da cultura grega nalguns autores contemporâneos — por exemplo, Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugénio de Andrade e Miguel Torga. São estudos em que é bem visível que Maria Helena da Rocha Pereira era uma leitora atenta da literatura (e sobretudo da poesia) portuguesa. A sua visão da Grécia era muito de tipo apolíneo, razão pela qual achava que a categoria do dionisíaco, desenvolvida por Nietzsche em A Origem da Tragédia, era “um erro”, que não tinha em conta toda a complexidade da religião dionisíaca. Ainda assim, dizia: “um erro genial”.
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https://www.publico.pt/2014/08/17/culturaipsilon/noticia/o-leitor-do-mundo-1666207

(Anabela Mota Ribeiro, texto, e Miguel Manso, fotografia, 17-08-2014)

terça-feira, 4 de abril de 2017

A ignorância atrevida

[Pela importância que lhe atribuo, divulga-se aqui artigo de José Pacheco Pereira, no suplemento Ípsilon, do Público on-line, (divulgado também no Facebook - Tradutores contra o Acordo Ortográfico), em defesa da língua portuguesa e de tudo o que faz de cada um de nós mais pessoa, contra a ignorância atrevida. O valor dado às humanidades e aos estudos clássicos é hoje quase nulo. Elogio da inutilidade.]

OPINIÃO
O nó górdio
O prémio a Frederico Lourenço não nos deve iludir. O mundo sobre o qual ele estuda, escreve e traduz é cada vez menos presente no espaço público do saber, onde cada vez menos se sabe sobre o mundo clássico.

3 de Abril de 2017, 6:30


Dedicado à memória de José Medeiros Ferreira,
que uma vez, numa entrevista, falou do “nó górdio”
a uma jornalista, que lhe disse que não sabia o que aquilo era
e recebeu como resposta: “Se não sabe, devia saber”.

Um Prémio Pessoa mais que merecido foi atribuído a Frederico Lourenço, pela sua obra de especialista e tradutor de literatura clássica, em particular literatura grega. A sua recente tradução da Bíblia a partir do texto grego tem sido saudada como um acontecimento cultural de relevo, mas Frederico Lourenço já tinha traduzido muitos outros textos clássicos, com relevo para Homero. É apenas pena, mas as coisas são como são, que muitos Prémios Pessoa sejam para o homem que foi falado nos seis meses anteriores ao prémio, mas isso é infelizmente um costume cada vez mais comum, resultado da mediatização de toda a vida pública. Num dos sítios em que esta mediatização mais estragos faz é na cultura, mas isso não invalida o mérito do prémio a Lourenço.
O prémio a Frederico Lourenço, no entanto, não nos deve iludir. O mundo sobre o qual ele estuda, escreve e traduz é cada vez menos presente no espaço público do saber, onde cada vez menos se sabe sobre o mundo clássico, e, embora nunca se soubesse muito comparado com os países da Reforma, também cada vez menos se sabe sobre a Bíblia. Não nos devemos iludir quanto ao valor que a escola, a universidade, a sociedade, a comunicação – já para não falar das chamadas “redes sociais” – e a política hoje dão às humanidades e aos estudos clássicos. Esse valor é quase nulo. Pelo contrário, é entendido como um conhecimento inútil, que justifica o corte de financiamentos, a colocação no último lugar da fila, quando não da extinção curricular, das disciplinas do Latim e do Grego, que conseguem ficar atrás da Filosofia. E não é só este cerco às humanidades clássicas — em bom rigor a todas as humanidades — é a sua desvalorização pública implícita em muito documento, declaração política, e em acto.
O mais flagrante exemplo é a defesa de um Acordo Ortográfico que se pretende impor manu militari, e que corta as raízes ortográficas do português no latim. Já para não falar das invectivas contra o conhecimento daquele “comissário” jovem que melhor do que ninguém explica a atitude do extinto Governo PSD-CDS para com estas matérias. E quem escreve ist, considera que se é tanto ignorante se não se souber o que é o princípio de Arquimedes, ou a segunda lei da termodinâmica, como desconhecer quem era Polifemo ou Salomão, ou Judite ou o Bom Samaritano.
A menorização das humanidades, e a ainda maior desvalorização dos estudos clássicos, vem junto com a redução da memória colectiva. A perda de raízes é uma constante nas sociedades contemporâneas, não só em Portugal, mas em Portugal com a gravidade maior de que a nova ignorância se soma à antiga. E em que há pouca consciência dos estragos que essa nova ignorância nos faz, fazendo-nos andar para trás.
O problema actual da ignorância é que a ignorância nunca teve tão boa imprensa, tão bons defensores, tão arrogantes cavaleiros contra o saber, como nos dias de hoje. Um destes frutos da nova ignorância é Presidente dos EUA, e acha que tudo o que é preciso saber para se ter sucesso é conduzir o país ao modelo dos seus negócios predadores, e das ideias racistas e xenófobas que nascem nos lugares mais infectos das redes sociais. E estando ele onde está, escolhe os seus colaboradores ao mesmo modelo, que escolherão os altos funcionários pela mesma bitola – na verdade "comissários" destinados a zelar pelo #MAGA – e por aí adiante, embrutecendo a sociedade de cima para baixo, dando toda a razão ao ditado popular de que o “peixe apodrece pela cabeça”. A dissolução de todos os padrões que implicavam que era preciso saber alguma coisa de ambiente, de comércio internacional, de política externa, de educação para se exercerem funções nessas áreas explicam por que razão a “desconfiança do conhecimento” (“distrust for expertise”) e a dissolução da verdade (“fake news”) são hoje os critérios de funcionamento da administração Trump. E enganam-se todos os que não percebem que estas atitudes são modernas, moderníssimas, tanto como o último telefone inteligente, para usar uma comparação apropriada.
E não é só nos EUA, também cá temos cada vez mais activos zeladores da ignorância que querem colocar uma bola onde costumava, quando os animais falavam, estar uma cabeça humana. As ideias circulantes de que se substituem “literacias”, como agora se diz, que “já nada dizem” aos jovens de hoje (e aos adultos diga-se de passagem), por outras “literacias” que as substituem e são “mais apelativas” porque se podem digitar num telefone, ou numa mensagem de 140 caracteres, ou “postar” como fotografias de comida, ou a loquacidade vazia e deprimente do WhatsApp, destinadas a substituir a sociabilidade presencial pela sociabilidade virtual, são instrumentais para justificar a ignorância e varrer dos currículos tudo aquilo que parece inútil, substituindo o conhecimento pela tagarelice e pelo generalizado défice de atenção.
Não. Os conhecimentos não se substituem uns aos outros, complementam-se. E o que falta, faz sempre falta. Várias vezes me interrogo como é possível atirar alunos do secundário para ler Os Maias, ou seja que obra for de Eça, ou Camilo, ou Camões, ou Gil Vicente, ou Nemésio, ou Jorge de Sena, ou seja lá que obra literária que é suposto ler-se no secundário e nos anos de escolaridade obrigatória, sem saber nada de mitologia grega ou da Bíblia, já para não falar do rico vocabulário do português que não cabe numa mensagem do Twitter. Não sei, aliás, por que se pensa nos nossos dias que “não cabe” na cabeça das pessoas muita coisa. É irónico que a modernidade nos forneça discos rígidos com terabites de espaço, e pareça encolher-nos as cabeças.
Voltando a Frederico Lourenço, podemos de facto viver confortavelmente, em particular se herdarmos alguma coisa, e ter sucesso, sem saber nada da Odisseia, ou da Antologia Grega, saber quem era Argos ou Tifão, desconhecer tudo de Esparta e Atenas, de Sófocles e Tucídides ou nunca ter lido uma “vida” de Plutarco (por falar nisso, uma leitura obrigatória durante mais de um milénio para todos os que quisessem ter uma vida pública…) ou dos relatos em que um profeta apocalíptico chamado Jesus anunciava o fim do mundo e o caminho da “salvação”. Podemos. Mas somos mais pobres por isso.
Antigamente isto chamava-se “experiência indirecta”, não substituía a directa, mas ajudava muito. E, numa curva da vida, em vez de ir a correr a um praticante de qualquer terapia arcana, ou à bruxa – o que, para a nova ignorância, não é tão diferente como isso – sempre se podia saber que outros homens e mulheres, que vivem no mundo dos “antigos”, conhecem alguma coisa sobre a doença ou a morte, sobre a felicidade e a curiosidade, sobre a esperança e o destino inelutável, sobre a heroicidade e a cobardia, sobre a traição e a lealdade, sobre a honra e a vergonha, sobre a intriga, a moda e o sexo. As suas palavras tinham toda a força, porque eram muitas vezes as primeiras que eram escritas sobre as mais humanas das atitudes, e estão no terreno que pisamos, mesmo que não o saibamos. Mas vale muito mais saber.
P.S.: E nem sequer custa dinheiro. Na colecção Classica Digitalia estão, por exemplo, as duas últimas obras, traduções de Carlos de Jesus, de partes da Antologia Grega. Uma é a tradução da Musa dos Rapazes, que é aquilo que o próprio nome indica, uma antologia de poemas sobre a homossexualidade, e o Apêndice de Planudes, uma antologia de epigramas que exerceu enorme influência, durante séculos, em quem se iniciava no grego. Querem um exemplo do que lá está, escolhido a dedo para não ferir as susceptibilidades dos sisudos leitores do PÚBLICO, com algumas considerações poético-anatómicas, digamos assim, muito vivas? De Meleagro,
Não mais escreverei sobre o belo Téron, ou Apolodoro,
antes fogo incandescente, agora cinza apagada.
Prefiro o amor de mulheres; refregar-se com garanhões
hirsutos é para pastores que montam as suas cabras.