11 de Abril de 2017
Hoje, o Público traz dois artigos sobre Maria Helena da
Rocha Pereira (3 -9-1925 – 10-04-2017). É edição para guardar.
De cada um dos artigos recolho uma ideia, uma
informação. Do primeiro, fica aqui «Eu vivo com os antigos», o que se
compreende muito bem, tal é o fascínio que sempre exerceram até os nossos dias
em quem tem tido o privilégio de os frequentar. É um mundo exemplar, iluminando
tanta situação com que a humanidade se vai confrontando. Os antigos são, no
fundo, nossos contemporâneos. Do segundo, retive a proeza da menina, que aos
treze anos leu a Oresteia, de
Ésquilo, leitura que foi «um dos factores que a levaram a escolher o curso de
Clássicas».
*
Morreu a
mulher que aprendeu com os gregos que as coisas belas são difíceis
10 de Abril de 2017, 9:10 actualizado a 10 de Abril às
20:55
Maria Helena da Rocha Pereira
(1925-2017) foi durante décadas o rosto dos Estudos Clássicos em Portugal.
Deixa uma obra vastíssima e um exemplo de determinação e rigor. As suas
traduções das grandes tragédias gregas são uma referência, assim como os
trabalhos que fez à volta da literatura portuguesa
Os
seus olhos azuis, tão claros e incisivos quanto as suas ideias, garantem
colegas e amigos, denunciavam com facilidade grande entusiasmo quando falava
dos gregos e dos latinos, quer fosse na literatura, quer fosse na ciência ou na
história de arte. “Eu vivo com os antigos”, dizia, os antigos que estudou
durante décadas e que, aparentemente, nunca deixaram de lhe despertar a
curiosidade.
Maria Helena da Rocha Pereira, a mais importante
especialista portuguesa em Estudos Clássicos, morreu esta segunda-feira no
Porto, aos 91 anos, avançou ao PÚBLICO fonte próxima da família. A cidade onde
nasceu é também a cidade onde será sepultada, depois das cerimónias fúnebres
que se realizam a partir das 15h de terça na Igreja da Lapa.
“Vou ensinar aquilo que sei, [digo aos meus alunos].
Em muitos casos vamos ficar na dúvida. A dúvida é científica. Às vezes mais
científica que a verdade”, afirmava numa entrevista ao Diário de Notícias,
em 2003, sublinhando o gosto pelo ensino, actividade que encarou como uma
verdadeira missão, fazendo da vida académica o seu “sacerdócio”. Em 1956
tornou-se a primeira mulher doutorada pela Universidade de Coimbra (UC),
instituição onde deu aulas até se jubilar, em 1995, e que em 1964 faria dela a
sua primeira catedrática.
Com mais de 300 obras no currículo,
entre livros e artigos publicados em Portugal e no estrangeiro, Rocha Pereira
foi responsável pela divulgação da cultura clássica a várias gerações que foram
lendo os seus dois volumes dos Estudos de História da Cultura Clássica
(o primeiro dedicado à cultura grega, o segundo à romana), de 1965, as suas
compilações de textos gregos e latinos (Hélade e Romana), e as
traduções que fez das grandes tragédias de Sófocles (Antígona, Ajáx)
e Eurípides (Medeia, Troianas, As Bacantes).
“Aprendi as línguas como acesso às
respectivas literaturas: era para ler os grandes autores no original. Não há
nada que substitua o original”, dizia esta mulher que tanto se dedicou à
tradução, embora não gostasse de o fazer. E é porque tanto traduziu que hoje os
alunos de Estudos Clássicos espalhados pelo país têm “ferramentas de trabalho
incríveis”, assegura Fátima Silva, uma discípula que é hoje professora na UC e
que faz questão de sublinhar a sua "competência extrema" e o “rigor
absoluto” que colocava em tudo o que fazia. “Mesmo depois de se jubilar
continuou a acompanhar teses e a ler, a estudar. Estava sempre na linha da
frente, actualizada, porque nunca perdeu o desejo de saber mais, nunca perdeu a
curiosidade”, diz ao PÚBLICO.
Oxford, uma
aventura
Nascida no Porto, em 1925, numa
família com dinheiro e que vivia num palacete no meio de um jardim, Maria
Helena da Rocha Pereira deu provas da sua inclinação para o ensino desde muito
cedo. Tendo aprendido a ler aos quatro anos, aos seis já ensinava as empregadas
da casa a fazê-lo. O pai, um médico e professor que conseguia ser muito austero
mas também lhe dizia versos da Eneida de cor, e a mãe, que se
encarregava da educação de Rocha Pereira e da sua irmã mais velha que haveria
de se formar em Matemática, fizeram questão que as filhas completassem o liceu
e, mais tarde, o curso universitário, algo que na época provocou escândalo. “As
meninas de bem iam para o colégio” não para o liceu, lembrava na mesma
entrevista de 2003, e, naquela altura, uma mulher aspirar a uma carreira
académica era algo “impensável”. Mas foi precisamente isso que fez, até ao
topo, com uma determinação imensa.
Quando chegou à Universidade de
Coimbra foi-lhe fácil acabar o curso de Filologia Clássica com 17 valores,
difícil foi convencer o conservador meio académico de que não queria ficar por
ali. Só um professor, o de Grego, em toda a UC a encorajou a continuar e foi
ele que a aconselhou a ir para a Universidade de Oxford, que tinha na época um
dos melhores centros de estudos clássicos.
“É incrível pensarmos que ela, uma
menina do Porto, parte sozinha naquela altura para estudar em Oxford, quando
quem saía, raríssimos, o fazia para Paris... Uma mulher no Portugal do Estado
Novo, fechado a tudo, numa área dominada por homens. Foi precisa uma enorme
coragem, determinação, vontade de aprender, coisas que a Maria Helena da Rocha
Pereira teve toda a vida”, diz Frederico Lourenço, tradutor e professor de Grego na
Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
A sua ligação aos estudos clássicos
que se faziam no Reino Unido e também na Alemanha – “ela falava muito bem
alemão e isso ajudou muitíssimo porque lhe deu acesso a fontes que muitos não
liam por não estarem traduzidas” – permitiu abrir Portugal nesta área, defende
o também escritor de 54 anos, Prémio Pessoa 2016.
Rocha Pereira chegou pela primeira
vez a Oxford em 1950, aos 25 anos, quando Londres estava ainda sob racionamento
e na universidades havia uma série de professores fugidos ao nazismo. Foi lá
que fez parte da investigação que levaria ao seu doutoramento, cuja tese
defendeu em 1956 (Concepções Helénicas de Felicidade no Além, de Homero a
Platão).
Bastaram-lhe quatro anos e meio para
concluir um doutoramento que poderia ter feito em seis, gostava de recordar.
Quando terminou a tese não havia júri para a avaliar e, como era impensável
convidar um professor estrangeiro para arguir, Rocha Pereira teve de esperar um
ano e meio para a poder defender. “O meu doutoramento foi o primeiro de uma
senhora numa universidade que tinha 666 anos, na altura. Eu queria atingir essa
meta, indispensável para poder continuar e para ensinar. Gosto muito de
ensinar.”
Foi também em Inglaterra que fez uma
das especializações de que mais se orgulhava, em vasos gregos, com aquele que
continua a ser dos maiores estudiosos na área, John Davidson Beazley
(1885-1970), professor de arqueologia e arte clássicas (a ele se deve a
categorização dos vasos gregos segundo o seu estilo). Dela resultou aquela que
é para Fátima Silva, 66 anos, professora catedrática do Instituto de Estudos
Clássicos de Coimbra, uma das suas obras mais importantes, Greek Vases in
Portugal (1962).
"O que
interessa é o mestre vivo"
Terminado o doutoramento, Rocha
Pereira continuou a leccionar e a estudar, publicando sempre o que escrevia. Em
1964 chegaria a etapa seguinte, o concurso para professora catedrática em que
seria aprovada por unanimidade. O dia em que, pelo braço do pai, subiu a
escadaria da universidade para prestar provas está entre os momentos de grande
felicidade do seu percurso. Talvez o equiparasse, de certa forma, a uma
condução ao altar em dia de casamento, algo muito comum para as mulheres da sua
geração, mas que nunca aconteceu na vida de Maria Helena da Rocha Pereira.
Casar e ser mãe era algo que só concebia num regime de absoluta dedicação, algo
que não era, por isso, compatível com a docência. E, na hora de escolher,
escolheu ensinar, explicava aos que lhe perguntavam por que abdicara de
constituir família.
Rocha Pereira fez do ensino a sua
missão, dedicando-se de forma invulgar à vida universitária, continua Fátima
Silva. De uma “objectividade rara”, espalhou discípulos por várias
universidades do país porque, garante esta sua antiga aluna, entendia ser dever
de um professor deixar uma escola. “Um professor que não crie discípulos não é
completo […]. O que interessa é o mestre vivo”, defendia.
Delfim Leão, director da Imprensa da
Universidade de Coimbra, é um desses discípulos. Foi aluno e assistente de
Rocha Pereira, que também orientou a sua tese de doutoramento. É este professor
de História da Cultura Clássica, uma das cadeiras que a investigadora leccionou
durante décadas, que está à frente do programa editorial que está a
disponibilizar, em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian, dez volumes que
reúnem textos que Rocha Pereira escreveu e traduziu ao longo da sua carreira
(em Maio saem mais dois, um com traduções de poetas gregos com destaque para os
grandes trágicos como Sófocles e Eurípides, o outro inteiramente dedicado à
Arte Antiga).
Aos 47 anos, este coordenador do
Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da UC explica por que razão se pode
dizer sem medo de errar que Rocha Pereira “refundou os estudos clássicos em
Portugal”, dando-lhes uma dimensão internacional inédita até então: “A sua
formação em Oxford junto de grandes nomes dos estudos clássicos, o que escreve
sobre os vasos gregos e os inúmeros artigos que publica no estrangeiro
reflectem a abertura que ela impôs nesta área.”
Frederico Lourenço concorda,
chamando a atenção, num breve texto de cinco parágrafos que publicou no
Facebook, para a edição crítica da obra completa do geógrafo Pausânias que fez
para a editora alemã Teubner, “uma subida ao topo do Olimpo académico que, até
hoje, nenhum português conseguiu emular”, escreve o tradutor.
Lourenço nunca a teve como
professora porque estudou em Lisboa, mas leu muito do que ela escreveu e contou
com Rocha Pereira no júri do seu doutoramento. “Havia um certo terror quando se
sabia que a professora fazia parte do júri, simplesmente porque ela era de uma
exigência extraordinária, em primeiro lugar consigo mesma, e depois com os
outros.”
Para este professor, tradutor
de clássicos como Odisseia e Ilíada, Rocha Pereira é um
exemplo de dedicação à cultura e ao ensino. Entre as muitas obras fundamentais
que deixou, salienta a tradução que fez de A República, de Platão. “A
professora Rocha Pereira dá-nos uma panorâmica extraordinária da cultura grega
com os textos de Sófocles, Eurípedes, mas a mais fantástica das suas traduções
é, na minha opinião, A República. É uma tradução que vai ficar para
sempre porque é de uma imensa qualidade. E estamos a falar de um texto que é dificílimo
de traduzir porque obriga a conhecimentos de grego muito exigentes e a um
enquadramento filosófico muito sério.”
“Sempre me surpreendeu que
uma pessoa desta envergadura nunca tivesse recebido o prémio Camões ou o prémio
Pessoa”, diz o editor portuense da Modo de Ler, José da Cruz Santos,
responsável pelas mais recentes edições (na Asa e na Guimarães) das duas
grandes antologias de Maria Helena Rocha Pereira – a Hélade e a Romana
–, e ainda de Portugal e a Herança Clássica (2004), que considera “um
livro importantíssimo”, e que mostra bem que as leituras da professora de
Coimbra estavam longe de se restringir à sua área de especialidade académica.
“Tem nesse livro dois capítulos muito interessantes sobre Camilo, e também
deixou um trabalho sobre Guerra Junqueiro, escreveu um texto fantástico sobre
Eugénio de Andrade, e interessava-se pelo Aquilino, o Torga, o Manuel Alegre”.
Lamentando que o Porto “não
tenha feito por ela o que deveria ter feito”, mas contente por ter sabido que a
autarquia estará a ponderar homenageá-la na feira do livro do próximo ano, Cruz
Santos observa que “não é por acaso que a Hélade e a Romana são
obras que nunca foram ultrapassadas, ninguém se arriscou a aparecer com novas
edições que pudessem fazer frente às dela”. E conta que, nas últimas reedições
revistas da antologia da poesia latina, Maria Helena Rocha Pereira foi
dispensando algumas traduções antigas feitas por outros autores que ainda
aproveitara nas primeiras versões, substituindo-as por traduções da sua própria
lavra. Com uma só excepção. “Manteve sempre as traduções de Ovídio feitas pelo
Bocage, porque dizia que era impossível fazer-se melhor.”
Rocha Pereira, mostra-o bem o
seu percurso académico, não recuava perante nenhuma dificuldade. Foi com ela,
aliás, que Delfim Leão diz ter aprendido a nunca desistir. O que mais o
impressionou sempre foi a forma como conciliava uma “grandeza intelectual
inalcançável” com uma “generosidade incrível” para com os seus alunos: “Ela não
partilhava apenas os seus conhecimentos, aquela maneira que tinha de contar
histórias sobre a Grécia Antiga, partilhava também a sua biblioteca pessoal,
durante muito tempo bem melhor do que a da faculdade no que à História da
Cultura Clássica dizia respeito. Estava sempre aberta para nós.”
Como o PÚBLICO destacava em 2006, quando lhe foi atribuído o prémio Universidade de
Coimbra, um dos muitos que ganhou, a autora estudou as influências
clássicas na literatura e cultura portuguesas, analisando inúmeros autores — de
Camões a Pessoa, passando por Camilo e Torga, entre muitos outros. Trabalho
recolhido nos volumes Temas Clássicos na Poesia Portuguesa (1972), Novos
Ensaios sobre Temas Clássicos na Poesia Portuguesa (1982) e Portugal e a
Herança Clássica e Outros Textos (2003). O latim medieval também foi alvo
da sua investigação, reunida no volume Pedro Hispano: Obras Médicas
(1973), Vida e Milagres de São Rosendo (1970), Vida de Santa
Senhorinha (1970) e Vida de São Teotónio (1987).
O que fizeram os gregos e os romanos
ajuda a explicar o que somos hoje, defendia, e é por isso que a
contemporaneidade lhe interessava. “Eu vivo com os antigos”, dizia numa
entrevista a Alexandra Lucas Coelho nas páginas do PÚBLICO, em Setembro de
2001, para acrescentar em seguida que os homens não tinham mudado assim tanto
desde os poemas homéricos que são, “talvez”, do século VIII a.C.: “Em relação
aos antigos, a diferença espiritual, intelectual não é tão grande como parece:
o homem é sempre o mesmo. Infelizmente, não perde os defeitos que tinha, por
vezes não conserva as virtudes.” E continuava: “Há Antígonas por toda a parte,
na América, em países africanos… As grandes tragédias gregas vão à essência do
homem, do que o homem pode viver. E continuam entre nós, em metamorfoses do
original.”
Não sabemos o que Maria Helena da
Rocha Pereira gostaria que sobre ela se dissesse depois da sua morte porque,
como afirmou numa entrevista, nunca pensou escrever o seu epitáfio e não sabia
conceber o infinito. Citava os gregos para dizer que a vida lhe ensinara, isso
sim, que as coisas belas são difíceis. O que não é pouco.
*
Clássica, mas muito moderna
Maria Helena da Rocha Pereira (1925- 2017) é um caso exemplar de uma paixão
pela Grécia clássica que se traduziu num trabalho de enorme alcance, no domínio
da tradução, da edição e dos estudos da
cultura e da literatura.
António Guerreiro
10 de Abril de 2017
Maria Helena da
Rocha Pereira (1925- 2017) foi, durante décadas, o rosto dos estudos clássicos —
sobretudo da cultura e da literatura gregas — em Portugal. Aos méritos do seu
trabalho, enquanto professora, tradutora, estudiosa e divulgadora, somou-se o
papel pioneiro e fundador que desempenhou: contribuiu muito, com o seu trabalho
filológico e de tradutora, para introduzir na universidade uma visão muito mais
alargada do estudo da cultura clássica, rompendo com aquela estrita visão que
fazia dos textos dos autores gregos e latinos meros campos de exercício para
satisfazer esta exigência: “Conjuga e declina, saberás a língua latina.” As
competências de âmbito linguístico e gramatical foram sempre, para ela, um
instrumento para aceder à riqueza cultural e literária dos textos da
Antiguidade. Por razões que já não são de ordem científica, coube-lhe também o
papel pioneiro de ter entrado, isolada, num mundo estritamente masculino.
Segundo o seu
testemunho, foi a leitura de uma tragédia grega, a Oresteia, de Ésquilo,
quando tinha 13 anos, um dos factores que a levaram a escolher o curso de
Clássicas. Mas quando entrou para a Universidade de Coimbra não tinha aprendido
Grego no Liceu, apenas Latim. Por isso, no fim do curso, não conseguia ainda
ler os textos gregos mais complicados. Três anos depois de ter acabado a
licenciatura, e apenas com quatro anos de Grego, foi estudar para Oxford. Aí,
na Faculdade de Litterae Humaniores (era assim que se chamava), teve como
director de estudos o professor Dodds, autor de um famoso livro, Os Gregos e
o Irracional, e, para além de aperfeiçoar bastante a sua competência na
língua grega, iniciou-se em Crítica Textual, Paleografia Grega e Epigrafia.
E estudou os vasos
gregos (um domínio da arte em que se tornou uma reputada especialista; e chegou
a ensinar História da Arte Grega) com a maior autoridade da época: John Bazley.
Esta estadia em Oxford e também alguns conhecimentos da língua alemã
permitiram-lhe uma abertura, importante em todo o seu trabalho, às tradições
filológicas dos dois países mais importantes na filologia clássica: a
Inglaterra e a Alemanha. Foi, aliás, da Alemanha, da Academia das Ciências de
Berlim, que lhe chegou o convite para fazer uma edição crítica de Pausânias,
para a prestigiada Biblioteca Teubneriana. E considerava que esse tinha sido o
seu trabalho mais importante (ainda neste domínio da edição crítica, recordemos
que também editou os textos em latim de Pedro Hispano). A sua tese de
doutoramento intitulou-se “Concepções Helénicas de Felicidade no Além, de
Homero a Platão”. Se procurarmos a linhagem em que se inscreve, Maria Helena da
Rocha Pereira está muito mais próxima da lição de um Wilamowitz (o importante
filólogo alemão que morreu em 1931) do que de
quaisquer mestres nacionais.
Para além dos
muros da universidade, o nome de Maria Helena da Rocha Pereira irradiou
sobretudo enquanto tradutora. Não admira: a tradução das grandes obras
clássicas era mais do que deficiente e, na maior parte dos casos, nem era feita
do original. Confessou, algumas vezes, que nem gostava de traduzir, mas fê-lo
por necessidade, para tornar acessíveis, na universidade, os textos
fundamentais da cultura grega. Essas traduções começaram por ser distribuídas
em folhas e destinavam-se sobretudo aos alunos de História da Cultura Clássica.
Foi assim que nasceu, em 1959, a primeira edição da sua famosa antologia,
Hélade. Depois traduziu obras tão importantes como A República, de
Platão, a Medeia, de Eurípedes, a Antígona, de Sófocles. A
tradução destas duas tragédias nasceu da sua colaboração para o Teatro
Universitário de Coimbra, foi a resposta a um pedido de Paulo Quintela — o que
ajuda a perceber a vasta dimensão literária e cultural que presidia a todo o
seu trabalho.
Se foi também uma
divulgadora da cultura grega (e alguém que se serviu da sua autoridade para
reivindicar o reforço do ensino das línguas e culturas clássicas), não foi por
ter acedido a entrar em simplificações, nem para se encerrar no passado, mas
porque via o mundo em que viveu, o mundo contemporâneo, através da mediação da
cultura grega e latina. Sempre teve a preocupação de mostrar que essa cultura
não era uma relíquia de museu ou objecto de uma historiografia mortuária. Por
isso, escreveu ensaios importantes sobre a presença da cultura grega nalguns
autores contemporâneos — por exemplo, Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugénio
de Andrade e Miguel Torga. São estudos em que é bem visível que Maria Helena da
Rocha Pereira era uma leitora atenta da literatura (e sobretudo da poesia)
portuguesa. A sua visão da Grécia era muito de tipo apolíneo, razão pela qual
achava que a categoria do dionisíaco, desenvolvida por Nietzsche em A Origem
da Tragédia, era “um erro”, que não tinha em conta toda a complexidade da
religião dionisíaca. Ainda assim, dizia: “um erro genial”.
*
https://www.publico.pt/2017/04/10/culturaipsilon/noticia/morreu-maria-helena-da-rocha-pereira-especialista-em-estudos-classicos-1768262
(Lucinda Canelas, Luís Miguel Queirós)
https://www.publico.pt/2017/04/10/culturaipsilon/noticia/classica-mas-muito-moderna-1768346
(António Guerreiro)
http://expresso.sapo.pt/cultura/2017-04-10-O-elogio-dos-estudos-classicos-e-do-papel-de-Maria-Helena-da-Rocha-Pereira
(No discurso de aceitação do Prémio Pessoa 2016)
https://www.publico.pt/2016/12/09/culturaipsilon/noticia/-e-o-premio-pessoa-2016-1754215
(Luís Miguel Queirós, 9 Dez 2016)
https://www.publico.pt/2014/08/17/culturaipsilon/noticia/o-leitor-do-mundo-1666207(Anabela Mota Ribeiro, texto, e Miguel Manso, fotografia, 17-08-2014)