terça-feira, 30 de agosto de 2016

Círio da Prata Grande - S. Pedro da Cadeira, Programa do dia 20 Set. 2015

Estive lá, na missa e na procissão, que é de facto solene e imponente. Ver, aqui.

domingo, 28 de agosto de 2016

Círio da Prata Grande - Encarnação: cartazes de 2015 e outras informações

        O que a seguir se indica sobre o Círio da Prata Grande, na parte que à Encarnação diz respeito, pode ser complementado nas três mensagens do blogue aterraeagente de que no final se dá os linques.
*
http://www.cnsn.pt/portal/index.php?id=1476  (Sítio da Nazaré - cartaz religioso, com programa de 2015)
http://senhoranazareencarnacao.pt/  (Aqui, História; Comissão; Eventos; Programa; Fotos – oito, de 1963 a 1914  e uma da Imagem; Vídeos; Contacto. Há hiperligações: facebook, programas e possibilidade de download do cartaz completo e do respeitante apenas à parte recreativa e cultural.)
http://senhoranazareencarnacao.pt/assets/programa_geral_NSN.pdf  (Cartaz  Grandiosos Festejos em Honra de Nossa Senhora da Nazaré  Encarnação  Mafra – 20 a 30 de Agosto 2015)
http://www.paroquiadaencarnacao.pt/
http://www.paroquiadaencarnacao.pt/index.php?cont_=115&id=33  (23 Ago  Passagem de Testemunho dos «Velhos» para os «Novos»)
http://www.paroquiadaencarnacao.pt/index.php?cont_=115&id=4  (25 Ago  Primeira Procissão de Nossa Senhora da Nazaré)
http://www.paroquiadaencarnacao.pt/index.php?cont_=115&id=29  (13 Set  O Círio da Encarnação ao Santuário da Nazaré)
http://www.paroquiadaencarnacao.pt/index.php?cont_=115&id=30  (15 Set  Procissão dos «Novos»)
http://www.paroquiadaencarnacao.pt/index.php?cont_=115&id=39  (21 Nov  Nossa Senhora da Nazaré: Jantar-Convívio para Apresentação de Contas)

Círio da Prata Grande - O Rei Dom Rodrigo e a Senhora de Nazaré

28 de Agosto de 2016

Hoje é dia grande em S. Pedro da Cadeira. A esta hora em que escrevo, destaco, ainda, a saudação e acolhimento dos Juízes, ao meio-dia, e sobretudo a celebração da Eucaristia, presidida pelo Sr. Bispo Auxiliar de Lisboa, D. José Traquina Maria (15:00), a chegada das Bandas Filarmónicas (16:30) e a Solene e Imponente Procissão «Os Nomes de Maria» (17:00)
É dia de Círio da Prata Grande. No domingo, 11 de Setembro, será a ida à Nazaré, onde às 11 horas terá lugar a Eucaristia, seguida de procissão. No regresso, passagem pelas localidades: São Mamede da Roliça (17:00), Torres Vedras (18:15), Turcifal (18:45), Freiria (19:15), Arneiros (19:45), São Mamede da Ventosa (20:15), Ponte do Rol (20:45), Silveira (21:15), com chegada a S. Pedro da Cadeira, às 21:45.

Sobre o milagre de D. Fuas Roupinho nas escarpas do Sítio e o modo «como a imagem de nossa Senhora de Nazaré foi trazida ao lugar em que hoje está», ficam mais abaixo dois capítulos da Segunda Parte do livro Monarquia Lusitana, de Frei António Brandão, editada pela primeira vez em 1609, aos 37 anos do autor e dez anos após a publicação da Primeira Parte.
A grafia é geralmente actualizada. O texto fica intocado, para se ter acesso ao sabor da época. Há umas pequenas alterações: onde está «ende», pus «onde», deixei ficar «postaram-se», onde hoje se diz «prostraram-se», em «pode», alterei para «pôde», «falamos» – «falámos», «achamos» – achámos», «veneramos» – «venerámos», «alegramos» – «alegrámos», escrevi «pq», onde estão as mesmas letras com acento agudo sobreposto, por não ser possível fazê-lo aqui, em «pegadas» ressuscitei o acento grave «pègadas», onde está «cinitate», pus «ciuitate».
Começa por se oferecer o sumário dos quatro primeiros capítulos, transcrevendo-se de seguida integralmente o sumário e o texto do terceiro e do quarto.

***

SEGUNDA PARTE,
DA MONARQUIA LUSITANA.

LIVRO SETTIMO
DA MONARCHIA
LVSITANA
CAPITVLO PRIMEIRO
De como elRey Dom Rodrigo reynou em Espanha, e se namorou da Caua
Filha do Conde Dom Iulião, por onde se ocasionou a perda gèral de
Espanha, & das varias opiniões que há nesta matéria.

CAPITVLO. II.
Da primeira ẽtrada dos Mouros em Espanha, perdas que fizeram em Andaluzia & Portugal, com o mais q passou, ate elRey Dom Rodrigo ser vencido na batalha de Goadalete, & o poder dos Godos desbaratado.

CAPÍTULO. III
Do que sucedeu a elRey Dom Rodrigo
Depois de perdida a batalha, e do que pas-
sou até chegar a Portugal: toca-se como
a imagem de nossa Senhora de Nazaré
foi trazida ao lugar em que hoje está.

CAPÍTULO IIII.
Do tempo que a imagem de nossa Senhora de Nazaré esteve escondida no lugar em que el-rei, e Romano a deixaram, como, e por quem foi achada: põe-se uma doação donde consta a verdade desta história.

***

CAPÍTULO . III
Do que sucedeu a elRey Dom Rodrigo
Depois de perdida a batalha, e do que pas-
sou até chegar a Portugal: toca-se como
a imagem de nossa Senhora de Nazaré
foi trazida ao lugar em que hoje está.
PERDIDA de todo a batalha, e rotos alguns esquadrões, onde se fazia alguma sombra de resistência, mais para morrer vingados, que por esperanças de remédio, se veio a noite tão escura e temerosa, que parecia ajudar a sintir com suas trevas, o lamentável estrago da gente Espanhola, muita da qual se pôs em salvo com esta ocasião, que a lhe faltar fora impossível escapar ninguém com vida. E como cada um tinha cudado da sua, não houve quem se lembrasse de acompanhar ao triste Rei dom Rodrigo que cansado de pelejar, e o cavalo ferido por algumas partes, se foi retirando ao longo de Guadalete, até dar em um lamarão, donde o cavalo o não pode tirar [pôde?], e despindo suas armas, e reais insígnias, as deixou naquele sítio, para desconhecido poder escapar dos inimigos mais a seu salvo; inda que Albucacim diz, que achando um pastor mudou com ele o trajo e comendo alguma cousa que lhe deu, se partiu com seu cajado na mão por um recosto acima até o perder de vista, e sendo o pastor achado pela gente que Tarif, e o Conde mandaram em sua busca, souberam como não morrera na batalha, e temeram que metendo-se pelo meio de Espanha, se tornasse a refazer, para os vir demandar com maiores forças, mas ele que sabia quão poucas ficavam para resistir a inimigos vitoriosos, e conhecia o rigoroso castigo da mão divina, dado pela enormidade de suas culpas, e dos Reis seus predecessores ia com diferente imaginação, traçando meios para salvar sua alma e curando pouco dos que se lhe ofereciam, para tornar ao estado que perdera. Entre cruéis pensamentos e dor que lhe quebrava o coração, lembrando-se da morte de seus amigos e vassalos, e do estrago a que toda Espanha ficava sujeita, caminhou el-Rei alguns dias no hábito desconhecido, que trocara com o Pastor, até chegar junto a Mérida, cujos soberbos muros não veria sem grande cópia de lágrimas, trazendo-lhe sua grandeza à memória a muita em que já se vira, que cotejada com o estado presente serviria de renovar sua dor, a que não achava meio de consolação, tendo muitos com que se acrescentasse, porque divulgando-se a nova da batalha, e crueldade com que os mouros vinham assolando a terra, em cada lugar se ouviam gritos de mulheres e meninos, e se achavam os campos e caminhos cheios da miserável gente, que com o melhor de suas fazendas, iam guarecer-se nas cidades e lugares fortes; outros nos montes e sítios apartados, fazendo-lhes a fama, e temor natural maior o perigo, e mais propínquo do que na verdade era, sendo todos estes encontros para o triste Rei cruéis lançadas, que lhe atravessavam o coração, para remédio, e consolação das quais, permitiu Deus, que chegasse ao mosteiro de Cauliniana, de que já falámos algumas vezes nesta história, o qual estava fundado duas léguas da cidade de Mérida, que é a conta dos oito mil passos que lhe dá Paulo, Diácono da mesma cidade, no livro que compôs, da vida de alguns Arcebispos: e varões santos que ali floresceram, onde diz, que estava edificado tão junto do Rio Guadiana, que sucedia em tempo de cheias entrar-lhe a crecente nas celas dos Religiosos, o mesmo sítio lhe dá Ambrósio de Morales, referindo a vida do Santo Arcebispo Renovato, onde afirma, que viu uma carta de certo monge deste mosteiro, chamado Tarra, escrita a el-Rei Recaredo. Chegado el-Rei a este lugar com desejo de achar nele alguma consolação para seu espírito, encontrou matéria de maior lástima, e dobrado sentimento, porque os monges atemorizados com a nova que chegara poucos dias antes, e solícitos por salvar os ornamentos, e cousas sagradas, uns eram já fugidos para dentro de Mérida, outros se retiraram pela terra dentro buscando guarida em outros conventos, e os menos aguardavam o fim do negócio dentro no mosteiro, desejando acabar a vida pela honra e defensão da Fé Católica dentro naquele santuário. Entrou el-Rei na Igreja, e vendo-a nua de ornamentos, e desemparada de Religiosos, se pôs em oração, com tanta dor e angústia de coração, que desfeito em lágrimas, se não lembrava que podia ser ouvido de alguma pessoa, a quem o excesso delas desse conhecimento de quem podia ser, e como a fraqueza de não ter comido alguns dias, o desfalecimento do cérebro, pela falta do sono, e o quebrantamento de caminhar a pé, lhe tivessem as forças debilitadas, se lhe cerraram os espíritos, de maneira, que ficou em terra com um desmaio em que esteve privado dos sentidos até o achar um monge antigo, e de vida inculpável, chamado Romano, que com lhe lançar água no rosto, e lhe aplicar outros benefícios semelhantes o fez tornar em si, e procurou consolá-lo com palavras, e conselhos acomodados ao estado, em que o via, e como el-Rei conhecesse que era sacerdote, e visse no modo de sua pessoa, e modéstia de palavras, ser homem de santa vida, quis desalivar sua dor, e purificar sua consciência com uma confissão geral de pecados antigos; na qual lhe não foi possível encobrir quem tinha sido, e a estranha mudança de estado, a que o trouxera a ventura, deixando o monge tão lastimado de ouvir a tragédia de sua vida, e ver daquele modo ante seus pés tão grande Monarca, que lhe faltaram palavras para consolar sua mágoa, e com a voz interrompida de suspiros lhe deu absolvição, e ao dia seguinte, o Santíssimo Sacramento da Eucaristia, e como visse que se queria partir, buscando lugar mais apartado do comércio da gente, em que fazer penitência, sem que amigos, nem contrários tivessem notícia de sua pessoa, não se atreveu o monge a deixá-lo só no meio de tamanha desconsolação como levava, e tomando-o de parte, lhe rogou pela paixão de Jesus Cristo, que consentisse irem ambos de companhia, e salvarem uma venerável imagem da Virgem Maria Senhora nossa, que naquele mosteiro resplandecia com grandes milagres, e fora trazida da cidade de Nazaré, por um monge Grego, chamado Ciríaco, em tempo que se levantou nas partes de Oriente uma heresia contra o culto e veneração das imagens; e de volta com ela, uma relíquia do Apóstolo São Bartolomeu, e outra de São Brás, que tinha guardadas em um cofre de Marfim, e seria grande sacrilégio deixá-las oferecidas, ao mau tratamento dos Bárbaros, que segundo a fama publicava, não deixavam templo, nem lugar sagrado, que não profanassem lançando as imagens no fogo, e arrastando-as aos cabos dos cavalos para maior opróbrio da gente baptizada. Vendo-se el-Rei conjurar pela paixão de nosso Redentor Jesus Cristo, em quem [que?] só tinha consolação e esperança de remédio, e considerando a piedade da obra, para que o escolhia por companheiro, se deixou vencer de seus rogos, e tomando em seus braços a pequena imagem da Senhora, e Romano a caixa das relíquias com alguma provisão para o caminho, se meteram pelo meio de Portugal, levando o rosto sempre ao Poente, e demandando a costa do mar Oceano, por ser terra mais solitária naqueles tempos, e menos frequentada de gente humana onde lhe parecia que os Mouros não chegariam tão cedo, porque faltando-lhe terras que conquistar naquelas partes não havia ocasião que os levasse a elas; vinte e seis dias caminharam os dois companheiros, os mais deles sem tocarem povoado, e depois de passarem muitos trabalhos em atravessar terras, e vadear rios, houveram vistas do mar Oceano aos 22 de Novembro, dia de S. Cecília virgem e mártir, e como se tivessem naquela parte o fim de seus trabalhos tomaram algum alívio, e deram graças ao Senhor, que os salvara das mãos de seus contrários. Este lugar a que primeiro chegaram, é nos Coutos de Alcobaça, perto donde agora vemos a Vila da pederneira, junto da qual para a parte do Nascente se levanta no meio de certos areais um monte de rochedo e terra firma, prolongado algum tanto de Norte a Sul, tão alto, e bem proporcionado, que parece milagrosamente posto naquele sítio, por estar de todas as partes cercado de campos cobertos de areia, sem altura nem rochedo, de que pareça ter dependência. E como sua compostura leve trás si os olhos, de quem vê aquela máquina da natureza, desejou el-Rei, e o monge de subir ao alto dele, por ver se daria lugar a passarem sua vida onde acharam uma pequena ermida, com um devoto Crucifixo de vulto sem outro sinal de gente viva, mais que uma sepultura rasa, sem letra nem epitáfio que declarasse cuja fora. O sítio do lugar, que subindo a uma altura notável descobre, por mar e terra quanto os olhos alcançam e a repentina vista do Crucifixo, causou no ânimo d’el-Rei tanto abalo, e tamanha consolação, que abraçado com o pé da cruz, se esteve desfazendo em rios de lágrimas, não já de saudade dos reinos e senhorios que perdera, mas de consolação de ver, que a troco deles, se lhe oferecia naquele monte solitário, o mesmo Jesus crucificado, em cuja companhia determinou passar o que lhe restasse da vida, e assim o declarou ao monge, que por o contentar, e por ver o lugar acomodado à contemplação, aprovou o parecer d’el-Rei; e se deixou estar com ele alguns dias, nos quais foi vendo alguns inconvenientes, que havia para se poder viver no alto do monte, donde era necessário descer com muito trabalho, todas as vezes que haviam de beber ou buscar algumas ervas e frutas para seu mantimento; e conhecendo também que a vontade d’el-Rei era estar só para desabafar com lágrimas, e exclamações que muitas vezes fazia diante da imagem de Cristo, se veio de seu consentimento, a um sítio distante do monte pouco mais de uma milha, que ficando de uma parte chão, e de serventia fácil, e mui acomodada, se deixa cair da outra sobre o mar com tão íngreme quebrada, que terá duzentas braças a pique, desde a ponta do rochedo até ao remanso das ondas. Entre dous grandes penedos, cada um dos quais sai com sua ponta ao mar, e ficam suspensos no alto da rocha, em forma, que parecem ameaçar ruína a quem os contempla da praia, achou romano uma pequena cova, feita naturalmente no penedo, que acrescentou com alguns [?] paredes de pedra seca, fabricadas por sua mão, e ordenada certa feição de ermida, pôs nela a imagem da Virgem Maria de Nazaré, que trouxera do mosteiro de Cauliniana, que com ser pequena, e de cor morena com o menino Jesus nos braços, tem certa perfeição no rosto, com uma modéstia tão notável, que logo representa coisa miraculosa; e havendo tanto número de anos, que foi conhecida, e venerada, muitos dos quais esteve posta em lugar, que a não defendia das injúrias do tempo, se lhe não pôs nunca tinta, nem foi necessário renová-la. Estava o lugar da ermida, e está hoje à vista do monte em que el-Rei vivia, e posto que a memória donde vou tirando as forças deste sucesso, o não especifique, de crer é, que se veriam muitas vezes, e teriam colóquios tão divinos, como a vida, e santidade do lugar o pedia, havendo de permeio [?] as grandes tentações do demónio, que el-Rei padeceu no princípio de sua penitência, A que seriam necessários os avisos, e documentos do monge, e o socorro de suas orações, e presença das relíquias de S. Bartolomeu, que milagrosamente o salvou muitas vezes de várias ilusões do inimigo, e em nossos dias se vêem no alto deste monte fixas em uma rocha viva certas pègadas humanas, e outras de forma diferente, que a gente vulgar sem acertar no particular da pessoa, afirma serem de São Bartolomeu, e do demónio que ali foi vencido e suas ilusões desbaratadas pelo santo, socorrendo a um devoto, que chamou por ele na força de sua tribulação, que devia ser el-Rei, posto que a gente de agora o não alcance, a quem o santo deu visivelmente favor, e quis que para lembrança deste benefício, e do poder que Deus lhe deu sobre os maus espíritos, ficassem aqueles sinais impressos na pedra dura, e sendo o nome antigo do monte Seano, se mudou no do Apóstolo, e se chama hoje de S. Bartolomeu; e a ermida que permanece no alto dele, é da invocação do mesmo santo, e de S. Brás, o que devia nascer das relíquias destes dois santos, que Romano trouxe consigo, e as deixou a el-Rei para sua consolação, retirando-se ele ao lugar, que já temos dito, com a imagem da Senhora, onde viveu pouco mais de um ano, e sabendo o tempo de sua morte, o comunicou a el-Rei, pedindo-lhe que em satisfação do amor com que o acompanhara, se lembrasse de rogar a Deus por sua alma, e desse seu corpo à terra de que fora composto. E havendo-se de partir daquele lugar, deixasse nele as imagens e relíquias do modo que as ele comporia antes de morrer; com isto se partiu Romano a gozar do prémio merecido por seus trabalhos, deixando a el-Rei com novas ocasiões de sentimento pela falta de tão bom companheiro. O que mais passou neste lugar, as tentações e trabalhos que teve até o fim da vida, não há historiador autêntico, nem memória que no-lo certifique, mais que umas relações envoltas em alguns contos fabulosos, da crónica antiga d’el-Rei dom Rodrigo, onde entre as verdades que tira do Mouro Rasis há muitas cousas notoriamente impossíveis, como são o caminho que el-Rei fez, guiado por uma nuvem branca até junto a Viseu, e a penitência em que ali acabou a vida, metendo-se vivo em certa sepultura, com uma cobra, que criou para este efeito: Mas como isto sejam cousas duras de crer, passaremos tudo em silêncio, deixando no juízo dos curiosos o crédito que merece uma pintura antiga, que inda dura junto a Viseu, na igreja de S. Miguel sobre a sepultura do mesmo Rei dom Rodrigo, em que se vê a cobra pintada com duas cabeças, e no próprio sepulcro, que é de pedra lavrada, um buraco redondo, por onde dizem, que a cobra entrava; O certo de tudo isto é (como contam nossos historiadores) que el-Rei foi parar a esta parte, e na ermida de S. Miguel, que vemos junto a Viseu, acabou seus dias em grande penitência, sem pessoa nenhuma saber o modo dela, nem ter outra notícia mais clara que achar-se pelo tempo adiante um letreiro sobre certa sepultura desta igreja com as palavras seguintes.
HIC REQVIESCIT RVDERICVS VLTIMVS REX GOTHORUM.
Querem dizer. Aqui descansa Rodrigo último Rei dos Godos. As próprias palavras me lembra que vi escritas de preto, em um arco de parede, que está sobre a sepultura d’el-Rei, posto que o Arcebispo Dom Rodrigo, e aqueles que o seguem, ponham maior leitura, não advertindo que todas as mais palavras, que ele acrescenta, são pragas e maldições suas, que roga ao Conde dom Julião (como notou atentadamente Ambrósio de Morales, seguindo ao Bispo de Salamanca, e outros) e não razões do mesmo letreiro, como eles as fazem. A Igreja em que a sepultura d’el-Rei está ao presente é pequena, e de fábrica mui antiga, particularmente a capela-mor junto da qual ficam de cada parte sua cela do mesmo comprimento, mas estreitas, e escuras por não terem mais luz, que a que lhe entra por uma pequena fresta aberta contra o nascente, em uma das quais (que fica para o meio dia [meio-dia?]) se diz que vivia certo ermitão, por cujo conselho el-Rei se governava, no discurso [decurso?] de sua penitência, e ali se mostra hoje sua sepultura, encostada à parede da capela da parte da epístola: Na outra cela que fica contra o Norte passou el-Rei sua vida pagando na estreiteza do lugar, as larguezas dos paços, e liberdades da vida passada, em que ofendera a seu criador, e na parede da capela que corresponde à parte do Evangelho fica um modo de arco, em que se vê  a sepultura, em que estiveram seus ossos, e se visita dos naturais com devoção, crendo que por seu meio faz o ali alguns milagres em pessoas doentes de maleitas,e outras enfermidades semelhantes. Debaixo do mesmo arco, que fica respondendo para dentro da cela, vi pintados na parede o ermitão, e el-Rei com a cobra de duas cabeças, e li as letras acima referidas, tudo já gastado do tempo, com sinais de muita antiguidade, mas de modo que se podiam ver distintamente. O sepulcro é chão de uma só pedra, em que escassamente pode caber um corpo humano: ao tempo que eu o vi, estava já descoberto, sem ter ali a pedra que lhe servira de cobertura, nem os ossos d’el-Rei, que se levaram para Castela, sem saberem de que modo, nem por cuja ordem, nem eu o pude alcançar, por mais diligências que fiz com gente antiga daquela cidade, que tinha razão de saber uma cousa de tanta importância, quando fosse tão certa como alguns me afirmaram.
CAPÍTULO IIII.
Do tempo que a imagem de nossa Senhora de Nazaré esteve escondida no lugar em que el-rei, e Romano a deixaram, como, e por quem foi achada: põe-se uma doação donde consta a verdade desta história.
A grande veneração da imagem de nossa Senhora de Nazaré, que el-Rei deixou escondida no próprio lugar em que romano a pusera vivendo; e os contínuos milagres com que antigamente resplandeceu, e resplandece em nossos dias me obrigam a suspender um pouco o fio da história e dar uma relação sumária, do tempo em que esteve encoberta, e do estupendo milagre por onde foi conhecida. É pois de saber, que correndo o ano de Cristo setecentos e catorze, pelo mês de Novembro, chegou a Santa Imagem ao monte de São Bartolomeu., e entrando já o ano de quinze, a levou romano para a pequena ermida, feita entre as duas rochas de que se fez menção no capítulo precedente, onde a el-Rei deixou na melhor forma que lhe foi possível. E como andando o tempo viesse Portugal a ser senhoreado de Mouros, e as terras daquela comarca povoadas deles, permaneceu a Virgem, naquela humilde lapa, até os tempos de nosso primeiro Rei Dom Afonso Henriques, que conquistando Leiria, Porto de Mós, e toda a mais terra que agora chamam de alcobaça (de que fez andando o tempo doação a nosso Padre São Bernardo, como já contei na primeira parte de sua crónica) tornaram os cristãos a frequentar a terra, que antes fora sua, posto que vivessem nela como em fronteira, porque os Mouros do Algarve, Alentejo, e Estremadura, os inquietavam com perpétuas entradas que faziam pelo meio de Portugal. Era neste meio tempo Capitão do Castelo de Porto de Mós um valoroso cavaleiro, chamado dom Fuas Roupinho, célebre em nossas histórias Portuguesas, pelo valor com que desbaratou e prendeu a el-Rei Gami, senhor das terras da Estremadura, que o veio cercar a Porto de Mós, com grande poder de gente, como veremos na terceira parte desta história, e pelas vitórias honrosas que alcançou no mar de galés inimigas, que inquietavam as terras, e lugares marítimos deste reino, posto que andando o tempo fosse morto em certo recontro, que teve com os mesmos contrários no porto de Ceuta onde o estavam esperando com todas as forças Africanas juntas, de que se não pôde desviar por correr com fortuna contrária pela boca do estreito. No tempo que este cavaleiro residia na Capitania de Porto de Mós, e via a terra segura de inimigos, costumava sair muitas vezes à caça pelas gândaras, e matos que há entre o mar e a mesma vila, onde naquele tempo havia muita cópia de caça, e inda no de agora, com ser a terra tão povoada não deixa de haver alguma, e como continuasse este exercício (próprio de gente nobre, e animosa) e chegasse à costa do mar algumas vezes, foi dar naquela monstruosa rocha, que ficando da parte do Norte igual, e chã com a outra terra campina, se deixa subitamente quebrar contra o meio dia sobre as ondas do mar com uma altura monstruosa, causando tanto maior admiração a quem vem andando pelo campo raso sem os olhos descobrirem desigualdade alguma, quanto menos suspeita trazia de se ver repentinamente suspenso de tamanha queda: e como andasse por sua curiosidade vendo aquela maravilha natural, descobriu entre os dois maiores penedos (que saem da terra firme, e campeiam pelo ar grande espaço, ficando em vão sobre o mar, de maneira, que as pessoas que os vêem da praia, lhe parece que estão ameaçando uma perigosas ruína) uma feição de casinha composta de pedra seca, feita de modo que sua traça, e antiguidade obrigou ao capitão a ver por sua pessoa o que era, e descendo pela quebrada que se faz entre as duas rochas, entrou na humilde lapa, onde viu sobre um pequeno altar a venerável imagem da Virgem Maria de Nazaré, com aquela perfeição e modéstia, que se acha em mui poucas imagens daquele tamanho. Venerou-a o católico cavaleiro com toda submissão, e quisera levá-la para sai fortaleza de Porto de Mós, com intento de a ter mais venerada, se não temera ofendê-la, em lhe trocar habitação conservada por tantos anos. Esta consideração fez, com que por então a deixasse naquele sítio do próprio modo que estava, e posto que depois a visitasse as vezes que vinha por aquelas partes com ocasião da caça, não tratou nunca de melhorar a pobre ermida em que estava, nem o fizera se a Virgem o não salvara dum notório perigo de morte, que Deus por ventura permitiu, em castigo de seu descudo, e para deste modo dar a entender ao mundo a virtude da Santa Imagem. E foi, que vindo a seu ordinário exercício da caça pelo mês de Setembro, do ano de Cristo, mil e cento e oitenta e dous, aos catorze do próprio mês, em que a Igreja celebra a festa da Exaltação da Cruz, em que Cristo remiu o género humano, como amanhecesse o dia escuro com as névoas, que ordinariamente se levantam do mar e se não alcançasse da vista a terra ao redor, senão em pequena distância; sucedeu darem os sabujos com um veado (se porventura o era) e arremessando dom Fuas o cavalo em seu alcance, sem temor de perigo, por cudar que era tudo campo igual, e a névoa lhe não deixar ver por onde ia, se achou na última ponta do rochedo, que com mais de duzentas braças se deixa cair ao mar, a tempo, que não foi em sua mão ter as rédeas ao ginete, nem houve lugar para mais, que chamar o socorro da Virgem M A R I A, cuja imagem ali estava, e valeu-lhe ela de modo, que menos de dous palmos do fim da rocha, em uma ponta que faz estreita, e mui comprida, lhe parou o cavalo, como se fora de pedra, ficando em sinal do milagre as esbarraduras das mãos estampadas na rocha viva, como hoje se vêem de todos os peregrinos, e gente de romagem, que concorrem a visitar a imagem da  senhora; e é cousa notável, e digna de piedosa consideração, ver que no meio deste penedo em que o milagre sucedeu, em uma ilharga que fica para o nascente, em parte que por ficar suspensa no ar, não é possível chegar pessoa humana, estampou a própria natureza uma Cruz cravada na dureza da rocha, como se com ela santificara aquele penedo, e o marcara de tão santa insígnia, para teatro em que se havia de representar tão miraculoso passo, que por suceder em dia da exaltação da Cruz, parece que mostrava a honra e glória, que daí havia de redundar ao próprio Senhor, que nos remiu nela. Vendo-se dom Fuas livre de tamanho perigo, e conhecendo donde a mercê lhe viera, se foi à pequena ermida, onde com a grande devoção que a presença do milagre lhe causava, deu infinitas graças à Senhora, acusando diante dela o descudo de lhe melhorar a casa, e prometendo a tudo a emenda que sua possibilidade permitisse. Chegaram depois disto seus monteiros, seguindo a trilha do cavalo, e sabendo a maravilha que acontecera, se postraram diante da imagem da Senhora, ajudando com seu espanto a devoção de dom Fuas, que sabendo como o veado não parecia [aparecia?], nem os cães lhe achavam rasto por nenhuma parte, e a ele se lhe representara que o levava diante, entendeu ser ilusão do demónio, que buscara aquele meio, para o fazer morrer miseravelmente. Eram todas estas considerações causas de se acrescentar mais a grandeza do milagre; e a obrigação de dom Fuas que ficando-se ali alguns dias, fez vir de Leiria e Porto de Mós, oficiais para fazerem outra ermida em que a Senhora estivesse mais venerada, e como desfizessem a primeira, acharam metida entre as pedras do altar, uma caixinha de marfim, e dentro relíquias de S. Brás, S. Bartolomeu, e outros santos, com um pergaminho, em que se dava relação de como, e em que tempo, se trouxeram ali as relíquias e imagem, na forma que adiante veremos. Fez-se brevemente uma capela de abóbada bem traçada para tempo tão antigo sobre o mesmo lugar em que a Senhora estivera, e para ser vista de todas as partes a deixaram aberta com quatro arcos, que andando o tempo se taparam por evitar o dano que as chuvas e tempestades faziam dentro na capela, e deste modo permanece em nossos dias. Ficou a Senhora em seu lugar já conhecida e visitada dos fiéis que concorriam à fama do seu aparecimento, e milagres, sendo dos primeiros, o valoroso e Santo Rei Dom Afonso Henriques, a quem dom Fuas avisou do que sucedera, e acompanhado dos grandes de sua Corte, e de seu filho dom Sancho, veio visitar a imagem da Senhora, e ver com seus próprios olhos os sinais de maravilha tão rara, como acontecera, e de seu consentimento fez dom Fuas uma doação à Senhora de certa quantidade de terra, ao redor, que então eram matos bravos, e hoje o são ainda a maior parte dela, por ser quase tudo areais incapazes de dar fruto, e que não levam outra coisa mais que urzes, e alguns pinhais bravos. E porque dela consta a verdade de tudo o que tenho dito, e reconta por seu modo os sucessos da imagem da Senhora, a porei da forma que a vi no Cartório de Alcobaça, guardando em tudo o latim, e barbarismos de sua composição, que é a seguinte. Sub nomine Patris, nec non et eius prolis, in vnius potentia Deitatis, incipit carta donationis, quam ego Fuas ropinho, tenẽs Porto de Mòs,et terram de Albardos vsque Leirenam, et Turres veteres fatio Ecclesiæ Sãcta Mariæ de Nazareth, quæ de pauco tempōre  surgit fundata super mare, vbi de sæculis antiquis iacebat, inter lapides, et spinas multas, de tota illa terra, quæ iacet inter flumina quæ venit per Alcoubaz, et aquam numcupatam de furaturio, et diuiditur de isto modo: de illa foz de flumine Alcobaz, quomodo vadit per aquas bellas, deinde inter mare, et mata de Patayas vsq; finir in ipso furaturio, quam ego obtinut de Rege Adefonso, et per suum consensum facio præsentem seriem ad prædictam Ecclesiam Beatæ Mariæ Virginis, quam feci supra mare, vt in sæculis perpetuis memorentur irabilia Dei, et sit notum omnibus hominibus, quomodo à morte fuerim saluatus per pietatẽ Dei et Beatæ Mariæ quam vocant de Nazaret, tali succesu. Cũ manerem in castro Porto de Mòs, et inde veniebam ad occidendos venatos, per Meluam et matam de Patayas vsque ad mare, supraquem inueni furnam, et paruam domũculam inter arbustas, et vepres, in qua erat vna imago Virginis Mariæ, et venerauimus illam et abiuimus inde; veni deinde XVIII. Kal. Octobris, circa dictum locum, cum magna obscuratione nebulæ sparsa super totam terram, et inuenimus venatum, tresquẽ fui in meo équo, vsque venirem ad esbarrondadeiro supra mare, quod cadit aiuso sine mensura hominis, et pauet visus si cernit furnam cadentem ad aquas. Paui ego miser peccator, et venit ad remẽbrãcam de imagine ibi posita, et magna dixi S A N C T A  M A R  I A  VAL. Benedicta sit illa in mulieribus, quia meum equm sicut si esset lápis fecit stare, pedibus fixis in lapide, et erat iam vazatus extra terram in punta de saxo super mare. Descendi de équo, et veni ad locum  vbi erat imago, et ploraui, et gratias feci, et venerunt monteiros, et viderunt, et laudauerunt Deum, et Beatam Mariam; Misi homines per Leirenam, et Porto de Mos, et per loca vicina, vt venirent Aluanires et facerent ecclesiam bono opere operatam de fornice, et lapide, et iam laudetur Deus finita est. Nos vero non sciebamus vnde esset, et vnde venisset ista imago, sed ecce cum destruebatur altareper Aluanires, inuenta est arcula de ebore antiquo, et in illa vno enuoltorio, in quo erant ossa aliquorum sanctorum, et cartula cum hac inscrptione. Hic sunt reliquiæ Sãctorum Blasii, et Bartholomei Apostoli, quas detulit, â monasterio Cauliniana Romanus monachus, simul cum venerabili imagine Virginis Mariæ de Nazareth, quæ olim in Nazareth ciuitate Gallileæ multis miraculis claruerat., et inde asportata per Græcum monachum nomine Cyriacum, Gothorum Regum tempore, in prædictum monasterio per multum temporis manserat, quo vsq Hispania à Mauris debelata, et Rex Rodericus superatus in prœlio, solus lachrymabilis abiectus, et penè difficiens peruenit ad prœfatũmonasterium, Cauliniana, ibiq; â prœdicto Romano pœnitentiœ, et Eucharistiæ Sacramentis susceptis, pariter cum illo, cum imagine, et reliquiis ad Seanũ montem peruenerunt 10.kal.Decemb in quo Rex solus per annum integrum permansit, in Ecclesia ibi inuenta cũ Christi crucifixi imagine, et ignoto sepulchro. Romanus vero cum hac Sacra Virginis effigie inter duo ista saxa, vsq; ad extrremũ vitœ permãsit; et ne futuris tẽporibu aliquem ignorantia teneat, hœc cum reliquiis sacris in hac extrema orbis parte recondimus. Deus ista omnia à Maurorũ manibus seruet. Amẽ. De his lectis, et à Prœsbyteris apertis satis multum sumus gauisi, quia nomen de sanctis reliquiis, et de Virgine sciuimus, et ut memorẽtur per sempre in ista serie testamenti scribere fecimus. Do igitur prœdictam hereditatem pro reparatione prefatœ Ecclesiœ cum pascuis, et aquis, de monte in fonte, ingreßibus, et regreßibus, quantũ à prestitum hominis est, et illam in melhiorato foro aliquis potest habere per se: Ne igitur aliquis homo de nostris, vel de estraneis hoc factum nostrum ad irrumpendum veniat, quod si tẽtauerit peche ad dominum terrœ trecentos marabitinos, et carta nihilominus in suo robore permaneat, et insuper sedeat excommunicatus, et cum Iuda proditore pœnas luat damnatorum. Facta series testamenti, VI Idus Decemb. Era M. CCXX. Alfonsus Portugalliœ Rex confirm. Sancius Rex confirm. Regina Dona Tarasia confirm.
Petrus Fernandez regis Sancii dapifer confirm. Menẽdus Gunsalvi, eiusdem signifer confirm. Donus Ioannes Fernandez curiæ regis maiordomus, confirm.
Donus Iulianus Cancellarius regis confirm. Martinus Gonsalvi Pretor Colimbriæ confirm. Petrus Omariz Capellanus regis confirm. Menedus Abbas cõfirm. Theotonius conf. Fernandus Nuniz, testis. Egeas Nuniz, testis. Dumtelo (?), testis. Petrus Nuniz, testis. Fernandus Vermundi, testis.    Lucianus Præsbyter, Notauit.

Sua significação traduzida em língua Portuguesa, na melhor forma possível, com se guardar a propriedade de seus vocábulos, é a seguinte. Em nome do Padre, e também do Filho gerado, e do Espírito Santo juntamente, um em poder, de uma só divindade, começa a carta de doação, e devoção juntamente, que eu Fuas Roupinho Governador de Porto de Mós, e da terra de Albardos até Leiria, e Torres Vedras, faço à Igreja de S. Maria de Nazaré, que há pouco se edificou e está sobre o mar, onde estivera metida de tempo antigo entre pedras, e espinhas, de toda aquela terra, que está entre os Rios que vêm de Alcobaça, e agora que chamam do furadouro, que se demarca pelo modo seguinte. Desde aquela foz do Rio de Alcobaça, como vai por águas belas, depois entre o mar, e a mata de Pataias, até acabar no próprio furadouro, a qual terra eu alcancei d’el-Rei Dom Afonso, e de seu consentimento faço a presente doação, à sobredita Igreja da bem-aventurada Virgem Maria, que eu fundei sobre o mar, para que nos tempos futuros se tenham em lembrança as maravilhas de Deus, e seja notório a todos os homens, como fui livre da morte pela piedade de Deus, e da bem-aventurada Virgem Maria, que chamam de Nazaré, de tal modo que residindo eu no castelo de Porto de Mós, donde vinha à caça de veados, pela Melua, e mata de Pataias até o mar, achei sobre ele uma cova, e casinha pequena, entre matos e espinheiros; na qual estava uma imagem da Virgem Maria, a qual venerámos , e nos partimos daí. Depois disto vim ter junto ao sobredito lugar, aos catorze de Setembro, com grande çarração de névoa, que cobria a terra toda, e achámos um veado, trás quem arremessei o cavalo, até chegar, ao esbarrondadeiro sobre o mar, que cae abaixo sem medida que homem possa alcançar, e pasma a vista, se olha a fundura, que se deixa cair até as águas. Pasmei eu miserável pecador, e veio-me à lembrança a imagem que ali junto estava escondida, e em voz alta disse. Santa Maria val, Bendita seja ela entre as mulheres, que fez parar o meu cavalo como se fora de pedra, com os pés fixos no próprio mármore, e estava já lançado fora da terra na ponta do penedo que cai em cima do mar. Apeei-me então do cavalo e vim ao lugar onde a imagem estava, e com lágrimas lhe dei as graças, vieram também os monteiros, e vendo o que passara, deram louvores a Deus, e à bem-aventurada Virgem Maria. Mandei homens por Leiria, Porto de Mós, e pelos lugares ao redor, para que trouxessem pedreiros, e fizessem uma Igreja lavrada de boa obra, de abóbada, e cantaria, e já louvado Deus é acabada. Nós contudo não sabíamos donde fosse, nem de que parte tivesse vindo esta imagem, mas sucedeu, que desfazendo-se o altar pelos pedreiros, foi achada uma arquinha de marfim antigo, e nela um envoltório em que havia relíquias de alguns santos, e um pergaminho com esta leitura. Aqui estão relíquias de São Brás, e S. Bartolomeu Apóstolo, as quais trouxe do mosteiro de Cauliniana, o Monge Romano, junto com a venerável imagem da Virgem Maria de Nazaré; que antigamente resplandecera com muitos milagres em Nazaré, cidade da Galileia, e daí fora trazida por um monge Grego, chamado Ciríaco, reinando os Reis Godos, e no sobredito mosteiro esteve por largo tempo, até que sendo Espanha conquistada pelos Mouros, e el-Rei dom Rodrigo vencido em batalha, veio ter ao sobredito mosteiro de Cauliniana só desconhecido, choroso, e desmaiado, e recebendo aí os Sacramentos da confissão, e Eucaristia, por mão do dito Romano, se partiram ambos de companhia, e chegaram ao monte Seano, com esta Imagem, e Relíquias, no qual monte el-Rei viveu por espaço de um ano, em certa Igreja que ali achou com uma imagem de Cristo crucificado, e uma sepultura desconhecida, e Romano em companhia desta Sagrada Imagem da Virgem, perseverou entre estes dois penedos até acabar sua vida. E para que nos tempos futuros não ignorasse alguém estas cousas, escondemos esta lembrança com as sagradas relíquias nesta derradeira parte do mundo, Deus guarde todas estas cousas daas mãos dos Mouros. Amen. Lidas estas cousas, e declaradas por alguns Sacerdotes nos alegrámos todos muito, por sabermos o nome da Virgem, e das santas relíquias, e para serem tidas em perpétua lembrança, as fizemos escrever no processo desta doação. Pelo que dou a sobredita herdade à Igreja acima nomeada, para sua reparação, com seus pastos, e águas de monte em fonte, entradas e saídas, quanto cabe na jurisdição e poder de um homem, e na melhor lei que cada um a pode haver para si, para que nenhum homem de nossa, nem de estranha geração, contravenha a isto que fazemos, a qual cousa se intentar, pague ao senhor da terra trezentos maravedis; e a carta todavia permaneça em seu vigor, e além disto seja excomungado, e em companhia e em companhia do falso Judas experimente as penas infernais. Foi feito o processo deste testamento, aos dez de Dezembro, da era de César, mil duzentos e vinte (que é ano de Cristo mil e cento e oitenta e dois). O mais são confirmações d’el-Rei, e grandes da corte. Esta doação (de que constam os fundamentos de quanto tenho contado) não houve efeito por serem as terras dos Coutos de Alcobaça, que el-Rei Dom Afonso tinha alguns anos antes dadas a nosso Padre São Bernardo, e satisfez a dom Fuas com certos casais junto a Pombal, como consta de outra escritura, que anda junto a esta que deixo de pôr, como coisa que faz pouco ao fio de minha história, e tornando ao discurso dela, é de saber, que a Imagem da Virgem Maria de Nazaré, esteve na capela que lhe fez dom Fuas, até o ano de Cristo, mil e trezentos e setenta e sete, em que el-Rei Dom Fernando de Portugal lhe fundou a casa em que está ao presente, acrescentada, e forrada pela Rainha Dona Leonor mulher d’el-Rei Dom João o segundo, e cercada de alpendres por el-Rei D. Manuel. E agra em nossos tempos se fez uma capela-mor de boa fábrica à custa de esmolas, e rendimento da confraria, e na ermida da antiga fundada por dom Fuas, procurei eu com socorro de alguns devotos que se abrisse debaixo do chão outra capela, para ficar descoberto o mesmo rochedo, e lapa em que a Santa Imagem estiver escondida tanto número de anos, e se desce a ela por oito até dez degraus, com notável consolação de quem contempla a grande antiguidade daquele santuário. E porque se não perdesse a memória de coisas tão notáveis, compus um letreiro, em que brevemente se reconta tudo, e o mandou esculpir em mármore o Doutor Rui Lourenço, Provedor então da comarca de Leiria, e Visitador por el-Rei da mesma Igreja, e continha o seguinte. Sacra Virginis Mariœ veneranda imago, à monasterio Cauliniana prope emeritam, quo Gothorum tempore (â Nazareth translata) miraculis claruerat, in generali Hispaniœ clade ann. Dñi, DCCXIIII. À romano monacho, Commite, vt fertur, Roderico Rege, ad hanc extremam orbis partem aducitur, in qua dum vnus moritur, alter proficiscitur, per CCCCLXIX anos inter duo hœc prœrupta saxa sub parvo delituit tugurio: deinde à Fua Ropinio Portus Molarum duce, anno Domini MCLXXXII. (vt ipse in donatione testatur) inuenta, dum incaute agitato équo fugacem fictumq; forte in sequitur ceruum, ad vltimũq; immanis huius prœcipitii cuneũ, iam iam ruiturus accedit, nomine Virginis inuocato, a ruina, et mortis faucibus ereptus, hoc ei prius dedicat sacellum: tandem a Ferdinando Portugalliœ Rege, ad maius aliud templum, quod ipse a fundamentis erexerat transfertur, ann. Domini MCCCLXXVII. Virgini et perpetuitati. D. D. F. B. D. B. Sua significação em Português contém o seguinte. A sagrada e venerável Imagem da Virgem Maria, que sendo trazida da cidade de Nazaré resplandeceu em tempo dos Godos com milagres no mosteiro de Cauliniana junto à cidade de Mérida, foi trazida a esta última parte do mundo pelo monge Romano, tendo-lhe companhia el-rei Dom Rodrigo, no ano de Cristo, setecentos e catorze, em que aconteceu a perda geral de Espanha, e como o monge morresse, e el-Rei se partisse, ficou aqui escondida em uma pequena choça posta entre estes dois escabrosos penedos, por espaço de quatrocentos e sessenta e nove anos, e sendo depois achada por Dom Fuas Roupinho Capitão de Porto de Mós, no ano de mil e cento e oitenta e dois, como ele próprio testifica em sua doação; sucedeu que arremessando inconsideradamente o cavalo no alcance de um cervo que lhe fugia (e porventura era fingido) e indo já para cair na última ponta deste despenhadeiro, invocando o nome da Virgem foi livre da queda e mãos da morte, e lhe dedicou esta primeira ermida. Finalmente foi trasladada por el-Rei Dom Fernando de Portugal a essoutro templo maior, que ele mandou levantar desde os primeiros fundamentos, no ano do Senhor mil e trezentos e setenta e sete. Frei Bernardo de Brito, dedicou esta obra à Virgem, e a eterna lembrança, por voto que tinha feito. Destas coisas tiradas o mais fielmente que me foi possível da doação e histórias vemos claramente a grande antiguidade deste santuário, pois há oitocentos e noventa e três anos, que a imagem da Senhora foi trazida ao lugar em que está: e de Nazaré, inda que não saibamos o ano fixo em que foi trasladada, ao menos consta que foi antes d’el-Rei Recaredo, que começou a reinar no ano de Cristo, 586. assim há 1021. pouco mais ou menos que veio a Espanha, e como já viesse por mui conhecida e célebre em milagres nas partes de Oriente, bem se deixa entender, que foi esta imagem das mais célebres e antigas, e chegadas ao tempo dos Apóstolos, que teve e tem hoje o mundo, e de seus milagres, e cousas notáveis dissera muito, se me não chamaram os gritos e miserável estrago da gente Espanhola, a que me convém acudir, pondo silêncio a tão santa história.
[De Monarquia Lusitana II. Reimpressão da edição fac-similada de 1975. Edição da Imprensa Nacional-Casa da Moeda] 

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O naufrágio do Alchimist Emden, em notícias da época

O encalhe do navio (popularmente designado por barco e mesmo pelas entidades locais, desembaraçadamente desataviadas dos rigores marinheiros) Alchimist Emden, cargueiro alemão, foi notícia durante algum tempo. O caso deu-se em Fevereiro de 78 na praia de Cambelas, que, para a imprensa de Lisboa, a rádio e a televisão, ficava na Ericeira. «Ao fim da tarde do dia 15, o “Alchimist Emden” enfiou, em sentido perpendicular, pela praia de Cambelas», noticiava o Badaladas de 2 de Março.
Tem interesse ver a esta distância de quase quarenta anos os poderes políticos cá da terra a procurarem ajudar a resolver o problema do navio, perigoso pela sua carga de combustível. A resolver o problema e a ir dando a conhecer as diligências que tomavam. Preocupações, dúvidas, sugestões, chegam até nós do interior da câmara municipal. A população acabou beneficiada com a abertura de acesso à praia, pela engenharia militar.
«Para que os autotanques pudessem descer até ao princípio do “pipe-line”, a engenharia militar construiu uma estrada de Cambelas à praia, que beneficiará a partir de agora o turismo de Cambelas», lemos na notícia «Ramalho Eanes em Cambelas…» (Badaladas, 2-3-78, p. 7).
Tudo está bem, quando acaba bem. Note-se que na época balnear, a população, por sua iniciativa já tomava nas próprias mãos o aprontamento de um caminho transitável até à sua praia. Nesta ocasião de que falamos, desejava-se agora não deixar degradar os acessos abertos pela engenharia militar. Um vereador interroga a Câmara sobre a possibilidade de ser mantido em boas condições o acesso e deliberou-se pedir orçamento a um empreiteiro para a possibilidade de execução da obra, que necessitaria de projecto a suportar pedido de subsídio à entidade competente.

A estrada de alcatrão está lá, como vimos nestes dias.

Badaladas, 2-3-78, p. 7


16-3-78, p. 1

16-3-78, p.5

Badaladas, 2-03-1978, p. 11

Segue o mesmo artigo, cortado em secções, para poder ser lido em letra maior.





*

Badaladas, 30-03-1978, pág. 1

Badaladas, 13-04-1978, p. 9

Badaladas, 20-04-78, pág. 1

Badaladas, 20-04-1978, pág. 11











Badaladas, Secção «Voz do Município», 11-05-78, p. 3


Cambelas: descarregamento do «Alchimist Emden»
O Presidente informou a Câmara de que no dia 22 seriam iniciados os trabalhos de construção de acessos à praia de Cambelas com vista ao descarregamento do barco, trabalhos em que serão empregadas máquinas do Exército e em que será prestada colaboração pela Câmara, mediante o reembolso posterior das respectivas despesas, nomeadamente com a aquisição da pedra.Referiu ainda que durante a operação de descarregamento está preparada para qualquer eventualidade uma equipa médica bem como o Hospital de Torres Vedras.
(Badaladas, secção «Voz do Município», 22-06-78, p.2)



20-07-78, páginas 1 e 10