Estive lá, na missa e na procissão, que é de facto
solene e imponente. Ver, aqui.
terça-feira, 30 de agosto de 2016
domingo, 28 de agosto de 2016
Círio da Prata Grande - Encarnação: cartazes de 2015 e outras informações
O que a seguir se indica sobre o Círio da Prata Grande, na parte que à Encarnação diz respeito, pode ser complementado nas três mensagens do blogue aterraeagente de que no final se dá os linques.
*
http://www.cnsn.pt/portal/index.php?id=1476 (Sítio da Nazaré - cartaz religioso, com programa de 2015)http://senhoranazareencarnacao.pt/ (Aqui, História; Comissão; Eventos; Programa; Fotos – oito, de 1963 a 1914 e uma da Imagem; Vídeos; Contacto. Há hiperligações: facebook, programas e possibilidade de download do cartaz completo e do respeitante apenas à parte recreativa e cultural.)
http://www.paroquiadaencarnacao.pt/index.php?cont_=115&id=33 (23 Ago – Passagem de Testemunho dos «Velhos» para os «Novos»)
http://www.paroquiadaencarnacao.pt/index.php?cont_=115&id=4 (25 Ago – Primeira Procissão de Nossa Senhora da Nazaré)
http://www.paroquiadaencarnacao.pt/index.php?cont_=115&id=29 (13 Set – O Círio da Encarnação ao Santuário da Nazaré)
http://www.paroquiadaencarnacao.pt/index.php?cont_=115&id=39 (21 Nov – Nossa Senhora da Nazaré:
Jantar-Convívio para Apresentação de Contas)
Círio da Prata Grande - O Rei Dom Rodrigo e a Senhora de Nazaré
28 de Agosto de 2016
Hoje é dia
grande em S. Pedro da Cadeira. A esta hora em que escrevo, destaco, ainda, a
saudação e acolhimento dos Juízes, ao meio-dia, e sobretudo a celebração da
Eucaristia, presidida pelo Sr. Bispo Auxiliar de Lisboa, D. José Traquina
Maria (15:00), a chegada das Bandas
Filarmónicas (16:30) e a Solene e Imponente Procissão «Os Nomes de Maria» (17:00)
É dia de Círio da Prata Grande. No
domingo, 11 de Setembro, será a ida à Nazaré, onde às 11 horas terá lugar a
Eucaristia, seguida de procissão. No regresso, passagem pelas localidades: São
Mamede da Roliça (17:00), Torres Vedras (18:15), Turcifal (18:45), Freiria
(19:15), Arneiros (19:45), São Mamede da Ventosa (20:15), Ponte do Rol (20:45),
Silveira (21:15), com chegada a S. Pedro da Cadeira, às 21:45.
Sobre o milagre de D. Fuas Roupinho nas escarpas do Sítio e o modo
«como a imagem de nossa
Senhora de Nazaré foi trazida
ao lugar em que hoje está», ficam mais abaixo dois capítulos da Segunda Parte do
livro Monarquia Lusitana, de Frei António Brandão, editada pela primeira
vez em 1609, aos 37 anos do autor e dez anos após a publicação da Primeira
Parte.
A grafia é
geralmente actualizada. O texto fica intocado, para se ter acesso ao sabor da
época. Há umas pequenas alterações: onde está «ende», pus «onde», deixei ficar
«postaram-se», onde hoje se diz «prostraram-se», em «pode», alterei para
«pôde», «falamos» – «falámos», «achamos» – achámos», «veneramos» – «venerámos»,
«alegramos» – «alegrámos», escrevi «pq», onde estão as mesmas letras com acento
agudo sobreposto, por não ser possível fazê-lo aqui, em «pegadas» ressuscitei o
acento grave «pègadas», onde está «cinitate», pus «ciuitate».
Começa por se oferecer o sumário dos quatro primeiros
capítulos, transcrevendo-se de seguida integralmente o sumário e o texto do terceiro
e do quarto.
***
SEGUNDA PARTE,
DA MONARQUIA LUSITANA.
LIVRO SETTIMO
DA MONARCHIA
LVSITANA
CAPITVLO PRIMEIRO
De
como elRey Dom Rodrigo reynou em Espanha, e se namorou da Caua
Filha
do Conde Dom Iulião, por onde se ocasionou a perda gèral de
Espanha,
& das varias opiniões que há nesta matéria.
CAPITVLO. II.
Da
primeira ẽtrada dos Mouros em
Espanha, perdas que fizeram em Andaluzia & Portugal, com o mais q passou,
ate elRey Dom Rodrigo ser vencido na batalha de Goadalete, & o poder dos
Godos desbaratado.
CAPÍTULO. III
Do que sucedeu a elRey Dom Rodrigo
Depois de perdida a batalha, e do que pas-
sou até chegar a Portugal: toca-se como
a imagem de nossa Senhora de Nazaré
foi trazida ao lugar em que hoje está.
CAPÍTULO IIII.
Do tempo que a imagem de nossa Senhora de
Nazaré esteve escondida no lugar em que el-rei, e Romano a deixaram, como, e
por quem foi achada: põe-se uma doação donde consta a verdade desta história.
***
CAPÍTULO . III
Do que sucedeu a elRey Dom Rodrigo
Depois de perdida a batalha, e do que pas-
sou até chegar a Portugal: toca-se como
a imagem de nossa Senhora de Nazaré
foi trazida ao lugar em que hoje está.
PERDIDA de todo a batalha, e rotos alguns esquadrões, onde
se fazia alguma sombra de resistência, mais para morrer vingados, que por
esperanças de remédio, se veio a noite tão escura e temerosa, que parecia
ajudar a sintir com suas trevas, o lamentável estrago da gente Espanhola, muita
da qual se pôs em salvo com esta ocasião, que a lhe faltar fora impossível
escapar ninguém com vida. E como cada um tinha cudado da sua, não houve quem se
lembrasse de acompanhar ao triste Rei dom Rodrigo que cansado de pelejar, e o
cavalo ferido por algumas partes, se foi retirando ao longo de Guadalete, até
dar em um lamarão, donde o cavalo o não pode tirar [pôde?], e despindo suas
armas, e reais insígnias, as deixou naquele sítio, para desconhecido poder
escapar dos inimigos mais a seu salvo; inda que Albucacim diz, que achando um
pastor mudou com ele o trajo e comendo alguma cousa que lhe deu, se partiu com
seu cajado na mão por um recosto acima até o perder de vista, e sendo o pastor
achado pela gente que Tarif, e o Conde mandaram em sua busca, souberam como não
morrera na batalha, e temeram que metendo-se pelo meio de Espanha, se tornasse
a refazer, para os vir demandar com maiores forças, mas ele que sabia quão
poucas ficavam para resistir a inimigos vitoriosos, e conhecia o rigoroso
castigo da mão divina, dado pela enormidade de suas culpas, e dos Reis seus
predecessores ia com diferente imaginação, traçando meios para salvar sua alma
e curando pouco dos que se lhe ofereciam, para tornar ao estado que perdera.
Entre cruéis pensamentos e dor que lhe quebrava o coração, lembrando-se da
morte de seus amigos e vassalos, e do estrago a que toda Espanha ficava
sujeita, caminhou el-Rei alguns dias no hábito desconhecido, que trocara com o
Pastor, até chegar junto a Mérida, cujos soberbos muros não veria sem grande
cópia de lágrimas, trazendo-lhe sua grandeza à memória a muita em que já se
vira, que cotejada com o estado presente serviria de renovar sua dor, a que não
achava meio de consolação, tendo muitos com que se acrescentasse, porque
divulgando-se a nova da batalha, e crueldade com que os mouros vinham assolando
a terra, em cada lugar se ouviam gritos de mulheres e meninos, e se achavam os
campos e caminhos cheios da miserável gente, que com o melhor de suas fazendas,
iam guarecer-se nas cidades e lugares fortes; outros nos montes e sítios
apartados, fazendo-lhes a fama, e temor natural maior o perigo, e mais
propínquo do que na verdade era, sendo todos estes encontros para o triste Rei
cruéis lançadas, que lhe atravessavam o coração, para remédio, e consolação das
quais, permitiu Deus, que chegasse ao mosteiro de Cauliniana, de que já falámos
algumas vezes nesta história, o qual estava fundado duas léguas da cidade de
Mérida, que é a conta dos oito mil passos que lhe dá Paulo, Diácono da mesma
cidade, no livro que compôs, da vida de alguns Arcebispos: e varões santos que
ali floresceram, onde diz, que estava edificado tão junto do Rio Guadiana, que
sucedia em tempo de cheias entrar-lhe a crecente nas celas dos Religiosos, o
mesmo sítio lhe dá Ambrósio de Morales, referindo a vida do Santo Arcebispo
Renovato, onde afirma, que viu uma carta de certo monge deste mosteiro, chamado
Tarra, escrita a el-Rei Recaredo. Chegado el-Rei a este lugar com desejo de
achar nele alguma consolação para seu espírito, encontrou matéria de maior
lástima, e dobrado sentimento, porque os monges atemorizados com a nova que
chegara poucos dias antes, e solícitos por salvar os ornamentos, e cousas
sagradas, uns eram já fugidos para dentro de Mérida, outros se retiraram pela
terra dentro buscando guarida em outros conventos, e os menos aguardavam o fim
do negócio dentro no mosteiro, desejando acabar a vida pela honra e defensão da
Fé Católica dentro naquele santuário. Entrou el-Rei na Igreja, e vendo-a nua de
ornamentos, e desemparada de Religiosos, se pôs em oração, com tanta dor e
angústia de coração, que desfeito em lágrimas, se não lembrava que podia ser
ouvido de alguma pessoa, a quem o excesso delas desse conhecimento de quem
podia ser, e como a fraqueza de não ter comido alguns dias, o desfalecimento do
cérebro, pela falta do sono, e o quebrantamento de caminhar a pé, lhe tivessem
as forças debilitadas, se lhe cerraram os espíritos, de maneira, que ficou em
terra com um desmaio em que esteve privado dos sentidos até o achar um monge
antigo, e de vida inculpável, chamado Romano, que com lhe lançar água no rosto,
e lhe aplicar outros benefícios semelhantes o fez tornar em si, e procurou
consolá-lo com palavras, e conselhos acomodados ao estado, em que o via, e como
el-Rei conhecesse que era sacerdote, e visse no modo de sua pessoa, e modéstia
de palavras, ser homem de santa vida, quis desalivar sua dor, e purificar sua
consciência com uma confissão geral de pecados antigos; na qual lhe não foi
possível encobrir quem tinha sido, e a estranha mudança de estado, a que o
trouxera a ventura, deixando o monge tão lastimado de ouvir a tragédia de sua
vida, e ver daquele modo ante seus pés tão grande Monarca, que lhe faltaram
palavras para consolar sua mágoa, e com a voz interrompida de suspiros lhe deu absolvição,
e ao dia seguinte, o Santíssimo Sacramento da Eucaristia, e como visse que se
queria partir, buscando lugar mais apartado do comércio da gente, em que fazer
penitência, sem que amigos, nem contrários tivessem notícia de sua pessoa, não
se atreveu o monge a deixá-lo só no meio de tamanha desconsolação como levava,
e tomando-o de parte, lhe rogou pela paixão de Jesus Cristo, que consentisse
irem ambos de companhia, e salvarem uma venerável imagem da Virgem Maria
Senhora nossa, que naquele mosteiro resplandecia com grandes milagres, e fora
trazida da cidade de Nazaré, por um monge Grego, chamado Ciríaco, em tempo que
se levantou nas partes de Oriente uma heresia contra o culto e veneração das
imagens; e de volta com ela, uma relíquia do Apóstolo São Bartolomeu, e outra
de São Brás, que tinha guardadas em um cofre de Marfim, e seria grande
sacrilégio deixá-las oferecidas, ao mau tratamento dos Bárbaros, que segundo a
fama publicava, não deixavam templo, nem lugar sagrado, que não profanassem
lançando as imagens no fogo, e arrastando-as aos cabos dos cavalos para maior
opróbrio da gente baptizada. Vendo-se el-Rei conjurar pela paixão de nosso
Redentor Jesus Cristo, em quem [que?] só tinha consolação e esperança de
remédio, e considerando a piedade da obra, para que o escolhia por companheiro,
se deixou vencer de seus rogos, e tomando em seus braços a pequena imagem da
Senhora, e Romano a caixa das relíquias com alguma provisão para o caminho, se
meteram pelo meio de Portugal, levando o rosto sempre ao Poente, e demandando a
costa do mar Oceano, por ser terra mais solitária naqueles tempos, e menos
frequentada de gente humana onde lhe parecia que os Mouros não chegariam tão
cedo, porque faltando-lhe terras que conquistar naquelas partes não havia
ocasião que os levasse a elas; vinte e seis dias caminharam os dois
companheiros, os mais deles sem tocarem povoado, e depois de passarem muitos
trabalhos em atravessar terras, e vadear rios, houveram vistas do mar Oceano
aos 22 de Novembro, dia de S. Cecília virgem e mártir, e como se tivessem
naquela parte o fim de seus trabalhos tomaram algum alívio, e deram graças ao
Senhor, que os salvara das mãos de seus contrários. Este lugar a que primeiro
chegaram, é nos Coutos de Alcobaça, perto donde agora vemos a Vila da pederneira,
junto da qual para a parte do Nascente se levanta no meio de certos areais um
monte de rochedo e terra firma, prolongado algum tanto de Norte a Sul, tão
alto, e bem proporcionado, que parece milagrosamente posto naquele sítio, por
estar de todas as partes cercado de campos cobertos de areia, sem altura nem
rochedo, de que pareça ter dependência. E como sua compostura leve trás si os
olhos, de quem vê aquela máquina da natureza, desejou el-Rei, e o monge de
subir ao alto dele, por ver se daria lugar a passarem sua vida onde acharam uma
pequena ermida, com um devoto Crucifixo de vulto sem outro sinal de gente viva,
mais que uma sepultura rasa, sem letra nem epitáfio que declarasse cuja fora. O
sítio do lugar, que subindo a uma altura notável descobre, por mar e terra
quanto os olhos alcançam e a repentina vista do Crucifixo, causou no ânimo
d’el-Rei tanto abalo, e tamanha consolação, que abraçado com o pé da cruz, se
esteve desfazendo em rios de lágrimas, não já de saudade dos reinos e senhorios
que perdera, mas de consolação de ver, que a troco deles, se lhe oferecia
naquele monte solitário, o mesmo Jesus crucificado, em cuja companhia
determinou passar o que lhe restasse da vida, e assim o declarou ao monge, que
por o contentar, e por ver o lugar acomodado à contemplação, aprovou o parecer
d’el-Rei; e se deixou estar com ele alguns dias, nos quais foi vendo alguns
inconvenientes, que havia para se poder viver no alto do monte, donde era
necessário descer com muito trabalho, todas as vezes que haviam de beber ou
buscar algumas ervas e frutas para seu mantimento; e conhecendo também que a
vontade d’el-Rei era estar só para desabafar com lágrimas, e exclamações que
muitas vezes fazia diante da imagem de Cristo, se veio de seu consentimento, a
um sítio distante do monte pouco mais de uma milha, que ficando de uma parte
chão, e de serventia fácil, e mui acomodada, se deixa cair da outra sobre o mar
com tão íngreme quebrada, que terá duzentas braças a pique, desde a ponta do
rochedo até ao remanso das ondas. Entre dous grandes penedos, cada um dos quais
sai com sua ponta ao mar, e ficam suspensos no alto da rocha, em forma, que
parecem ameaçar ruína a quem os contempla da praia, achou romano uma pequena
cova, feita naturalmente no penedo, que acrescentou com alguns [?] paredes de
pedra seca, fabricadas por sua mão, e ordenada certa feição de ermida, pôs nela
a imagem da Virgem Maria de Nazaré, que trouxera do mosteiro de Cauliniana, que
com ser pequena, e de cor morena com o menino Jesus nos braços, tem certa perfeição
no rosto, com uma modéstia tão notável, que logo representa coisa miraculosa; e
havendo tanto número de anos, que foi conhecida, e venerada, muitos dos quais
esteve posta em lugar, que a não defendia das injúrias do tempo, se lhe não pôs
nunca tinta, nem foi necessário renová-la. Estava o lugar da ermida, e está
hoje à vista do monte em que el-Rei vivia, e posto que a memória donde vou
tirando as forças deste sucesso, o não especifique, de crer é, que se veriam
muitas vezes, e teriam colóquios tão divinos, como a vida, e santidade do lugar
o pedia, havendo de permeio [?] as grandes tentações do demónio, que el-Rei
padeceu no princípio de sua penitência, A que seriam necessários os avisos, e
documentos do monge, e o socorro de suas orações, e presença das relíquias de
S. Bartolomeu, que milagrosamente o salvou muitas vezes de várias ilusões do
inimigo, e em nossos dias se vêem no alto deste monte fixas em uma rocha viva
certas pègadas humanas, e outras de forma diferente, que a gente vulgar sem acertar
no particular da pessoa, afirma serem de São Bartolomeu, e do demónio que ali
foi vencido e suas ilusões desbaratadas pelo santo, socorrendo a um devoto, que
chamou por ele na força de sua tribulação, que devia ser el-Rei, posto que a
gente de agora o não alcance, a quem o santo deu visivelmente favor, e quis que
para lembrança deste benefício, e do poder que Deus lhe deu sobre os maus
espíritos, ficassem aqueles sinais impressos na pedra dura, e sendo o nome
antigo do monte Seano, se mudou no do Apóstolo, e se chama hoje de S.
Bartolomeu; e a ermida que permanece no alto dele, é da invocação do mesmo
santo, e de S. Brás, o que devia nascer das relíquias destes dois santos, que
Romano trouxe consigo, e as deixou a el-Rei para sua consolação, retirando-se ele
ao lugar, que já temos dito, com a imagem da Senhora, onde viveu pouco mais de
um ano, e sabendo o tempo de sua morte, o comunicou a el-Rei, pedindo-lhe que
em satisfação do amor com que o acompanhara, se lembrasse de rogar a Deus por
sua alma, e desse seu corpo à terra de que fora composto. E havendo-se de
partir daquele lugar, deixasse nele as imagens e relíquias do modo que as ele
comporia antes de morrer; com isto se partiu Romano a gozar do prémio merecido
por seus trabalhos, deixando a el-Rei com novas ocasiões de sentimento pela
falta de tão bom companheiro. O que mais passou neste lugar, as tentações e
trabalhos que teve até o fim da vida, não há historiador autêntico, nem memória
que no-lo certifique, mais que umas relações envoltas em alguns contos
fabulosos, da crónica antiga d’el-Rei dom Rodrigo, onde entre as verdades que
tira do Mouro Rasis há muitas cousas notoriamente impossíveis, como são o
caminho que el-Rei fez, guiado por uma nuvem branca até junto a Viseu, e a
penitência em que ali acabou a vida, metendo-se vivo em certa sepultura, com
uma cobra, que criou para este efeito: Mas como isto sejam cousas duras de
crer, passaremos tudo em silêncio, deixando no juízo dos curiosos o crédito que
merece uma pintura antiga, que inda dura junto a Viseu, na igreja de S. Miguel
sobre a sepultura do mesmo Rei dom Rodrigo, em que se vê a cobra pintada com
duas cabeças, e no próprio sepulcro, que é de pedra lavrada, um buraco redondo,
por onde dizem, que a cobra entrava; O certo de tudo isto é (como contam nossos
historiadores) que el-Rei foi parar a esta parte, e na ermida de S. Miguel, que
vemos junto a Viseu, acabou seus dias em grande penitência, sem pessoa nenhuma
saber o modo dela, nem ter outra notícia mais clara que achar-se pelo tempo
adiante um letreiro sobre certa sepultura desta igreja com as palavras
seguintes.
HIC REQVIESCIT RVDERICVS VLTIMVS REX GOTHORUM.
Querem dizer. Aqui descansa Rodrigo último Rei dos Godos.
As próprias palavras me lembra que vi escritas de preto, em um arco de parede,
que está sobre a sepultura d’el-Rei, posto que o Arcebispo Dom Rodrigo, e
aqueles que o seguem, ponham maior leitura, não advertindo que todas as mais
palavras, que ele acrescenta, são pragas e maldições suas, que roga ao Conde
dom Julião (como notou atentadamente Ambrósio de Morales, seguindo ao Bispo de
Salamanca, e outros) e não razões do mesmo letreiro, como eles as fazem. A
Igreja em que a sepultura d’el-Rei está ao presente é pequena, e de fábrica mui
antiga, particularmente a capela-mor junto da qual ficam de cada parte sua cela
do mesmo comprimento, mas estreitas, e escuras por não terem mais luz, que a
que lhe entra por uma pequena fresta aberta contra o nascente, em uma das quais
(que fica para o meio dia [meio-dia?]) se diz que vivia certo ermitão, por cujo
conselho el-Rei se governava, no discurso [decurso?] de sua penitência, e ali
se mostra hoje sua sepultura, encostada à parede da capela da parte da
epístola: Na outra cela que fica contra o Norte passou el-Rei sua vida pagando
na estreiteza do lugar, as larguezas dos paços, e liberdades da vida passada,
em que ofendera a seu criador, e na parede da capela que corresponde à parte do
Evangelho fica um modo de arco, em que se vê a sepultura, em que
estiveram seus ossos, e se visita dos naturais com devoção, crendo que por seu
meio faz o ali alguns milagres em pessoas doentes de maleitas,e outras
enfermidades semelhantes. Debaixo do mesmo arco, que fica respondendo para
dentro da cela, vi pintados na parede o ermitão, e el-Rei com a cobra de duas cabeças,
e li as letras acima referidas, tudo já gastado do tempo, com sinais de muita
antiguidade, mas de modo que se podiam ver distintamente. O sepulcro é chão de
uma só pedra, em que escassamente pode caber um corpo humano: ao tempo que eu o
vi, estava já descoberto, sem ter ali a pedra que lhe servira de cobertura, nem
os ossos d’el-Rei, que se levaram para Castela, sem saberem de que modo, nem
por cuja ordem, nem eu o pude alcançar, por mais diligências que fiz com gente
antiga daquela cidade, que tinha razão de saber uma cousa de tanta importância,
quando fosse tão certa como alguns me afirmaram.
CAPÍTULO IIII.
Do tempo que a imagem de nossa Senhora de Nazaré esteve
escondida no lugar em que el-rei, e Romano a deixaram, como, e por quem foi
achada: põe-se uma doação donde consta a verdade desta história.
A grande veneração da imagem de nossa Senhora de Nazaré,
que el-Rei deixou escondida no próprio lugar em que romano a pusera vivendo; e
os contínuos milagres com que antigamente resplandeceu, e resplandece em nossos
dias me obrigam a suspender um pouco o fio da história e dar uma relação
sumária, do tempo em que esteve encoberta, e do estupendo milagre por onde foi
conhecida. É pois de saber, que correndo o ano de Cristo setecentos e catorze,
pelo mês de Novembro, chegou a Santa Imagem ao monte de São Bartolomeu., e
entrando já o ano de quinze, a levou romano para a pequena ermida, feita entre
as duas rochas de que se fez menção no capítulo precedente, onde a el-Rei
deixou na melhor forma que lhe foi possível. E como andando o tempo viesse
Portugal a ser senhoreado de Mouros, e as terras daquela comarca povoadas
deles, permaneceu a Virgem, naquela humilde lapa, até os tempos de nosso
primeiro Rei Dom Afonso Henriques, que conquistando Leiria, Porto de Mós, e
toda a mais terra que agora chamam de alcobaça (de que fez andando o tempo
doação a nosso Padre São Bernardo, como já contei na primeira parte de sua
crónica) tornaram os cristãos a frequentar a terra, que antes fora sua, posto
que vivessem nela como em fronteira, porque os Mouros do Algarve, Alentejo, e
Estremadura, os inquietavam com perpétuas entradas que faziam pelo meio de
Portugal. Era neste meio tempo Capitão do Castelo de Porto de Mós um valoroso
cavaleiro, chamado dom Fuas Roupinho, célebre em nossas histórias Portuguesas,
pelo valor com que desbaratou e prendeu a el-Rei Gami, senhor das terras da
Estremadura, que o veio cercar a Porto de Mós, com grande poder de gente, como
veremos na terceira parte desta história, e pelas vitórias honrosas que alcançou
no mar de galés inimigas, que inquietavam as terras, e lugares marítimos deste
reino, posto que andando o tempo fosse morto em certo recontro, que teve com os
mesmos contrários no porto de Ceuta onde o estavam esperando com todas as
forças Africanas juntas, de que se não pôde desviar por correr com fortuna
contrária pela boca do estreito. No tempo que este cavaleiro residia na
Capitania de Porto de Mós, e via a terra segura de inimigos, costumava sair
muitas vezes à caça pelas gândaras, e matos que há entre o mar e a mesma vila,
onde naquele tempo havia muita cópia de caça, e inda no de agora, com ser a
terra tão povoada não deixa de haver alguma, e como continuasse este exercício
(próprio de gente nobre, e animosa) e chegasse à costa do mar algumas vezes,
foi dar naquela monstruosa rocha, que ficando da parte do Norte igual, e chã
com a outra terra campina, se deixa subitamente quebrar contra o meio dia sobre
as ondas do mar com uma altura monstruosa, causando tanto maior admiração a
quem vem andando pelo campo raso sem os olhos descobrirem desigualdade alguma,
quanto menos suspeita trazia de se ver repentinamente suspenso de tamanha
queda: e como andasse por sua curiosidade vendo aquela maravilha natural,
descobriu entre os dois maiores penedos (que saem da terra firme, e campeiam
pelo ar grande espaço, ficando em vão sobre o mar, de maneira, que as pessoas
que os vêem da praia, lhe parece que estão ameaçando uma perigosas ruína) uma
feição de casinha composta de pedra seca, feita de modo que sua traça, e
antiguidade obrigou ao capitão a ver por sua pessoa o que era, e descendo pela
quebrada que se faz entre as duas rochas, entrou na humilde lapa, onde viu
sobre um pequeno altar a venerável imagem da Virgem Maria de Nazaré, com aquela
perfeição e modéstia, que se acha em mui poucas imagens daquele tamanho.
Venerou-a o católico cavaleiro com toda submissão, e quisera levá-la para sai
fortaleza de Porto de Mós, com intento de a ter mais venerada, se não temera
ofendê-la, em lhe trocar habitação conservada por tantos anos. Esta
consideração fez, com que por então a deixasse naquele sítio do próprio modo
que estava, e posto que depois a visitasse as vezes que vinha por aquelas
partes com ocasião da caça, não tratou nunca de melhorar a pobre ermida em que
estava, nem o fizera se a Virgem o não salvara dum notório perigo de morte, que
Deus por ventura permitiu, em castigo de seu descudo, e para deste modo dar a
entender ao mundo a virtude da Santa Imagem. E foi, que vindo a seu ordinário
exercício da caça pelo mês de Setembro, do ano de Cristo, mil e cento e oitenta
e dous, aos catorze do próprio mês, em que a Igreja celebra a festa da
Exaltação da Cruz, em que Cristo remiu o género humano, como amanhecesse o dia escuro
com as névoas, que ordinariamente se levantam do mar e se não alcançasse da
vista a terra ao redor, senão em pequena distância; sucedeu darem os sabujos
com um veado (se porventura o era) e arremessando dom Fuas o cavalo em seu
alcance, sem temor de perigo, por cudar que era tudo campo igual, e a névoa lhe
não deixar ver por onde ia, se achou na última ponta do rochedo, que com mais
de duzentas braças se deixa cair ao mar, a tempo, que não foi em sua mão ter as
rédeas ao ginete, nem houve lugar para mais, que chamar o socorro da Virgem M A
R I A, cuja imagem ali estava, e valeu-lhe ela de modo, que menos de dous
palmos do fim da rocha, em uma ponta que faz estreita, e mui comprida, lhe
parou o cavalo, como se fora de pedra, ficando em sinal do milagre as
esbarraduras das mãos estampadas na rocha viva, como hoje se vêem de todos os
peregrinos, e gente de romagem, que concorrem a visitar a imagem da
senhora; e é cousa notável, e digna de piedosa consideração, ver que no meio
deste penedo em que o milagre sucedeu, em uma ilharga que fica para o nascente,
em parte que por ficar suspensa no ar, não é possível chegar pessoa humana,
estampou a própria natureza uma Cruz cravada na dureza da rocha, como se com
ela santificara aquele penedo, e o marcara de tão santa insígnia, para teatro
em que se havia de representar tão miraculoso passo, que por suceder em dia da
exaltação da Cruz, parece que mostrava a honra e glória, que daí havia de
redundar ao próprio Senhor, que nos remiu nela. Vendo-se dom Fuas livre de tamanho
perigo, e conhecendo donde a mercê lhe viera, se foi à pequena ermida, onde com
a grande devoção que a presença do milagre lhe causava, deu infinitas graças à
Senhora, acusando diante dela o descudo de lhe melhorar a casa, e prometendo a
tudo a emenda que sua possibilidade permitisse. Chegaram depois disto seus
monteiros, seguindo a trilha do cavalo, e sabendo a maravilha que acontecera,
se postraram diante da imagem da Senhora, ajudando com seu espanto a devoção de
dom Fuas, que sabendo como o veado não parecia [aparecia?], nem os cães lhe
achavam rasto por nenhuma parte, e a ele se lhe representara que o levava
diante, entendeu ser ilusão do demónio, que buscara aquele meio, para o fazer
morrer miseravelmente. Eram todas estas considerações causas de se acrescentar
mais a grandeza do milagre; e a obrigação de dom Fuas que ficando-se ali alguns
dias, fez vir de Leiria e Porto de Mós, oficiais para fazerem outra ermida em
que a Senhora estivesse mais venerada, e como desfizessem a primeira, acharam metida
entre as pedras do altar, uma caixinha de marfim, e dentro relíquias de S.
Brás, S. Bartolomeu, e outros santos, com um pergaminho, em que se dava relação
de como, e em que tempo, se trouxeram ali as relíquias e imagem, na forma que
adiante veremos. Fez-se brevemente uma capela de abóbada bem traçada para tempo
tão antigo sobre o mesmo lugar em que a Senhora estivera, e para ser vista de
todas as partes a deixaram aberta com quatro arcos, que andando o tempo se
taparam por evitar o dano que as chuvas e tempestades faziam dentro na capela,
e deste modo permanece em nossos dias. Ficou a Senhora em seu lugar já
conhecida e visitada dos fiéis que concorriam à fama do seu aparecimento, e
milagres, sendo dos primeiros, o valoroso e Santo Rei Dom Afonso Henriques, a
quem dom Fuas avisou do que sucedera, e acompanhado dos grandes de sua Corte, e
de seu filho dom Sancho, veio visitar a imagem da Senhora, e ver com seus
próprios olhos os sinais de maravilha tão rara, como acontecera, e de seu
consentimento fez dom Fuas uma doação à Senhora de certa quantidade de terra,
ao redor, que então eram matos bravos, e hoje o são ainda a maior parte dela,
por ser quase tudo areais incapazes de dar fruto, e que não levam outra coisa
mais que urzes, e alguns pinhais bravos. E porque dela consta a verdade de tudo
o que tenho dito, e reconta por seu modo os sucessos da imagem da Senhora, a
porei da forma que a vi no Cartório de Alcobaça, guardando em tudo o latim, e
barbarismos de sua composição, que é a seguinte. Sub nomine Patris, nec non et eius
prolis, in vnius potentia Deitatis, incipit carta donationis, quam ego Fuas
ropinho, tenẽs Porto de Mòs,et
terram de Albardos vsque Leirenam, et Turres veteres fatio Ecclesiæ Sãcta Mariæ
de Nazareth, quæ de pauco tempōre surgit fundata super mare, vbi de
sæculis antiquis iacebat, inter lapides, et spinas multas, de tota illa terra,
quæ iacet inter flumina quæ venit per Alcoubaz, et aquam numcupatam de
furaturio, et diuiditur de isto modo: de illa foz de flumine Alcobaz, quomodo
vadit per aquas bellas, deinde inter mare, et mata de Patayas vsq; finir in
ipso furaturio, quam ego obtinut de Rege Adefonso, et per suum consensum facio
præsentem seriem ad prædictam Ecclesiam Beatæ Mariæ Virginis, quam feci supra
mare, vt in sæculis perpetuis memorentur irabilia Dei, et sit notum omnibus
hominibus, quomodo à morte fuerim saluatus per pietatẽ Dei et Beatæ Mariæ quam
vocant de Nazaret, tali succesu. Cũ manerem in castro Porto de Mòs, et inde
veniebam ad occidendos venatos, per Meluam et matam de Patayas vsque ad mare, supraquem
inueni furnam, et paruam domũculam inter arbustas, et vepres, in qua erat vna
imago Virginis Mariæ, et venerauimus illam et abiuimus inde; veni deinde XVIII.
Kal. Octobris, circa dictum locum, cum magna obscuratione nebulæ sparsa super
totam terram, et inuenimus venatum, tresquẽ fui in meo équo, vsque venirem ad
esbarrondadeiro supra mare, quod cadit aiuso sine mensura hominis, et pauet
visus si cernit furnam cadentem ad aquas. Paui ego miser peccator, et venit ad
remẽbrãcam de imagine ibi posita, et magna dixi S A N C T A M A R I
A VAL. Benedicta sit illa in mulieribus, quia meum equm sicut si esset
lápis fecit stare, pedibus fixis in lapide, et erat iam vazatus extra terram in
punta de saxo super mare. Descendi de équo, et veni ad locum vbi erat
imago, et ploraui, et gratias feci, et venerunt monteiros, et viderunt, et
laudauerunt Deum, et Beatam Mariam; Misi homines per Leirenam, et Porto de Mos,
et per loca vicina, vt venirent Aluanires et facerent ecclesiam bono opere operatam
de fornice, et lapide, et iam laudetur Deus finita est. Nos vero non sciebamus
vnde esset, et vnde venisset ista imago, sed ecce cum destruebatur altareper
Aluanires, inuenta est arcula de ebore antiquo, et in illa vno enuoltorio, in
quo erant ossa aliquorum sanctorum, et cartula cum hac inscrptione. Hic sunt
reliquiæ Sãctorum Blasii, et Bartholomei Apostoli, quas detulit, â monasterio
Cauliniana Romanus monachus, simul cum venerabili imagine Virginis Mariæ de
Nazareth, quæ olim in Nazareth ciuitate Gallileæ multis miraculis claruerat.,
et inde asportata per Græcum monachum nomine Cyriacum, Gothorum Regum tempore,
in prædictum monasterio per multum temporis manserat, quo vsq Hispania à Mauris
debelata, et Rex Rodericus superatus in prœlio, solus lachrymabilis abiectus,
et penè difficiens peruenit ad prœfatũmonasterium, Cauliniana, ibiq; â prœdicto
Romano pœnitentiœ, et Eucharistiæ Sacramentis susceptis, pariter cum illo, cum
imagine, et reliquiis ad Seanũ montem peruenerunt 10.kal.Decemb in quo Rex solus
per annum integrum permansit, in Ecclesia ibi inuenta cũ Christi crucifixi
imagine, et ignoto sepulchro. Romanus vero cum hac Sacra Virginis effigie inter
duo ista saxa, vsq; ad extrremũ vitœ permãsit; et ne futuris tẽporibu aliquem
ignorantia teneat, hœc cum reliquiis sacris in hac extrema orbis parte
recondimus. Deus ista omnia à Maurorũ manibus seruet. Amẽ. De his lectis, et à
Prœsbyteris apertis satis multum sumus gauisi, quia nomen de sanctis reliquiis,
et de Virgine sciuimus, et ut memorẽtur per sempre in ista serie testamenti
scribere fecimus. Do igitur prœdictam hereditatem pro reparatione prefatœ
Ecclesiœ cum pascuis, et aquis, de monte in fonte, ingreßibus, et regreßibus,
quantũ à prestitum hominis est, et illam in melhiorato foro aliquis potest
habere per se: Ne igitur aliquis homo de nostris, vel de estraneis hoc factum
nostrum ad irrumpendum veniat, quod si tẽtauerit peche ad dominum terrœ
trecentos marabitinos, et carta nihilominus in suo robore permaneat, et insuper
sedeat excommunicatus, et cum Iuda proditore pœnas luat damnatorum. Facta
series testamenti, VI Idus Decemb. Era M. CCXX. Alfonsus Portugalliœ Rex
confirm. Sancius Rex confirm. Regina Dona Tarasia confirm.
Petrus Fernandez regis Sancii dapifer confirm. Menẽdus
Gunsalvi, eiusdem signifer confirm. Donus Ioannes Fernandez curiæ regis
maiordomus, confirm.
Donus Iulianus Cancellarius regis confirm. Martinus
Gonsalvi Pretor Colimbriæ confirm. Petrus Omariz Capellanus regis confirm.
Menedus Abbas cõfirm. Theotonius conf. Fernandus Nuniz, testis. Egeas Nuniz,
testis. Dumtelo (?), testis. Petrus Nuniz, testis. Fernandus Vermundi,
testis. Lucianus Præsbyter, Notauit.
Sua significação traduzida em língua Portuguesa, na melhor
forma possível, com se guardar a propriedade de seus vocábulos, é a seguinte. ¶ Em nome do Padre, e também do Filho gerado, e do Espírito
Santo juntamente, um em poder, de uma só divindade, começa a carta de doação, e
devoção juntamente, que eu Fuas Roupinho Governador de Porto de Mós, e da terra
de Albardos até Leiria, e Torres Vedras, faço à Igreja de S. Maria de Nazaré,
que há pouco se edificou e está sobre o mar, onde estivera metida de tempo
antigo entre pedras, e espinhas, de toda aquela terra, que está entre os Rios
que vêm de Alcobaça, e agora que chamam do furadouro, que se demarca pelo modo
seguinte. Desde aquela foz do Rio de Alcobaça, como vai por águas belas, depois
entre o mar, e a mata de Pataias, até acabar no próprio furadouro, a qual terra
eu alcancei d’el-Rei Dom Afonso, e de seu consentimento faço a presente doação,
à sobredita Igreja da bem-aventurada Virgem Maria, que eu fundei sobre o mar,
para que nos tempos futuros se tenham em lembrança as maravilhas de Deus, e
seja notório a todos os homens, como fui livre da morte pela piedade de Deus, e
da bem-aventurada Virgem Maria, que chamam de Nazaré, de tal modo que residindo
eu no castelo de Porto de Mós, donde vinha à caça de veados, pela Melua, e mata
de Pataias até o mar, achei sobre ele uma cova, e casinha pequena, entre matos
e espinheiros; na qual estava uma imagem da Virgem Maria, a qual venerámos , e
nos partimos daí. Depois disto vim ter junto ao sobredito lugar, aos catorze de
Setembro, com grande çarração de névoa, que cobria a terra toda, e achámos um
veado, trás quem arremessei o cavalo, até chegar, ao esbarrondadeiro sobre o
mar, que cae abaixo sem medida que homem possa alcançar, e pasma a vista, se
olha a fundura, que se deixa cair até as águas. Pasmei eu miserável pecador, e
veio-me à lembrança a imagem que ali junto estava escondida, e em voz alta
disse. Santa Maria val,
Bendita seja ela entre as mulheres, que fez parar o meu cavalo como se fora de
pedra, com os pés fixos no próprio mármore, e estava já lançado fora da terra
na ponta do penedo que cai em cima do mar. Apeei-me então do cavalo e vim ao
lugar onde a imagem estava, e com lágrimas lhe dei as graças, vieram também os
monteiros, e vendo o que passara, deram louvores a Deus, e à bem-aventurada
Virgem Maria. Mandei homens por Leiria, Porto de Mós, e pelos lugares ao redor,
para que trouxessem pedreiros, e fizessem uma Igreja lavrada de boa obra, de
abóbada, e cantaria, e já louvado Deus é acabada. Nós contudo não sabíamos
donde fosse, nem de que parte tivesse vindo esta imagem, mas sucedeu, que
desfazendo-se o altar pelos pedreiros, foi achada uma arquinha de marfim
antigo, e nela um envoltório em que havia relíquias de alguns santos, e um
pergaminho com esta leitura. Aqui estão relíquias de São Brás, e S. Bartolomeu
Apóstolo, as quais trouxe do mosteiro de Cauliniana, o Monge Romano, junto com
a venerável imagem da Virgem Maria de Nazaré; que antigamente resplandecera com
muitos milagres em Nazaré, cidade da Galileia, e daí fora trazida por um monge
Grego, chamado Ciríaco, reinando os Reis Godos, e no sobredito mosteiro esteve
por largo tempo, até que sendo Espanha conquistada pelos Mouros, e el-Rei dom
Rodrigo vencido em batalha, veio ter ao sobredito mosteiro de Cauliniana só
desconhecido, choroso, e desmaiado, e recebendo aí os Sacramentos da confissão,
e Eucaristia, por mão do dito Romano, se partiram ambos de companhia, e
chegaram ao monte Seano, com esta Imagem, e Relíquias, no qual monte el-Rei
viveu por espaço de um ano, em certa Igreja que ali achou com uma imagem de
Cristo crucificado, e uma sepultura desconhecida, e Romano em companhia desta
Sagrada Imagem da Virgem, perseverou entre estes dois penedos até acabar sua
vida. E para que nos tempos futuros não ignorasse alguém estas cousas,
escondemos esta lembrança com as sagradas relíquias nesta derradeira parte do
mundo, Deus guarde todas estas cousas daas mãos dos Mouros. Amen. Lidas estas
cousas, e declaradas por alguns Sacerdotes nos alegrámos todos muito, por
sabermos o nome da Virgem, e das santas relíquias, e para serem tidas em
perpétua lembrança, as fizemos escrever no processo desta doação. Pelo que dou
a sobredita herdade à Igreja acima nomeada, para sua reparação, com seus
pastos, e águas de monte em fonte, entradas e saídas, quanto cabe na jurisdição
e poder de um homem, e na melhor lei que cada um a pode haver para si, para que
nenhum homem de nossa, nem de estranha geração, contravenha a isto que fazemos,
a qual cousa se intentar, pague ao senhor da terra trezentos maravedis; e a
carta todavia permaneça em seu vigor, e além disto seja excomungado, e em
companhia e em companhia do falso Judas experimente as penas infernais. Foi
feito o processo deste testamento, aos dez de Dezembro, da era de César, mil
duzentos e vinte (que é ano de Cristo mil e cento e oitenta e dois). O mais são
confirmações d’el-Rei, e grandes da corte. Esta doação (de que constam os
fundamentos de quanto tenho contado) não houve efeito por serem as terras dos
Coutos de Alcobaça, que el-Rei Dom Afonso tinha alguns anos antes dadas a nosso
Padre São Bernardo, e satisfez a dom Fuas com certos casais junto a Pombal,
como consta de outra escritura, que anda junto a esta que deixo de pôr, como
coisa que faz pouco ao fio de minha história, e tornando ao discurso dela, é de
saber, que a Imagem da Virgem Maria de Nazaré, esteve na capela que lhe fez dom
Fuas, até o ano de Cristo, mil e trezentos e setenta e sete, em que el-Rei Dom
Fernando de Portugal lhe fundou a casa em que está ao presente, acrescentada, e
forrada pela Rainha Dona Leonor mulher d’el-Rei Dom João o segundo, e cercada
de alpendres por el-Rei D. Manuel. E agra em nossos tempos se fez uma
capela-mor de boa fábrica à custa de esmolas, e rendimento da confraria, e na
ermida da antiga fundada por dom Fuas, procurei eu com socorro de alguns
devotos que se abrisse debaixo do chão outra capela, para ficar descoberto o
mesmo rochedo, e lapa em que a Santa Imagem estiver escondida tanto número de
anos, e se desce a ela por oito até dez degraus, com notável consolação de quem
contempla a grande antiguidade daquele santuário. E porque se não perdesse a
memória de coisas tão notáveis, compus um letreiro, em que brevemente se
reconta tudo, e o mandou esculpir em mármore o Doutor Rui Lourenço, Provedor
então da comarca de Leiria, e Visitador por el-Rei da mesma Igreja, e continha
o seguinte. Sacra Virginis
Mariœ veneranda imago, à monasterio Cauliniana prope emeritam, quo Gothorum
tempore (â Nazareth translata) miraculis claruerat, in generali Hispaniœ clade
ann. Dñi, DCCXIIII. À romano monacho, Commite, vt fertur, Roderico Rege, ad
hanc extremam orbis partem aducitur, in qua dum vnus moritur, alter
proficiscitur, per CCCCLXIX anos inter duo hœc prœrupta saxa sub parvo delituit
tugurio: deinde à Fua Ropinio Portus Molarum duce, anno Domini MCLXXXII. (vt
ipse in donatione testatur) inuenta, dum incaute agitato équo fugacem fictumq;
forte in sequitur ceruum, ad vltimũq; immanis huius prœcipitii cuneũ, iam iam
ruiturus accedit, nomine Virginis inuocato, a ruina, et mortis faucibus
ereptus, hoc ei prius dedicat sacellum: tandem a Ferdinando Portugalliœ Rege, ad
maius aliud templum, quod ipse a fundamentis erexerat transfertur, ann. Domini
MCCCLXXVII. Virgini et perpetuitati. D. D. F. B. D. B. Sua significação em Português contém o
seguinte. A sagrada e venerável Imagem da Virgem Maria, que sendo trazida da
cidade de Nazaré resplandeceu em tempo dos Godos com milagres no mosteiro de
Cauliniana junto à cidade de Mérida, foi trazida a esta última parte do mundo
pelo monge Romano, tendo-lhe companhia el-rei Dom Rodrigo, no ano de Cristo,
setecentos e catorze, em que aconteceu a perda geral de Espanha, e como o monge
morresse, e el-Rei se partisse, ficou aqui escondida em uma pequena choça posta
entre estes dois escabrosos penedos, por espaço de quatrocentos e sessenta e
nove anos, e sendo depois achada por Dom Fuas Roupinho Capitão de Porto de Mós,
no ano de mil e cento e oitenta e dois, como ele próprio testifica em sua
doação; sucedeu que arremessando inconsideradamente o cavalo no alcance de um
cervo que lhe fugia (e porventura era fingido) e indo já para cair na última
ponta deste despenhadeiro, invocando o nome da Virgem foi livre da queda e mãos
da morte, e lhe dedicou esta primeira ermida. Finalmente foi trasladada por
el-Rei Dom Fernando de Portugal a essoutro templo maior, que ele mandou
levantar desde os primeiros fundamentos, no ano do Senhor mil e trezentos e
setenta e sete. Frei Bernardo de Brito, dedicou esta obra à Virgem, e a eterna
lembrança, por voto que tinha feito. Destas coisas tiradas o mais fielmente que
me foi possível da doação e histórias vemos claramente a grande antiguidade
deste santuário, pois há oitocentos e noventa e três anos, que a imagem da
Senhora foi trazida ao lugar em que está: e de Nazaré, inda que não saibamos o
ano fixo em que foi trasladada, ao menos consta que foi antes d’el-Rei Recaredo,
que começou a reinar no ano de Cristo, 586. assim há 1021. pouco mais ou menos
que veio a Espanha, e como já viesse por mui conhecida e célebre em milagres
nas partes de Oriente, bem se deixa entender, que foi esta imagem das mais
célebres e antigas, e chegadas ao tempo dos Apóstolos, que teve e tem hoje o
mundo, e de seus milagres, e cousas notáveis dissera muito, se me não chamaram
os gritos e miserável estrago da gente Espanhola, a que me convém acudir, pondo
silêncio a tão santa história.
[De Monarquia
Lusitana II. Reimpressão da edição fac-similada de
1975. Edição da Imprensa Nacional-Casa da Moeda]
sexta-feira, 26 de agosto de 2016
O naufrágio do Alchimist Emden, em notícias da época
O encalhe do navio (popularmente designado por barco e mesmo pelas
entidades locais, desembaraçadamente desataviadas dos rigores marinheiros)
Alchimist Emden, cargueiro alemão, foi notícia durante algum tempo. O caso
deu-se em Fevereiro de 78 na praia de Cambelas, que, para a imprensa de Lisboa,
a rádio e a televisão, ficava na Ericeira. «Ao fim da tarde do dia 15, o
“Alchimist Emden” enfiou, em sentido perpendicular, pela praia de Cambelas»,
noticiava o Badaladas de 2 de Março.
Tem interesse ver a esta distância de quase quarenta anos os
poderes políticos cá da terra a procurarem ajudar a resolver o problema do
navio, perigoso pela sua carga de combustível. A resolver o problema e a ir
dando a conhecer as diligências que tomavam. Preocupações, dúvidas, sugestões,
chegam até nós do interior da câmara municipal. A população acabou beneficiada
com a abertura de acesso à praia, pela engenharia militar.
«Para que os autotanques pudessem descer até ao princípio do
“pipe-line”, a engenharia militar construiu uma estrada de Cambelas à praia,
que beneficiará a partir de agora o turismo de Cambelas», lemos na notícia
«Ramalho Eanes em Cambelas…» (Badaladas, 2-3-78, p. 7).
Tudo está bem, quando acaba bem. Note-se que na época balnear, a
população, por sua iniciativa já tomava nas próprias mãos o aprontamento de um
caminho transitável até à sua praia. Nesta ocasião de que falamos, desejava-se
agora não deixar degradar os acessos abertos pela engenharia militar. Um
vereador interroga a Câmara sobre a possibilidade de ser mantido em boas
condições o acesso e deliberou-se pedir orçamento a um empreiteiro para a
possibilidade de execução da obra, que necessitaria de projecto a suportar
pedido de subsídio à entidade competente.
A estrada de
alcatrão está lá, como vimos nestes dias.
Badaladas, 2-3-78, p. 7
16-3-78, p. 1
16-3-78, p.5
Badaladas, 2-03-1978, p. 11
Segue o mesmo artigo, cortado em secções, para poder ser lido em letra maior.
*
Badaladas, 30-03-1978, pág. 1
Badaladas, 13-04-1978, p. 9
Badaladas, 20-04-78, pág. 1
Badaladas, 20-04-1978, pág. 11
Badaladas, 20-04-1978, pág. 11
Badaladas, Secção «Voz do Município», 11-05-78, p. 3
Cambelas: descarregamento do «Alchimist Emden»
O Presidente informou a Câmara
de que no dia 22 seriam iniciados os trabalhos de construção de acessos à praia
de Cambelas com vista ao descarregamento do barco, trabalhos em que serão
empregadas máquinas do Exército e em que será prestada colaboração pela Câmara,
mediante o reembolso posterior das respectivas despesas, nomeadamente com a
aquisição da pedra.Referiu ainda que durante a operação de descarregamento está
preparada para qualquer eventualidade uma equipa médica bem como o Hospital de
Torres Vedras.
(Badaladas, secção
«Voz do Município», 22-06-78, p.2)
20-07-78, páginas 1 e 10
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