segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

José Tolentino Mendonça

Resolvi deixar aqui duas entrevistas com José Tolentino Mendonça que fui buscar ao meu arquivo.

Li, há dias o capítulo IX de o Tesouro escondido -- Rezar até a impossibilidade de rezar. Compartilhei com pessoa amiga algumas impressões e pensamentos nascidos desta leitura. Umas pessoas levam às outras e fiquei com curiosidade de ter nas minhas mãos um livro de espiritualidade cristã referido neste capítulo: Relatos de um peregrino russo ao seu pai espiritual. Adiante.
Outro de que me não vou poder libertar é A Papoila e o Monge, de que tive conhecimento, ontem, em conversa sobre os haikus, poesia que nos vem do Japão e com cultores em Portugal. Embora o assunto não me fosse inteiramente desconhecido, o meu papel foi o de ouvinte. A Porto Editora deixa ver umas páginas do livro electrónico. Aí se pode ler o que diz José Tolentino sobre os dias memoráveis da sua viagem ao Japão e o haiku.  Podemos ler um:

O silêncio só raramente é vazio
                                                                     diz alguma coisa
                                                                     diz o que não é

Adiante. «Abro» uma mensagem de um blogue que acompanho e encontro um belo texto de Carlos Cupeto sobre

José Tolentino Mendonça

E foi este texto o motivo ou mote para falar, aqui, deste autor sapiencial. 
[Ver, aqui, algumas palavras sobre o artigo de CC e respectivo linque.] 
***
JS - Como pode dizer isso a mim, que escrevi o "Evangelho Segundo Jesus Cristo" e, agora, o "Caim"? Eu sou aquele que diz que, embora seja ateu, estou empapado de valores cristãos.
[Da conversa com JTM, Expresso online, 25-10-2009]

JTM - Tenho a humildade de não concordar. No conjunto da sua obra, este é um exercício, a par dos seus grandes livros.
JS - De exercício não tem nada, meu caro. Tire lá esses óculos e ponha outros, e leia-o como deve ser lido.
JTM - Li o livro com muita atenção e hei-de voltar a ele. Mas é uma narrativa que não tem a grande complexidade nem a invenção romanesca de outros romances. Mas percebo que esteja tremendamente ligado a este livro.
JS - Assim é. Dois homens de boa fé sempre se podem entender.
Versão integral do texto publicado na edição do Expresso de 24 de Outubro de 2009, 1.º Caderno, página 20 e 21.
[Parte final da conversa de JS com JT]
A entrevista, aqui.
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Público, Domingo, 24 de Março de 2013, páginas 8 a 11
ENTREVISTA A Tolentino de Mendonça
“A Igreja não precisa
só de correcção, precisa
de inspiração”
Para o poeta e teólogo, o novo Papa inspirou-se em Francisco de Assis para mudar
através do carisma e da inspiração uma Igreja que está preparada para a mudança
Bárbara Wong e Miguel Gaspar (texto), Rui Gaudêncio (fotos)

Poeta, professor de Teologia. vice-reitor da Universidade Católica, responsável pela Capela do Rato e da Pastoral da Cultural, José Tolentino de Mendonça diz que a Igreja Católica está preparada para a mudança e que o Papa Francisco está pronto a transformá-la através do carisma. Nesta entrevista, identifica as cinco mudanças que considera prioritárias para a Igreja, revisita as polémicas em torno do passado do cardeal Bergoglio, a relevância de um Papa latino-americano e a relação entre a Igreja e a crise da Europa. O escritor que escreveu um poema para Bento XVI diz que já está a ouvir o poema que o Papa Francisco começou a escrever.
Como é que viveu esta primeira semana de pontificado do Papa Francisco?
Com uma alegria muito grande e com a sensação que a Primavera chegou antes do dia 21. Em cada dia havia pequenos sinais, como quando chega a Primavera. Uma árvore que começa a florir, uma planta que começa a florescer. É uma política de sinais que constitui um entusiasmo grande e de que a Igreja precisava.
E que sinais são esses?
São sobretudo sinais de estilo que numa cultura como a católica são muito importantes, porque o estilo nunca é apenas a forma, é a tradução de um carisma e de uma vivência mais funda. E claramente nos sinais, nos pequenos detalhes de protocolo ou de vestuário, isso acaba por ter uma densidade muito maior do que noutras gramáticas.
E esses sinais que o Papa Francisco foi dando prenunciam uma Primavera para a Igreja Católica?
Como é que a Igreja muda? É quando o carisma se sobrepõe à instituição. Mas as verdadeiras mudanças na Igreja não são apenas correcções ou reformas institucionais. É sempre através do carisma que há uma espécie de inspiração, de contaminação e depois a organização propriamente dita acaba por ir por arrasto. Estes sinais são muito importantes, por serem não da ordem do institucional mas do simbólico. Claro que ainda é cedo. Como diz o Papa Francisco, ainda temos que nos sentar juntos. Mas já há um protocolo de relação que está a ser redefi nido que mostra que há uma vontade de simplifi car, de um regresso a um carisma original e isso vai ter um impacto grande nestes tempos da Igreja, que de certa forma está preparada para a mudança.
E que mudança é preciso ser feita?
Antes de tudo, penso que é uma mudança inspiradora. O Papa João Paulo II introduziu um conceito, que Bento XVI continuou, e que há-de marcar este pontificado, há que é a nova evangelização. Entrámos num período de grande reconfiguração do catolicismo, das suas práticas, da sua inscrição, no território e na cultura e isso precisa de ser acompanhado por propostas que dialoguem com as novas interrogações e ao mesmo tempo sejam capazes de levar a Igreja a um novo ciclo. A ideia de nova evangelização é uma resposta a esta necessidade de reconfigurar mas já João Paulo II falava da necessidade de um novo ardor. Como é que a Igreja terá capacidade de se reinventar? É sempre a partir de dentro, de uma experiência espiritual forte, profética, que ela se vai tornar mais adequada à sua vocação e missão. Nesse sentido, o Papa Francisco pode desempenhar um papel muito importante, como estes primeiros dias têm mostrado, porque a aposta dele é a de gerar modelos de inspiração. Ele não se apresentou como um gestor de dificuldades mas sim à sombra de um inspirador icónico que é Francisco de Assis, que reforma pelo seu exemplo, pelo seu testemunho e ao mesmo tempo introduz uma radicalidade na proposta cristã que a relança.
João Paulo II avançou com a nova evangelização, mas ela não foi suficiente para travar o declínio do catolicismo na Europa. Isso não significa que é preciso algo mais?
Os tempos da Igreja são muito específicos. O que se percebe é que estamos numa fractura da história, numa grande mudança epocal. Estamos à beira de um tempo novo e há muitos traços dessa novidade do mundo. Um deles é a globalização. Isso cria grandes possibilidades e grandes tensões. João Paulo II teve esse carisma de ser um peregrino global, de querer abraçar o mundo e mostrar uma das originalidades do cristianismo, que é ser uma proposta universal. Ele mostrou a vitalidade do cristianismo fora do contexto europeu. Teve um papel providencial na queda do bloco soviético mas o seu sonho era uma Europa do Atlântico aos Urais, que hoje é uma utopia adiada. Ainda é cedo para avaliar o contributo de Bento XVI, que fez uma aposta sobretudo na Europa. Mas algumas coisas são já evidentes. A valorização do papel da razão é muito um diálogo com a própria Europa, que significa dizer que o cristianismo deriva do judaísmo e da tradição messiânica de Israel mas também deriva de Atenas e de toda a tradição filosófica.
Bento XVI mudou a inscrição cultural do cristianismo a que se referia há pouco?
Ele trabalhou o estatuto de cidadania do cristianismo na Europa que foi muito relativizado, como aconteceu quando não se quis colocar uma referência ao cristianismo na constituição europeia. A Europa distanciou-se culturalmente do cristianismo. Bento XVI, com o seu vigor e autoridade, mostrou como a história da Europa é indissociável do cristianismo, o que é fecundo para ambas as partes. Todo o património dos direitos humanos é também uma consequência do espírito do cristianismo e tudo o que a Europa é de busca de razão, de liberdade, de afirmação da consciência individual, é uma matriz inequívoca do património cristão e que hoje tem de fecundar o património religioso, porque a religião não é uma opção irracional. Bento XVI foi possivelmente o último Papa europeu, no sentido de um europeísta, de alguém que acredita no património da Europa. O Papa Francisco é alguém que já vem de outro contexto, que sem dúvida vai dialogar muito com a Europa, mas já como uma exterioridade, ajudando a Europa a fazer uma viagem, a colocar-se outro tipo de questões.
Falou no carisma como inspiração para a mudança. O gesto sem precedente da renúncia de Bento XVI não tornou uma mudança na Igreja incontornável?
O gesto da renúncia é um intensificador da mudança.
Há quem a veja como um abandono.
Um homem como Ratzinger não é um homem de abandonos, é um homem de causas e de combate, com uma grande fidelidade às suas convicções e ao papel que lhe foi confiado. Não se tratou de um abandono mas de uma percepção de que este momento precisa de uma intensificação do carisma, de uma força nova para dialogar com a necessidade de mudança. O seu gesto é ao mesmo tempo de uma grandeza humana muito grande, porque é um homem sozinho a decidir e contraria uma tradição de séculos. Mas ao mesmo tempo é uma decisão com o coração na comunidade, com a percepção muito clara que são precisos novos tempos.
A Europa católica é muito diferente da de África ou do continente americano. Até que ponto esta Europa, mais aberta e racional, não vai perder coma vinda de Francisco?
Eu ouvi um debate na televisão italiana, aquando da renúncia de Bento XVI, com o filósofo Massimo Cacciari, que dizendo-se agnóstico tem mantido um diálogo permanente com o espaço católico. Ele defendia precisamente que o próximo Papa devia ser um europeu, porque a Igreja não podia desistir da Europa, que vai continuar a ser um espaço natural e privilegiado da construção cristã. Mas agora a Europa precisa de uma exterioridade, de olhares para lá de si mesma, de pontos de fuga. A incapacidade de sondar futuro, de perceber qual o seu destino nos vários domínios é tamanha que nós europeus sentimos este momento quase como o fi m da nossa história, quando com certeza é só um momento de passagem. Mas não conseguimos ver. Sentimos que a Europa chegou a um ponto de estagnação e há que rasgar as fronteiras da própria Europa e no fundo este regresso simbólico das caravelas é um regresso de que precisamos para nos confrontarmos com o outro e não vivermos nesta espécie de labirinto em que estamos colocados.
Vê o Papa Bergoglio como um cruzamento entre a tradição jesuíta e a tradição franciscana?
Há uma biografia do cardeal Bergoglio que se chama precisamente O Jesuíta. A interpretação é de ele assumir de forma sem dúvida original, mas numa linha de continuidade, os traços de um certo ideário jesuítico. Isso passa sobretudo pela preparação intelectual e teológica, por uma certa consistência no fazer e no conduzir da vida da Igreja e pelo ascetismo da própria figura. A cultura jesuítica conjuga uma grande capacidade de estar no mundo com uma desconfiança do poder e do efeito do poder sobre a personalidade. Isso está concretizado nele, ao pé de uma grande combatividade. Ele teve de passar por situações muito difíceis, como o convívio com uma ditadura, a transição para uma democracia com características próprias, uma guerra, para além de dificuldades internas, como o dossier da Teologia da Libertação e o modo como dividiu a Companhia de Jesus na Argentina.
As questões das ligações à ditadura e da Teologia da Libertação estão precisamente no centro das críticas que têm sido feitas ao passado do Papa.
Em relação à Teologia da Libertação, ele é crítico de uma linha mais militante, contestando a utilização das categorias marxistas e a emergência de uma igreja popular e o efeito que isso poderia ter no interior do catolicismo. Mas, ao mesmo tempo, não se coloca numa posição conservadora clássica. Não vivendo o ideário da Teologia da Libertação, ele acaba tendo uma prática que vai muito ao encontro do horizonte que essa teologia perseguia, uma igreja pobre e capaz de fazer uma opção de trabalho de defesa dos mais pobres. A biografia dele é uma evidência dessa opção.
E quanto à ditadura?
São mesmo grandes defensores dos direitos do Homem e que foram grandes opositores à ditadura que defendem a inocência do cardeal Bergoglio. Sem dúvida que houve às vezes um papel muito pouco claro da Igreja argentina em relação à ditadura, muitas vezes até um conluio. E por isso o próprio cardeal Bergoglio, enquanto arcebispo de Buenos Aires, insistiu para que a Igreja argentina pedisse perdão por não ter tido um papel evangélico na ditadura e ter cedido muitas vezes aos militares. Mas em relação ao papel dele, há de facto essas acusações, que voltam a emergir, mas encontramos em nomes que não têm a ver com o espaço católico uma defesa do papel que o cardeal Bergoglio desempenhou.
A opção pelos pobres tem também a ver com a escolha do nome Francisco.
Estávamos a falar da raiz jesuíta e dessa dimensão franciscana. Ele próprio contou como chegou ao nome Francisco, o que foi mais uma surpresa destes dias. Há um remontar a essa inspiração e por aqui se vê como essa dimensão do carisma vai desempenhar um papel fundamental neste pontificado. Citar a personagem de Francisco de Assis é citar um carismático e alguém que revoluciona a igreja do seu tempo pelo elogio da pobreza, por um cristianismo muito mais aberto, mais ligado a uma poética do querer do que a uma afirmação ligada ao poder. Por isso é impossível não ler a escolha do nome Francisco como a escolha de um programa, de um projecto. É disso que estamos à espera.
Até que ponto ele vai ter coragem para reformar a Cúria e enfrentar estes escândalos que a Igreja enfrenta, como a pedofilia ou a corrupção?
Como é que se reforma uma realidade tão complexa e tão vasta como a Igreja? Não é por decreto, certamente. Mas a grande reforma acontece pela emergência de um novo modelo, de uma nova gramática, de um novo paradigma. E penso que é aí, na criação de um novo exemplo, que ele vai investir tudo.
Que mudanças julga serem prioritárias neste momento?
Eu diria cinco mudanças. A primeira é uma mudança de comunicação. A Igreja Católica precisa de um projecto de comunicação, que não é da ordem do marketing, mas uma capacidade de tornar legível e perceptível o que ela é e de apostar muito mais numa comunicação directa. Mesmo o cristão médio, com formação, tem dificuldade em ler uma encíclica do Papa. Há um défice de autocompreensão no interior da Igreja. Às vezes parece que a Igreja não precisa de se fazer entender, mas precisa. Este esforço é muito um esforço de tradução.
Não é só um esforço de mediação, é um problema que vem de dentro.
Sim, é algo que tem a ver com a cultura interna e também um problema de fora. Depois há um problema de estruturação, que nos leva ao segundo desafio, que é o da comunhão, encontrar um modelo de cooperação mais comunional entre Roma e as dioceses, valorizar mais o papel das conferências episcopais. O terceiro desafio parece-me ser o da relação da Igreja com o mundo, a Igreja ser capaz novamente de fazer aquele exercício que a Gaudium et Spes fazia no Concílio
Vaticano II [documento do Concílio sobre as relações entre a Igreja e o mundo]: perguntar ao mundo o que espera da Igreja e colocar-se numa posição de diálogo de proximidade com o mundo, procurando compreender. O que tem sido o projecto do Átrio dos Gentios tem de contaminar a evangelização e o modo como a Igreja se situa no mundo, que tem de ser muito mais uma escuta mútua. A Igreja tem de entrar num tempo de audição do mundo para poder dimensionar a proposta que faz. O quarto grande desafio é a igreja ser capaz de dialogar com as culturas juvenis emergentes. Os jovens são talvez aqueles que protagonizam mais radicalmente a emergência de uma nova época. São nativos digitais. Têm outra cultura e outra maneira de pensar o humano e a Igreja para se renovar precisa de acompanhar as novas culturas juvenis. O outro grande desafio é o da esperança. O respaldo destas palavras do Papa, quando diz não tenham medo da bondade, é extraordinário. A grande missão da Igreja é devolver ao oceano gelado do nosso coração uma palavra de esperança e ser capaz de ser serva da esperança. Estes desafios ligam-se a tudo o resto, porque há um tempo para acorrer às dificuldades concretas, mas a Igreja não precisa só de correcção, precisa também de inspiração.
A correcção não é necessária de maneira a que a Igreja seja um exemplo?
A correcção faz-se de duas formas. Uma é olhar sem medo para ela e esse tem sido o exercício da Igreja. Bento XVI introduziu essa cultura interna que levou a tantos gestos com uma objectividade muito grande na denúncia, na aceitação do mal, do pecado da Igreja. Quando vinha no avião para Portugal o Papa Bento XVI dizia que o grande inimigo não é externo, mas interno, está na dificuldade que a Igreja tem de ser fiel. Não quer dizer que os problemas tenham terminado, mas há uma coragem de olhar que é importante. É preciso manter isso bem vivo, mas o Papa não, é um polícia moral. Ele tem de ser um inspirador que cria uma grande exigência que tem de vir pela positiva e não simplesmente por uma moralização pela moralização. A Igreja precisa de horizontes, de ser mobilizada para uma palavra que a levante de um certo marasmo.
Existe um desejo de mudança a nível interno? Por um lado, da organização política do Vaticano para que haja uma maior abertura e, por outro, uma mudança, por exemplo, no modo como as mulheres estão representadas dentro da estrutura da Igreja?
A internacionalização é já uma realidade na Cúria Romana que é exemplar. A Igreja na sua diversidade geográfica está muito representada na Cúria, mais do que em organismos internacionais onde se sente a força de uma geografia. Há cardeais e altos funcionários que pertencem a igrejas muito diferentes. Há um certo tipo de representatividade que já existe. Outro é a necessidade de fazer aberturas. Uma muito importante é que as mulheres estejam mais presentes nos vários organismos da Cúria. Hoje há um ou outro caso, mas é muito importante que se passe do carácter extraordinário para uma normalidade.
E a questão da ordenação das mulheres?
Essa é uma questão que penso que não se coloca. A questão está fechada, mas a Igreja é fiel ao Espírito e ao que este lhe vai dizendo e vive num processo de renovação permanente. Este é o nosso presente. A questão é saber se as mulheres – que são sem dúvida a maioria dos católicos –, se os seus pontos de vista, a sua sensibilidade e cultura não deve estar mais representada na governança e nos fóruns de reflexão permanente que a Santa Sé tem e até na representação da Igreja. Há caminhos novos para ponderar, para reflectir e acredito que se dêem passos nesse sentido.
Por que é que a Igreja diocesana está mais representada na Cúria do que as ordens religiosas?
Na Cúria as ordens estão muito representadas, assim como os movimentos.
Mas os cardeais são maioritariamente diocesanos.
Têm de ser extrapartes. É preciso uma espécie de independência ou neutralidade para abraçar a diversidade que é o corpo da Igreja. Este Papa é jesuíta mas agora é o Papa.
Um Papa que anseia por uma Igreja para os pobres pode tolerar um banco que é acusado de lavagem de dinheiro?
Uma coisa são as acusações e há sempre uma grande espuma em torno destas instituições – o Instituto das Obras Religiosas (IOR) e o Banco do Vaticano. Outra coisa é o esforço que se faz no sentido de afirmar uma lógica de transparência. É verdade que o dinheiro é o dinheiro, sempre, e que passa por muitas mãos. O circuito do dinheiro é algo que ninguém pode garantir. Mas o Banco do Vaticano não é um bando de gangsters financeiros e há uma obrigação de transparência de métodos. Penso que o escrutínio que é feito ao banco é de tal ordem que não vejo como seja possível manter, para lá dos romances que se escrevem, uma instituição sem transparência.
Neste tempo em que se vive tanto a austeridade, a Igreja não está obrigada a mudar em questões como essa?
A Igreja está a mudar. O que vimos estes anos é um grande desejo que é muito claro.
A Igreja está disposta a mudar em questões como o divórcio?
A ideia da Igreja sobre o casamento é uma proposta que tem séculos, que vem da mensagem do próprio Cristo, que corresponde a um ideal que os cristãos são convidados a viver e acredito na sua perenidade. A questão que se tem colocado é o acolhimento pastoral dos recasados. Não é uma questão fechada, está aberta e que os bispos pedem que se reflicta e que certamente vai encontrar continuidade.
O cardeal Carlo Maria Martini, falecido em 2012, escreveu que a Igreja está 200 anos atrasada. Como se recupera esse atraso?
Às vezes pode ser um minuto! Porque são tempos simbólicos. O cardeal Martini era um grande profeta da Igreja contemporânea, e tinha muito no seu coração a necessidade de uma audição do tempo presente e às vezes parece que essa comunicação falha. Mas esses 200 anos podem ser resolvidos num pontificado. Este é um momento muito rico da história da Igreja porque é de auto-reflexão do que a Igreja é e do que é chamada a ser. Com todas as suas fragilidades este é um momento de Primavera para a Igreja porque se sente uma germinação interna, que há uma vontade de, mais do que mudar, de ser e essa é uma âncora do futuro da Igreja.
O Papa Francisco já deu sinais que o diálogo religioso é para continuar. No contexto em que estamos, o que é mais importante neste domínio?
Penso que os últimos três Papas, desde João Paulo II, deram um impulso muito grande ao diálogo com as outras igrejas cristãs em relação às quais as diferenças são mais de organização do que de fundo ou teológicas. Penso que a unidade não deve ser de unanimidade, é uma unidade que há-de ser sempre polifónica. Porque a diversidade dos caminhos é uma riqueza para dizer quem é Deus. O divino é uma cantata não é uma melodia.
Os pobres de que fala o Papa são as vítimas da austeridade e da crise ou são os pobres das Bem-Aventuranças?
São os dois. No programa pastoral do arcebispo de Buenos Aires era muito importante a denúncia dos excessos do neoliberalismo e de um modelo de economia que se basta a si mesmo e para o qual as pessoas são indiferentes – se estas ficam mais pobres, se sofrem mais, se o desemprego aumenta –  porque o importante são os jogos financeiros. Na Argentina, a voz de Bergoglio fazia-se ouvir de forma muito intensa, muito concreta, chamando as coisas pelos nomes e o Papa Francisco vai continuar a fazê-lo porque esta situação vai agravar-se. Ele já pediu aos economistas para que pensam uma economia que tenha como fi m a humanidade e não seja um fi m em si mesma, que proteja os humanos. Antes de tudo, no seu discurso os pobres são literalmente os pobres e depois são todas as pobrezas. Porque todos somos seres feridos, temos pobrezas, carências – a procura de Deus é também uma inquietação, uma sede, uma fome, a fome de sentido, de razões de viver. Tudo isso mostra a pobreza da condição humana com a qual Igreja tem de dialogar.
No caso da Igreja portuguesa que papel deve desempenhar?
A Igreja tem desempenhado um papel de suporte aos mais pobres, às camadas mais vulneráveis da nossa população, mantendo uma rede de auxílio, de proximidade, de assistência. Activando a consciência social dos cristãos para a partilha. Sem esta rede a situação seria muito mais catastrófica. Esta rede tem sido vital para a paz social. Há gente a cair na rua mas o número é menor porque existe esta rede. Mas a Igreja é chamada também a um papel mais activo na exigência que se chegue a um novo modelo de economia, a uma prática porque o seu papel é também o de afirmar, por um lado a dimensão prática, por outro o que ela implica em termos de projecto. Que economia queremos? O que está em causa? A Igreja é chamada a fazer ouvir o seu património, as grandes linhas das Doutrina Social da Igreja.
E a Universidade Católica Portuguesa (UCP), de onde saíram tantos gestores e políticos que dão a cara por políticas neoliberais? Não é preciso rever também o seu curso de Economia?
Em todos os cursos se ensina Doutrina Social da Igreja. De maneira que esta não é estranha aos ouvidos dos formados na UCP. Tem uma grande responsabilidade social que passa por formação de uma competência muito grande nas áreas científicas. Essa excelência formativa é reconhecida no prestígio que a UCP tem mas, sem dúvida, que é um desafio interno e que tem estado na agenda o facto de ser “católica” e de não ser apenas um adjectivo que traz no nome, sem corresponder a uma matriz.
Assistimos a um esvaziamento das políticas culturais por causa da crise. Não vê uma institucionalização do empobrecimento?
Vejo um perigo muito grande porque é em épocas em que a luta pela sobrevivência se impõe que esta tem de ser pela inteireza. Precisamos de pão mas também de razões de esperança para viver, precisamos de sentido, da beleza da arte, do teatro, do cinema, da literatura. Precisamos de pão e de rosas. A questão é que, muitas vezes, os valores de que se estão a falar para o apoio à cultura são insignificantes quando comparados com aquilo que se gasta noutras áreas.
Escreveu um poema para Bento XVI. Já começou a escrever para Francisco?
O Papa Francisco é que começou a escrever um poema para nós e esse eu já comecei a ouvir.
***
“Bento XVI foi possivelmente o último Papa europeu, no sentido de alguém que acredita no património da Europa”

“A Igreja tem de entrar num tempo de audição do mundo para poder dimensionar a proposta que faz”

“Não vivendo o ideário da Teologia da Libertação [o Papa Francisco] acaba tendo uma prática que vai muito ao encontro do horizonte que essa teologia perseguia”
[Frases destacadas na entrevista]

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Choupal renovado

O que não vi

Foi muito o que não vi, apesar de, não sendo choupalense, para lá caminhar. No intuito de colaborar na divulgação do acto inaugural, com informações e imagens, pedi ajuda a Ponte do Rol TV e a BADALADAS.

De Ponte do Rol TV, o linque para o vídeo no facebook: o discurso do Presidente e panorâmicas do Choupal. De Badaladas, dou apenas o texto da edição n.º 3117, de 2-10-2015, acrescentando-lhe uma nota.
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Parque do Choupal custou 5,5 milhões de euros e representa uma «nova centralidade» urbana
Torres Vedras inaugurou a «obra do século»
[FERNANDO MIGUEL [ fernandomiguel@badaladas.pt ]
A cidade de Torres Vedras vestiu-se a rigor para festejar durante dois dias consecutivos a inauguração das obras de requalificação do parque verde do Choupal, as quais decorreram durante mais de um ano. A presidir ao ato inaugural esteve a presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Centro, Ana Abrunhosa.
A inauguração aconteceu no sábado passado, dia 26 de setembro, a meio da tarde e a comitiva oficial, onde se encontrava o presidente da Câmara e demais vereação e ainda autarcas da Lourinhã, Bombarral, Cadaval, Caldas da Rainha e Alenquer, entre outros, desfilou atrás da banda de música dos bombeiros voluntários desde a praça da República até ao novo Choupal, à boa maneira italiana.
Já no local e depois de ser inaugurada a «Praça dr. Alberto Manuel Avelino, primeiro presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras eleito democraticamente», no lugar onde antes existiu o largo Alfazema, foi tempo da banda de música seguida das autoridades e demais entidades e ainda do povo percorrerem a pé a ponte que liga esse local ao coração do parque urbano, passando sobre a estrada nacional e o rio Sizandro.
Chegado o momento dos discursos oficiais, começou por usar da palavra o presidente da União das Freguesias de São Pedro, Santa Maria e Matacães, Francisco Martins, que disse que aquele era um “dia há muito tempo ansiado pelos torrienses”, obra que demorou a chegar “muito mais do que qualquer um de nós desejava”, mas que tem uma “cara nova, tem novas valências, mais qualidade e mais diversidade”. O autarca concluiu dizendo que “temos perante nós uma obra que deve ser motivo de orgulho para todos os torrienses”.
Por sua vez o presidente da Câmara, Carlos Miguel, preferiu classificar aquela como uma “obra dorida”. Desde logo porque a ideia inicial tinha surgido há cerca de 15 anos com a candidatura de um mini-Polis apresentado pelo seu antecessor, Jacinto Leandro, “que demorou sete a oito anos a ser aprovado”, recordou. Depois “levámos um novo ‘murro no estômago’ há cerca de três anos e meio, com a ministra Assunção Cristas a sonegar-nos 2,5 milhões de euros de financiamento, ao revogar a candidatura”, informou o edil.
“Mas estamos cá e com a obra feita e completamente paga”, voltou a informar Carlos Miguel, para quem o novo parque verde urbano do Choupal era uma “obra necessária para unir as duas margens do Sizandro”. Sendo por isso considerada desde já como uma obra “de maior volume financeiro” da autarquia (5,5 milhões de euros), dada a intervenção logística e de engenharia de que necessitou para vir a ser implementada e concretizada. “Agora queremos continuar a trabalhar mais para norte, de modo a requalificar o antigo matadouro e o bairro Reis”, revelou em jeito de desejo e desafio o autarca torriense, pedindo e sensibilizando a presidente da CCDR Centro para arranjar “uma nova janela de oportunidade financeira” para investir no alindamento da entrada norte da cidade de Torres Vedras.
A finalizar o seu discurso Carlos Miguel agradeceu aos moradores do forte e encosta de São Vicente, assim como aos do próprio Choupal, matadouro e zonas envolventes, “a compreensão e paciência que tiveram e demonstraram enquanto durou o período das obras por aqui. Agora, amigos, o Choupal é vosso, usufruam-no e respeitem-no. Obrigado”, agradeceu o autarca. Entretanto, Ana Abrunhosa prometeu toda a sua atenção para arranjar fundos que possam catapultar novas obras mais para norte, rumo ao matadouro e bairro Reis.

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Nota: a reportagem inclui três imagens e respectivas legendas, aqui não reproduzidas: na primeira, com o café Xeirinho e o casario da encosta de S. Vicente em fundo, vemos crianças que sobem por cordas/velas. No alto do mastro, o gageiro.
— Que vês tu, gageiro?
— Já vejo «ribeira» e rio, as terras do nosso Choupal!
Na segunda imagem, o presidente da Câmara, Dr. Carlos Miguel, e a presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, Prof.ª Ana Abrunhosa, descerram a placa «Praça Dr. Alberto Manuel Avelino», na presença do homenageado.
A terceira imagem mostra a comitiva oficial encabeçando os acompanhantes, na passagem pela ponte ciclo-pedonal que liga a nova praça ao espaço Choupal, passando sobre a E. N. n.º 9.

domingo, 11 de outubro de 2015

Festejos em honra de Nossa Senhora de Nazaré - S. Pedro da Cadeira 2015

1

Programa das Festas









● 2
Notícia no BADALADAS

[BADALADAS | Setembro 2015               em foco              página 3],
com a devida vénia.

Círio da Prata Grande percorre freguesias de 17 em 17 anos
São Pedro da Cadeira devoto à Virgem da Nazaré
JOAQUIM RIBEIRO [ joaquimribeiro@badaladas.pt ]
Milhares de pessoas manifestaram a sua devoção à Virgem da Nazaré em São Pedro da Cadeira no passado domingo, dia 21, durante a missa celebrada pelo cardeal patriarca, Dom Manuel Clemente, e a procissão em honra de Nossa Senhora da Nazaré, com mais de 200 figurantes e duas bandas filarmónicas.
Após 17 anos de ausência, o Círio da Prata Grande, como também é conhecida essa romaria, regressou à única freguesia do concelho de Torres Vedras que recebe a imagem peregrina.
Entre as outras 16, três são do concelho de Sintra e as restantes de Mafra. É uma tradição secular, entre outras dedicadas a Nossa Senhora da Nazaré, que terá começado na paróquia da Igreja Nova, quando um morador do Penedo de Arrifana resolveu ir em romagem à Nazaré.
Em 1741 foi criada a Confraria de Nossa Senhora da Pederneira - Círio da Prata Grande, movimento que hoje abrange 17 freguesias de três concelhos. Cada freguesia que a recebe fica responsável pela organização da peregrinação anual ao santuário da Nazaré, antes de a entregar à freguesia seguinte.
Durante a celebração eucarística, Dom Manuel Clemente evocou as virtudes da Virgem da Nazaré e de Nossa Senhora como “a mulher mais pura, a mais bela e a mais santa” e apelou à meditação e ao aprofundamento da devoção a Maria, como o caminho certo para chegar a Jesus.
A procissão, liderada pela charanga a cavalo da GNR, percorreu um longo percurso, acompanhada por milhares de fiéis. Antes do andor de Nossa Senhora da Nazaré acompanharam outros, separados por quadros evocando as virtudes da Virgem Maria, num encadeamento em que participaram os andores com as imagens de Nossa Senhora da Lapa, Nossa Senhora do Amparo, São João Baptista, Nossa Senhora da Cátedra, São José, o Menino Jesus, Nossa Senhora das Dores, Sagrado Coração de Jesus, Nossa Senhora da Assunção, Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora da Saúde, Nossa Senhora do Carmo, Beato Nuno, Santo António, São Francisco de Assis, São Pedro (sentado na cadeira, padroeiro da localidade) e por fim Nossa Senhora da Nazaré. Acompanharam as bandas da Sociedade Filarmónica Ermegeirense e Clube Pardilhoense.
As festas de São Pedro da Cadeira prosseguem até ao próximo domingo, dia 27. Hoje à noite atuam o “Grupo VIP’S”, os “Irmãos Verdades” e o DJ João Filipe.
Amanhã, sábado, é celebrada a Eucaristia pelos jovens às 20 horas e o serão é preenchido com o DJ Igor, um grande concerto com os “Xutos e Pontapés” e o regresso da banda rock torriense “Attitude”, infelizmente com a ausência do baterista “Speedy” (partiu um braço), substituído pelo baterista torriense dos “Amor Electro”, Mauro Ramos.
No domingo encerram os festejos com um programa que promete. Às 11 horas é celebrada a Eucaristia, haverá uma tarde de folclore com cinco ranchos e o serão é dedicado ao fado, primeiro com o grupo local “O Nosso Fado” e a seguir com a conhecida fadista Ana Moura.
A terminar uma sessão de fogo de artifício. Em 2016 o círio é entregue à freguesia da Ericeira e depois só regressa a São Pedro da Cadeira em 2032.

Círio da Prata Grande
Calendário das freguesias que recebem a imagem de Nossa Senhora da Nazaré: 2015 - São Pedro da Cadeira (Torres Vedras), 2016 - Ericeira (Mafra), 2017 - Carvoeira (Mafra), 2018 - Alcainça (Mafra), 2019 - Terrugem (Sintra), 2020 - São João das Lampas (Sintra), 2021 - Sobral da Abelheira (Mafra), 2022 - Santo Estêvão das Galés (Mafra), 2023 - Gradil (Mafra), 2024 - Azueira/Livramento (Mafra), 2025 - Enxara do Bispo (Mafra), 2026 - Igreja Nova (Mafra), 2027 - Mafra, 2028 - Santo Isidoro (Mafra), 2029 - Montelavar (Sintra), 2030 - Cheleiros (Mafra), 2031 - Encarnação (Mafra).

final

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

António Costa: um goês, primeiro-ministro para Portugal?

Há dias, um amigo enviou-me um mail com um artigo de Vivek Meneses do jornal THE TIMES OF INDIA. Achei interessante. Em Goa, o passado persiste, e a língua portuguesa? Em Lisboa, às vezes parece que estamos numa certa Índia, tal é a apetência pelo inglês onde não haveria necessidade.
O artigo é simpático para António Costa, independentemente das simpatias políticas de quem ler. Uma figura a conhecer é a do seu pai, Orlando da Costa.
Aqui vai o linque para o artigo, mai-la tradução, que é uma boa maneira de ler o texto sem ser pela rama e ir aprendendo inglês.
— Mas, gosta de inglês?
— Se gosto!
Para ter uma ideia do jornal THE TIMES OF INDIA, clique no linque, abaixo, e saia da página «Goa», clicando em «home».
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THE TIMES OF INDIA             Goa
António Costa: um goês, primeiro-ministro para Portugal?
Vivek Meneses, TNN | Out. 3, 2015, 02.13 AM IST
Deverá haver figas nestas praias distantes no domingo, 4 de Outubro, quando das eleições para todos os 230 lugares no parlamento português, a Assembleia da República[1].
A coligação de centro-direita de Passos Coelho no poder enfrenta um desafio poderoso que há anos tem vindo a amadurecer, de António Costa, o popular e carismático presidente da Câmara de Lisboa, por três mandatos, do Partido Socialista. Na balança está a história concani. O resultado pode ser o primeiro goês chefe de governo.
Costa, é o filho de 54 anos do escritor ferozmente anticolonial, o falecido Orlando da Costa, cujo clássico «O Signo da Ira» se desenrola nos arredores de Margão em que cresceu nos anos 30 e 40. Mais tarde, quando estudava em Portugal, o Costa sénior tornou-se um firme opositor da ditadura de Salazar, membro do, então fora da lei, Partido Comunista, e um bem conhecido intelectual de Lisboa que toda a vida manteve afeição e ligação à sua Goa ancestral.
O seu filho é um prodígio político. António Luís dos Santos da Costa foi ministro português dos Negócios Estrangeiros e ministro da Administração Interna. Encabeçou a lista do seu partido às eleições Europeias de 2004, serviu então na Comissão das Liberdades Cívicas, Justiça e Assuntos Internos, antes de se tornar um dos 14 vice-presidentes do Parlamento Europeu.
Em 2007, Costa jogou forte. Candidatou-se à presidência da Câmara de Lisboa, a peça-central agitada de uma área urbana onde vive quase 30% da população de Portugal. Depois de ganhar, imediatamente mudou o seu gabinete para a Mouraria, local notoriamente infestado de criminalidade, onde começou a ver-se livre de passadores de droga e da prostituição que costumava ser florescente em todo o lado. Esforços semelhantes foram alargados persistentemente a toda a cidade.
Lisboa transformou-se, apesar do repelão da crise económica dominante: é agora, na Europa, a grande cidade mais segura, limpa, verde e melhor para viver. O seu presidente foi três vezes reeleito.
Quando Costa ganhou o direito de liderar o Partido Socialista em Setembro de 2014, parecia certo que iria arrebatar o poder nas eleições de 2015. Mas, apesar da popularidade pessoal avassaladora do candidato a primeiro-ministro, as coisas não vieram a correr assim.
Uma razão importante é o que aconteceu na Grécia. Tal como outras eleições europeias recentes, o referendo[2] de domingo gira em torno da chamada «austeridade». Mas, ao contrário da Grécia — onde o eleitorado se rebelou contra o ajustamento económico sendo forçada no país pela ultrajante «troika» de líderes (a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional) —, Portugal já sofreu três anos de austeridade punitiva e emergiu para «dizer adeus» às medidas.
Há alguns dias, o rating de crédito do país subiu mesmo abaixo do grau de investimento, uma proeza que o partido dominante está a usar para se defender da crítica sobre a recessão que continua, o desemprego recorde e uma extraordinária vaga de emigração.
O último factor também está a jogar contra Costa. Portugal está rapidamente a esvaziar-se de jovens votantes que são a sua base de apoio. Centenas de milhares de sub-30 migraram desde que a crise financeira se entrincheirou. É uma crise para o país, que pode perder dois milhões de pessoas em poucas décadas, mas é também uma crise para Costa. Quase todos aqueles votos podiam ter ido para ele, e agora quase nenhum irá. Na última eleição, apenas 20% dos portugueses a viver no estrangeiro votaram pelo correio.
Mesmo que as sondagens mostrem os incumbentes a liderar, não cometam o erro de votar contra Costa. No último debate da campanha, agilmente forçou Passos Coelho à defensiva para ganhar o dia. «Nos últimos quatro anos, o país andou para trás treze anos», disse Costa, que (embora não tendo o bigode retorcido nas pontas) se parece cada vez mais com o pai. Disse, desdenhosamente: «O governo criou uma série de empregos para enfermeiros, mas eles estão no Reino Unido, não em Portugal.»
Quando este escritor encontrou Costa num museu de Lisboa em 2014, convidou-me espontaneamente para a esplêndida Câmara Municipal do século XIX, onde retratos imponentes dos seus predecessores nos olhavam sobranceiros. Sentámo-nos no sofá ao lado um do outro e o presidente gentilmente fez perguntas tipicamente goesas sobre a aldeia de que vinha, enquanto me ia contando sobre a sua família em Margão. Então, partilhou comigo os seus sonhos sobre desenvolver muito mais fortemente conecções entre a Europa e a Índia, com Goa e Portugal a fazer ponte entre as duas grandes entidades.
Os seus olhos brilhavam de excitação. Permiti-me sonhar com um recém-eleito Costa fazendo a sua primeira viagem oficial à Índia, mesmo a Goa, sem restrições. O filho do Orlando da Costa de Margão, agora o primeiro-ministro de Portugal. Essa improvável, inacreditável curva do destino pode estar exactamente do outro lado da esquina.
O escritor é um autor e fotógrafo publicado em larga escala.






[1]  Assim, no original.
[2]  O autor usa «referendum», que se traduz por «referendo» ou «plebiscito», apresentando-se ao eleitorado uma única questão. Na eleição, como no referendo, está presente, no entanto, a ideia de consulta popular decisiva, pelo que não deixa de se entender o seu uso, aqui; as eleições seriam um referendo à austeridade, palavra usada pelo autor na mesma frase e associada ao precedente «referendo».
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Livro de Orlando da Costa, pai de António Costa e escritor, referido no artigo de Vivek Meneses. Próxima leitura.

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