Li, há dias o capítulo IX de o Tesouro escondido -- Rezar até a impossibilidade de rezar. Compartilhei com pessoa amiga algumas impressões e pensamentos nascidos desta leitura. Umas pessoas levam às outras e fiquei com curiosidade de ter nas minhas mãos um livro de espiritualidade cristã referido neste capítulo: Relatos de um peregrino russo ao seu pai espiritual. Adiante.
Outro de que me não vou poder libertar é A Papoila e o Monge, de que tive conhecimento, ontem, em conversa sobre os haikus, poesia que nos vem do Japão e com cultores em Portugal. Embora o assunto não me fosse inteiramente desconhecido, o meu papel foi o de ouvinte. A Porto Editora deixa ver umas páginas do livro electrónico. Aí se pode ler o que diz José Tolentino sobre os dias memoráveis da sua viagem ao Japão e o haiku. Podemos ler um:
O silêncio só raramente é vazio
diz alguma coisa
diz o que não é
Adiante. «Abro» uma mensagem de um blogue que acompanho e encontro um belo texto de Carlos Cupeto sobre
José Tolentino Mendonça
E foi este texto o motivo ou mote para falar, aqui, deste autor sapiencial.
[Ver, aqui, algumas palavras sobre o artigo de CC e respectivo linque.]
***
JS - Como pode dizer isso a mim, que escrevi o "Evangelho Segundo Jesus Cristo" e, agora, o "Caim"? Eu sou aquele que diz que, embora seja ateu, estou empapado de valores cristãos.
[Da conversa com JTM, Expresso online, 25-10-2009]
JTM - Tenho a humildade de não concordar. No conjunto da sua obra, este é um exercício, a par dos seus grandes livros.
JS - De exercício não tem nada, meu caro. Tire lá esses óculos e ponha outros, e leia-o como deve ser lido.
JTM - Li o livro com muita atenção e hei-de voltar a ele. Mas é uma narrativa que não tem a grande complexidade nem a invenção romanesca de outros romances. Mas percebo que esteja tremendamente ligado a este livro.
JS - Assim é. Dois homens de boa fé sempre se podem entender.
Versão integral do texto publicado na edição do Expresso de 24 de Outubro de 2009, 1.º Caderno, página 20 e 21.
[Parte final da conversa de JS com JT]
A entrevista, aqui.
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Público,
Domingo, 24 de Março de 2013, páginas 8 a 11
ENTREVISTA A Tolentino
de Mendonça
“A
Igreja não precisa
só
de correcção, precisa
de
inspiração”
Para o poeta e
teólogo, o novo Papa inspirou-se em Francisco de Assis para mudar
através do carisma e
da inspiração uma Igreja que está preparada para a mudança
Bárbara
Wong e Miguel Gaspar (texto), Rui Gaudêncio (fotos)
Poeta, professor de Teologia.
vice-reitor da Universidade Católica, responsável pela Capela do Rato e da Pastoral
da Cultural, José Tolentino de Mendonça diz que a Igreja Católica está preparada
para a mudança e que o Papa Francisco está pronto a transformá-la através do
carisma. Nesta entrevista, identifica as cinco mudanças que considera prioritárias
para a Igreja, revisita as polémicas em torno do passado do cardeal Bergoglio,
a relevância de um Papa latino-americano e a relação entre a Igreja e a crise
da Europa. O escritor que escreveu um poema para Bento XVI diz que já está a
ouvir o poema que o Papa Francisco começou a escrever.
Como é que viveu
esta primeira semana de pontificado do Papa Francisco?
Com uma alegria muito grande e com
a sensação que a Primavera chegou antes do dia 21. Em cada dia havia pequenos
sinais, como quando chega a Primavera. Uma árvore que começa a florir, uma planta
que começa a florescer. É uma política de sinais que constitui um entusiasmo
grande e de que a Igreja precisava.
E que sinais são
esses?
São sobretudo sinais de estilo
que numa cultura como a católica são muito importantes, porque o estilo nunca é
apenas a forma, é a tradução de um carisma e de uma vivência mais funda. E
claramente nos sinais, nos pequenos detalhes de protocolo ou de vestuário, isso
acaba por ter uma densidade muito maior do que noutras gramáticas.
E esses sinais
que o Papa Francisco foi dando prenunciam uma Primavera para a Igreja Católica?
Como é que a Igreja muda? É quando
o carisma se sobrepõe à instituição. Mas as verdadeiras mudanças na Igreja não
são apenas correcções ou reformas institucionais. É sempre através do carisma
que há uma espécie de inspiração, de contaminação e depois a organização propriamente
dita acaba por ir por arrasto. Estes sinais são muito importantes, por serem
não da ordem do institucional mas do simbólico. Claro que ainda é cedo. Como
diz o Papa Francisco, ainda temos que nos sentar juntos. Mas já há um protocolo
de relação que está a ser redefi nido que mostra que há uma vontade de simplifi
car, de um regresso a um carisma original e isso vai ter um impacto grande
nestes tempos da Igreja, que de certa forma está preparada para a mudança.
E que mudança é
preciso ser feita?
Antes de tudo, penso que é uma mudança
inspiradora. O Papa João Paulo II introduziu um conceito, que Bento XVI
continuou, e que há-de marcar este pontificado, há que é a nova evangelização. Entrámos
num período de grande reconfiguração do catolicismo, das suas práticas, da sua
inscrição, no território e na cultura e isso precisa de ser acompanhado por propostas
que dialoguem com as novas interrogações e ao mesmo tempo sejam capazes de
levar a Igreja a um novo ciclo. A ideia de nova evangelização é uma resposta a
esta necessidade de reconfigurar mas já João Paulo II falava da necessidade de
um novo ardor. Como é que a Igreja terá capacidade de se reinventar? É sempre a
partir de dentro, de uma experiência espiritual forte, profética, que ela se
vai tornar mais adequada à sua vocação e missão. Nesse sentido, o Papa Francisco
pode desempenhar um papel muito importante, como estes primeiros dias têm mostrado,
porque a aposta dele é a de gerar modelos de inspiração. Ele não se apresentou
como um gestor de dificuldades mas sim à sombra de um inspirador icónico que é
Francisco de Assis, que reforma pelo seu exemplo, pelo seu testemunho e ao
mesmo tempo introduz uma radicalidade na proposta cristã que a relança.
João Paulo II
avançou com a nova evangelização, mas ela não foi suficiente para travar o
declínio do catolicismo na Europa. Isso não significa que é preciso algo mais?
Os tempos da Igreja são muito específicos.
O que se percebe é que estamos numa fractura da história, numa grande mudança epocal.
Estamos à beira de um tempo novo e há muitos traços dessa novidade do mundo. Um
deles é a globalização. Isso cria grandes possibilidades e grandes tensões.
João Paulo II teve esse carisma de ser um peregrino global, de querer abraçar o
mundo e mostrar uma das originalidades do cristianismo, que é ser uma proposta
universal. Ele mostrou a vitalidade do cristianismo fora do contexto europeu.
Teve um papel providencial na queda do bloco soviético mas o seu sonho era uma Europa
do Atlântico aos Urais, que hoje é uma utopia adiada. Ainda é cedo para avaliar
o contributo de Bento XVI, que fez uma aposta sobretudo na Europa. Mas algumas
coisas são já evidentes. A valorização do papel da razão é muito um diálogo com
a própria Europa, que significa dizer que o cristianismo deriva do judaísmo e da
tradição messiânica de Israel mas também deriva de Atenas e de toda a tradição
filosófica.
Bento XVI mudou
a inscrição cultural do cristianismo a que se referia há pouco?
Ele trabalhou o estatuto de cidadania
do cristianismo na Europa que foi muito relativizado, como aconteceu quando não
se quis colocar uma referência ao cristianismo na constituição europeia. A
Europa distanciou-se culturalmente do cristianismo. Bento XVI, com o seu vigor
e autoridade, mostrou como a história da Europa é indissociável do
cristianismo, o que é fecundo para ambas as partes. Todo o património dos
direitos humanos é também uma consequência do espírito do cristianismo e tudo o
que a Europa é de busca de razão, de liberdade, de afirmação da consciência
individual, é uma matriz inequívoca do património cristão e que hoje tem de
fecundar o património religioso, porque a religião não é uma opção irracional.
Bento XVI foi possivelmente o último Papa europeu, no sentido de um europeísta,
de alguém que acredita no património da Europa. O Papa Francisco é alguém que já
vem de outro contexto, que sem dúvida vai dialogar muito com a Europa, mas já
como uma exterioridade, ajudando a Europa a fazer uma viagem, a colocar-se outro
tipo de questões.
Falou no carisma
como inspiração para a mudança. O gesto sem precedente da renúncia de Bento XVI
não tornou uma mudança na Igreja incontornável?
O gesto da renúncia é um intensificador
da mudança.
Há quem a veja
como um abandono.
Um homem como Ratzinger não é um
homem de abandonos, é um homem de causas e de combate, com uma grande fidelidade
às suas convicções e ao papel que lhe foi confiado. Não se tratou de um abandono
mas de uma percepção de que este momento precisa de uma intensificação do
carisma, de uma força nova para dialogar com a necessidade de mudança. O seu gesto
é ao mesmo tempo de uma grandeza humana muito grande, porque é um homem sozinho
a decidir e contraria uma tradição de séculos. Mas ao mesmo tempo é uma decisão
com o coração na comunidade, com a percepção muito clara que são precisos novos
tempos.
A Europa
católica é muito diferente da de África ou do continente americano. Até que ponto
esta Europa, mais aberta e racional, não vai perder coma vinda de Francisco?
Eu ouvi um debate na televisão italiana,
aquando da renúncia de Bento XVI, com o filósofo Massimo Cacciari, que dizendo-se
agnóstico tem mantido um diálogo permanente com o espaço católico. Ele defendia
precisamente que o próximo Papa devia ser um europeu, porque a Igreja não podia
desistir da Europa, que vai continuar a ser um espaço natural e privilegiado da
construção cristã. Mas agora a Europa precisa de uma exterioridade, de olhares
para lá de si mesma, de pontos de fuga. A incapacidade de sondar futuro, de
perceber qual o seu destino nos vários domínios é tamanha que nós europeus
sentimos este momento quase como o fi m da nossa história, quando com certeza é
só um momento de passagem. Mas não conseguimos ver. Sentimos que a Europa
chegou a um ponto de estagnação e há que rasgar as fronteiras da própria Europa
e no fundo este regresso simbólico das caravelas é um regresso de que
precisamos para nos confrontarmos com o outro e não vivermos nesta espécie de
labirinto em que estamos colocados.
Vê o Papa
Bergoglio como um cruzamento entre a tradição jesuíta e a tradição franciscana?
Há uma biografia do cardeal Bergoglio
que se chama precisamente O Jesuíta. A interpretação é de ele assumir de
forma sem dúvida original, mas numa linha de continuidade, os traços de um
certo ideário jesuítico. Isso passa sobretudo pela preparação intelectual e
teológica, por uma certa consistência no fazer e no conduzir da vida da Igreja
e pelo ascetismo da própria figura. A cultura jesuítica conjuga uma grande
capacidade de estar no mundo com uma desconfiança do poder e do efeito do poder
sobre a personalidade. Isso está concretizado nele, ao pé de uma grande
combatividade. Ele teve de passar por situações muito difíceis, como o convívio
com uma ditadura, a transição para uma democracia com características próprias,
uma guerra, para além de dificuldades internas, como o dossier da
Teologia da Libertação e o modo como dividiu a Companhia de Jesus na Argentina.
As questões das
ligações à ditadura e da Teologia da Libertação estão precisamente no centro
das críticas que têm sido feitas ao passado do Papa.
Em relação à Teologia da Libertação,
ele é crítico de uma linha mais militante, contestando a utilização das
categorias marxistas e a emergência de uma igreja popular e o efeito que isso
poderia ter no interior do catolicismo. Mas, ao mesmo tempo, não se coloca numa
posição conservadora clássica. Não vivendo o ideário da Teologia da Libertação,
ele acaba tendo uma prática que vai muito ao encontro do horizonte que essa teologia
perseguia, uma igreja pobre e capaz de fazer uma opção de trabalho de defesa
dos mais pobres. A biografia dele é uma evidência dessa opção.
E quanto à
ditadura?
São mesmo grandes defensores dos
direitos do Homem e que foram grandes opositores à ditadura que defendem a inocência
do cardeal Bergoglio. Sem dúvida que houve às vezes um papel muito pouco claro
da Igreja argentina em relação à ditadura, muitas vezes até um conluio. E por
isso o próprio cardeal Bergoglio, enquanto arcebispo de Buenos Aires, insistiu
para que a Igreja argentina pedisse perdão por não ter tido um papel evangélico
na ditadura e ter cedido muitas vezes aos militares. Mas em relação ao papel dele,
há de facto essas acusações, que voltam a emergir, mas encontramos em nomes que
não têm a ver com o espaço católico uma defesa do papel que o cardeal Bergoglio
desempenhou.
A opção pelos
pobres tem também a ver com a escolha do nome Francisco.
Estávamos a falar da raiz jesuíta
e dessa dimensão franciscana. Ele próprio contou como chegou ao nome Francisco,
o que foi mais uma surpresa destes dias. Há um remontar a essa inspiração e por
aqui se vê como essa dimensão do carisma vai desempenhar um papel fundamental
neste pontificado. Citar a personagem de Francisco de Assis é citar um
carismático e alguém que revoluciona a igreja do seu tempo pelo elogio da
pobreza, por um cristianismo muito mais aberto, mais ligado a uma poética do querer
do que a uma afirmação ligada ao poder. Por isso é impossível não ler a escolha
do nome Francisco como a escolha de um programa, de um projecto. É disso que
estamos à espera.
Até que ponto
ele vai ter coragem para reformar a Cúria e enfrentar estes escândalos que a
Igreja enfrenta, como a pedofilia ou a corrupção?
Como é que se reforma uma realidade
tão complexa e tão vasta como a Igreja? Não é por decreto, certamente. Mas a
grande reforma acontece pela emergência de um novo modelo, de uma nova
gramática, de um novo paradigma. E penso que é aí, na criação de um novo
exemplo, que ele vai investir tudo.
Que mudanças
julga serem prioritárias neste momento?
Eu diria cinco mudanças. A primeira é uma mudança de
comunicação. A Igreja Católica precisa de um projecto de comunicação, que não é
da ordem do marketing, mas uma capacidade de tornar legível e
perceptível o que ela é e de apostar muito mais numa comunicação directa. Mesmo
o cristão médio, com formação, tem dificuldade em ler uma encíclica do Papa.
Há um défice de autocompreensão no interior da Igreja. Às vezes parece que a
Igreja não precisa de se fazer entender, mas precisa. Este esforço é muito um
esforço de tradução.
Não é só um
esforço de mediação, é um problema que vem de dentro.
Sim, é algo que tem a ver com a
cultura interna e também um problema de fora. Depois há um problema de
estruturação, que nos leva ao segundo desafio, que é o da comunhão, encontrar um
modelo de cooperação mais comunional entre Roma e as dioceses, valorizar mais o
papel das conferências episcopais. O terceiro desafio parece-me ser o da relação
da Igreja com o mundo, a Igreja ser capaz novamente de fazer aquele exercício
que a Gaudium et Spes fazia no Concílio
Vaticano II [documento do Concílio
sobre as relações entre a Igreja e o mundo]: perguntar ao mundo o que espera da
Igreja e colocar-se numa posição de diálogo de proximidade com o mundo,
procurando compreender. O que tem sido o projecto do Átrio dos Gentios tem de
contaminar a evangelização e o modo como a Igreja se situa no mundo, que tem de
ser muito mais uma escuta mútua. A Igreja tem de entrar num tempo de audição do
mundo para poder dimensionar a proposta que faz. O quarto grande desafio é a
igreja ser capaz de dialogar com as culturas juvenis emergentes. Os jovens são
talvez aqueles que protagonizam mais radicalmente a emergência de uma nova
época. São nativos digitais. Têm outra cultura e outra maneira de pensar o
humano e a Igreja para se renovar precisa de acompanhar as novas culturas juvenis.
O outro grande desafio é o da esperança. O respaldo destas palavras do Papa,
quando diz não tenham medo da bondade, é extraordinário. A grande missão da
Igreja é devolver ao oceano gelado do nosso coração uma palavra de esperança e
ser capaz de ser serva da esperança. Estes desafios ligam-se a tudo o resto, porque
há um tempo para acorrer às dificuldades concretas, mas a Igreja não precisa só
de correcção, precisa também de inspiração.
A correcção não
é necessária de maneira a que a Igreja seja um exemplo?
A correcção faz-se de duas
formas. Uma é olhar sem medo para ela e esse tem sido o exercício da Igreja.
Bento XVI introduziu essa cultura interna que levou a tantos gestos com uma
objectividade muito grande na denúncia, na aceitação do mal, do pecado da Igreja.
Quando vinha no avião para Portugal o Papa Bento XVI dizia que o grande inimigo
não é externo, mas interno, está na dificuldade que a Igreja tem de ser fiel.
Não quer dizer que os problemas tenham terminado, mas há uma coragem de olhar
que é importante. É preciso manter isso bem vivo, mas o Papa não, é um polícia
moral. Ele tem de ser um inspirador que cria uma grande exigência que tem de
vir pela positiva e não simplesmente por uma moralização pela moralização. A
Igreja precisa de horizontes, de ser mobilizada para uma palavra que a levante
de um certo marasmo.
Existe um desejo
de mudança a nível interno? Por um lado, da organização política do Vaticano
para que haja uma maior abertura e, por outro, uma mudança, por exemplo, no
modo como as mulheres estão representadas dentro da estrutura da Igreja?
A internacionalização é já uma realidade
na Cúria Romana que é exemplar. A Igreja na sua diversidade geográfica está
muito representada na Cúria, mais do que em organismos internacionais onde se
sente a força de uma geografia. Há cardeais e altos funcionários que pertencem
a igrejas muito diferentes. Há um certo tipo de representatividade que já
existe. Outro é a necessidade de fazer aberturas. Uma muito importante é que as
mulheres estejam mais presentes nos vários organismos da Cúria. Hoje há um ou
outro caso, mas é muito importante que se passe do carácter extraordinário para
uma normalidade.
E a questão da
ordenação das mulheres?
Essa é uma questão que penso que
não se coloca. A questão está fechada, mas a Igreja é fiel ao Espírito e ao que
este lhe vai dizendo e vive num processo de renovação permanente. Este é o nosso
presente. A questão é saber se as mulheres – que são sem dúvida a maioria dos
católicos –, se os seus pontos de vista, a sua sensibilidade e cultura não deve
estar mais representada na governança e nos fóruns de reflexão permanente que a
Santa Sé tem e até na representação da Igreja. Há caminhos novos para ponderar,
para reflectir e acredito que se dêem passos nesse sentido.
Por que é que a
Igreja diocesana está mais representada na Cúria do que as ordens religiosas?
Na Cúria as ordens estão muito representadas,
assim como os movimentos.
Mas os cardeais
são maioritariamente diocesanos.
Têm de ser extrapartes. É preciso
uma espécie de independência ou neutralidade para abraçar a diversidade que é o
corpo da Igreja. Este Papa é jesuíta mas agora é o Papa.
Um Papa que
anseia por uma Igreja para os pobres pode tolerar um banco que é acusado de
lavagem de dinheiro?
Uma coisa são as acusações e há
sempre uma grande espuma em torno destas instituições – o Instituto das Obras
Religiosas (IOR) e o Banco do Vaticano. Outra coisa é o esforço que se faz no
sentido de afirmar uma lógica de transparência. É verdade que o dinheiro é o dinheiro,
sempre, e que passa por muitas mãos. O circuito do dinheiro é algo que ninguém
pode garantir. Mas o Banco do Vaticano não é um bando de gangsters financeiros
e há uma obrigação de transparência de métodos. Penso que o escrutínio que é
feito ao banco é de tal ordem que não vejo como seja possível manter, para lá
dos romances que se escrevem, uma instituição sem transparência.
Neste tempo em
que se vive tanto a austeridade, a Igreja não está obrigada a mudar em questões
como essa?
A Igreja está a mudar. O que
vimos estes anos é um grande desejo que é muito claro.
A Igreja está
disposta a mudar em questões como o divórcio?
A ideia da Igreja sobre o casamento
é uma proposta que tem séculos, que vem da mensagem do próprio Cristo, que corresponde
a um ideal que os cristãos são convidados a viver e acredito na sua perenidade.
A questão que se tem colocado é o acolhimento pastoral dos recasados. Não é uma
questão fechada, está aberta e que os bispos pedem que se reflicta e que
certamente vai encontrar continuidade.
O cardeal Carlo
Maria Martini, falecido em 2012, escreveu que a Igreja está 200 anos atrasada. Como
se recupera esse atraso?
Às vezes pode ser um minuto! Porque
são tempos simbólicos. O cardeal Martini era um grande profeta da Igreja
contemporânea, e tinha muito no seu coração a necessidade de uma audição do
tempo presente e às vezes parece que essa comunicação falha. Mas esses 200 anos
podem ser resolvidos num pontificado. Este é um momento muito rico da história
da Igreja porque é de auto-reflexão do que a Igreja é e do que é chamada a ser.
Com todas as suas fragilidades este é um momento de Primavera para a Igreja
porque se sente uma germinação interna, que há uma vontade de, mais do que
mudar, de ser e essa é uma âncora do futuro da Igreja.
O Papa Francisco
já deu sinais que o diálogo religioso é para continuar. No contexto em que
estamos, o que é mais importante neste domínio?
Penso que os últimos três Papas, desde
João Paulo II, deram um impulso muito grande ao diálogo com as outras igrejas
cristãs em relação às quais as diferenças são mais de organização do que de
fundo ou teológicas. Penso que a unidade não deve ser de unanimidade, é uma
unidade que há-de ser sempre polifónica. Porque a diversidade dos caminhos é
uma riqueza para dizer quem é Deus. O divino é uma cantata não é uma melodia.
Os pobres de que
fala o Papa são as vítimas da austeridade e da crise ou são os pobres das Bem-Aventuranças?
São os dois. No programa pastoral
do arcebispo de Buenos Aires era muito importante a denúncia dos excessos do
neoliberalismo e de um modelo de economia que se basta a si mesmo e para o qual
as pessoas são indiferentes – se estas ficam mais pobres, se sofrem mais, se o
desemprego aumenta – porque o importante
são os jogos financeiros. Na Argentina, a voz de Bergoglio fazia-se ouvir de
forma muito intensa, muito concreta, chamando as coisas pelos nomes e o Papa
Francisco vai continuar a fazê-lo porque esta situação vai agravar-se. Ele já
pediu aos economistas para que pensam uma economia que tenha como fi m a humanidade
e não seja um fi m em si mesma, que proteja os humanos. Antes de tudo, no seu
discurso os pobres são literalmente os pobres e depois são todas as pobrezas. Porque
todos somos seres feridos, temos pobrezas, carências – a procura de Deus é
também uma inquietação, uma sede, uma fome, a fome de sentido, de razões de viver.
Tudo isso mostra a pobreza da condição humana com a qual Igreja tem de
dialogar.
No caso da
Igreja portuguesa que papel deve desempenhar?
A Igreja tem desempenhado um papel
de suporte aos mais pobres, às camadas mais vulneráveis da nossa população,
mantendo uma rede de auxílio, de proximidade, de assistência. Activando a consciência
social dos cristãos para a partilha. Sem esta rede a situação seria muito mais catastrófica.
Esta rede tem sido vital para a paz social. Há gente a cair na rua mas o número
é menor porque existe esta rede. Mas a Igreja é chamada também a um papel mais
activo na exigência que se chegue a um novo modelo de economia, a uma prática
porque o seu papel é também o de afirmar, por um lado a dimensão prática, por
outro o que ela implica em termos de projecto. Que economia queremos? O que está
em causa? A Igreja é chamada a fazer ouvir o seu património, as grandes linhas das
Doutrina Social da Igreja.
E a Universidade
Católica Portuguesa (UCP), de onde saíram tantos gestores e políticos que dão a
cara por políticas neoliberais? Não é preciso rever também o seu curso de
Economia?
Em todos os cursos se ensina Doutrina
Social da Igreja. De maneira que esta não é estranha aos ouvidos dos formados
na UCP. Tem uma grande responsabilidade social que passa por formação de uma
competência muito grande nas áreas científicas. Essa excelência formativa é reconhecida
no prestígio que a UCP tem mas, sem dúvida, que é um desafio interno e que tem estado
na agenda o facto de ser “católica” e de não ser apenas um adjectivo que traz
no nome, sem corresponder a uma matriz.
Assistimos a um
esvaziamento das políticas culturais por causa da crise. Não vê uma institucionalização
do empobrecimento?
Vejo um perigo muito grande porque
é em épocas em que a luta pela sobrevivência se impõe que esta tem de ser pela
inteireza. Precisamos de pão mas também de razões de esperança para viver,
precisamos de sentido, da beleza da arte, do teatro, do cinema, da literatura.
Precisamos de pão e de rosas. A questão é que, muitas vezes, os valores de que
se estão a falar para o apoio à cultura são insignificantes quando comparados
com aquilo que se gasta noutras áreas.
Escreveu um
poema para Bento XVI. Já começou a escrever para Francisco?
O Papa Francisco é que começou a
escrever um poema para nós e esse eu já comecei a ouvir.
***
“Bento XVI foi possivelmente
o último Papa europeu, no sentido de alguém que acredita no património da Europa”
“A Igreja tem de
entrar num tempo de audição do mundo para poder dimensionar a proposta que faz”
“Não vivendo o ideário
da Teologia da Libertação [o Papa Francisco] acaba tendo uma prática que vai
muito ao encontro do horizonte que essa teologia perseguia”
[Frases
destacadas na entrevista]





