Partilha da semana, do mês...
Já ganhei o dia, hoje, salvei o dia, depois
desta entrevista de Lídia Jorge, para a série «Partilha da semana» ou do mês…
Não teremos os mesmos gostos em tudo, mas no
essencial, a liberdade, a reserva de segredo no íntimo de cada um, a busca do
sentido..., identifiquei-me.
O
papel da educação, da escola, das humanidades… Os jovens…
Parabéns a Lídia Jorge e à equipa do Público.
*
“É preciso
criar um estado de alarme”
Lídia Jorge é
uma das mais premiadas escritoras e é internacionalmente consagrada como uma
das grandes romancistas. A sua visão crítica da sociedade de hoje não a impede
de ter esperança nos jovens que “estão a ensaiar”, que “vão para a rua” e que
“se podem unir em torno de causas”.
23 de Fevereiro de
2020, 6:01
Aos 73 anos, Lídia Jorge é autora de uma obra ficcional que interpela como
poucas a história recente do país, dos últimos anos do Estado Novo às alegrias,
crises e desilusões do Portugal democrático. E o seu olhar é tão preciso e
desassombrado que ainda hoje alguma esquerda não lhe perdoou por ter escrito
essa incómoda obra-prima a que chamou Os Memoráveis (2014).
“Percebi perfeitamente que ia ser punida”, confessa a romancista, que não deixa
de apontar à esquerda dois pecados: “o tacticismo” e a “corrupção instalada”,
que considera “absolutamente deprimente e catastrófica”. Diz mesmo que esta “é
o principal problema ético e moral” do país e classifica “o
caso Sócrates” como “um trauma profundo”.
Traça um retrato duro da sociedade
que estamos a criar, rendida à cupidez, à ignorância e à busca fútil do prazer,
mas sem sombra de desânimo, porque, “sempre que falamos nos desastres, também
temos o dever de imaginar a esperança”. E lança um desafio directo aos
intelectuais, aos professores, aos jornalistas, pedindo-lhes “uma atitude de
resistência” e que criem “um estado de alarme” que acorde as consciências.
Preocupa-a especialmente a deriva do
ensino e apela a que se invista a sério na formação dos professores, para que a
escola seja capaz de dar esperança aos jovens. O que só conseguirá, acredita,
se voltar a dar um lugar central às Humanidades, que “têm de funcionar como
travão” para a ideia de que “apenas a ciência e a tecnologia interessam neste mundo”.
Assumindo-se como “ingénua voluntária”, afirma a sua esperança nos jovens,
que começam a manifestar-se, a “ensaiar” resistências
colectivas, a “sentir que têm força e podem unir-se em torno de causas”.
Acho que vai ser difícil. Mas não faz
mal. E há uma certa esquerda que leu bem esse livro, que percebeu que é uma
espécie de invectiva e de provocação para que se repense um Portugal diferente,
para que, sobretudo, se interprete o que aconteceu de uma outra maneira. Mas os
abrilistas tiveram muita dificuldade, porque não conseguiram compreender que,
em vez de ter criado heróis, eu tivesse apenas criado figuras memoráveis, isto
é, que não podem ser esquecidas, mas cujo perfil não é perfeito. Escrevi o
livro com uma espécie de destinatário objectivo, que eram os jovens desses
anos, e a aposta fundamental era deixar-lhes a noção de que, apesar de verem
nesse movimento a origem de uma certa decadência, o que acontecera fora
exactamente o contrário. E que houve, sobretudo, um momento inaugural em que
Portugal não foi um país periférico e esteve no centro e no início da
democratização dos países no último quartel do século XX. Uma certa esquerda
leu mal e vai ser difícil perdoar-me, mas costuma dizer-se que quem não aguenta
o calor não trabalha na cozinha.
Não é estranho que uma escritora já
anteriormente premiada, como a Lídia Jorge, escreva um romance com a dimensão
de Os Memoráveis e a obra não tenha tido nenhum prémio?
Teve um, o Prémio Urbano Tavares
Rodrigues. Pelos outros foi esquecido. Mas percebi perfeitamente que ia ser
punida. Faz parte.
Pertenço àqueles escritores que gostam
de trabalhar sobre temas ontológicos, mas para quem a questão social é muito
importante. Há escritores que escrevem a partir da estante, eu sou daqueles que
escrevem a partir do chão. Tenho um imaginário social. Penso que tive na
infância experiências muito fortes daquilo que era a injustiça social e,
sobretudo, observei muita pobreza. O que me tocou muito foi o aniquilamento do
juízo de valor perante a dificuldade económica. No lugar onde morava…
… no Algarve?
Exactamente. Havia um merceeiro, que lá
era um homem fundamental, que tinha duas balanças, uma para comprar e outra
para vender. E as pessoas submetiam-se. Há também outra memória que me marcou
imenso. Fui para a escola muito pequena. No primeiro dia, a minha caneta caiu e
fui buscá-la. Tinha rebolado e andei a ver os pés dos meus colegas, que estavam
todos descalços. Quando cheguei a casa, disse à minha mãe que queria levar uns
sapatos da minha tia, que entretanto tinha crescido, para dar às meninas. E ela
disse-me algo que nunca hei-de esquecer: “Por mais que tentes, nunca os hás-de
calçar a todos.” Isso ficou-me muito marcado. Tenho a convicção de que na
literatura nós podemos calçar, podemos pelo menos reivindicar que todos tenham
sapatos. É uma espécie de placebo, mas ao fazer-se da literatura um placebo,
também se faz um antídoto. Por isso acredito que as fábulas que são políticas e
sociais, se têm uma escrita honrosa, que faz monumento à língua, que é poética,
se não se limitam a ser um documento sociológico, conseguem alcançar aquilo que
é a boa literatura.
Em Portugal, esse falhanço da esquerda
que retrata em Os Memoráveis está na origem da desconfiança em relação
aos políticos?
Não tenho dúvida. A esquerda, no meu
entender, pecou por dois grandes motivos. Um foi o tacticismo. E a comunicação
social de hoje não permite que o tacticismo seja escondido. Ele fica à vista e
é absolutamente desmoralizante perceber que a política se faz no jogo. Enquanto
foi feita nos bastidores, tínhamos a ideia de que aquilo que aparecia era
justo, passava por um percurso ético. Hoje, que tudo está à mostra, percebe-se
que o jogo dos interesses, dos grupos, dos bandos é de tal forma forte que não
se aguenta. As pessoas já não suportam mais o tacticismo evidente.
E qual é o outro motivo?
Há uma coisa que me parece importante: a
esquerda vive da ideia da partilha e da ideia de honorabilidade, e o que
acontece é que a corrupção instalada na esquerda foi absolutamente deprimente e
catastrófica. Isso vê-se no nosso país, onde na última década tivemos um abalo
que nos transformou por dentro. Mas veja-se também o que está a acontecer pela
Europa inteira. É dramático perceber que grupos de extrema-direita, que seriam
os primeiros, uma vez chegados ao poder, a fazer a razia completa dos valores,
são precisamente aqueles que falam abertamente contra os desmandos dos partidos
clássicos. Isso é algo com que estamos a lidar com muita dificuldade. Mas
sempre que falamos nos desastres, também temos o dever de imaginar a esperança.
E vejo, neste momento, que há a possibilidade de criar antídotos.
Houve e lamento muito que se tenha
perdido. Foi um momento importantíssimo. Quando me disseram que iria haver essa
solução, não acreditei que fosse possível, porque não estávamos habituados a
que um perdedor pudesse ganhar. Foi inovador e parte da respeitabilidade que
hoje é reconhecida a Portugal provém dessa espécie de milagre. Acho que António
Costa foi um estadista e fez aquilo que um político faz, que é ver
mais alto e melhor do que a mediania da população. Nessa altura, os partidos
que antes estavam no Governo não conseguiram perdoar, e ainda não perdoaram,
acharam que foi um assalto. Mas, olhando para trás, percebe-se perfeitamente
que era e foi o caminho certo. Lamento muito que não tenha continuado. Porque a negociação
que era feita à porta fechada está, neste momento, a ser feita em público, e
vai ser mau para todos.
É o principal problema ético e moral,
sem dúvida nenhuma, aquilo que mais faz descrer as pessoas. O caso Sócrates,
que ainda está por resolver, é um trauma profundo. Não só para as pessoas que
acreditaram nele, e foi o meu caso, e para todo um grupo ideológico que se revê
no ideal socialista, mas para toda a gente. Ter-se percebido que havia duas
pessoas numa só e que o outro lado era tão obscuro foi traumático. Conheço
muita gente que ficou muito descrente a partir desse momento. E é grave. Aliás,
devo dizer que, uns quatro ou cinco anos antes, fiz uma viagem de Paris para
Lisboa com um conselheiro de um Presidente da República — que vinha muito
agastado de uma reunião com conselheiros de outros países —, e ele disse-me que
40% da economia portuguesa era paralela e não ia demorar quatro ou cinco anos
que não rebentasse qualquer coisa. E disse também: “Metade das pessoas que vê
no telejornal não são honradas, metade delas são ladrões.” Nunca me hei-de
esquecer disto. Por causa disso escrevi um livro que se chama Combateremos
a Sombra. Depois percebi, através de amigos, que havia um segredo tácito,
escondido. E hoje esse segredo mantém-se ainda e nós mantemos essa dúvida sobre
os políticos. Mas, nesta última década, um dos factores fundamentais de mudança
em Portugal foi a atitude da Justiça. A magistratura envolveu-se com os casos
de corrupção de uma forma diferente, não digo perfeita.
Isso teve efeito sobre as pessoas?
Pelo menos existe a ideia de que já não
estamos nessa tragédia que era a cartilha que nos impuseram: “Trabalha o
máximo, ganha o mínimo e compra tudo o que puderes.” No meio destes três
pilares, o que é que aconteceu? As pessoas ficaram completamente submissas,
imóveis, sofrendo imenso. Viram alguns dos intérpretes em quem antes tinham
acreditado falharem completamente. Tinham utilizado o erário público em seu
proveito de uma forma absolutamente escandalosa. Andei à procura, mas não
encontro uma doença psíquica para esse desejo de ter tanto. Para quê ter dez,
30, 60 milhões de euros? Não consigo compreender. Sobretudo quando isso
significa um desequilíbrio social tão grande. É inadmissível. Mas não há nome
para essa doença, os escritores vão ter de inventar.
Como se reabilita a confiança na
política e na representação parlamentar?
Não há receitas imediatas. É aquilo que
todos sabemos: apostar na cultura, no ensino, na crítica, no jornalismo.
Devíamos criar um estado de alarme com base em actores que têm um papel
especial na sociedade: os académicos, os jornalistas, os professores. Considero
que são os pilares de pensamento e de denúncia. São eles os pilares, aqueles de
quem se espera que pensem e denunciem, mas estão muito adormecidos e têm de
tomar um outro alento. Senão, os próprios políticos que são bem-intencionados e
querem fazer alguma coisa são submergidos por uma onda, uma teia que não os
deixa actuar. Sobretudo, enquanto a política for comandada por esta economia,
que de forma mais ou menos disfarçada continua a ser a ideia da Escola de
Chicago [corrente de política económica liberal] de que a empresa é um templo.
Isto é tão grave que mesmo as instituições que não têm nada que ver com uma
empresa assumem essa imagem.
Que instituições?
O pior foi o que aconteceu com a escola,
no ensino básico e secundário, que foi tomada de assalto pelo modelo
empresarial. Não há nada pior do que sugerir a ideia de que o teu parceiro é o
teu concorrente, o teu inimigo, quando ele deve ser o teu adjuvante. É algo que
vai ser muito difícil de resolver ao nível da escola.
Perdeu-se uma cultura de solidariedade?
Sem dúvida alguma. E de trabalho de
grupo e de partilha, de comunidade educativa. Cada professor começou a ser o
espião do seu colega e foi envolvido numa burocracia absolutamente intolerável.
Os
professores estão em estado de anomia e de anemia. Aliás, um ponto
fundamental que não está a correr bem é o diálogo entre os professores e o Governo,
que deveria tomar outro caminho. É necessária uma reconciliação. Os professores
deveriam negociar na base de alguma cedência e o Governo devia olhar para esta
profissão como sendo fundamental. E o sindicato, em vez de fazer todo um combate apenas na base do
ordenado e da reposição de direitos, deveria falar noutra coisa
essencial, que é a formação dos professores. Há algo a acontecer na escola, que
não está a formar com esperança os jovens de hoje.
Porquê?
É-lhes retirada toda a parte cultural,
criativa. Tudo isso desaparece com a ideia de que a prioridade é ter uma
profissão para poder ganhar dinheiro. É preciso adoptar outra mentalidade,
criar pessoas fora do fetichismo tecnológico, dotá-las de uma subjectividade
rica. Isso é de uma importância extraordinária. Posso estar enganada, mas nas
escolas onde vou, e também nas universidades, parece-me haver um empobrecimento
muito grande, e penso que era necessária uma modificação.
Se a consultassem no âmbito de uma
grande reforma da educação, que prioridades sugeriria? Por exemplo, é possível
voltar a dar hoje uma relevância central ao estudo das Humanidades?
É absolutamente necessário que isso
aconteça, que se perceba que as Humanidades têm de funcionar como travão para
essa utopia tecnológica de que apenas a ciência e a tecnologia interessam neste
mundo. Fiquei muito chocada com as últimas entrevistas de George Steiner, porque ele, que passou toda a
vida a mostrar o valor fundamental das Humanidades para encaminharem o avanço
tecnológico, no final recuou completamente e disse, não sei se como boutade,
mas disse-o várias vezes: “Gosto cada vez mais de falar com as pessoas da
ciência porque só elas é que vêem o futuro, as Humanidades só tratam do passado.”
Isto foi desdizer-se. E é preciso que as pessoas que acreditam no contrário
proponham exactamente o oposto. A tecnologia tem de ficar em face da filosofia
e de todas as artes.
E da ética?
É fundamental que haja uma ética, que se
perceba que há travões, neste momento em que a inteligência
artificial já prevê que se venham a ler os pensamentos das pessoas.
Tem de se guardar da pessoa aquilo que ela é. Aliás, no ano 2000, o Libération
fez uma pergunta a escritores de todo o mundo: “Em que é que está a pensar
no início do milénio?” Uma das coisas que eu dizia era que a humanidade perderá
todas as características que conhecemos quando não houver segredo. O segredo é
uma capacidade fundamental do ser humano. Pode-se dizer: eu estou escondido, eu
sou humano.
É a liberdade mais essencial?
É. Tenho uma parte de mim que quero
construir só comigo, que não posso partilhar. Quando isto não acontecer,
estaremos perante uma coisa completamente diferente e não sabemos o que é. Além
disso, há outra coisa. É frequente dizer-se que muita gente que gosta de
literatura tem sido monstruosa. E falam dos nazis que fizeram o Holocausto e
que gostavam de ler e de ouvir música. E que o Átila era tão brutal que onde os
seus cavalos punham as patas a erva não crescia, mas que à noite chorava quando
os bardos tocavam e recitavam para ele. Ou seja, que o bárbaro também é aquele
que chora e tem sensibilidade. Pode ser verdade. Mas acho que se não tivéssemos
a arte, há muito tempo que tínhamos desaparecido como espécie. A arte é o
exercício mais fino do pensamento. É aquele que responde ao desafio que é o do
sentido humano, para o qual vivemos individualmente e em conjunto. Se não
tivesse havido a Ilíada, a Odisseia, a Divina Comédia,
Shakespeare, Cervantes e todos os outros, acredito que nos tínhamos dizimado.
A democracia na Europa pode estar em
risco?
Claro que está em risco. Está em risco
porque a democracia, neste momento, está reduzida à votação. Mas a democracia
não é só isso, é uma ética. Tem princípios e contrapoderes que precisam de ser
respeitados. Um deles é o poder moral. O que acontece é que está a ser criada
uma nova ontologia. As pessoas já sabem à partida que não haverá castigo. Isto
é contrariar uma ontologia que foi criada, muito antes do cristianismo, pelos
gregos. Toda a tragédia grega tem na base essa ideia de que um homem um dia se
sente culpado e arranca os olhos. Neste momento, não há sentido de culpa. O
Trump pode dizer todas as mentiras que quiser. Toda a gente aceita. A [Nancy]
Pelosi rasga o discurso e o mundo inteiro diz: “A Pelosi também foi muito
malcriada.” Aquilo que numa democracia consiste em haver uma proposta e,
depois, ser respeitada a contraproposta, está a acabar.
Também em Portugal?
Em Portugal, começamos a ter essa
situação. A democracia hoje tem de ser pensada e nisso o jornalismo tem uma
função extraordinária. Digo mais: o jornalismo escrito. Por alguma razão, os
alemães, há pouco tempo, quiseram dar de novo uma subvenção ao jornalismo
escrito. Queixaram-se de que era muito pouco, mas foi um gesto de
reconhecimento. Porque é no texto, que lemos várias vezes, e no qual associamos
a opinião a um nome, que criamos filiação de ideias com determinadas pessoas
que consideramos que pensam bem, com quem dialogamos. Isso está a ser perdido,
porque o leque dessas pessoas é cada vez menor e o seu espaço de expressão é
cada vez mais reduzido.
Como se consegue travar os populismos?
Como se explica o que é a democracia perante discursos que, para muitas
pessoas, são de uma simplificação aconchegante?
Tenho uma ideia que é muito
desesperadora, mas que pode fazer alguma coisa. É que os que têm essa noção não
deixem passar, tenham uma atitude de resistência. Fiquei muito feliz quando
percebi que houve uma rapariga [Luísa Semedo] que não quis
enfrentar o André Ventura e se demitiu do seu cargo. Isto tem de ser
multiplicado. Há 20 anos, os europeus revoltaram-se contra o Jörg Haider
[político nacionalista], da Áustria, porque ele tinha uma agenda que não era
democrática. O próprio António Guterres bateu-se imenso. Passados 20 anos,
quantos Haider existem? É preciso tocar o sinal de alarme. Cada um no seu
sítio. Se for necessário demitir-se, tem de se demitir. E os jornalistas têm de
dizer que se demitiu. Cada pessoa tem de falar alto, não pode ter medo. Estamos
numa situação de amedrontamento. Era o Curzio Malaparte [intelectual italiano]
que dizia que os pobres nunca conseguiam fazer a revolução porque estavam
sempre com medo de não ter o pão do dia seguinte. E estamos nessa situação. Há
uma juventude completamente amarfanhada, apática, que não sabe o que fazer e
está paralisada. A única solução que tem, o que lhe resta, é ser cínica. O
cinismo nasce daí. Cínico significa aquele que tem cara de cão, que é o que nós
fazemos. Olhamos para a realidade e não a enfrentamos. Temos de estar em cima
dos políticos por aquilo que fazem de mal, mas premiá-los pelo que fazem de
bem. Falar verdade é hoje fundamental.
No desafio que lança a académicos,
escritores, jornalistas, não acha que uma das batalhas a travar, em particular
pelos jornalistas, é deixar de pactuar com essa espécie de novilíngua da
política, que, mais do que recorrer à mentira factual, promove deliberadamente
o obscurecimento e a perda de sentido da linguagem?
Estive a ver os discursos do Edward
Heath [ex-primeiro-ministro britânico] quando o Reino Unido entrou na União
Europeia e o discurso, agora, de Boris Johnson, e de facto a perda não é só a
questão do critério, é a utilização de chavões, de spots publicitários,
o uso da língua como gritos de guerra. Aliás, slogan é uma palavra de
origem nórdica que significa exactamente grito de guerra. Johnson era
jornalista, o jornalista que hoje fala nas negociações como uma espécie de leão
desvairado que vai a caminho da nova batalha de Waterloo. Em vez de ir com
alguma calma para uma coisa tão sensível, vai para afrontar e meter medo aos
outros. É do mais primitivo que há.
Há que devolver dignidade ao uso da
língua?
É preciso dizer aos alunos, aos jovens,
que têm de encontrar propriedade nas palavras. Têm de estudar. E os professores
de Português, mas não só, precisariam de ter uma formação na língua. Teriam de
voltar a estudar etimologia, semântica, todas as partes da gramática, a
poética. Têm de estudar, têm de fazer de cada professor das Humanidades um
leitor. Não tem havido nenhum ministério que tenha posto isso como prioridade.
Houve um dia um ministro que me chamou para eu ajudar, e eu disse-lhe: “Agora
que têm escolas maravilhosas, algumas delas até parecem hotéis de cinco
estrelas, o que têm de fazer, por favor, é encarar a formação dos professores.”
Mas não era o que queriam, porque isso custa dinheiro.
E cria massa crítica…
Cria uma revolução. Porque quando se
fala da Literatura como uma disciplina básica na formação, não é só a
sensibilidade que está em causa, é a parte racional, é a capacidade de
raciocínio crítico, e isso é absolutamente fundamental. O que aconteceu foi que
a informação ficou telenovelizada e a cultura ficou futebolizada. E isto é
dramático, porque os jovens tomam como padrão a telenovela e o futebol. E o
futebol, apesar de tudo, é muito mais saudável do que a telenovela. Não a
análise do futebol, que é uma epidemia. Mas ao menos as regras do jogo estão
claras. Já a telenovela é feita para analfabetos em cinema. Ensinar os jovens a
ver cinema é crucial para eles entenderem que a elipse, aquilo que não é
mostrado, tem de ser preenchido com o nosso pensamento. Isso é dar-lhes uma
gramática, uma chave para entender a arte, para entender a subtileza. O que
acontece é que a telenovela é o contrário. Em vez de usar a elipse, ela é uma
mimese alongada da realidade. É exactamente o oposto daquilo que provoca
raciocínio. É feita para analfabetos.
E não os fará também?
E para fazer analfabetos. Quando fui
professora, deduzi que a maior parte dos alunos violentos eram aqueles que não
tinham as palavras para falar. Aqueles que se levantavam e saíam porta fora,
que gritavam, que não aceitavam eram os que não tinham palavras para vir
argumentar. E dar palavras às pessoas, pôr as pessoas a argumentar, a encontrar
as palavras necessárias para dizer o que sentem é essencial. A escola tem de o
fazer, até porque nós, em Portugal, corremos um risco maior porque vimos de uma
sociedade muito pouco letrada. Temos de ter paciência connosco, porque ou os
nossos pais ou os nossos avós eram analfabetos. Há uma geração que deu um salto
extraordinário, mas rapidamente se volta para trás. E o que está acontecendo é
que a sociedade onde a cultura é menos letrada, menos cultivada, é aquela que
aceita melhor o ditame do fetichismo tecnológico. E as duas coisas são de facto
explosivas.
Como vê o papel do Papa
Francisco? Está de facto a revolucionar a Igreja ou nem tanto?
Ele está a revolucioná-la, mas não o
estão deixando. A sua eleição foi uma das coisas boas que aconteceram nos
últimos anos. A primeira vez que o ouvi, pensei: “É um homem novo, um homem
diferente.” Uma criança perguntou-lhe se pensara ser Papa e ele respondeu:
“Nunca, não há predestinados, que vergonha se eu alguma vez imaginava isso.”
Ora, isto é o contrário de João Paulo II. Francisco é um humano entre os
humanos, prega o Evangelho. Se Cristo deixou pegadas na Terra, penso que ele
está a pôr os seus pés no sítio onde elas estão.
Muitos comentadores têm chamado a
atenção para as inquietantes coincidências entre o tempo que vivemos e aquele
que na Europa precedeu a ascensão dos fascismos. No seu último romance, Estuário,
o protagonista regressa de algum modo à Ilíada para falar das atrocidades
e ameaças do presente. Concorda que a História não é imune a um certo grau de
repetição e que essas comparações, que parecem anacrónicas, podem não ser
inteiramente descabidas?
Não são, não. Aliás, voltar a essas
grandes narrativas é fundamental. A Ilíada é o texto mais contemporâneo
que existe. É um grito para a humanidade escrito oito séculos antes de Cristo.
O receio que aquela história evidencia é que as pessoas podem matar-se umas às
outras, e é horrível, mas, lendo com os nossos olhos de hoje, o que acontece é
que Aquiles vai ser morto e não há descendentes. Quando se vê Trump, imune, a
fazer tudo o que quer deste mundo e os seus imitadores de meia-tigela… Basta um
clique e dá-se aqui qualquer coisa de dramático. Todos nós sentimos isso. E a
noção de que não há planeta B cria paralisação e, ao mesmo tempo, movimentos
anárquicos de violência. Há uma espécie de terror branco sobre as nossas
cabeças. Se fosse adolescente, o que sentiria eu acerca do futuro? Diz-se que a
Terra está esgotada, mas os jovens assistem todos os dias a este balanço
extraordinário entre os que dizem que sim e os que dizem que não, e
parece que estão a ganhar os segundos, porque são indiferentes ao apelo dos
primeiros. A Alemanha, que tem adoptado a atitude certa, está a ser punida
economicamente, e não sei quantos alemães o vão aguentar.
Esta geração encara o futuro com mais
receio do que as precedentes?
O que um adolescente hoje pensa é que a
Terra está em perigo e que há loucos a mandar no mundo. E depois há a ideia de
futuro, sendo o espaço todos os dias concedido ao futuro extraordinário:
deixou-se de viver no presente e passou-se a viver no futuro. Há aqui um trauma
semelhante ao do século XVII, que criou coisas horríveis, pôs pessoas na
fogueira — as capitais da Europa encheram-se do cheiro a gordura de seres
humanos queimados —, e tudo isto aconteceu depois do Renascimento, quando houve
homens que escreveram sobre uma nova humanidade, que escreveram sobre o futuro
como uma promessa de entendimento. E passados poucos anos acontece exactamente
o contrário: as lutas religiosas, o regresso do obscurantismo. Uma das
explicações para isso é a grande crise que se dá quando a Terra deixa de ser o
centro e a população começa a perceber que o Sol é que é o centro, e pensa:
“Nós não sabemos nada sobre o mundo.” Ora, os jovens de hoje têm medo da Terra,
fala-se permanentemente do futuro, mas não há outro planeta para onde irmos, e
as democracias estão em crise. E, por outro lado, as ciências biológicas estão
a fazer o seu trabalho junto dos jovens, que é dizer que nós também somos um
animal. Só que têm de tomar cuidado, em meu entender, porque talvez sejamos um
animal especial, ou talvez não sejamos um animal. Gosto muito daquela expressão
do Steiner, que dizia que quando se lê poesia suspende-se a morte de Deus de
Nietzsche. É verdade. Nós somos outra coisa. Não sabemos dizer o que somos, e é
talvez por isso mesmo que somos outra coisa. É preciso dizê-lo aos jovens, e é
isto que a Literatura, as artes, o cinema, podem mostrar…
Uma dimensão transcendente?
É dizer que cada um tem a sua noção de
transcendência, os que irão até à crença absoluta num deus tradicional, outros
que ficarão no agnosticismo. Mas ao menos deixem ficar a dúvida. Não digam
taxativamente: “Eu sou um bicho.” Digam: “Eu sou um bicho que pensa que,
havendo uma metafísica, essa metafísica pode dialogar comigo.” Isto é
fundamental para que os jovens não se suicidem, ou não se cortem nas pernas e
nos braços, como está a acontecer.
Parece ter-se criado a ideia de que
faltam hoje causas que mobilizem os jovens. Acha que as questões ambientais
lhes deram uma causa, que eventualmente poderá levar a outras?
Sim, é isso mesmo. Fazem um ensaio de
grupo, e de resistência. Muitas vezes são exagerados, querem-nos punir,
querem-nos bater, dizem que estragámos tudo, falam raivosamente. Mas estão a
ensaiar, e o que é importante é sentirem que têm força, que vão para a rua, que
se podem unir em torno de causas, e o resto depois se
depurará. E haverá naturalmente divisões, dos que olham para a Terra como algo
apenas físico aos absolutamente animalistas, que odeiam os pais porque eles
comem fiambre, mas isso não interessa. Fico muito feliz por ver os jovens a manifestar-se,
sobretudo num país como este, onde as manifestações espontâneas não se fazem e
são sempre reprimidas.
Uma causa hoje muito presente é a da
luta contra o racismo. Escreveu A Costa dos Murmúrios e conhece bem a
colonização portuguesa em África. Acha que Portugal é hoje um país tão racista
como era, ou o fenómeno está a ser empolado pelas redes sociais?
É muito menos racista, não há comparação
nenhuma. O que acontece é que as redes sociais permitem todos os desabafos e,
portanto, dá a impressão de que existe um país revoltado contra os africanos,
os ciganos, contra quem é um pouco diferente por este ou aquele elemento. Mas,
se olharmos à nossa volta, temos pessoas de todas as etnias em Portugal. No
Algarve, há 30 e tal etnias diferentes só numa escola. Não é possível dizermos
que somos uns racistas; as pessoas convivem, casam umas com as outras, têm filhos.
Claro que existe racismo, como também há quem não goste de pessoas pequenas, há
sempre preconceito e pessoas preconceituosas. Mas se acho que não somos um país
racista, também acho que o racismo não é só o tema do dia, será o tema do
século, ou pelo menos de muitas décadas. Nós estamos a falar do ponto de vista
daquele que colonizou, que escravizou, e isso é um estigma muito forte, que
tentámos varrer para debaixo do tapete, e neste momento há uma espécie de
explosão. Acreditámos que falar disto acalmaria o assunto e dizemos que houve
culpa, não nossa, mas dos nossos pais, dos nossos trisavós, da nossa história,
e que fomos culpados até de termos continuado a fazer comércio de escravos
quando os ingleses já perseguiam os barcos negreiros. Isto que é hoje explicado
por todos os historiadores poderia dar-nos a noção de que, estando agora do
lado certo, seríamos perdoados, que nos estenderiam a mão e nos diriam: “Muito
bem, hoje estamos todos no mesmo barco.” Mas não é assim. Porque há um
ressentimento muito forte e basta que alguém lembre “tu não és da minha cor”
para que todo esse historial regresse.
As redes sociais vieram dar voz a muitos
que não a tinham. Mas não lhe parece que essa aparente democratização do debate
público muitas vezes não corresponde a uma genuína troca de ideias e
argumentos, descambando quer na troca de insultos quer num consenso acrítico?
Temos na mão um instrumento
extraordinário, que permite a toda a gente dizer o que pensa e transmiti-lo aos
seus amigos, à sua rede. Mas a verdade é que não é isso que está a acontecer. O
meio é louvável e ainda bem que existe, mas transformou-se num instrumento
antidemocrático. Dou um exemplo concreto. Quando começaram a aparecer todas
essas histórias de pedófilos, um homem, num café, dizia que, se apanhasse um,
pegava numa faquinha e, com ele vivo, cortava-lhe o sexo aos bocadinhos, em
lâminas fininhas. Fez este desabafo num circuito fechado, mas se este homem,
que era analfabeto, soubesse ler e escrever e pusesse isto numa rede social,
imagine a amplitude que a coisa não ganharia. Alguns chamar-lhe-iam ordinário e
insultá-lo-iam, mas haveria também quem dissesse que pensava a mesma coisa. E
agora imagine-se que essa ideologia aumentava de tal modo que um político
decidia adoptá-la… O problema é que quem fazia estes desabafos não tinha
notoriedade, mas passou a tê-la. Muito do que está a acontecer nestes últimos
20 anos, esta irascibilidade, vem daqui. Fico admiradíssima ao ler textos de
gente que considero digna e que perde toda a dignidade quando escreve nas redes
sociais. É como os automóveis: pessoas que nunca disseram palavrões começam a
insultar-se umas às outras no trânsito. Parece que o instrumento tecnológico
incita em nós algo de bárbaro. Nas redes sociais, há uma legitimação do insulto
e do desabafo que torna insustentável a troca de ideias, e mais ainda num país
que não tem o hábito do debate, até por falta de instrumentos linguísticos. As
pessoas não têm paciência para escutar o outro e argumentar. A nossa cultura é
muito histérica.
Vivemos num mundo digital e numa
sociedade consumista e imediatista. Acha que vai continuar a haver lugar para o
livro como fonte de conhecimento e mundividência?
Acho, porque os desastres que estão à
vista são tantos que muitos já acordaram para a necessidade de modificar as
coisas. As pessoas vão compreender que o livro é um instrumento fundamental.
Umberto Eco enumerou vários objectos que são aquisições da humanidade e em
relação aos quais não se pode voltar para trás, como a tesoura ou a colher, e
um deles é o livro.
E continuará a ser em papel?
Creio que sim. Há uns anos, escrevi:
“Silvicultores, plantem muitas árvores, porque os livros serão de papel.” No
livro está o pensamento demorado, aquele que nos ajuda a treinar o nosso
cérebro lento, porque o rápido tem aí os instrumentos todos. Mas esse não
conduz à comparação, nem à dedução, nem à dúvida. Pense-se no modo como tomamos
uma decisão. Fazemos uma afirmação, “eu quero isto”, e depois pomos as outras
hipóteses: “Se eu não quiser isto, pode acontecer isto e aquilo...” Há uma
comparação lenta que se vai fazendo e, quando decidimos, já tivemos tempo para
fazer uma escolha, uma dedução. Se esse tipo de pensamento desaparece,
desaparece tudo. A sociedade tem de criar leitores e acho que se está a acordar
para isso. Mas talvez esteja enganada, talvez eu seja uma ingénua voluntária.
Qual é hoje a função dos intelectuais,
se ainda existem?
Os intelectuais continuam a existir, mas
a sua palavra não é ouvida, e eles próprios desistiram de a fazer ouvir. Quais
são, na sociedade, os elementos que falam em nome das palavras? São os
professores, os intelectuais, os críticos, os artistas, os historiadores, os
jornalistas. Estas pessoas têm de falar mais e de dar mais voz uns aos outros.
O que hoje acontece é que a palavra sensata de um intelectual é remetida para
nota de rodapé e um doido que diga uma aleivosia qualquer tem direito a uma
página inteira com a sua imagem. Aconselho os estudantes de jornalismo a que
sigam a ascensão de André Ventura, o modo como tem estado a ser levado pela comunicação
social portuguesa. Mas uma pessoa como o Mário de Carvalho, por
exemplo, com um pensamento estruturado sobre Portugal, tem de escrever nas redes
sociais.
E como é que se inverte esse rumo?
Não posso dizer que quero que os jornais
voltem a ser estatizados. Mas deve haver outro poder, além do privado. Tem de
existir a consciência social de que o jornalismo é fundamental. E também nas
editoras é preciso haver uma alteração. Quem escolhe livros para a sociedade
tem um papel fundamental e não pode estar esmagado pela ameaça das vendas que
não acontecem, porque o que hoje se vende é lixo. É necessária uma revolução,
no sentido sideral, porque doutra forma é o desastre, que significa perder os
astros. Acredito na transmissão de conhecimento, na pedagogia e no exemplo das
pessoas. Nunca a visão freudiana de que vivemos para o prazer esteve tão
implantada a todos os níveis, mas acredito que vivemos para um sentido. E os
que também acreditam nisso têm de se unir e de resistir, e que não se lhes
canse a voz ou a mão. Sei que pareço utópica, mas se muitos acreditarem, é
possível mudar. É preciso criar um estado de alarme.