domingo, 25 de outubro de 2020

Passeio a Caldas da Rainha

24 de Outubro de 2020, sábado

De vez em quando nas Caldas da Rainha, é bom..., mesmo se só de passagem.

Só uma nota menos boa, vê-se o estado em que está o edifício no Parque Dom Carlos, que conheci como Escola do Magistério Primário, foi depois Escola Técnica Empresarial do Oeste e está agora encerrado e à espera de...

Na parte traseira, a situação de abandono é manifesta. O Estado fez uma concessão por cinquenta anos à VISABEIRA, de Viseu, e deverá sair dali um hotel. Passaram dois anos...

Dizem-me.
















*

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Maria do Carmo Vieira e A Escola do Século XXI

Com a devida vénia…

Partilho de Maria do Carmo Vieira, sobre a educação, o respeito pelo futuro dos jovens…

Preocupa-a, naturalmente, O Ensino do Português, tendo publicado um livro com este título na colecção Ensaios, da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

O cuidado com a língua em que somos está intimamente ligado ao artigo que aqui divulgo…

[Do facebook]

Gostei.

Além do primeiro, abaixo, deixo três linques para ajudar a dar uma percepção da amplitude do olhar de MCV sobre o mundo que nos rodeia. 

https://www.publico.pt/2020/08/31/sociedade/opiniao/escola-seculo-xxi-falta-respeito-futuro-jovens-1929829

https://www.publico.pt/2019/09/18/opiniao/opiniao/pensar-livremente-1887025

https://www.publico.pt/2020/06/14/sociedade/opiniao/montijo-carnaxide-decisoes-ameacam-natureza-futuro-1920520

https://www.publico.pt/2020/02/04/sociedade/opiniao/desprezarmos-memoria-bastara-acendalha-fogo-sera-devastador-1902849


Badana de O Ensino do Português

Escola do século XXI ou falta de respeito pelo futuro dos mais jovens?

Quanta caricatura de escola! Quanto discurso enganoso! Por isso é tão importante ensinar os nossos alunos a pensar, para não se deixarem seduzir por facilidades e falsas liberdades e autonomias!

31 de Agosto de 2020, 15:20

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 “A escola do século XXI”, artigo no Público de 24 de Agosto p.p., da autoria de Aurora Cerqueira (professora de Português) e de Pedro Selas (activista licenciado em Direito), é uma semi-mastigação do relatório “O Ensino e a Aprendizagem do Português na Transição do Milénio” (Associação Professores de Português – APP – 2001”), no qual se vislumbrava a barbárie cultural que se reflectiu na Reforma de 2003, defendendo a “nova escola” e o “novo professor”, tudo em prol de uma sociedade global (o novo mundo), incontrolável, que todos sabemos estimular uma corrupção desenfreada, sendo simultaneamente apologista do cansaço, cansaço esse que se inicia, como treino, logo nos primeiros anos escolares (“horários mais preenchidos compensam o sucesso”, disse Andreas Schleicher, OCDE, 2016). Todo um discurso vendido, na invocação do “novo mundo”, e que a OCDE ajuda a orquestrar, apontando o modus faciendi no ensino, “centrado nos interesses dos alunos”, “no desenvolvimento da criatividade, do pensamento crítico, de competências […], tomada de decisões, formas de trabalho que implicam comunicação e colaboração”. Ideias que os seus adeptos fervorosamente difundem, adaptando-as ao seu estilo: a “aprendizagem partindo dos interesses manifestados” pelo aluno, a “construção de conhecimento pelo próprio, favorecendo a autonomia, a responsabilidade, o espírito crítico e a criatividade […], a promoção da comunicação e a construção de relações interpessoais sólidas”. Em uníssono, o uso da designação de “resistentes à mudança” para os opositores, os que reagem criticamente a imposições que escondem objectivos que não vão a favor do Homem nem do progresso, antes alimentam a ganância e a falta de respeito pelo futuro dos mais jovens.

Não surpreende que a OCDE, no seu discurso, sempre “pedagógico” e eivado de uma pretensa bondade e preocupação pelos cidadãos, e pelo seu futuro, defenda que, no séc. XXI, ter-se-á de ir mais longe, já que a ruína do sistema financeiro foi fruto de banqueiros, “provavelmente, pessoas altamente criativas e com espírito crítico”, e que “alguns dos que têm o espírito mais empreendedor estão à frente de organizações mafiosas, em vez de servirem o seu país” (quem diria?), preconizando agora a preocupação com qualidades, como “a empatia, a resiliência, a curiosidade, a coragem e a liderança” (Andreas Schleicher, 2016). Será para rir ou para chorar?!

Sabemos que o mundo mudou, o que exige forçosamente adaptações, mas não é tolerável que se continue a apostar na exploração do Homem, nesta sociedade globalizante que atingiu o clímax ao manter-se perfidamente focada na apologia do cansaço, na mais obscena exploração do trabalho intelectual e físico, na completa ausência de compaixão, na transformação da verdade em sucessivas mentiras ou pérfidas bondades, no aviltamento do papel de Escolas e Universidades onde interferem a seu bel-prazer os “diktats” de inúmeras empresas, desvirtuando a função milenar da escola. Um mundo, em suma, onde a tecnologia, os interesses superiores de uma certa economia e a banca são dominantes, tendo-se consequentemente disseminado um feroz desprezo pelas Humanidades e pelas Artes que, na verdade, ensinam a pensar, educando a sensibilidade, desenvolvendo o espírito crítico, alimentando o espírito, estimulando a imaginação e a criatividade. Porque “sem criatividade e imaginação não [haverá] evolução científica e tecnológica” (António Damásio, 2006).

Como reagiriam a APP, a OCDE, o Ministério da Educação ou os autores do artigo se confrontados com as palavras de António Damásio anteriormente transcritas ou com as que se seguem: “Pensou-se que a educação deveria produzir indivíduos eficazes nesta sociedade e, por isso, deixou-se de lado as artes e as humanidades” ou “Como se explica a uma criança o que é a alegria, a dor, a violência, a frustração? Claro que podemos usar as ciências para definir estes conceitos, mas não será mais fácil torná-los compreensivos se recorrermos a um soneto de Shakespeare, um quadro de Pollock, um filme de Spielberg ou um tema de Mahler?”. Não tenho a menor dúvida de que hipocritamente aplaudiriam, distribuindo sorrisos forçados e sublinhando, em voz sonante, para que se ouvisse à volta, a importância do “espírito crítico” e da criatividade”, mas sem qualquer relação com o ensino das Humanidades ou das Artes, num papaguear vazio de conceitos.

Regressando ao artigo acima referido, a sua leitura não só me remeteu para o Relatório da APP, mas e, sobretudo, para um “mestre” da “École Dynamique”,[1] Ramin Farhangi, cujas ideias conheci numa entrevista de Bárbara Wong, no jornal Público de 6.2.2020. Segundo parece, veio abrilhantar “La Nuit des Idées: Ser e Estar Vivo”, numa parceria Instituto Francês, Embaixada de França e Fundação Gulbenkian. Fiquei com a sensação de estar num mundo às avessas ou no mundo do absurdo, da insensatez generalizada, relendo, por vezes, as respostas do professor, por desconfiar de inadvertidas faltas de atenção da minha parte, um pouco à semelhança do que me aconteceu com a leitura do artigo “A escola do século XXI”. Em comum, a escola perspectivada como “uma comunidade de aprendizagem”, “libertadora dos indivíduos”, que “desistiu da divisão dos alunos em turmas e em ciclos”, e “favorece percursos individuais de aprendizagem a partir dos interesses manifestados por cada educando”, fortalecendo “a autonomia, a responsabilidade, o espírito crítico e a criatividade”, o que significa que são os próprios alunos a “promover a construção do conhecimento”, podendo tornar-se “inútil” a figura do professor porquanto “flexíveis os papéis de educador (já não professor) e de educando”, anulando-se assim a autoridade do primeiro que assenta na sua competência. A mesma fobia às disciplinas curriculares que devem desaparecer pelo facto de “compartimentarem os saberes”, privilegiando-se “aprendizagens essenciais” (não reveladas) em cujos “percursos” se envolvem não só “professores”, mas também “assistentes administrativos e operacionais, famílias, alunos e todos os voluntários (…).” Escusado será dizer que provas finais, exames ou trabalhos de casa são inovadoramente banidos.

Ramin Farhangi, a dada altura da sua entrevista, e indo ao encontro dos autores do artigo, explicita mesmo que as escolhas das crianças (entre os 5 e os 18 anos) “podem ser loucas, parvas, inteligentes, boas ou más, mas são as suas e têm de viver com as consequências”, numa análise que ostenta uma agressividade e crueldade darwinistas, para além de um abandono que perturba qualquer um. Afinal, qual o papel dos adultos, qual o papel do mundo velho em que foram recebidos os mais novos? Nascem já preparados para a vida, não necessitam do acompanhamento e da ajuda dos mais velhos? Se assim fosse, teriam morrido à nascença. E a este propósito, lembro a situação por mim vivenciada, a de uma colega que justificou não ter corrigido os erros ortográficos dos alunos, nos seus trabalhos expostos na biblioteca, “dado que as palavras haviam saído assim do seu punho, daí a obrigação de as respeitar”. Questionada sobre qual afinal o papel de um professor, a resposta foi célere e parafraseio-a: o tempo e a solidariedade dos colegas iria sanando as falhas ocasionais. Perfeitas anedotas trágico-cómicas, fruto de teorias educativas que têm recebido o apoio incondicional dos vários Ministérios de Educação e por isso mesmo os autores do artigo, acima referido, lembram a quem de direito que “a legislação” existente “desde 2018, já permite todos estes avanços”. Avanços!?

E porquê esta chamada de atenção? Porque no Ministério da Educação existe um ministro que não honra a sua função, e um secretário de Estado, também reconduzido, João Costa, que esteve profundamente embrenhado na implementação e imposição da famigerada Reforma de 2003. Conseguem impor o insensato e o absurdo, pondo em causa o futuro dos alunos e ludibriando os pais e a própria sociedade, mas não travam a inqualificável sobrecarga horária que pesa sobre os alunos, do Básico ao Secundário, um reflexo da selvajaria desta sociedade global que extenua qualquer um. Preferem acabar com os programas, apesar de sempre os terem aceitado excessivamente longos e quando bondosamente intervieram, fingindo fazer qualquer coisa, foi para os esvaziar de qualidade e impor o funcional e o superficial que de forma alguma influencia a formação da personalidade dos alunos, muito menos lhes alimenta o espírito ou prepara para a vida que se avizinha difícil. Cantos desafinados de sereias que apenas seduzem os incompetentes e os negligentes!

Só gostaria que me permitissem acompanhar o desenvolvimento destas novas estratégias e metodologias educativas e avaliar os seus resultados. Houve já quem me dissesse que iria convidar-me para observar o trabalho de uma “nova escola”, mas aguardo há dois anos o convite. Recuperando, a este propósito, Ramin Farhangi, ficámos a saber que com “cinco anos de experiência”, neste tipo de escola, os resultados foram: “temos pessoas que entraram na indústria de vídeo, outro a estudar Geografia, outro Teatro e Artes Marciais”. Vale a pena comentar?

Quanta caricatura de escola! Quanto discurso enganoso! Por isso é tão importante ensinar os nossos alunos a pensar, para não se deixarem seduzir por facilidades e falsas liberdades e autonomias!


[1] Querendo aprofundar o funcionamento desta “nova escola”, deixo o site http://www.ecole-dynamique.org/

Professora

[Maria do Carmo Vieira, no Público]

quarta-feira, 25 de março de 2020

Era Março de 2020

Irene Vella escreve para depois, quando o seu texto vier a ser lido por quem viveu a crise em que nos encontramos, por quem não a viveu, nos anos ou séculos vindouros. Um dia haverá em que o seu grito de amor e esperança seja sepultado pelo tempo... Na hora em que escreve, fala aos seus irmãos contemporâneos, nós todos...  Na maneira como o faz toca-nos profundamente. É poesia, é vida.


«Era Março de 2020, as ruas estavam vazias, as lojas fechadas, as pessoas não podiam mais sair. Mas a Primavera não sabia. E as flores começavam a florir,o sol brilhava, os pássaros cantavam, as andorinhas não tardariam a chegar. O céu estava azul e a manhã chegava mais cedo. Era Março de 2020. Os jovens deviam estudar on-line e arranjar com que se ocupar em casa. As pessoas não podiam ir mais aos centros comerciais nem tão-pouco ao cabeleireiro. Dentro em breve, não haveria mais vagas nos hospitais e as pessoas continuavam a adoecer. Mas a Primavera não sabia. Era altura de tratar dos jardins, a erva estava cada vez mais verdejante. Era Março de 2020. As pessoas foram postas em confinamento para proteger os avós, famílias e crianças. Acabaram as reuniões e refeições em família. O medo tornou-se real e os dias eram todos iguais. Mas a Primavera não sabia. As macieiras e cerejeiras e todas as outras árvores começaram a florir e as folhas cresceram. As pessoas começaram a ler, a jogar em família, a aprender outra língua. Cantavam nas varandas e convidavam os vizinhos a fazer o mesmo. As pessoas aprenderam uma língua nova, ser solidários e concentraram-se noutros valores. As pessoas aperceberam-se da importância da saúde, do sofrimento, deste mundo que tinha parado, da economia que tinha tombado. Mas a Primavera não sabia. As flores deram lugar aos frutos, os pássaros fizeram os seus ninhos, as andorinhas chegaram. Então chegou o dia da libertação. As pessoas ouviram na televisão. O vírus perdeu. As pessoas saíram às ruas, cantavam, choravam, abraçavam seus vizinhos sem máscaras nem luvas. E então o Verão chegou porque a Primavera não sabia. Ela continuou lá, apesar de tudo, apesar do vírus, apesar do medo, apesar da morte. Porque a Primavera não sabia, mas ensinou às pessoas o poder da vida.» 

 (Texto dito por Rui Unas, publicado no jornal Petit Hong Kong, traduzido do francês, por Ricardo Capeloa e enviado a Rui Unas, que o declamou no facebook; tem algumas adaptações em relação ao texto italiano, como se pode ver mais abaixo)


Era o 11 de Março de 2020
Era o dia 11 de Março de 2020, as ruas estavam vazias, as lojas fechadas, a as pessoas já não saíam.
Mas a Primavera não sabia
E as flores continuavam a desabrochar
E o sol a brilhar
E voltavam as andorinhas
E o céu coloria-se de rosa e azul
De manhã amassava-se o pão e enfornava-se os pães de ló
Anoitecia sempre mais tarde e de manhã a luz entrava pelas janelas entreabertas
Era o 11 de Março de 2020 os rapazes estudavam ligados ao Google
E à tarde infalível o encontro das cartas
Foi o ano em que se podia sair só para fazer as compras
Pouco depois fecharam tudo
Até os serviços
O exército começava a controlar as saídas e as fronteiras
Porque já não havia espaço para todos nos hospitais
E as pessoas adoeciam
Mas a primavera não sabia e os botões continuavam a brotar
Era o 11 de Março de 2020 toda a gente foi posta em quarentena obrigatória
Os avós as famílias e também os jovens
Então o medo tornou-se real
E os dias pareciam todos iguais
Mas a Primavera não sabia e as rosas tornaram a florir
Redescobriu-se o prazer de comer todos juntos
De escrever deixando a imaginação livre
De ler voando com a fantasia
Houve quem aprendesse uma nova língua
Quem se pôs a estudar e quem retomou o último exame que faltava para a tese
Quem entendeu amar realmente separado da
vida 
quem parou de descer a pactuar com a ignorância
Quem fechou o escritório  e abriu uma tasca só com oito talheres
Quem deixou a noiva para gritar ao mundo o amor pelo seu melhor amigo
Houve quem se tornasse médico para ajudar quem um dia venha a precisar dele
Foi o ano em que se compreendeu a importância da saúde e dos afectos verdadeiros
O ano em que o mundo pareceu parar
E a economia ir a pique
Mas a Primavera não sabia e as flores cederam o lugar aos frutos
E depois chegou o dia da libertação
Estávamos a ver tv e o primeiro-ministro disse a redes unificadas que a emergência tinha acabado
E que o vírus tinha perdido
Que os italianos todos em conjunto tinham vencido
E então saímos para a rua
Com as lágrimas nos olhos
Sem máscaras e luvas
Abraçando o nosso vizinho
Como se fosse nosso irmão
E foi então que veio o Verão
Porque a Primavera não sabia
E e tinha continuado a estar aí
Não obstante tudo
Não obstante o vírus
Não obstante o medo
Não obstante a morte
Porque a Primavera não o sabia
E ensinou a todos
A força da vida.
(Irene Vella)
(Traduzi)

Era l'11 marzo del 2020

LA PRIMAVERA NON LO SAPEVA Era l’11 marzo del 2020, le strade erano vuote, i negozi chiusi, la gente non usciva più. Ma la primavera non sapeva nulla. Ed i fiori continuavano a sbocciare Ed il sole a splendere E tornavano le rondini E il cielo si colorava di rosa e di blu La mattina si impastava il pane e si infornavano i ciambelloni Diventava buio sempre più tardi e la mattina le luci entravano presto dalle finestre socchiuse Era l’11 marzo 2020 i ragazzi studiavano connessi a Gsuite E nel pomeriggio immancabile l’appuntamento a tressette Fu l’anno in cui si poteva uscire solo per fare la spesa Dopo poco chiusero tutto Anche gli uffici L’esercito iniziava a presidiare le uscite e i confini Perché non c’era più spazio per tutti negli ospedali E la gente si ammalava Ma la primavera non lo sapeva e le gemme continuavano ad uscire Era l’11 marzo del 2020 tutti furono messi in quarantena obbligatoria I nonni le famiglie e anche i giovani Allora la paura diventò reale E le giornate sembravano tutte uguali Ma la primavera non lo sapeva e le rose tornarono a fiorire Si riscoprì il piacere di mangiare tutti insieme Di scrivere lasciando libera l’immaginazione Di leggere volando con la fantasia Ci fu chi imparò una nuova lingua Chi si mise a studiare e chi riprese l’ultimo esame che mancava alla tesi Chi capì di amare davvero separato dalla vita Chi smise di scendere a patti con l’ignoranza Chi chiuse l’ufficio e aprì un’osteria con solo otto coperti Chi lasciò la fidanzata per urlare al mondo l’amore per il suo migliore amico Ci fu chi diventò dottore per aiutare chiunque un domani ne avesse avuto bisogno Fu l’anno in cui si capì l’importanza della salute e degli affetti veri L’anno in cui il mondo sembrò fermarsi E l’economia andare a picco Ma la primavera non lo sapeva e i fiori lasciarono il posto ai frutti E poi arrivò il giorno della liberazione Eravamo alla tv e il primo ministro disse a reti unificate che l’emergenza era finita E che il virus aveva perso Che gli italiani tutti insieme avevano vinto E allora uscimmo per strada Con le lacrime agli occhi Senza mascherine e guanti Abbracciando il nostro vicino Come fosse nostro fratello E fu allora che arrivò l’estate Perché la primavera non lo sapeva Ed aveva continuato ad esserci Nonostante tutto Nonostante il virus Nonostante la paura Nonostante la morte Perché la primavera non lo sapeva Ed insegnò a tutti La forza della vita. (Irene Vella)
[https://www.youtube.com/watch?v=fvp8tbm0wr8]

segunda-feira, 2 de março de 2020

Lídia Jorge

 Partilha da semana, do mês...
Já ganhei o dia, hoje, salvei o dia, depois desta entrevista de Lídia Jorge, para a série «Partilha da semana» ou do mês…
Não teremos os mesmos gostos em tudo, mas no essencial, a liberdade, a reserva de segredo no íntimo de cada um, a busca do sentido..., identifiquei-me.
O papel da educação, da escola, das humanidades… Os jovens…
Parabéns a Lídia Jorge e à equipa do Público.

*


 “É preciso criar um estado de alarme”
Lídia Jorge é uma das mais premiadas escritoras e é internacionalmente consagrada como uma das grandes romancistas. A sua visão crítica da sociedade de hoje não a impede de ter esperança nos jovens que “estão a ensaiar”, que “vão para a rua” e que “se podem unir em torno de causas”.
23 de Fevereiro de 2020, 6:01

Aos 73 anos, Lídia Jorge é autora de uma obra ficcional que interpela como poucas a história recente do país, dos últimos anos do Estado Novo às alegrias, crises e desilusões do Portugal democrático. E o seu olhar é tão preciso e desassombrado que ainda hoje alguma esquerda não lhe perdoou por ter escrito essa incómoda obra-prima a que chamou Os Memoráveis (2014). “Percebi perfeitamente que ia ser punida”, confessa a romancista, que não deixa de apontar à esquerda dois pecados: “o tacticismo” e a “corrupção instalada”, que considera “absolutamente deprimente e catastrófica”. Diz mesmo que esta “é o principal problema ético e moral” do país e classifica “o caso Sócrates” como “um trauma profundo”.
 Traça um retrato duro da sociedade que estamos a criar, rendida à cupidez, à ignorância e à busca fútil do prazer, mas sem sombra de desânimo, porque, “sempre que falamos nos desastres, também temos o dever de imaginar a esperança”. E lança um desafio directo aos intelectuais, aos professores, aos jornalistas, pedindo-lhes “uma atitude de resistência” e que criem “um estado de alarme” que acorde as consciências.
Preocupa-a especialmente a deriva do ensino e apela a que se invista a sério na formação dos professores, para que a escola seja capaz de dar esperança aos jovens. O que só conseguirá, acredita, se voltar a dar um lugar central às Humanidades, que “têm de funcionar como travão” para a ideia de que “apenas a ciência e a tecnologia interessam neste mundo”. Assumindo-se como “ingénua voluntária”, afirma a sua esperança nos jovens, que começam a manifestar-se, a “ensaiar” resistências colectivas, a “sentir que têm força e podem unir-se em torno de causas”.
No romance Os Memoráveis, traçou o guião do desencanto, no pós-25 de Abril, de uma geração de esquerda que acreditara que seria capaz de fazer um país perfeito e descobre que falhou. A esquerda já lhe perdoou?
Acho que vai ser difícil. Mas não faz mal. E há uma certa esquerda que leu bem esse livro, que percebeu que é uma espécie de invectiva e de provocação para que se repense um Portugal diferente, para que, sobretudo, se interprete o que aconteceu de uma outra maneira. Mas os abrilistas tiveram muita dificuldade, porque não conseguiram compreender que, em vez de ter criado heróis, eu tivesse apenas criado figuras memoráveis, isto é, que não podem ser esquecidas, mas cujo perfil não é perfeito. Escrevi o livro com uma espécie de destinatário objectivo, que eram os jovens desses anos, e a aposta fundamental era deixar-lhes a noção de que, apesar de verem nesse movimento a origem de uma certa decadência, o que acontecera fora exactamente o contrário. E que houve, sobretudo, um momento inaugural em que Portugal não foi um país periférico e esteve no centro e no início da democratização dos países no último quartel do século XX. Uma certa esquerda leu mal e vai ser difícil perdoar-me, mas costuma dizer-se que quem não aguenta o calor não trabalha na cozinha.
Não é estranho que uma escritora já anteriormente premiada, como a Lídia Jorge, escreva um romance com a dimensão de Os Memoráveis e a obra não tenha tido nenhum prémio?
Teve um, o Prémio Urbano Tavares Rodrigues. Pelos outros foi esquecido. Mas percebi perfeitamente que ia ser punida. Faz parte.
Escreveu livros que abordam o Estado Novo e o colonialismo, o 25 de Abril e os anos que se lhe seguiram, e agora a recente crise económica ou o problema dos refugiados. É uma romancista política?
Pertenço àqueles escritores que gostam de trabalhar sobre temas ontológicos, mas para quem a questão social é muito importante. Há escritores que escrevem a partir da estante, eu sou daqueles que escrevem a partir do chão. Tenho um imaginário social. Penso que tive na infância experiências muito fortes daquilo que era a injustiça social e, sobretudo, observei muita pobreza. O que me tocou muito foi o aniquilamento do juízo de valor perante a dificuldade económica. No lugar onde morava…
… no Algarve?
Exactamente. Havia um merceeiro, que lá era um homem fundamental, que tinha duas balanças, uma para comprar e outra para vender. E as pessoas submetiam-se. Há também outra memória que me marcou imenso. Fui para a escola muito pequena. No primeiro dia, a minha caneta caiu e fui buscá-la. Tinha rebolado e andei a ver os pés dos meus colegas, que estavam todos descalços. Quando cheguei a casa, disse à minha mãe que queria levar uns sapatos da minha tia, que entretanto tinha crescido, para dar às meninas. E ela disse-me algo que nunca hei-de esquecer: “Por mais que tentes, nunca os hás-de calçar a todos.” Isso ficou-me muito marcado. Tenho a convicção de que na literatura nós podemos calçar, podemos pelo menos reivindicar que todos tenham sapatos. É uma espécie de placebo, mas ao fazer-se da literatura um placebo, também se faz um antídoto. Por isso acredito que as fábulas que são políticas e sociais, se têm uma escrita honrosa, que faz monumento à língua, que é poética, se não se limitam a ser um documento sociológico, conseguem alcançar aquilo que é a boa literatura.
Em Portugal, esse falhanço da esquerda que retrata em Os Memoráveis está na origem da desconfiança em relação aos políticos?
Não tenho dúvida. A esquerda, no meu entender, pecou por dois grandes motivos. Um foi o tacticismo. E a comunicação social de hoje não permite que o tacticismo seja escondido. Ele fica à vista e é absolutamente desmoralizante perceber que a política se faz no jogo. Enquanto foi feita nos bastidores, tínhamos a ideia de que aquilo que aparecia era justo, passava por um percurso ético. Hoje, que tudo está à mostra, percebe-se que o jogo dos interesses, dos grupos, dos bandos é de tal forma forte que não se aguenta. As pessoas já não suportam mais o tacticismo evidente.
E qual é o outro motivo?
Há uma coisa que me parece importante: a esquerda vive da ideia da partilha e da ideia de honorabilidade, e o que acontece é que a corrupção instalada na esquerda foi absolutamente deprimente e catastrófica. Isso vê-se no nosso país, onde na última década tivemos um abalo que nos transformou por dentro. Mas veja-se também o que está a acontecer pela Europa inteira. É dramático perceber que grupos de extrema-direita, que seriam os primeiros, uma vez chegados ao poder, a fazer a razia completa dos valores, são precisamente aqueles que falam abertamente contra os desmandos dos partidos clássicos. Isso é algo com que estamos a lidar com muita dificuldade. Mas sempre que falamos nos desastres, também temos o dever de imaginar a esperança. E vejo, neste momento, que há a possibilidade de criar antídotos.
A solução de Governo à esquerda na anterior legislatura terá funcionado como antídoto? Houve uma mudança de padrão?
Houve e lamento muito que se tenha perdido. Foi um momento importantíssimo. Quando me disseram que iria haver essa solução, não acreditei que fosse possível, porque não estávamos habituados a que um perdedor pudesse ganhar. Foi inovador e parte da respeitabilidade que hoje é reconhecida a Portugal provém dessa espécie de milagre. Acho que António Costa foi um estadista e fez aquilo que um político faz, que é ver mais alto e melhor do que a mediania da população. Nessa altura, os partidos que antes estavam no Governo não conseguiram perdoar, e ainda não perdoaram, acharam que foi um assalto. Mas, olhando para trás, percebe-se perfeitamente que era e foi o caminho certo. Lamento muito que não tenha continuado. Porque a negociação que era feita à porta fechada está, neste momento, a ser feita em público, e vai ser mau para todos.
Há pouco falou da corrupção. Ela é o principal problema do país? Afinal, há um ex-primeiro-ministro acusado.
É o principal problema ético e moral, sem dúvida nenhuma, aquilo que mais faz descrer as pessoas. O caso Sócrates, que ainda está por resolver, é um trauma profundo. Não só para as pessoas que acreditaram nele, e foi o meu caso, e para todo um grupo ideológico que se revê no ideal socialista, mas para toda a gente. Ter-se percebido que havia duas pessoas numa só e que o outro lado era tão obscuro foi traumático. Conheço muita gente que ficou muito descrente a partir desse momento. E é grave. Aliás, devo dizer que, uns quatro ou cinco anos antes, fiz uma viagem de Paris para Lisboa com um conselheiro de um Presidente da República — que vinha muito agastado de uma reunião com conselheiros de outros países —, e ele disse-me que 40% da economia portuguesa era paralela e não ia demorar quatro ou cinco anos que não rebentasse qualquer coisa. E disse também: “Metade das pessoas que vê no telejornal não são honradas, metade delas são ladrões.” Nunca me hei-de esquecer disto. Por causa disso escrevi um livro que se chama Combateremos a Sombra. Depois percebi, através de amigos, que havia um segredo tácito, escondido. E hoje esse segredo mantém-se ainda e nós mantemos essa dúvida sobre os políticos. Mas, nesta última década, um dos factores fundamentais de mudança em Portugal foi a atitude da Justiça. A magistratura envolveu-se com os casos de corrupção de uma forma diferente, não digo perfeita.
Isso teve efeito sobre as pessoas?
Pelo menos existe a ideia de que já não estamos nessa tragédia que era a cartilha que nos impuseram: “Trabalha o máximo, ganha o mínimo e compra tudo o que puderes.” No meio destes três pilares, o que é que aconteceu? As pessoas ficaram completamente submissas, imóveis, sofrendo imenso. Viram alguns dos intérpretes em quem antes tinham acreditado falharem completamente. Tinham utilizado o erário público em seu proveito de uma forma absolutamente escandalosa. Andei à procura, mas não encontro uma doença psíquica para esse desejo de ter tanto. Para quê ter dez, 30, 60 milhões de euros? Não consigo compreender. Sobretudo quando isso significa um desequilíbrio social tão grande. É inadmissível. Mas não há nome para essa doença, os escritores vão ter de inventar.
Como se reabilita a confiança na política e na representação parlamentar?
Não há receitas imediatas. É aquilo que todos sabemos: apostar na cultura, no ensino, na crítica, no jornalismo. Devíamos criar um estado de alarme com base em actores que têm um papel especial na sociedade: os académicos, os jornalistas, os professores. Considero que são os pilares de pensamento e de denúncia. São eles os pilares, aqueles de quem se espera que pensem e denunciem, mas estão muito adormecidos e têm de tomar um outro alento. Senão, os próprios políticos que são bem-intencionados e querem fazer alguma coisa são submergidos por uma onda, uma teia que não os deixa actuar. Sobretudo, enquanto a política for comandada por esta economia, que de forma mais ou menos disfarçada continua a ser a ideia da Escola de Chicago [corrente de política económica liberal] de que a empresa é um templo. Isto é tão grave que mesmo as instituições que não têm nada que ver com uma empresa assumem essa imagem.
Que instituições?
O pior foi o que aconteceu com a escola, no ensino básico e secundário, que foi tomada de assalto pelo modelo empresarial. Não há nada pior do que sugerir a ideia de que o teu parceiro é o teu concorrente, o teu inimigo, quando ele deve ser o teu adjuvante. É algo que vai ser muito difícil de resolver ao nível da escola.
Perdeu-se uma cultura de solidariedade?
Sem dúvida alguma. E de trabalho de grupo e de partilha, de comunidade educativa. Cada professor começou a ser o espião do seu colega e foi envolvido numa burocracia absolutamente intolerável. Os professores estão em estado de anomia e de anemia. Aliás, um ponto fundamental que não está a correr bem é o diálogo entre os professores e o Governo, que deveria tomar outro caminho. É necessária uma reconciliação. Os professores deveriam negociar na base de alguma cedência e o Governo devia olhar para esta profissão como sendo fundamental. E o sindicato, em vez de fazer todo um combate apenas na base do ordenado e da reposição de direitos, deveria falar noutra coisa essencial, que é a formação dos professores. Há algo a acontecer na escola, que não está a formar com esperança os jovens de hoje.
Porquê?
É-lhes retirada toda a parte cultural, criativa. Tudo isso desaparece com a ideia de que a prioridade é ter uma profissão para poder ganhar dinheiro. É preciso adoptar outra mentalidade, criar pessoas fora do fetichismo tecnológico, dotá-las de uma subjectividade rica. Isso é de uma importância extraordinária. Posso estar enganada, mas nas escolas onde vou, e também nas universidades, parece-me haver um empobrecimento muito grande, e penso que era necessária uma modificação.
Se a consultassem no âmbito de uma grande reforma da educação, que prioridades sugeriria? Por exemplo, é possível voltar a dar hoje uma relevância central ao estudo das Humanidades?
É absolutamente necessário que isso aconteça, que se perceba que as Humanidades têm de funcionar como travão para essa utopia tecnológica de que apenas a ciência e a tecnologia interessam neste mundo. Fiquei muito chocada com as últimas entrevistas de George Steiner, porque ele, que passou toda a vida a mostrar o valor fundamental das Humanidades para encaminharem o avanço tecnológico, no final recuou completamente e disse, não sei se como boutade, mas disse-o várias vezes: “Gosto cada vez mais de falar com as pessoas da ciência porque só elas é que vêem o futuro, as Humanidades só tratam do passado.” Isto foi desdizer-se. E é preciso que as pessoas que acreditam no contrário proponham exactamente o oposto. A tecnologia tem de ficar em face da filosofia e de todas as artes.
E da ética?
É fundamental que haja uma ética, que se perceba que há travões, neste momento em que a inteligência artificial já prevê que se venham a ler os pensamentos das pessoas. Tem de se guardar da pessoa aquilo que ela é. Aliás, no ano 2000, o Libération fez uma pergunta a escritores de todo o mundo: “Em que é que está a pensar no início do milénio?” Uma das coisas que eu dizia era que a humanidade perderá todas as características que conhecemos quando não houver segredo. O segredo é uma capacidade fundamental do ser humano. Pode-se dizer: eu estou escondido, eu sou humano.
É a liberdade mais essencial?
É. Tenho uma parte de mim que quero construir só comigo, que não posso partilhar. Quando isto não acontecer, estaremos perante uma coisa completamente diferente e não sabemos o que é. Além disso, há outra coisa. É frequente dizer-se que muita gente que gosta de literatura tem sido monstruosa. E falam dos nazis que fizeram o Holocausto e que gostavam de ler e de ouvir música. E que o Átila era tão brutal que onde os seus cavalos punham as patas a erva não crescia, mas que à noite chorava quando os bardos tocavam e recitavam para ele. Ou seja, que o bárbaro também é aquele que chora e tem sensibilidade. Pode ser verdade. Mas acho que se não tivéssemos a arte, há muito tempo que tínhamos desaparecido como espécie. A arte é o exercício mais fino do pensamento. É aquele que responde ao desafio que é o do sentido humano, para o qual vivemos individualmente e em conjunto. Se não tivesse havido a Ilíada, a Odisseia, a Divina Comédia, Shakespeare, Cervantes e todos os outros, acredito que nos tínhamos dizimado.
A democracia na Europa pode estar em risco?
Claro que está em risco. Está em risco porque a democracia, neste momento, está reduzida à votação. Mas a democracia não é só isso, é uma ética. Tem princípios e contrapoderes que precisam de ser respeitados. Um deles é o poder moral. O que acontece é que está a ser criada uma nova ontologia. As pessoas já sabem à partida que não haverá castigo. Isto é contrariar uma ontologia que foi criada, muito antes do cristianismo, pelos gregos. Toda a tragédia grega tem na base essa ideia de que um homem um dia se sente culpado e arranca os olhos. Neste momento, não há sentido de culpa. O Trump pode dizer todas as mentiras que quiser. Toda a gente aceita. A [Nancy] Pelosi rasga o discurso e o mundo inteiro diz: “A Pelosi também foi muito malcriada.” Aquilo que numa democracia consiste em haver uma proposta e, depois, ser respeitada a contraproposta, está a acabar.
Também em Portugal?
Em Portugal, começamos a ter essa situação. A democracia hoje tem de ser pensada e nisso o jornalismo tem uma função extraordinária. Digo mais: o jornalismo escrito. Por alguma razão, os alemães, há pouco tempo, quiseram dar de novo uma subvenção ao jornalismo escrito. Queixaram-se de que era muito pouco, mas foi um gesto de reconhecimento. Porque é no texto, que lemos várias vezes, e no qual associamos a opinião a um nome, que criamos filiação de ideias com determinadas pessoas que consideramos que pensam bem, com quem dialogamos. Isso está a ser perdido, porque o leque dessas pessoas é cada vez menor e o seu espaço de expressão é cada vez mais reduzido.
Como se consegue travar os populismos? Como se explica o que é a democracia perante discursos que, para muitas pessoas, são de uma simplificação aconchegante?
Tenho uma ideia que é muito desesperadora, mas que pode fazer alguma coisa. É que os que têm essa noção não deixem passar, tenham uma atitude de resistência. Fiquei muito feliz quando percebi que houve uma rapariga [Luísa Semedo] que não quis enfrentar o André Ventura e se demitiu do seu cargo. Isto tem de ser multiplicado. Há 20 anos, os europeus revoltaram-se contra o Jörg Haider [político nacionalista], da Áustria, porque ele tinha uma agenda que não era democrática. O próprio António Guterres bateu-se imenso. Passados 20 anos, quantos Haider existem? É preciso tocar o sinal de alarme. Cada um no seu sítio. Se for necessário demitir-se, tem de se demitir. E os jornalistas têm de dizer que se demitiu. Cada pessoa tem de falar alto, não pode ter medo. Estamos numa situação de amedrontamento. Era o Curzio Malaparte [intelectual italiano] que dizia que os pobres nunca conseguiam fazer a revolução porque estavam sempre com medo de não ter o pão do dia seguinte. E estamos nessa situação. Há uma juventude completamente amarfanhada, apática, que não sabe o que fazer e está paralisada. A única solução que tem, o que lhe resta, é ser cínica. O cinismo nasce daí. Cínico significa aquele que tem cara de cão, que é o que nós fazemos. Olhamos para a realidade e não a enfrentamos. Temos de estar em cima dos políticos por aquilo que fazem de mal, mas premiá-los pelo que fazem de bem. Falar verdade é hoje fundamental.
No desafio que lança a académicos, escritores, jornalistas, não acha que uma das batalhas a travar, em particular pelos jornalistas, é deixar de pactuar com essa espécie de novilíngua da política, que, mais do que recorrer à mentira factual, promove deliberadamente o obscurecimento e a perda de sentido da linguagem?
Estive a ver os discursos do Edward Heath [ex-primeiro-ministro britânico] quando o Reino Unido entrou na União Europeia e o discurso, agora, de Boris Johnson, e de facto a perda não é só a questão do critério, é a utilização de chavões, de spots publicitários, o uso da língua como gritos de guerra. Aliás, slogan é uma palavra de origem nórdica que significa exactamente grito de guerra. Johnson era jornalista, o jornalista que hoje fala nas negociações como uma espécie de leão desvairado que vai a caminho da nova batalha de Waterloo. Em vez de ir com alguma calma para uma coisa tão sensível, vai para afrontar e meter medo aos outros. É do mais primitivo que há.
Há que devolver dignidade ao uso da língua?
É preciso dizer aos alunos, aos jovens, que têm de encontrar propriedade nas palavras. Têm de estudar. E os professores de Português, mas não só, precisariam de ter uma formação na língua. Teriam de voltar a estudar etimologia, semântica, todas as partes da gramática, a poética. Têm de estudar, têm de fazer de cada professor das Humanidades um leitor. Não tem havido nenhum ministério que tenha posto isso como prioridade. Houve um dia um ministro que me chamou para eu ajudar, e eu disse-lhe: “Agora que têm escolas maravilhosas, algumas delas até parecem hotéis de cinco estrelas, o que têm de fazer, por favor, é encarar a formação dos professores.” Mas não era o que queriam, porque isso custa dinheiro.
E cria massa crítica…
Cria uma revolução. Porque quando se fala da Literatura como uma disciplina básica na formação, não é só a sensibilidade que está em causa, é a parte racional, é a capacidade de raciocínio crítico, e isso é absolutamente fundamental. O que aconteceu foi que a informação ficou telenovelizada e a cultura ficou futebolizada. E isto é dramático, porque os jovens tomam como padrão a telenovela e o futebol. E o futebol, apesar de tudo, é muito mais saudável do que a telenovela. Não a análise do futebol, que é uma epidemia. Mas ao menos as regras do jogo estão claras. Já a telenovela é feita para analfabetos em cinema. Ensinar os jovens a ver cinema é crucial para eles entenderem que a elipse, aquilo que não é mostrado, tem de ser preenchido com o nosso pensamento. Isso é dar-lhes uma gramática, uma chave para entender a arte, para entender a subtileza. O que acontece é que a telenovela é o contrário. Em vez de usar a elipse, ela é uma mimese alongada da realidade. É exactamente o oposto daquilo que provoca raciocínio. É feita para analfabetos.
E não os fará também?
E para fazer analfabetos. Quando fui professora, deduzi que a maior parte dos alunos violentos eram aqueles que não tinham as palavras para falar. Aqueles que se levantavam e saíam porta fora, que gritavam, que não aceitavam eram os que não tinham palavras para vir argumentar. E dar palavras às pessoas, pôr as pessoas a argumentar, a encontrar as palavras necessárias para dizer o que sentem é essencial. A escola tem de o fazer, até porque nós, em Portugal, corremos um risco maior porque vimos de uma sociedade muito pouco letrada. Temos de ter paciência connosco, porque ou os nossos pais ou os nossos avós eram analfabetos. Há uma geração que deu um salto extraordinário, mas rapidamente se volta para trás. E o que está acontecendo é que a sociedade onde a cultura é menos letrada, menos cultivada, é aquela que aceita melhor o ditame do fetichismo tecnológico. E as duas coisas são de facto explosivas.
Como vê o papel do Papa Francisco? Está de facto a revolucionar a Igreja ou nem tanto?
Ele está a revolucioná-la, mas não o estão deixando. A sua eleição foi uma das coisas boas que aconteceram nos últimos anos. A primeira vez que o ouvi, pensei: “É um homem novo, um homem diferente.” Uma criança perguntou-lhe se pensara ser Papa e ele respondeu: “Nunca, não há predestinados, que vergonha se eu alguma vez imaginava isso.” Ora, isto é o contrário de João Paulo II. Francisco é um humano entre os humanos, prega o Evangelho. Se Cristo deixou pegadas na Terra, penso que ele está a pôr os seus pés no sítio onde elas estão.
Muitos comentadores têm chamado a atenção para as inquietantes coincidências entre o tempo que vivemos e aquele que na Europa precedeu a ascensão dos fascismos. No seu último romance, Estuário, o protagonista regressa de algum modo à Ilíada para falar das atrocidades e ameaças do presente. Concorda que a História não é imune a um certo grau de repetição e que essas comparações, que parecem anacrónicas, podem não ser inteiramente descabidas?
Não são, não. Aliás, voltar a essas grandes narrativas é fundamental. A Ilíada é o texto mais contemporâneo que existe. É um grito para a humanidade escrito oito séculos antes de Cristo. O receio que aquela história evidencia é que as pessoas podem matar-se umas às outras, e é horrível, mas, lendo com os nossos olhos de hoje, o que acontece é que Aquiles vai ser morto e não há descendentes. Quando se vê Trump, imune, a fazer tudo o que quer deste mundo e os seus imitadores de meia-tigela… Basta um clique e dá-se aqui qualquer coisa de dramático. Todos nós sentimos isso. E a noção de que não há planeta B cria paralisação e, ao mesmo tempo, movimentos anárquicos de violência. Há uma espécie de terror branco sobre as nossas cabeças. Se fosse adolescente, o que sentiria eu acerca do futuro? Diz-se que a Terra está esgotada, mas os jovens assistem todos os dias a este balanço extraordinário entre os que dizem que sim e os que dizem que não, e parece que estão a ganhar os segundos, porque são indiferentes ao apelo dos primeiros. A Alemanha, que tem adoptado a atitude certa, está a ser punida economicamente, e não sei quantos alemães o vão aguentar.
Esta geração encara o futuro com mais receio do que as precedentes?
O que um adolescente hoje pensa é que a Terra está em perigo e que há loucos a mandar no mundo. E depois há a ideia de futuro, sendo o espaço todos os dias concedido ao futuro extraordinário: deixou-se de viver no presente e passou-se a viver no futuro. Há aqui um trauma semelhante ao do século XVII, que criou coisas horríveis, pôs pessoas na fogueira — as capitais da Europa encheram-se do cheiro a gordura de seres humanos queimados —, e tudo isto aconteceu depois do Renascimento, quando houve homens que escreveram sobre uma nova humanidade, que escreveram sobre o futuro como uma promessa de entendimento. E passados poucos anos acontece exactamente o contrário: as lutas religiosas, o regresso do obscurantismo. Uma das explicações para isso é a grande crise que se dá quando a Terra deixa de ser o centro e a população começa a perceber que o Sol é que é o centro, e pensa: “Nós não sabemos nada sobre o mundo.” Ora, os jovens de hoje têm medo da Terra, fala-se permanentemente do futuro, mas não há outro planeta para onde irmos, e as democracias estão em crise. E, por outro lado, as ciências biológicas estão a fazer o seu trabalho junto dos jovens, que é dizer que nós também somos um animal. Só que têm de tomar cuidado, em meu entender, porque talvez sejamos um animal especial, ou talvez não sejamos um animal. Gosto muito daquela expressão do Steiner, que dizia que quando se lê poesia suspende-se a morte de Deus de Nietzsche. É verdade. Nós somos outra coisa. Não sabemos dizer o que somos, e é talvez por isso mesmo que somos outra coisa. É preciso dizê-lo aos jovens, e é isto que a Literatura, as artes, o cinema, podem mostrar…
Uma dimensão transcendente?
É dizer que cada um tem a sua noção de transcendência, os que irão até à crença absoluta num deus tradicional, outros que ficarão no agnosticismo. Mas ao menos deixem ficar a dúvida. Não digam taxativamente: “Eu sou um bicho.” Digam: “Eu sou um bicho que pensa que, havendo uma metafísica, essa metafísica pode dialogar comigo.” Isto é fundamental para que os jovens não se suicidem, ou não se cortem nas pernas e nos braços, como está a acontecer.
Parece ter-se criado a ideia de que faltam hoje causas que mobilizem os jovens. Acha que as questões ambientais lhes deram uma causa, que eventualmente poderá levar a outras?
Sim, é isso mesmo. Fazem um ensaio de grupo, e de resistência. Muitas vezes são exagerados, querem-nos punir, querem-nos bater, dizem que estragámos tudo, falam raivosamente. Mas estão a ensaiar, e o que é importante é sentirem que têm força, que vão para a rua, que se podem unir em torno de causas, e o resto depois se depurará. E haverá naturalmente divisões, dos que olham para a Terra como algo apenas físico aos absolutamente animalistas, que odeiam os pais porque eles comem fiambre, mas isso não interessa. Fico muito feliz por ver os jovens a manifestar-se, sobretudo num país como este, onde as manifestações espontâneas não se fazem e são sempre reprimidas.
Uma causa hoje muito presente é a da luta contra o racismo. Escreveu A Costa dos Murmúrios e conhece bem a colonização portuguesa em África. Acha que Portugal é hoje um país tão racista como era, ou o fenómeno está a ser empolado pelas redes sociais?
É muito menos racista, não há comparação nenhuma. O que acontece é que as redes sociais permitem todos os desabafos e, portanto, dá a impressão de que existe um país revoltado contra os africanos, os ciganos, contra quem é um pouco diferente por este ou aquele elemento. Mas, se olharmos à nossa volta, temos pessoas de todas as etnias em Portugal. No Algarve, há 30 e tal etnias diferentes só numa escola. Não é possível dizermos que somos uns racistas; as pessoas convivem, casam umas com as outras, têm filhos. Claro que existe racismo, como também há quem não goste de pessoas pequenas, há sempre preconceito e pessoas preconceituosas. Mas se acho que não somos um país racista, também acho que o racismo não é só o tema do dia, será o tema do século, ou pelo menos de muitas décadas. Nós estamos a falar do ponto de vista daquele que colonizou, que escravizou, e isso é um estigma muito forte, que tentámos varrer para debaixo do tapete, e neste momento há uma espécie de explosão. Acreditámos que falar disto acalmaria o assunto e dizemos que houve culpa, não nossa, mas dos nossos pais, dos nossos trisavós, da nossa história, e que fomos culpados até de termos continuado a fazer comércio de escravos quando os ingleses já perseguiam os barcos negreiros. Isto que é hoje explicado por todos os historiadores poderia dar-nos a noção de que, estando agora do lado certo, seríamos perdoados, que nos estenderiam a mão e nos diriam: “Muito bem, hoje estamos todos no mesmo barco.” Mas não é assim. Porque há um ressentimento muito forte e basta que alguém lembre “tu não és da minha cor” para que todo esse historial regresse.
As redes sociais vieram dar voz a muitos que não a tinham. Mas não lhe parece que essa aparente democratização do debate público muitas vezes não corresponde a uma genuína troca de ideias e argumentos, descambando quer na troca de insultos quer num consenso acrítico?
Temos na mão um instrumento extraordinário, que permite a toda a gente dizer o que pensa e transmiti-lo aos seus amigos, à sua rede. Mas a verdade é que não é isso que está a acontecer. O meio é louvável e ainda bem que existe, mas transformou-se num instrumento antidemocrático. Dou um exemplo concreto. Quando começaram a aparecer todas essas histórias de pedófilos, um homem, num café, dizia que, se apanhasse um, pegava numa faquinha e, com ele vivo, cortava-lhe o sexo aos bocadinhos, em lâminas fininhas. Fez este desabafo num circuito fechado, mas se este homem, que era analfabeto, soubesse ler e escrever e pusesse isto numa rede social, imagine a amplitude que a coisa não ganharia. Alguns chamar-lhe-iam ordinário e insultá-lo-iam, mas haveria também quem dissesse que pensava a mesma coisa. E agora imagine-se que essa ideologia aumentava de tal modo que um político decidia adoptá-la… O problema é que quem fazia estes desabafos não tinha notoriedade, mas passou a tê-la. Muito do que está a acontecer nestes últimos 20 anos, esta irascibilidade, vem daqui. Fico admiradíssima ao ler textos de gente que considero digna e que perde toda a dignidade quando escreve nas redes sociais. É como os automóveis: pessoas que nunca disseram palavrões começam a insultar-se umas às outras no trânsito. Parece que o instrumento tecnológico incita em nós algo de bárbaro. Nas redes sociais, há uma legitimação do insulto e do desabafo que torna insustentável a troca de ideias, e mais ainda num país que não tem o hábito do debate, até por falta de instrumentos linguísticos. As pessoas não têm paciência para escutar o outro e argumentar. A nossa cultura é muito histérica.
Vivemos num mundo digital e numa sociedade consumista e imediatista. Acha que vai continuar a haver lugar para o livro como fonte de conhecimento e mundividência?
Acho, porque os desastres que estão à vista são tantos que muitos já acordaram para a necessidade de modificar as coisas. As pessoas vão compreender que o livro é um instrumento fundamental. Umberto Eco enumerou vários objectos que são aquisições da humanidade e em relação aos quais não se pode voltar para trás, como a tesoura ou a colher, e um deles é o livro.
E continuará a ser em papel?
Creio que sim. Há uns anos, escrevi: “Silvicultores, plantem muitas árvores, porque os livros serão de papel.” No livro está o pensamento demorado, aquele que nos ajuda a treinar o nosso cérebro lento, porque o rápido tem aí os instrumentos todos. Mas esse não conduz à comparação, nem à dedução, nem à dúvida. Pense-se no modo como tomamos uma decisão. Fazemos uma afirmação, “eu quero isto”, e depois pomos as outras hipóteses: “Se eu não quiser isto, pode acontecer isto e aquilo...” Há uma comparação lenta que se vai fazendo e, quando decidimos, já tivemos tempo para fazer uma escolha, uma dedução. Se esse tipo de pensamento desaparece, desaparece tudo. A sociedade tem de criar leitores e acho que se está a acordar para isso. Mas talvez esteja enganada, talvez eu seja uma ingénua voluntária.
Qual é hoje a função dos intelectuais, se ainda existem?
Os intelectuais continuam a existir, mas a sua palavra não é ouvida, e eles próprios desistiram de a fazer ouvir. Quais são, na sociedade, os elementos que falam em nome das palavras? São os professores, os intelectuais, os críticos, os artistas, os historiadores, os jornalistas. Estas pessoas têm de falar mais e de dar mais voz uns aos outros. O que hoje acontece é que a palavra sensata de um intelectual é remetida para nota de rodapé e um doido que diga uma aleivosia qualquer tem direito a uma página inteira com a sua imagem. Aconselho os estudantes de jornalismo a que sigam a ascensão de André Ventura, o modo como tem estado a ser levado pela comunicação social portuguesa. Mas uma pessoa como o Mário de Carvalho, por exemplo, com um pensamento estruturado sobre Portugal, tem de escrever nas redes sociais.
E como é que se inverte esse rumo?
Não posso dizer que quero que os jornais voltem a ser estatizados. Mas deve haver outro poder, além do privado. Tem de existir a consciência social de que o jornalismo é fundamental. E também nas editoras é preciso haver uma alteração. Quem escolhe livros para a sociedade tem um papel fundamental e não pode estar esmagado pela ameaça das vendas que não acontecem, porque o que hoje se vende é lixo. É necessária uma revolução, no sentido sideral, porque doutra forma é o desastre, que significa perder os astros. Acredito na transmissão de conhecimento, na pedagogia e no exemplo das pessoas. Nunca a visão freudiana de que vivemos para o prazer esteve tão implantada a todos os níveis, mas acredito que vivemos para um sentido. E os que também acreditam nisso têm de se unir e de resistir, e que não se lhes canse a voz ou a mão. Sei que pareço utópica, mas se muitos acreditarem, é possível mudar. É preciso criar um estado de alarme.