sexta-feira, 14 de agosto de 2015

São Cristóvão

Painel de azulejos, na Rua de São Cristóvão, em Évora

O texto sobre São Cristóvão, a seguir transcrito, foi por mim lido há já muito tempo, tanto, que o julgava incluso nos Contos, de Eça de Queirós. Contos, de que gosto superlativamente, excessivamente. Não é tal. A propósito de um passeio recente pela rua eborense do santo homónimo, fui à procura e encontrei-o, como parte final das muitas páginas que lhe dedicou e que estou lendo, nas Últimas Páginas. Foi numa das edições antigas da LELLO que primeiro li o que aqui vai, e apenas o que aqui vai, sobre São Cristóvão.
Aqueles a quem Cristóvão ajudava retribuíam de maneiras variadas. Uns davam-lhe dinheiro, cordas, pão..., outros não lhe pagavam ou pagavam mal, havia quem lhe batesse e uns frades, por paga, «deixaram a sua bênção ao gigante e um ramo de buxo benzido».


*
Assim envelhecia aquele bom gigante. Ora, um dia que caminhava por uma colina entre rochedos, ouviu um rumor de vozes que parecia vir do fundo do despenhadeiro. Desceu, agarrando-se à ponta das rochas. E viu um largo rio, negro e tumultuoso, que corria espumando sobre as rochas que o cortavam, com um mugido sombrio. À beira dele, estava um grupo de mercadores com os seus machos carregados. E do outro lado eram rochas, a pique, um monte que se elevava, coroado de pinheiros.
Cristóvão desceu, apareceu diante dos homens. Todos se juntaram, tirando facalhões do cinto, no terror daquela força e daquela deformidade. Depois, como ele de longe lhes falou com humildade, todos, pouco a pouco, o cercaram, perguntando o que acontecera à ponte que ali havia. Cristóvão não sabia. E então disseram-lhe que aquele era um caminho curto e fácil que havia naquelas terras. Mas tinha aquela passagem má, o rio tumultuoso. Outrora houvera ali uma ponte de barcas amarradas com correntes. Mas o rio quebrara as correntes, levara as barcas, como palhas secas. Depois tinham lançado uma ponte de madeira e o rio outra vez levara a ponte. No entanto, o senhor daquelas terras morrera, e tendo elas passado a um outro que vivia nas cidades, ninguém mais se ocupara de fazer uma ponte aos viandantes. E agora ali estavam eles, sem poderem passar, e as mulheres e os filhos esperavam-nos, debalde, nas suas moradas para além dos montes.
Cristóvão, no entanto, olhava a água. E em silêncio mergulhou no rio, e começou a atravessá-lo. A água cobriu os seus joelhos, subiu até à cintura, por fim bateu furiosamente sobre o seu peito, como sobre o pilar de uma ponte. E Cristóvão caminhava. Depois a cinta de Cristóvão saiu da água, depois apareceram os seus joelhos, e a escorrer, ele pôs pé, enfim, nas rochas duras da outra margem, onde um caminho íngreme subia entre fragas. Cristóvão passara o rio.
Voltou, e abrindo os braços para os mercadores espantados, gritou:
— Quem quer passar?
Um mais novo logo se ofereceu. Cristóvão tomou-o sobre os seus largos ombros, em cada braço carregou um fardo, enquanto os outros, ansiosos, rezavam à Virgem. Cristóvão passou — e do outro lado, o mercador, radiante, fazia grandes gestos aos companheiros, gritava que o gigante era seguro. Então Cristóvão passou os homens, depois os fardos. E por fim agarrando as mulas, que zurravam espantadas, conduziu para o lado de lá toda a caravana, sem que um pêlo dos animais, ou uma corda dos fardos, ou um sapato dos homens se tivesse molhado. Tendo combinado baixo, os homens puseram-lhe nas mãos um punhado de dinheiro, deram-lhe um rolo de cordas, e deixaram-lhe pão para uma semana.
Logo nessa tarde Cristóvão, examinando aquele lugar agreste, recolheu troncos quebrados, ramarias secas, e calando a madeira na fenda das rochas, arranjou com a corda um longo, estreito telheiro, onde o seu corpo se abrigasse das chuvas e das neves. Depois, tendo desembaraçado dos pedregulhos o caminho, esperou, sentado na grande solidão, que aparecessem viandantes. Não tardaram a aparecer na outra margem um grupo de frades, que viajavam com o abade, montado numa mula.
Apenas os viu, Cristóvão atravessou — enquanto os frades, aterrados, lhe faziam grandes acenos, para que se não arriscasse naquelas águas da torrente. Mas quando o viram chegar, enorme, a escorrer água, e com os braços abertos para os receber, hesitaram, pensando ser uma cilada do Demónio. A cruz que o abade traçou no ar, e que Cristóvão repetiu sobre o peito, logo os tranquilizou — murmurando entre si que então, certamente, era um auxílio do Senhor. Um por um, arregaçando o hábito, cavalgaram Cristóvão, e no meio do rio, sentindo a água furiosa bater a cinta do gigante, gritavam o nome da Virgem, Estrela dos Náufragos. Depois, quando Cristóvão os passava na outra margem, enxutos, era um espanto, e baixando os hábitos, reapertando as sandálias, riam daquela ponte viva que trabalhava nas águas. O abade passou, passou a sua mula. E os frades deixaram a sua bênção ao gigante e um ramo de buxo benzido.
Começou então para Cristóvão uma vida estável, quieta, junto daquele rio. Nas horas em que não havia gente, esperava sentado numa pedra, olhando correr a água, ou então alargava o caminho e construía à beira de água, com pedras, como um cais onde a gente lhe subia para as costas. A cada instante, porém, havia alguém a passar — e como Cristóvão era já conhecido, os viandantes, do alto da colina, vinham logo gritando: «Eh, gigante!» Alguns, mais brutais, se ele se demorava, rompiam em injúrias. Outros, que o vinho bebido nas tabernas da estrada excitava, arrepelavam-lhe os cabelos. Ele, quieto e humilde, fendia as águas. Por vezes era um cavaleiro que, com a sua pesada armadura, lhe esmagava os ombros, e rindo o espicaçava com os acicates. Outras vezes era uma dama que se horrorizava com a fealdade de Cristóvão, tapava a face, e apenas passada para a outra margem lhe fugia das mãos, mostrando o seu nojo. O maior trabalho era com os animais. Havia rebanhos que levavam todo um dia a passar. Os ginetes de guerra, furiosos, mordiam-lhe os braços. E os galgos, latindo, queriam saltar para o rio, entre a indignação dos fidalgos, que atiravam pedras a Cristóvão. Nenhum esforço custava ao bom gigante. Passava os fardos mais duros, grossas barricas de vinho, pedras enormes para a construção das abadias. Passou touros, que iam para um curro de fidalgos. E passou um bando de leprosos, que fugiam de uma cidade, e lhe deixavam sobre a pele o pus das suas fístulas.
Se não lhe pagavam, baixava a cabeça, saudando com humildade. Se lhe pagavam, beijava a escassa moeda de cobre: — e guardava debaixo de uma pedra esse dinheiro, para repartir com os mendigos.
Assim vivia desde longos anos. A sua cabeça já se vergava, os seus braços já não eram tão fortes. Por vezes, sob os grandes fardos, gemia lamentavelmente. Todos os seus membros estavam como troncos nodosos, inchados pela humidade constante. De todo ele saía um cheiro a vasa e a limo. E as suas pernas, sempre na água, tinham um tom verde, como as estacas de uma levada.
O seu leito de folhas secas era-lhe doce, e quando sentia vozes que o chamavam, era com um gemido que se erguia. Já lhe levava o dobro do tempo a cortar a corrente e por isso eram constantes as injúrias que recebia. Para se apoiar na água, sentindo que as suas forças diminuíam, teve de fazer um grande bastão aguçado, como um tronco. E cada Inverno pensava, com inquietação, se a força lhe sobraria para fender a corrente furiosa do rio mais cheio.
Agora, apenas passava os viajantes, logo se vinha deitar. E chegou mesmo a pedir, por caridade, que lhe deixassem um pouco de vinho, para tomar nas noites muito duras, como um cordial que o amparasse. Oh!, muito pouco, um pichel somente… Ele, cautelosamente, o pouparia.
Ora uma noite de grande Inverno, em que ventava, nevava, e o rio muito cheio mugia furiosamente, Cristóvão, já muito velho, trôpego, com feridas nas pernas, dormia no seu chão molhado — quando fora, na noite agreste, uma voz pequenina e dolorida gritou: «Cristóvão! Cristóvão!»
Com um gemido, logo se ergueu aquele bom gigante. Abriu o loquete da sua choça. E viu diante de si uma criancinha, pisando descalça a relva, com as mãozinhas, a camisa muito branca que o cobria. Espantado, com lágrimas, Cristóvão abriu os braços.
— Oh, meu menino, quem te trouxe?
E tremendo toda, no frio e na neve, a criancinha murmurou:
— Cristóvão, Cristóvão, estou sozinho e perdido, e por quem és te peço que me leves a casa de meu pai!
Já Cristóvão arrancara dos ombros a pele em que se agasalhava, e envolvia nela o corpinho tenro que tremia.
— Oh, meu menino, onde é a casa de teu pai?
A criancinha estendeu o braço para o outro lado, onde os montes negros se erguiam. E murmurou muito baixo:
— Além, para além, muito longe…
Mas um espanto tomava Cristóvão. Porque debaixo da pele negra de cabra, de novo a camisinha branca da criança aparecia rebrilhando na noite negra, toda branca de linho. Muito humilde, baixando para ele a face, o bom gigante disse, muito humilde:
— Oh, meu menino, vem, que eu te levo ao colo.
A criança estendeu os braços pequeninos. Cristóvão com cuidado e docemente a foi pondo ao ombro. Mas, bruscamente, os seus joelhos vergaram, tocaram a rocha, sob o imenso peso que o esmagava. Ah!, quanto pesava o menino! Com susto, se firmou nas suas velhas pernas doridas. Desceu, arrimado ao seu bastão, o caminho escorregadio, mergulhou na água os pés — e logo a corrente que mugia furiosamente em redor, atirando a espuma até aos pés da criança. Arquejando, Cristóvão rompeu a água. O vento imenso silvava, e atirava-lhe sobre os olhos, que a humidade embaciava, os seus longos cabelos grisalhos. Ele disse: «Ah!, meu menino, meu menino!» A cada passo sentia que o leito limoso do rio lhe fugia sob os pés. Todo ele tremia, firmado no bordão. E a água, toda branca de espuma, empurrava-o furiosamente, com um marulho medonho. Na densa escuridão nada distinguia, nem sabia onde estava a outra margem. Grossas pedras de granizo de repente caíram, e o menino, arrepiado, todo se aconchegava à sua face. Já a água temerosa lhe chegava ao peito. Tropeçou numa rocha, e, quando se susteve, sentiu a água, furiosa, gelada, correndo a roçar-lhe as barbas. Arrojou o bordão, e com as mãos ambas ergueu o menino ao ar. Mas mal o podia sustentar, grandes vagas já lhe batiam a face. Arquejando, parava para respirar fora da água, e bebia a espuma turva e amarga. Grossas traves, que a corrente acarretava, batiam-lhe o corpo. Os seus pés rasgavam-se em pedras agudas. E ele, num esforço enorme, os braços esticados ao alto e todos a tremer, sustentando o menino, arrojava o peito para a frente, com gemidos que eram mais fortes que o vento. Duas vezes os seus joelhos fraquejaram, ia cair sob a força da torrente; duas vezes, com um esforço sobre-humano, se manteve firme, erguendo ao alto o menino. A água já lhe chegava pela barba, e a espuma das vagas humedecia-lhe os olhos. E, sempre arquejando, rompia, com as mãos a tremer todas do peso imenso do menino. Mas os seus pés encontraram uma rocha firme, a água desceu outra vez até ao peito. Na rocha resvaladiça, porém, os seus passos mal se podiam sustentar. E era por um esforço da alma, que se empinava, arquejando. Mas ia saindo do rio. A água já lhe descera à cintura. E o fragor da torrente parecia abrandado e como remoto. Grandes pedras emergiam da água. Já apenas tinha mergulhados os pés, que ele sentia dilacerados. Um esforço mais, e estava na margem, salvo, apertando contra o peito o menino.
Mas, naquele esforço supremo, toda a sua vida se fora. Não podia mais. E já se sentava, exausto, numa rocha, quando o menino lhe murmurou que não parasse, que marchasse ainda, o conduzisse à casa de seu pai. E Cristóvão, arquejando, começou a trepar o íngreme caminho da serra. Uma vaga claridade errava nos altos. E as rochas, os abetos, emergiam da treva densa, que os afogara. Uma frialdade trespassava o ar — e Cristóvão tiritava, com o seu pobre saião de estamenha encharcado, que ia pingando na terra mole. E mais baixo murmurava: «Ah, meu menino! Meu menino!…»
Cada vez mais escarpado, entre rochas, se empinava o caminho da serra. E Cristóvão todo curvado, com os seus cabelos caídos sobre a face e pingando, arquejava a cada passo. Subiria ele jamais até á morada do menino? E uma grande dor batia-lhe o coração, no terror de cair sem força, e a criancinha ficar ali, naquele ermo rude, entre as feras, sob a tormenta. A cada instante tinha de arrimar a mão a uma rocha, desfalecido, de se prender à ramagem de um abeto. E a claridade crescia; já, no alto dos montes, ele via palidamente alvejar a neve.
— Oh, meu menino, onde é a casa de teu pai?
— Mais longe, Cristóvão, mais longe…
E aquele bom gigante, agasalhando os pés do menino na dobra da pele de cabra, que o vento desmanchava, seguia com longos gemidos no caminho infindável, que mais se apertava entre rochas, eriçadas de silvas enormes. Por fim, mal podia passar; as pontas das rochas rasgavam-lhe os braços, os longos espinhos, atravessado, levavam-lhe a pele rude da face. E seguia! Já das feridas lhe pingava o sangue, e os olhos embaciados mal distinguiam o caminho, que parecia oscilar todo como abalado num tremor de terra. Uma luz, no entanto, mais viva, cor-de-rosa, já subia por trás das linhas dos cerros.
Mas Cristóvão parou, sem poder mais. Com o menino agarrado nos braços, ficou encostado a uma pedra, arquejando.
— Onde é a casa de teu pai?
— Mais longe, Cristóvão, mais longe…


Então o bom gigante fez um prodigioso esforço, e a cada passo, meio desfalecido, os olhos turvos, a cada instante lançando a mão para se arrimar, tropeçando, com grossas gotas de suor que se misturavam a grossas gotas de sangue, rompeu a caminhar, sempre para cima, sempre para cima. Os seus pés iam ao acaso, no desfalecimento que o tomava. Uma grande frialdade invadia todos os seus membros. Já se sentia tão fraco como a criança que levava aos ombros. E parou, sem poder, no topo do monte. Era o fim: um grande Sol nascia, banhava toda a Terra em luz. Cristóvão pousou o menino no chão, e caiu ao lado, estendendo as mãos. Ia morrer. Mas sentiu as suas grossas mãos presas nas do menino — e a terra faltou-lhe debaixo dos pés. Então entreabriu os olhos, e no esplendor incomparável reconheceu Jesus, Nosso Senhor, pequenino como quando nasceu no curral, que docemente, através da manhã clara, o ia levando para o Céu.


*
Sobre S. Cristóvão
Ver,
aqui, (C. M. Lisboa, equipamento; nota sobre a estátua de S. Cristóvão, com foto);
aqui, (Rotunda do Relógio, em 1972, com a devida vénia a Panoramio e ao autor da foto);
abaixo, a rotunda do relógio e a estátua de São Cristóvão, em 14-08-2015;





aqui(The Golden Legend, vol. IV, p. 53);
aqui, (Legenda Aurea, latim);
aqui, (sobre S. Cristóvão, em latim, na L. A., incompleto);
aqui, (sobre S. Cristóvão, em latim, na L. A., completo); e,
aqui, (S. C., na Légende Dorée).
(Acrescentadas cinco fotografias, em 14-08-2015, às 13:14)

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

YÁBURA: Uma cidade do Al-Andalus

      Proveitosa exposição, que muito ensina, de maneira aliciante, a quem a visita. O vídeo, de que temos pena de não ter trazido um exemplar, se por acaso disponível para venda, mostra uma recriação virtual do espaço da cidade nos tempos do Al-Andalus, com indicação, passo a passo, do que se encontra actualmente, nos mesmos lugares.
     Um exemplo: a cidade terminava na Porta de Moura, abruptamente, digo, mas o termo é equívoco, porque tal não desagrada, só se sente estranheza. Não há fonte henriquina, nem janelas da Casa Cordovil, nada; só campo. 
      Até ao dia 5 de Setembro.