Painel de azulejos, na Rua de São Cristóvão, em Évora
Aqueles a quem Cristóvão ajudava retribuíam de maneiras variadas. Uns davam-lhe dinheiro, cordas, pão..., outros não lhe pagavam ou pagavam mal, havia quem lhe batesse e uns frades, por paga, «deixaram a sua bênção ao gigante e um ramo de buxo benzido».
*
Assim envelhecia aquele bom gigante. Ora, um dia que
caminhava por uma colina entre rochedos, ouviu um rumor de vozes que parecia
vir do fundo do despenhadeiro. Desceu, agarrando-se à ponta das rochas. E viu
um largo rio, negro e tumultuoso, que corria espumando sobre as rochas que o
cortavam, com um mugido sombrio. À beira dele, estava um grupo de mercadores
com os seus machos carregados. E do outro lado eram rochas, a pique, um monte
que se elevava, coroado de pinheiros.
Cristóvão desceu, apareceu
diante dos homens. Todos se juntaram, tirando facalhões do cinto, no terror
daquela força e daquela deformidade. Depois, como ele de longe lhes falou com
humildade, todos, pouco a pouco, o cercaram, perguntando o que acontecera à
ponte que ali havia. Cristóvão não sabia. E então disseram-lhe que aquele era
um caminho curto e fácil que havia naquelas terras. Mas tinha aquela passagem
má, o rio tumultuoso. Outrora houvera ali uma ponte de barcas amarradas com
correntes. Mas o rio quebrara as correntes, levara as barcas, como palhas
secas. Depois tinham lançado uma ponte de madeira e o rio outra vez levara a
ponte. No entanto, o senhor daquelas terras morrera, e tendo elas passado a um
outro que vivia nas cidades, ninguém mais se ocupara de fazer uma ponte aos
viandantes. E agora ali estavam eles, sem poderem passar, e as mulheres e os
filhos esperavam-nos, debalde, nas suas moradas para além dos montes.
Cristóvão, no entanto, olhava
a água. E em silêncio mergulhou no rio, e começou a atravessá-lo. A água cobriu
os seus joelhos, subiu até à cintura, por fim bateu furiosamente sobre o seu
peito, como sobre o pilar de uma ponte. E Cristóvão caminhava. Depois a cinta de
Cristóvão saiu da água, depois apareceram os seus joelhos, e a escorrer, ele
pôs pé, enfim, nas rochas duras da outra margem, onde um caminho íngreme subia
entre fragas. Cristóvão passara o rio.
Voltou, e abrindo os braços
para os mercadores espantados, gritou:
— Quem quer passar?
Um mais novo logo se
ofereceu. Cristóvão tomou-o sobre os seus largos ombros, em cada braço carregou
um fardo, enquanto os outros, ansiosos, rezavam à Virgem. Cristóvão passou — e
do outro lado, o mercador, radiante, fazia grandes gestos aos companheiros, gritava
que o gigante era seguro. Então Cristóvão passou os homens, depois os fardos. E
por fim agarrando as mulas, que zurravam espantadas, conduziu para o lado de lá
toda a caravana, sem que um pêlo dos animais, ou uma corda dos fardos, ou um
sapato dos homens se tivesse molhado. Tendo combinado baixo, os homens
puseram-lhe nas mãos um punhado de dinheiro, deram-lhe um rolo de cordas, e
deixaram-lhe pão para uma semana.
Logo nessa tarde Cristóvão,
examinando aquele lugar agreste, recolheu troncos quebrados, ramarias secas, e
calando a madeira na fenda das rochas, arranjou com a corda um longo, estreito
telheiro, onde o seu corpo se abrigasse das chuvas e das neves. Depois, tendo
desembaraçado dos pedregulhos o caminho, esperou, sentado na grande solidão, que
aparecessem viandantes. Não tardaram a aparecer na outra margem um grupo de
frades, que viajavam com o abade, montado numa mula.
Apenas os viu, Cristóvão
atravessou — enquanto os frades, aterrados, lhe faziam grandes acenos, para que
se não arriscasse naquelas águas da torrente. Mas quando o viram chegar,
enorme, a escorrer água, e com os braços abertos para os receber, hesitaram,
pensando ser uma cilada do Demónio. A cruz que o abade traçou no ar, e que
Cristóvão repetiu sobre o peito, logo os tranquilizou — murmurando entre si que
então, certamente, era um auxílio do Senhor. Um por um, arregaçando o hábito,
cavalgaram Cristóvão, e no meio do rio, sentindo a água furiosa bater a cinta
do gigante, gritavam o nome da Virgem, Estrela dos Náufragos. Depois, quando
Cristóvão os passava na outra margem, enxutos, era um espanto, e baixando os
hábitos, reapertando as sandálias, riam daquela ponte viva que trabalhava nas
águas. O abade passou, passou a sua mula. E os frades deixaram a sua bênção ao
gigante e um ramo de buxo benzido.
Começou então para Cristóvão
uma vida estável, quieta, junto daquele rio. Nas horas em que não havia gente,
esperava sentado numa pedra, olhando correr a água, ou então alargava o caminho
e construía à beira de água, com pedras, como um cais onde a gente lhe subia
para as costas. A cada instante, porém, havia alguém a passar — e como
Cristóvão era já conhecido, os viandantes, do alto da colina, vinham logo
gritando: «Eh, gigante!» Alguns, mais brutais, se ele se demorava, rompiam em
injúrias. Outros, que o vinho bebido nas tabernas da estrada excitava,
arrepelavam-lhe os cabelos. Ele, quieto e humilde, fendia as águas. Por vezes
era um cavaleiro que, com a sua pesada armadura, lhe esmagava os ombros, e
rindo o espicaçava com os acicates. Outras vezes era uma dama que se
horrorizava com a fealdade de Cristóvão, tapava a face, e apenas passada para a
outra margem lhe fugia das mãos, mostrando o seu nojo. O maior trabalho era com
os animais. Havia rebanhos que levavam todo um dia a passar. Os ginetes de
guerra, furiosos, mordiam-lhe os braços. E os galgos, latindo, queriam saltar
para o rio, entre a indignação dos fidalgos, que atiravam pedras a Cristóvão.
Nenhum esforço custava ao bom gigante. Passava os fardos mais duros, grossas
barricas de vinho, pedras enormes para a construção das abadias. Passou touros,
que iam para um curro de fidalgos. E passou um bando de leprosos, que fugiam de
uma cidade, e lhe deixavam sobre a pele o pus das suas fístulas.
Se não lhe pagavam, baixava a
cabeça, saudando com humildade. Se lhe pagavam, beijava a escassa moeda de
cobre: — e guardava debaixo de uma pedra esse dinheiro, para repartir com os
mendigos.
Assim vivia desde longos
anos. A sua cabeça já se vergava, os seus braços já não eram tão fortes. Por
vezes, sob os grandes fardos, gemia lamentavelmente. Todos os seus membros
estavam como troncos nodosos, inchados pela humidade constante. De todo ele
saía um cheiro a vasa e a limo. E as suas pernas, sempre na água, tinham um tom
verde, como as estacas de uma levada.
O seu leito de folhas secas
era-lhe doce, e quando sentia vozes que o chamavam, era com um gemido que se
erguia. Já lhe levava o dobro do tempo a cortar a corrente e por isso eram
constantes as injúrias que recebia. Para se apoiar na água, sentindo que as
suas forças diminuíam, teve de fazer um grande bastão aguçado, como um tronco.
E cada Inverno pensava, com inquietação, se a força lhe sobraria para fender a
corrente furiosa do rio mais cheio.
Agora, apenas passava os
viajantes, logo se vinha deitar. E chegou mesmo a pedir, por caridade, que lhe
deixassem um pouco de vinho, para tomar nas noites muito duras, como um cordial
que o amparasse. Oh!, muito pouco, um pichel somente… Ele, cautelosamente, o
pouparia.
Ora uma noite de grande
Inverno, em que ventava, nevava, e o rio muito cheio mugia furiosamente,
Cristóvão, já muito velho, trôpego, com feridas nas pernas, dormia no seu chão
molhado — quando fora, na noite agreste, uma voz pequenina e dolorida gritou:
«Cristóvão! Cristóvão!»
Com um gemido, logo se ergueu
aquele bom gigante. Abriu o loquete da sua choça. E viu diante de si uma
criancinha, pisando descalça a relva, com as mãozinhas, a camisa muito branca
que o cobria. Espantado, com lágrimas, Cristóvão abriu os braços.
— Oh, meu menino, quem te
trouxe?
E tremendo toda, no frio e na
neve, a criancinha murmurou:
— Cristóvão, Cristóvão, estou
sozinho e perdido, e por quem és te peço que me leves a casa de meu pai!
Já Cristóvão arrancara dos
ombros a pele em que se agasalhava, e envolvia nela o corpinho tenro que tremia.
— Oh, meu menino, onde é a
casa de teu pai?
A criancinha estendeu o braço
para o outro lado, onde os montes negros se erguiam. E murmurou muito baixo:
— Além, para além, muito
longe…
Mas um espanto tomava
Cristóvão. Porque debaixo da pele negra de cabra, de novo a camisinha branca da
criança aparecia rebrilhando na noite negra, toda branca de linho. Muito
humilde, baixando para ele a face, o bom gigante disse, muito humilde:
— Oh, meu menino, vem, que eu
te levo ao colo.
A criança estendeu os braços
pequeninos. Cristóvão com cuidado e docemente a foi pondo ao ombro. Mas,
bruscamente, os seus joelhos vergaram, tocaram a rocha, sob o imenso peso que o
esmagava. Ah!, quanto pesava o menino! Com susto, se firmou nas suas velhas
pernas doridas. Desceu, arrimado ao seu bastão, o caminho escorregadio,
mergulhou na água os pés — e logo a corrente que mugia furiosamente em redor,
atirando a espuma até aos pés da criança. Arquejando, Cristóvão rompeu a água.
O vento imenso silvava, e atirava-lhe sobre os olhos, que a humidade embaciava,
os seus longos cabelos grisalhos. Ele disse: «Ah!, meu menino, meu menino!» A
cada passo sentia que o leito limoso do rio lhe fugia sob os pés. Todo ele
tremia, firmado no bordão. E a água, toda branca de espuma, empurrava-o
furiosamente, com um marulho medonho. Na densa escuridão nada distinguia, nem
sabia onde estava a outra margem. Grossas pedras de granizo de repente caíram,
e o menino, arrepiado, todo se aconchegava à sua face. Já a água temerosa lhe
chegava ao peito. Tropeçou numa rocha, e, quando se susteve, sentiu a água,
furiosa, gelada, correndo a roçar-lhe as barbas. Arrojou o bordão, e com as
mãos ambas ergueu o menino ao ar. Mas mal o podia sustentar, grandes vagas já
lhe batiam a face. Arquejando, parava para respirar fora da água, e bebia a
espuma turva e amarga. Grossas traves, que a corrente acarretava, batiam-lhe o
corpo. Os seus pés rasgavam-se em pedras agudas. E ele, num esforço enorme, os
braços esticados ao alto e todos a tremer, sustentando o menino, arrojava o
peito para a frente, com gemidos que eram mais fortes que o vento. Duas vezes
os seus joelhos fraquejaram, ia cair sob a força da torrente; duas vezes, com
um esforço sobre-humano, se manteve firme, erguendo ao alto o menino. A água já
lhe chegava pela barba, e a espuma das vagas humedecia-lhe os olhos. E, sempre
arquejando, rompia, com as mãos a tremer todas do peso imenso do menino. Mas os
seus pés encontraram uma rocha firme, a água desceu outra vez até ao peito. Na
rocha resvaladiça, porém, os seus passos mal se podiam sustentar. E era por um
esforço da alma, que se empinava, arquejando. Mas ia saindo do rio. A água já
lhe descera à cintura. E o fragor da torrente parecia abrandado e como remoto.
Grandes pedras emergiam da água. Já apenas tinha mergulhados os pés, que ele
sentia dilacerados. Um esforço mais, e estava na margem, salvo, apertando
contra o peito o menino.
Mas, naquele esforço supremo,
toda a sua vida se fora. Não podia mais. E já se sentava, exausto, numa rocha,
quando o menino lhe murmurou que não parasse, que marchasse ainda, o conduzisse
à casa de seu pai. E Cristóvão, arquejando, começou a trepar o íngreme caminho
da serra. Uma vaga claridade errava nos altos. E as rochas, os abetos, emergiam
da treva densa, que os afogara. Uma frialdade trespassava o ar — e Cristóvão
tiritava, com o seu pobre saião de estamenha encharcado, que ia pingando na
terra mole. E mais baixo murmurava: «Ah, meu menino! Meu menino!…»
Cada vez mais escarpado,
entre rochas, se empinava o caminho da serra. E Cristóvão todo curvado, com os
seus cabelos caídos sobre a face e pingando, arquejava a cada passo. Subiria
ele jamais até á morada do menino? E uma grande dor batia-lhe o coração, no
terror de cair sem força, e a criancinha ficar ali, naquele ermo rude, entre as
feras, sob a tormenta. A cada instante tinha de arrimar a mão a uma rocha,
desfalecido, de se prender à ramagem de um abeto. E a claridade crescia; já, no
alto dos montes, ele via palidamente alvejar a neve.
— Oh, meu menino, onde é a
casa de teu pai?
— Mais longe, Cristóvão, mais
longe…
E aquele bom gigante,
agasalhando os pés do menino na dobra da pele de cabra, que o vento
desmanchava, seguia com longos gemidos no caminho infindável, que mais se
apertava entre rochas, eriçadas de silvas enormes. Por fim, mal podia passar;
as pontas das rochas rasgavam-lhe os braços, os longos espinhos, atravessado,
levavam-lhe a pele rude da face. E seguia! Já das feridas lhe pingava o sangue,
e os olhos embaciados mal distinguiam o caminho, que parecia oscilar todo como
abalado num tremor de terra. Uma luz, no entanto, mais viva, cor-de-rosa, já
subia por trás das linhas dos cerros.
Mas Cristóvão parou, sem
poder mais. Com o menino agarrado nos braços, ficou encostado a uma pedra,
arquejando.
— Onde é a casa de teu pai?
— Mais longe, Cristóvão, mais
longe…
Então o bom gigante fez um
prodigioso esforço, e a cada passo, meio desfalecido, os olhos turvos, a cada
instante lançando a mão para se arrimar, tropeçando, com grossas gotas de suor
que se misturavam a grossas gotas de sangue, rompeu a caminhar, sempre para
cima, sempre para cima. Os seus pés iam ao acaso, no desfalecimento que o
tomava. Uma grande frialdade invadia todos os seus membros. Já se sentia tão
fraco como a criança que levava aos ombros. E parou, sem poder, no topo do
monte. Era o fim: um grande Sol nascia, banhava toda a Terra em luz. Cristóvão
pousou o menino no chão, e caiu ao lado, estendendo as mãos. Ia morrer. Mas
sentiu as suas grossas mãos presas nas do menino — e a terra faltou-lhe debaixo
dos pés. Então entreabriu os olhos, e no esplendor incomparável reconheceu
Jesus, Nosso Senhor, pequenino como quando nasceu no curral, que docemente,
através da manhã clara, o ia levando para o Céu.
*
Sobre S. Cristóvão
Ver,
aqui, (C. M. Lisboa, equipamento; nota sobre a estátua de S. Cristóvão, com foto);
aqui, (Rotunda do Relógio, em 1972, com a devida vénia a Panoramio e ao autor da foto);
abaixo, a rotunda do relógio e a estátua de São Cristóvão, em 14-08-2015;

abaixo, a rotunda do relógio e a estátua de São Cristóvão, em 14-08-2015;
aqui, (Legenda Aurea, latim);



