quarta-feira, 12 de abril de 2017

Maria Helena da Rocha Pereira, na sua morte

11 de Abril de 2017  


Hoje, o Público traz dois artigos sobre Maria Helena da Rocha Pereira (3 -9-1925 – 10-04-2017). É edição para guardar.
De cada um dos artigos recolho uma ideia, uma informação. Do primeiro, fica aqui «Eu vivo com os antigos», o que se compreende muito bem, tal é o fascínio que sempre exerceram até os nossos dias em quem tem tido o privilégio de os frequentar. É um mundo exemplar, iluminando tanta situação com que a humanidade se vai confrontando. Os antigos são, no fundo, nossos contemporâneos. Do segundo, retive a proeza da menina, que aos treze anos leu a Oresteia, de Ésquilo, leitura que foi «um dos factores que a levaram a escolher o curso de Clássicas».

O resto é consigo. Acrescento no final alguns endereços electrónicos para saber mais sobre esta grande portuguesa e ainda Frederico Lourenço, pois há muito em comum entre eles e dela fala com admiração.

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Morreu a mulher que aprendeu com os gregos que as coisas belas são difíceis
10 de Abril de 2017, 9:10 actualizado a 10 de Abril às 20:55
Maria Helena da Rocha Pereira (1925-2017) foi durante décadas o rosto dos Estudos Clássicos em Portugal. Deixa uma obra vastíssima e um exemplo de determinação e rigor. As suas traduções das grandes tragédias gregas são uma referência, assim como os trabalhos que fez à volta da literatura portuguesa
Os seus olhos azuis, tão claros e incisivos quanto as suas ideias, garantem colegas e amigos, denunciavam com facilidade grande entusiasmo quando falava dos gregos e dos latinos, quer fosse na literatura, quer fosse na ciência ou na história de arte. “Eu vivo com os antigos”, dizia, os antigos que estudou durante décadas e que, aparentemente, nunca deixaram de lhe despertar a curiosidade.
Maria Helena da Rocha Pereira, a mais importante especialista portuguesa em Estudos Clássicos, morreu esta segunda-feira no Porto, aos 91 anos, avançou ao PÚBLICO fonte próxima da família. A cidade onde nasceu é também a cidade onde será sepultada, depois das cerimónias fúnebres que se realizam a partir das 15h de terça na Igreja da Lapa.
“Vou ensinar aquilo que sei, [digo aos meus alunos]. Em muitos casos vamos ficar na dúvida. A dúvida é científica. Às vezes mais científica que a verdade”, afirmava numa entrevista ao Diário de Notícias, em 2003, sublinhando o gosto pelo ensino, actividade que encarou como uma verdadeira missão, fazendo da vida académica o seu “sacerdócio”. Em 1956 tornou-se a primeira mulher doutorada pela Universidade de Coimbra (UC), instituição onde deu aulas até se jubilar, em 1995, e que em 1964 faria dela a sua primeira catedrática.

Com mais de 300 obras no currículo, entre livros e artigos publicados em Portugal e no estrangeiro, Rocha Pereira foi responsável pela divulgação da cultura clássica a várias gerações que foram lendo os seus dois volumes dos Estudos de História da Cultura Clássica (o primeiro dedicado à cultura grega, o segundo à romana), de 1965, as suas compilações de textos gregos e latinos (Hélade e Romana), e as traduções que fez das grandes tragédias de Sófocles (Antígona, Ajáx) e Eurípides (Medeia, Troianas, As Bacantes).
“Aprendi as línguas como acesso às respectivas literaturas: era para ler os grandes autores no original. Não há nada que substitua o original”, dizia esta mulher que tanto se dedicou à tradução, embora não gostasse de o fazer. E é porque tanto traduziu que hoje os alunos de Estudos Clássicos espalhados pelo país têm “ferramentas de trabalho incríveis”, assegura Fátima Silva, uma discípula que é hoje professora na UC e que faz questão de sublinhar a sua "competência extrema" e o “rigor absoluto” que colocava em tudo o que fazia. “Mesmo depois de se jubilar continuou a acompanhar teses e a ler, a estudar. Estava sempre na linha da frente, actualizada, porque nunca perdeu o desejo de saber mais, nunca perdeu a curiosidade”, diz ao PÚBLICO.
Oxford, uma aventura
Nascida no Porto, em 1925, numa família com dinheiro e que vivia num palacete no meio de um jardim, Maria Helena da Rocha Pereira deu provas da sua inclinação para o ensino desde muito cedo. Tendo aprendido a ler aos quatro anos, aos seis já ensinava as empregadas da casa a fazê-lo. O pai, um médico e professor que conseguia ser muito austero mas também lhe dizia versos da Eneida de cor, e a mãe, que se encarregava da educação de Rocha Pereira e da sua irmã mais velha que haveria de se formar em Matemática, fizeram questão que as filhas completassem o liceu e, mais tarde, o curso universitário, algo que na época provocou escândalo. “As meninas de bem iam para o colégio” não para o liceu, lembrava na mesma entrevista de 2003, e, naquela altura, uma mulher aspirar a uma carreira académica era algo “impensável”. Mas foi precisamente isso que fez, até ao topo, com uma determinação imensa.
Quando chegou à Universidade de Coimbra foi-lhe fácil acabar o curso de Filologia Clássica com 17 valores, difícil foi convencer o conservador meio académico de que não queria ficar por ali. Só um professor, o de Grego, em toda a UC a encorajou a continuar e foi ele que a aconselhou a ir para a Universidade de Oxford, que tinha na época um dos melhores centros de estudos clássicos.
“É incrível pensarmos que ela, uma menina do Porto, parte sozinha naquela altura para estudar em Oxford, quando quem saía, raríssimos, o fazia para Paris... Uma mulher no Portugal do Estado Novo, fechado a tudo, numa área dominada por homens. Foi precisa uma enorme coragem, determinação, vontade de aprender, coisas que a Maria Helena da Rocha Pereira teve toda a vida”, diz Frederico Lourenço, tradutor e professor de Grego na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
A sua ligação aos estudos clássicos que se faziam no Reino Unido e também na Alemanha – “ela falava muito bem alemão e isso ajudou muitíssimo porque lhe deu acesso a fontes que muitos não liam por não estarem traduzidas” – permitiu abrir Portugal nesta área, defende o também escritor de 54 anos, Prémio Pessoa 2016.
Rocha Pereira chegou pela primeira vez a Oxford em 1950, aos 25 anos, quando Londres estava ainda sob racionamento e na universidades havia uma série de professores fugidos ao nazismo. Foi lá que fez parte da investigação que levaria ao seu doutoramento, cuja tese defendeu em 1956 (Concepções Helénicas de Felicidade no Além, de Homero a Platão).
Bastaram-lhe quatro anos e meio para concluir um doutoramento que poderia ter feito em seis, gostava de recordar. Quando terminou a tese não havia júri para a avaliar e, como era impensável convidar um professor estrangeiro para arguir, Rocha Pereira teve de esperar um ano e meio para a poder defender. “O meu doutoramento foi o primeiro de uma senhora numa universidade que tinha 666 anos, na altura. Eu queria atingir essa meta, indispensável para poder continuar e para ensinar. Gosto muito de ensinar.”
Foi também em Inglaterra que fez uma das especializações de que mais se orgulhava, em vasos gregos, com aquele que continua a ser dos maiores estudiosos na área, John Davidson Beazley (1885-1970), professor de arqueologia e arte clássicas (a ele se deve a categorização dos vasos gregos segundo o seu estilo). Dela resultou aquela que é para Fátima Silva, 66 anos, professora catedrática do Instituto de Estudos Clássicos de Coimbra, uma das suas obras mais importantes, Greek Vases in Portugal (1962).
"O que interessa é o mestre vivo"
Terminado o doutoramento, Rocha Pereira continuou a leccionar e a estudar, publicando sempre o que escrevia. Em 1964 chegaria a etapa seguinte, o concurso para professora catedrática em que seria aprovada por unanimidade. O dia em que, pelo braço do pai, subiu a escadaria da universidade para prestar provas está entre os momentos de grande felicidade do seu percurso. Talvez o equiparasse, de certa forma, a uma condução ao altar em dia de casamento, algo muito comum para as mulheres da sua geração, mas que nunca aconteceu na vida de Maria Helena da Rocha Pereira. Casar e ser mãe era algo que só concebia num regime de absoluta dedicação, algo que não era, por isso, compatível com a docência. E, na hora de escolher, escolheu ensinar, explicava aos que lhe perguntavam por que abdicara de constituir família.
Rocha Pereira fez do ensino a sua missão, dedicando-se de forma invulgar à vida universitária, continua Fátima Silva. De uma “objectividade rara”, espalhou discípulos por várias universidades do país porque, garante esta sua antiga aluna, entendia ser dever de um professor deixar uma escola. “Um professor que não crie discípulos não é completo […]. O que interessa é o mestre vivo”, defendia.
Delfim Leão, director da Imprensa da Universidade de Coimbra, é um desses discípulos. Foi aluno e assistente de Rocha Pereira, que também orientou a sua tese de doutoramento. É este professor de História da Cultura Clássica, uma das cadeiras que a investigadora leccionou durante décadas, que está à frente do programa editorial que está a disponibilizar, em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian, dez volumes que reúnem textos que Rocha Pereira escreveu e traduziu ao longo da sua carreira (em Maio saem mais dois, um com traduções de poetas gregos com destaque para os grandes trágicos como Sófocles e Eurípides, o outro inteiramente dedicado à Arte Antiga).
Aos 47 anos, este coordenador do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da UC explica por que razão se pode dizer sem medo de errar que Rocha Pereira “refundou os estudos clássicos em Portugal”, dando-lhes uma dimensão internacional inédita até então: “A sua formação em Oxford junto de grandes nomes dos estudos clássicos, o que escreve sobre os vasos gregos e os inúmeros artigos que publica no estrangeiro reflectem a abertura que ela impôs nesta área.”
Frederico Lourenço concorda, chamando a atenção, num breve texto de cinco parágrafos que publicou no Facebook, para a edição crítica da obra completa do geógrafo Pausânias que fez para a editora alemã Teubner, “uma subida ao topo do Olimpo académico que, até hoje, nenhum português conseguiu emular”, escreve o tradutor.
Lourenço nunca a teve como professora porque estudou em Lisboa, mas leu muito do que ela escreveu e contou com Rocha Pereira no júri do seu doutoramento. “Havia um certo terror quando se sabia que a professora fazia parte do júri, simplesmente porque ela era de uma exigência extraordinária, em primeiro lugar consigo mesma, e depois com os outros.”
Para este professor, tradutor de clássicos como Odisseia e Ilíada, Rocha Pereira é um exemplo de dedicação à cultura e ao ensino. Entre as muitas obras fundamentais que deixou, salienta a tradução que fez de A República, de Platão. “A professora Rocha Pereira dá-nos uma panorâmica extraordinária da cultura grega com os textos de Sófocles, Eurípedes, mas a mais fantástica das suas traduções é, na minha opinião, A República. É uma tradução que vai ficar para sempre porque é de uma imensa qualidade. E estamos a falar de um texto que é dificílimo de traduzir porque obriga a conhecimentos de grego muito exigentes e a um enquadramento filosófico muito sério.”
“Sempre me surpreendeu que uma pessoa desta envergadura nunca tivesse recebido o prémio Camões ou o prémio Pessoa”, diz o editor portuense da Modo de Ler, José da Cruz Santos, responsável pelas mais recentes edições (na Asa e na Guimarães) das duas grandes antologias de Maria Helena Rocha Pereira – a Hélade e a Romana –, e ainda de Portugal e a Herança Clássica (2004), que considera “um livro importantíssimo”, e que mostra bem que as leituras da professora de Coimbra estavam longe de se restringir à sua área de especialidade académica. “Tem nesse livro dois capítulos muito interessantes sobre Camilo, e também deixou um trabalho sobre Guerra Junqueiro, escreveu um texto fantástico sobre Eugénio de Andrade, e interessava-se pelo Aquilino, o Torga, o Manuel Alegre”.
Lamentando que o Porto “não tenha feito por ela o que deveria ter feito”, mas contente por ter sabido que a autarquia estará a ponderar homenageá-la na feira do livro do próximo ano, Cruz Santos observa que “não é por acaso que a Hélade e a Romana são obras que nunca foram ultrapassadas, ninguém se arriscou a aparecer com novas edições que pudessem fazer frente às dela”. E conta que, nas últimas reedições revistas da antologia da poesia latina, Maria Helena Rocha Pereira foi dispensando algumas traduções antigas feitas por outros autores que ainda aproveitara nas primeiras versões, substituindo-as por traduções da sua própria lavra. Com uma só excepção. “Manteve sempre as traduções de Ovídio feitas pelo Bocage, porque dizia que era impossível fazer-se melhor.”
Rocha Pereira, mostra-o bem o seu percurso académico, não recuava perante nenhuma dificuldade. Foi com ela, aliás, que Delfim Leão diz ter aprendido a nunca desistir. O que mais o impressionou sempre foi a forma como conciliava uma “grandeza intelectual inalcançável” com uma “generosidade incrível” para com os seus alunos: “Ela não partilhava apenas os seus conhecimentos, aquela maneira que tinha de contar histórias sobre a Grécia Antiga, partilhava também a sua biblioteca pessoal, durante muito tempo bem melhor do que a da faculdade no que à História da Cultura Clássica dizia respeito. Estava sempre aberta para nós.”
Como o PÚBLICO destacava em 2006, quando lhe foi atribuído o prémio Universidade de Coimbra, um dos muitos que ganhou, a autora estudou as influências clássicas na literatura e cultura portuguesas, analisando inúmeros autores — de Camões a Pessoa, passando por Camilo e Torga, entre muitos outros. Trabalho recolhido nos volumes Temas Clássicos na Poesia Portuguesa (1972), Novos Ensaios sobre Temas Clássicos na Poesia Portuguesa (1982) e Portugal e a Herança Clássica e Outros Textos (2003). O latim medieval também foi alvo da sua investigação, reunida no volume Pedro Hispano: Obras Médicas (1973), Vida e Milagres de São Rosendo (1970), Vida de Santa Senhorinha (1970) e Vida de São Teotónio (1987).
O que fizeram os gregos e os romanos ajuda a explicar o que somos hoje, defendia, e é por isso que a contemporaneidade lhe interessava. “Eu vivo com os antigos”, dizia numa entrevista a Alexandra Lucas Coelho nas páginas do PÚBLICO, em Setembro de 2001, para acrescentar em seguida que os homens não tinham mudado assim tanto desde os poemas homéricos que são, “talvez”, do século VIII a.C.: “Em relação aos antigos, a diferença espiritual, intelectual não é tão grande como parece: o homem é sempre o mesmo. Infelizmente, não perde os defeitos que tinha, por vezes não conserva as virtudes.” E continuava: “Há Antígonas por toda a parte, na América, em países africanos… As grandes tragédias gregas vão à essência do homem, do que o homem pode viver. E continuam entre nós, em metamorfoses do original.”
Não sabemos o que Maria Helena da Rocha Pereira gostaria que sobre ela se dissesse depois da sua morte porque, como afirmou numa entrevista, nunca pensou escrever o seu epitáfio e não sabia conceber o infinito. Citava os gregos para dizer que a vida lhe ensinara, isso sim, que as coisas belas são difíceis. O que não é pouco.
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Clássica, mas muito moderna
Maria Helena da Rocha Pereira (1925- 2017) é um caso exemplar de uma paixão pela Grécia clássica que se traduziu num trabalho de enorme alcance, no domínio da tradução, da edição e dos estudos da cultura e da literatura.

António Guerreiro
10 de Abril de 2017

Maria Helena da Rocha Pereira (1925- 2017) foi, durante décadas, o rosto dos estudos clássicos — sobretudo da cultura e da literatura gregas — em Portugal. Aos méritos do seu trabalho, enquanto professora, tradutora, estudiosa e divulgadora, somou-se o papel pioneiro e fundador que desempenhou: contribuiu muito, com o seu trabalho filológico e de tradutora, para introduzir na universidade uma visão muito mais alargada do estudo da cultura clássica, rompendo com aquela estrita visão que fazia dos textos dos autores gregos e latinos meros campos de exercício para satisfazer esta exigência: “Conjuga e declina, saberás a língua latina.” As competências de âmbito linguístico e gramatical foram sempre, para ela, um instrumento para aceder à riqueza cultural e literária dos textos da Antiguidade. Por razões que já não são de ordem científica, coube-lhe também o papel pioneiro de ter entrado, isolada, num mundo estritamente masculino.
Segundo o seu testemunho, foi a leitura de uma tragédia grega, a Oresteia, de Ésquilo, quando tinha 13 anos, um dos factores que a levaram a escolher o curso de Clássicas. Mas quando entrou para a Universidade de Coimbra não tinha aprendido Grego no Liceu, apenas Latim. Por isso, no fim do curso, não conseguia ainda ler os textos gregos mais complicados. Três anos depois de ter acabado a licenciatura, e apenas com quatro anos de Grego, foi estudar para Oxford. Aí, na Faculdade de Litterae Humaniores (era assim que se chamava), teve como director de estudos o professor Dodds, autor de um famoso livro, Os Gregos e o Irracional, e, para além de aperfeiçoar bastante a sua competência na língua grega, iniciou-se em Crítica Textual, Paleografia Grega e Epigrafia.
E estudou os vasos gregos (um domínio da arte em que se tornou uma reputada especialista; e chegou a ensinar História da Arte Grega) com a maior autoridade da época: John Bazley. Esta estadia em Oxford e também alguns conhecimentos da língua alemã permitiram-lhe uma abertura, importante em todo o seu trabalho, às tradições filológicas dos dois países mais importantes na filologia clássica: a Inglaterra e a Alemanha. Foi, aliás, da Alemanha, da Academia das Ciências de Berlim, que lhe chegou o convite para fazer uma edição crítica de Pausânias, para a prestigiada Biblioteca Teubneriana. E considerava que esse tinha sido o seu trabalho mais importante (ainda neste domínio da edição crítica, recordemos que também editou os textos em latim de Pedro Hispano). A sua tese de doutoramento intitulou-se “Concepções Helénicas de Felicidade no Além, de Homero a Platão”. Se procurarmos a linhagem em que se inscreve, Maria Helena da Rocha Pereira está muito mais próxima da lição de um Wilamowitz (o importante filólogo alemão que morreu em 1931) do que de quaisquer mestres nacionais.
 Para além dos muros da universidade, o nome de Maria Helena da Rocha Pereira irradiou sobretudo enquanto tradutora. Não admira: a tradução das grandes obras clássicas era mais do que deficiente e, na maior parte dos casos, nem era feita do original. Confessou, algumas vezes, que nem gostava de traduzir, mas fê-lo por necessidade, para tornar acessíveis, na universidade, os textos fundamentais da cultura grega. Essas traduções começaram por ser distribuídas em folhas e destinavam-se sobretudo aos alunos de História da Cultura Clássica. Foi assim que nasceu, em 1959, a primeira edição da sua famosa antologia, Hélade. Depois traduziu obras tão importantes como A República, de Platão, a Medeia, de Eurípedes, a Antígona, de Sófocles. A tradução destas duas tragédias nasceu da sua colaboração para o Teatro Universitário de Coimbra, foi a resposta a um pedido de Paulo Quintela — o que ajuda a perceber a vasta dimensão literária e cultural que presidia a todo o seu trabalho.
Se foi também uma divulgadora da cultura grega (e alguém que se serviu da sua autoridade para reivindicar o reforço do ensino das línguas e culturas clássicas), não foi por ter acedido a entrar em simplificações, nem para se encerrar no passado, mas porque via o mundo em que viveu, o mundo contemporâneo, através da mediação da cultura grega e latina. Sempre teve a preocupação de mostrar que essa cultura não era uma relíquia de museu ou objecto de uma historiografia mortuária. Por isso, escreveu ensaios importantes sobre a presença da cultura grega nalguns autores contemporâneos — por exemplo, Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugénio de Andrade e Miguel Torga. São estudos em que é bem visível que Maria Helena da Rocha Pereira era uma leitora atenta da literatura (e sobretudo da poesia) portuguesa. A sua visão da Grécia era muito de tipo apolíneo, razão pela qual achava que a categoria do dionisíaco, desenvolvida por Nietzsche em A Origem da Tragédia, era “um erro”, que não tinha em conta toda a complexidade da religião dionisíaca. Ainda assim, dizia: “um erro genial”.
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https://www.publico.pt/2014/08/17/culturaipsilon/noticia/o-leitor-do-mundo-1666207

(Anabela Mota Ribeiro, texto, e Miguel Manso, fotografia, 17-08-2014)

terça-feira, 4 de abril de 2017

A ignorância atrevida

[Pela importância que lhe atribuo, divulga-se aqui artigo de José Pacheco Pereira, no suplemento Ípsilon, do Público on-line, (divulgado também no Facebook - Tradutores contra o Acordo Ortográfico), em defesa da língua portuguesa e de tudo o que faz de cada um de nós mais pessoa, contra a ignorância atrevida. O valor dado às humanidades e aos estudos clássicos é hoje quase nulo. Elogio da inutilidade.]

OPINIÃO
O nó górdio
O prémio a Frederico Lourenço não nos deve iludir. O mundo sobre o qual ele estuda, escreve e traduz é cada vez menos presente no espaço público do saber, onde cada vez menos se sabe sobre o mundo clássico.

3 de Abril de 2017, 6:30


Dedicado à memória de José Medeiros Ferreira,
que uma vez, numa entrevista, falou do “nó górdio”
a uma jornalista, que lhe disse que não sabia o que aquilo era
e recebeu como resposta: “Se não sabe, devia saber”.

Um Prémio Pessoa mais que merecido foi atribuído a Frederico Lourenço, pela sua obra de especialista e tradutor de literatura clássica, em particular literatura grega. A sua recente tradução da Bíblia a partir do texto grego tem sido saudada como um acontecimento cultural de relevo, mas Frederico Lourenço já tinha traduzido muitos outros textos clássicos, com relevo para Homero. É apenas pena, mas as coisas são como são, que muitos Prémios Pessoa sejam para o homem que foi falado nos seis meses anteriores ao prémio, mas isso é infelizmente um costume cada vez mais comum, resultado da mediatização de toda a vida pública. Num dos sítios em que esta mediatização mais estragos faz é na cultura, mas isso não invalida o mérito do prémio a Lourenço.
O prémio a Frederico Lourenço, no entanto, não nos deve iludir. O mundo sobre o qual ele estuda, escreve e traduz é cada vez menos presente no espaço público do saber, onde cada vez menos se sabe sobre o mundo clássico, e, embora nunca se soubesse muito comparado com os países da Reforma, também cada vez menos se sabe sobre a Bíblia. Não nos devemos iludir quanto ao valor que a escola, a universidade, a sociedade, a comunicação – já para não falar das chamadas “redes sociais” – e a política hoje dão às humanidades e aos estudos clássicos. Esse valor é quase nulo. Pelo contrário, é entendido como um conhecimento inútil, que justifica o corte de financiamentos, a colocação no último lugar da fila, quando não da extinção curricular, das disciplinas do Latim e do Grego, que conseguem ficar atrás da Filosofia. E não é só este cerco às humanidades clássicas — em bom rigor a todas as humanidades — é a sua desvalorização pública implícita em muito documento, declaração política, e em acto.
O mais flagrante exemplo é a defesa de um Acordo Ortográfico que se pretende impor manu militari, e que corta as raízes ortográficas do português no latim. Já para não falar das invectivas contra o conhecimento daquele “comissário” jovem que melhor do que ninguém explica a atitude do extinto Governo PSD-CDS para com estas matérias. E quem escreve ist, considera que se é tanto ignorante se não se souber o que é o princípio de Arquimedes, ou a segunda lei da termodinâmica, como desconhecer quem era Polifemo ou Salomão, ou Judite ou o Bom Samaritano.
A menorização das humanidades, e a ainda maior desvalorização dos estudos clássicos, vem junto com a redução da memória colectiva. A perda de raízes é uma constante nas sociedades contemporâneas, não só em Portugal, mas em Portugal com a gravidade maior de que a nova ignorância se soma à antiga. E em que há pouca consciência dos estragos que essa nova ignorância nos faz, fazendo-nos andar para trás.
O problema actual da ignorância é que a ignorância nunca teve tão boa imprensa, tão bons defensores, tão arrogantes cavaleiros contra o saber, como nos dias de hoje. Um destes frutos da nova ignorância é Presidente dos EUA, e acha que tudo o que é preciso saber para se ter sucesso é conduzir o país ao modelo dos seus negócios predadores, e das ideias racistas e xenófobas que nascem nos lugares mais infectos das redes sociais. E estando ele onde está, escolhe os seus colaboradores ao mesmo modelo, que escolherão os altos funcionários pela mesma bitola – na verdade "comissários" destinados a zelar pelo #MAGA – e por aí adiante, embrutecendo a sociedade de cima para baixo, dando toda a razão ao ditado popular de que o “peixe apodrece pela cabeça”. A dissolução de todos os padrões que implicavam que era preciso saber alguma coisa de ambiente, de comércio internacional, de política externa, de educação para se exercerem funções nessas áreas explicam por que razão a “desconfiança do conhecimento” (“distrust for expertise”) e a dissolução da verdade (“fake news”) são hoje os critérios de funcionamento da administração Trump. E enganam-se todos os que não percebem que estas atitudes são modernas, moderníssimas, tanto como o último telefone inteligente, para usar uma comparação apropriada.
E não é só nos EUA, também cá temos cada vez mais activos zeladores da ignorância que querem colocar uma bola onde costumava, quando os animais falavam, estar uma cabeça humana. As ideias circulantes de que se substituem “literacias”, como agora se diz, que “já nada dizem” aos jovens de hoje (e aos adultos diga-se de passagem), por outras “literacias” que as substituem e são “mais apelativas” porque se podem digitar num telefone, ou numa mensagem de 140 caracteres, ou “postar” como fotografias de comida, ou a loquacidade vazia e deprimente do WhatsApp, destinadas a substituir a sociabilidade presencial pela sociabilidade virtual, são instrumentais para justificar a ignorância e varrer dos currículos tudo aquilo que parece inútil, substituindo o conhecimento pela tagarelice e pelo generalizado défice de atenção.
Não. Os conhecimentos não se substituem uns aos outros, complementam-se. E o que falta, faz sempre falta. Várias vezes me interrogo como é possível atirar alunos do secundário para ler Os Maias, ou seja que obra for de Eça, ou Camilo, ou Camões, ou Gil Vicente, ou Nemésio, ou Jorge de Sena, ou seja lá que obra literária que é suposto ler-se no secundário e nos anos de escolaridade obrigatória, sem saber nada de mitologia grega ou da Bíblia, já para não falar do rico vocabulário do português que não cabe numa mensagem do Twitter. Não sei, aliás, por que se pensa nos nossos dias que “não cabe” na cabeça das pessoas muita coisa. É irónico que a modernidade nos forneça discos rígidos com terabites de espaço, e pareça encolher-nos as cabeças.
Voltando a Frederico Lourenço, podemos de facto viver confortavelmente, em particular se herdarmos alguma coisa, e ter sucesso, sem saber nada da Odisseia, ou da Antologia Grega, saber quem era Argos ou Tifão, desconhecer tudo de Esparta e Atenas, de Sófocles e Tucídides ou nunca ter lido uma “vida” de Plutarco (por falar nisso, uma leitura obrigatória durante mais de um milénio para todos os que quisessem ter uma vida pública…) ou dos relatos em que um profeta apocalíptico chamado Jesus anunciava o fim do mundo e o caminho da “salvação”. Podemos. Mas somos mais pobres por isso.
Antigamente isto chamava-se “experiência indirecta”, não substituía a directa, mas ajudava muito. E, numa curva da vida, em vez de ir a correr a um praticante de qualquer terapia arcana, ou à bruxa – o que, para a nova ignorância, não é tão diferente como isso – sempre se podia saber que outros homens e mulheres, que vivem no mundo dos “antigos”, conhecem alguma coisa sobre a doença ou a morte, sobre a felicidade e a curiosidade, sobre a esperança e o destino inelutável, sobre a heroicidade e a cobardia, sobre a traição e a lealdade, sobre a honra e a vergonha, sobre a intriga, a moda e o sexo. As suas palavras tinham toda a força, porque eram muitas vezes as primeiras que eram escritas sobre as mais humanas das atitudes, e estão no terreno que pisamos, mesmo que não o saibamos. Mas vale muito mais saber.
P.S.: E nem sequer custa dinheiro. Na colecção Classica Digitalia estão, por exemplo, as duas últimas obras, traduções de Carlos de Jesus, de partes da Antologia Grega. Uma é a tradução da Musa dos Rapazes, que é aquilo que o próprio nome indica, uma antologia de poemas sobre a homossexualidade, e o Apêndice de Planudes, uma antologia de epigramas que exerceu enorme influência, durante séculos, em quem se iniciava no grego. Querem um exemplo do que lá está, escolhido a dedo para não ferir as susceptibilidades dos sisudos leitores do PÚBLICO, com algumas considerações poético-anatómicas, digamos assim, muito vivas? De Meleagro,
Não mais escreverei sobre o belo Téron, ou Apolodoro,
antes fogo incandescente, agora cinza apagada.
Prefiro o amor de mulheres; refregar-se com garanhões
hirsutos é para pastores que montam as suas cabras.


sexta-feira, 17 de março de 2017

O bem acabar

Sólon! Sólon! Sólon!
«O homem rico está mais em posição de contentar os seus desejos e de suportar grandes perdas; mas, se o outro não pode sustentar grandes perdas nem satisfazer os seus desejos, a sua boa sorte põe-no a coberto de ambos, e nisso leva a melhor sobre o rico. De resto, tem o uso de todos os seus membros, goza de boa saúde, não sofre nenhuma desgraça, é belo e feliz nos filhos. Se a todas estas vantagens ajuntardes a de uma bela morte, é este o homem que procurais, é ele que merece ser chamado feliz. Mas, antes da sua morte, suspendei o vosso juízo, não lhe deis este nome; dizei apenas que é afortunado. É impossível que um homem reúna todas estas vantagens, como não há terra que se baste e que tenha em si todos os bens: porque, se uma terra tem alguns, é privada de outros; a melhor é a que mais possui. É o mesmo com o homem: não há um que se baste a si mesmo: se tem algumas vantagens, faltam-lhe outras. Aquele que reúne um maior número delas, que as conserva até ao fim dos seus dias, e sai em seguida tranquilamente desta vida; esse, senhor, merece, em minha opinião, ser chamado feliz. É preciso ter em consideração o fim de todas as coisas, e ver como será o resultado; pois acontece que Deus, após ter feito entrever a felicidade a alguns homens, frequentemente a destrói de maneira radical.» [Daqui. Histórias, I, 32.]
[«Deus». No original grego, «o deus» (ὁ θεὸς), no quadro de politeísmo, presidido por Zeus. Aqui, o deus é Apolo, consultado no famoso oráculo de Delfos.]

Em a terra e a gente se publica um texto sobre «o bem acabar» de Sólon, como nos foi transmitido por Heródoto, de cujas Histórias aqui ficam algumas páginas. Ver, no final, a tradução de Histórias, I, LXXXVI e LXXXVII.
***
http://agora.qc.ca/thematiques/mort/documents/solon_devant_cresus_la_belle_mort
remacle.org/bloodwolf/historiens/herodote/clio.htm
www.sacred-texts.com/cla/hh/hh1000.htm

Solon devant Crésus : la belle mort

Hérodote

Né dans la région de Halicarnasse (aujourd'hui Bodrum, Turquie), habitée par les Grecs et dominée par les Perses, vers 484 avant notre ère et décédé à Thourioi (Thurium sur le Golfe de Tarente) vers 425, Hérodote est considéré depuis Cicéron comme le «Père de l'histoire». Le mot grec historia signifie «recherche, exploration» et est traduit en français par «histoire (s)» ou «enquête». L'Histoire ou L'Enquête d'Hérodote est la seule oeuvre de cet auteur, un grand récit non pas épique, mais historique, resté inachevé, qu'il entrepris après plusieurs voyages et un long séjour à Athènes. L'histoire qui suit est le récit du sage Solon, reçu à la cour de Crésus et témoin des richesses de ce dernier. À Crésus qui lui demande «quel est l'homme le plus heureux que vous ayez connu?», il lui répond: l'homme qui connaît une «belle mort» est l'homme que vous cherchez. Les biens sur cette terre sont aussi éphémères que la vie elle-même. Le critère ultime d'une vie heureuse, c'est la qualité de la mort qu'elle soit glorieuse au combat ou sereine après une longue vie.
XXX. Solon étant donc sorti d'Athènes par ce motif, et pour s'instruire des coutumes des peuples étrangers, alla d'abord en Égypte, à la cour d'Amasis, et de là à Sardes, à celle de Crésus, qui le reçut avec distinction et le logea dans son palais. Trois ou quatre jours après son arrivée, il fut conduit par ordre du prince dans les trésors, dont on lui montra toutes les richesses. Quand Solon les eut vues et suffisamment considérées, le roi lui parla en ces termes : « Le bruit de votre sagesse et de vos voyages est venu jusqu'à nous, et je n'ignore point qu'en parcourant tant de pays vous n'avez eu d'autre but que de vous instruire de leurs lois et de leurs usages, et de perfectionner vos connaissances. Je désire savoir quel est l'homme le plus heureux que vous ayez vu.» Il lui faisait cette question, parce qu'il se croyait lui-même le plus heureux de tous les hommes. «C'est Tellus d'Athènes» lui dit Solon sans le flatter, et sans lui déguiser la vérité. Crésus, étonné de cette réponse : «Sur quoi donc, lui demanda-t-il avec vivacité, estimez-vous Tellus si heureux ? - Parce qu'il a vécu dans une ville florissante, reprit Solon, qu'il a eu des enfants beaux et vertueux, que chacun d'eux lui a donné des petits-fils qui tous lui ont survécu, et qu'enfin, après avoir joui d'une fortune considérable relativement à celles de notre pays, il a terminé ses jours d'une manière éclatante : car, dans un combat des Athéniens contre leurs voisins à Éleusis, il secourut les premiers, mit en fuite les ennemis, et mourut glorieusement. Les Athéniens lui érigèrent un monument aux frais du public dans l'endroit même où il était tombé mort, et lui rendirent de grands honneurs.»

XXXI. Tout ce que Solon venait de dire sur la félicité de Tellus excita Crésus à lui demander quel était celui qu'il estimait après cet Athénien le plus heureux des hommes, ne doutant point que la seconde place ne lui appartînt. « Cléobis et Biton, répondit Solon : ils étaient Argiens, et jouissaient d'un bien honnête ; ils étaient outre cela si forts, qu'ils avaient tous deux également remporté des prix aux jeux publics. On raconte d'eux aussi le trait suivant. Les Argiens célébraient une fête en l'honneur de Junon. Il fallait absolument que leur mère se rendît au temple sur un char traîné par un couple de boeufs. Comme le temps de la cérémonie pressait, et qu'il ne permettait pas à ces jeunes gens d'aller chercher leurs boeufs, qui n'étaient point encore revenus des champs, ils se mirent eux-mêmes sous le joug ; et tirant le char sur lequel leur mère était montée, ils le conduisirent ainsi quarante-cinq stades jusqu'au temple de la déesse. Après cette action, dont tonte l'assemblée fut témoin, ils terminèrent leurs jours de la manière la plus heureuse, et la divinité fit voir par cet événement qu'il est plus avantageux à l'homme de mourir que de vivre. Les Argiens assemblés autour de ces deux jeunes gens louaient leur bon naturel, et les Argiennes félicitaient la prêtresse d'avoir de tels enfants. Celle-ci, comblée de joie et de l'action et des louanges qu'on lui donnait, debout aux pieds de la statue, pria la déesse d'accorder à ses deux fils Cléobis et Biton le plus grand bonheur que pût obtenir un mortel. Cette prière finie, après le sacrifice et le festin ordinaire dans ces sortes de fêtes, les deux jeunes gens, s'étant endormis dans le temple même, ne se réveillèrent plus, et terminèrent ainsi leur vie. Les Argiens, les regardant comme deux personnages distingués, firent faire leur statue, et les envoyèrent au temple de Delphes (17). »

XXXII. Solon accordait par ce discours le second rang à Cléobis et Biton. « Athénien, répliqua Crésus en colère, faites-vous donc si peu de cas de ma félicité que vous me jugiez indigne d'être comparé avec des hommes privés ? - Seigneur, reprit Solon, vous me demandez ce que je pense de la vie humaine : ai-je donc pu vous répondre autrement, moi qui sais que la Divinité est jalouse du bonheur des humains, et qu'elle se plaît à le troubler ? car dans une longue carrière on voit et l'on souffre bien des choses fâcheuses. Je donne à un homme soixante-dix ans pour le plus long terme de sa vie. Ces soixante-dix ans font vingt-cinq mille deux cents jours, en omettant les mois intercalaires ; mais, si chaque sixième année on ajoute un mois, afin que les saisons se retrouvent précisément au temps où elles doivent arriver, dans les soixante-dix ans vous aurez douze mois intercalaires, moins la troisième partie d'un mois, qui feront trois cent cinquante jours, lesquels, ajoutés à vingt-cinq mille deux cents, donneront vingt-cinq mille cinq cent cinquante jours. Or de ces vingt-cinq mille cinq cent cinquante jours, qui font soixante-dix ans, vous n'en trouverez pas un qui amène un événement absolument semblable. Il faut donc en convenir, seigneur, l'homme n'est que vicissitude. Vous avez certainement des richesses considérables, et vous régnez sur un peuple nombreux ; mais je ne puis répondre à votre question que je ne sache si vous avez fini vos jours dans la prospérité ; car l'homme comblé de richesses n'est pas plus heureux que celui qui n'a que le simple nécessaire, à moins que la fortune ne l'accompagne, et que, jouissant de toutes sortes de biens, il ne termine heureusement sa carrière. Rien de plus commun que le malheur dans l'opulence, et le bonheur dans la médiocrité. Un homme puissamment riche, mais malheureux, n'a que deux avantages sur celui qui a du bonheur ; mais celui-ci en a un grand nombre sur le riche malheureux.

L'homme riche est plus en état de contenter ses désirs et de supporter de grandes pertes ; mais, si l'autre ne peut soutenir de grandes pertes ni satisfaire ses désirs, son bonheur le met à couvert des uns et des autres, et en cela il l'emporte sur le riche. D'ailleurs il a l'usage de tous ses membres, il jouit d'une bonne santé, il n'éprouve aucun malheur, il est beau, et heureux en enfants. Si à tous ces avantages vous ajoutez celui d'une belle mort, c'est cet homme-là que vous cherchez, c'est lui qui mérite d'être appelé heureux. Mais, avant sa mort, suspendez votre jugement, ne lui donnez point ce nom ; dites seulement qu'il est fortuné. Il est impossible qu'un homme réunisse tous ces avantages, de même qu'il n'y a point de pays qui se suffise, et qui renferme tous les biens : car, si un pays en a quelques-uns, il est privé de quelques autres ; le meilleur est celui qui en a le plus. Il en est ainsi de l'homme : il n'y en a pas un qui se suffise à lui-même : s'il possède quelques avantages, d'autres lui manquent. Celui qui en réunit un plus grand nombre, qui les conserve jusqu'à la fin de ses jours, et sort ensuite tranquillement de cette vie ; celui-là, seigneur, mérite, à mon avis, d'être appelé heureux. Il faut considérer la fin de toutes choses, et voir quelle en sera l'issue ; car il arrive que Dieu, après avoir fait entrevoir la félicité à quelques hommes, la détruit souvent radicalement.»

***
LXXXVI. A la prise de Sardes les Perses ajoutèrent celle de Crésus, qui tomba vif entre leurs mains. Il avait régné quatorze ans, soutenu un siège d'autant de jours, et, conformément à l'oracle, détruit son grand empire. Les Perses qui l'avaient fait prisonnier le menèrent à Cyrus. Celui-ci le fit monter, chargé de fers, et entouré de quatorze jeunes Lydiens, sur un grand bûcher dressé exprès, soit pour sacrifier à quelques dieux ces prémices de la victoire, soit pour accomplir un voeu, soit enfin pour éprouver si Crésus, dont ou vantait la piété, serait garanti des flammes par quelque divinité. Ce fut ainsi, dit-on, qu'il le traita. Crésus, sur le bûcher, malgré son accablement et l'excès de sa douleur, se rappela ces paroles de Solon, que nul homme ne peut se dire heureux tant qu'il respire encore; et il lui vint à l'esprit que ce n'était pas sans la permission des dieux que ce sage les avait proférées. On assure qu'à cette pensée, revenu à lui-même, il sortit par un profond soupir du long silence qu'il avait gardé, et s'écria par trois fois : « Solon ! » que Cyrus, frappé de ce nom, lui fit demander par ses interprètes quel était celui qu'il invoquait. Ils s'approchent, et l'interrogent. Crésus, d'abord, ne répondit pas ; forcé de parler, il dit : « C'est un homme dont je préférerais l'entretien aux richesses de tous les rois. » Ce discours leur paraissant obscur, ils l'interrogèrent de nouveau. Vaincu par l'importunité de leurs prières, il répondit qu'autrefois Solon d'Athènes était venu à sa cour; qu'ayant contemplé toutes ses richesses, il n'en avait fait aucun cas; que tout ce qu'il lui avait dit se trouvait confirmé par l'événement, et que les avertissements de ce philosophe ne le regardaient pas plus lui en particulier, que tous les hommes en général, et principalement ceux qui se croyaient heureux. Ainsi parla Crésus. Le feu était déjà allumé, et le bûcher s'enflammait par les extrémités. Cyrus, apprenant de ses interprètes la réponse de ce prince, se repent ; il songe qu'il est homme, et que cependant il fait brûler un homme qui n'avait pas été moins heureux que lui. D'ailleurs il redoute la vengeance des dieux, et, réfléchissant sur l'instabilité des choses humaines, il ordonne d'éteindre promptement le bûcher, et d'en faire descendre Crésus, ainsi que ses compagnons d'infortune ; mais les plus grands efforts ne purent surmonter la violence des flammes.

LXXXVII. Alors Crésus, comme le disent les Lydiens instruit du changement de Cyrus à la vue de cette foule empressée à éteindre le feu sans pouvoir y réussir, implore à grands cris Apollon ; le conjure, si ses offrandes lui ont été agréables, de le secourir, de le sauver d'un péril si pressant. Ces prières étaient accompagnées de larmes. Soudain, au milieu d'un ciel pur et serein, des nuages se rassemblent, un orage crève, une pluie abondante éteint le bûcher. Ce prodige apprit à Cyrus combien Crésus était cher aux dieux par sa vertu. Il le fait descendre du bûcher, et lui dit : « O Crésus ! quel homme vous a conseillé d'entrer sur mes terres avec une armée, et de vous déclarer mon ennemi au lieu d'être mon ami ? - Votre heureux destin et mon infortune m'ont jeté, seigneur, dans cette malheureuse entreprise. Le dieu des Grecs en est la cause ; lui seul m'a persuadé de vous attaquer. Eh ! quel est l'homme assez insensé pour préférer la guerre à la paix ? Dans la paix, les enfants ferment les yeux à leurs pères ; dans la guerre, les pères enterrent leurs enfants. Mais enfin il a plu aux dieux que les choses se passassent de la sorte.»

LXXXVI
Creso, na pira, apesar do seu abatimento e do excesso da sua dor, lembrou-se destas palavras de Sólon, que nenhum homem se pode dizer feliz enquanto ainda respira; e veio-lhe à mente que não tinha sido sem a permissão dos deuses que este sábio as tinha proferido. Afirma-se que com este pensamento, caindo em si, saiu por um profundo suspiro do longo silêncio que tinha mantido, e exclamou três vezes: «Sólon!» e Ciro, tocado por este nome, mandou-lhe perguntar pelos seus intérpretes quem era aquele que invocava. Aproximam-se e interrogam-no. Creso, ao princípio, não responde; obrigado a falar, diz: «É um homem a quem eu preferiria o convívio às riquezas de todos os reis.» Este discurso pareceu-lhe obscuro, interrogaram-no de novo. Vencido pelos seus pedidos importunos, respondeu que noutro tempo Sólon de Atenas tinha vindo à sua corte; que tendo contemplado todas as suas riquezas, não tinha feito caso delas; que tudo o que lhe tinha dito se achava confirmado pelo acontecido e que as advertências deste filósofo não lhe diziam mais respeito a ele em particular, que a todos os homens em geral, e principalmente aos que se criam felizes. Assim falou Creso. O fogo já estava ateado e a pira inflamava-se pelas extremidades. Ciro, ciente pelos seus intérpretes da resposta deste príncipe, arrepende-se; pensa que é homem e que entretanto faz queimar um homem que não tinha sido menos feliz do que ele. De resto receia a vingança dos deuses e, reflectindo sobre a instabilidade das coisas humanas, manda apagar prontamente a pira e fazer descer dela Creso, bem como os seus companheiros de infortúnio; todavia, os maiores esforços não conseguiram dominar a violência das chamas.
LXXXVII. Então, Creso, como dizem os Lídios, sabedor da mudança de Ciro à vista desta multidão na azáfama de extinguir o fogo sem o conseguir, implora a Apolo em grandes gritos; roga-lhe, se as suas oferendas lhe foram agradáveis, que o socorra, o salve de um perigo tão premente. Estas súplicas eram acompanhadas de lágrimas. De repente, no meio de um céu puro e sereno, juntam-se nuvens, estoira uma trovoada, uma chuva a cântaros extingue a fogueira. Este prodígio ensinou a Ciro quanto Creso era querido dos deuses pela sua virtude. Fá-lo descer da pira e diz-lhe: «Ó Creso! Que homem vos aconselhou a entrar nas minhas terras com um exército e a declarar-vos meu inimigo em vez de serdes meu amigo? — O vosso destino feliz e o meu infortúnio lançaram-me, senhor, nesta infeliz empresa. A causa disto é o deus dos Gregos; ele só me convenceu a atacar-vos. Eh! Qual é o homem insensato a ponto de preferir a guerra à paz? Na paz, os filhos fecham os olhos aos pais; na guerra, os pais enterram os filhos. Mas, enfim, prouve aos deuses que as coisas se passassem desta maneira.»

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Círio da Prata Grande - S. Pedro da Cadeira, Programa do dia 20 Set. 2015

Estive lá, na missa e na procissão, que é de facto solene e imponente. Ver, aqui.

domingo, 28 de agosto de 2016

Círio da Prata Grande - Encarnação: cartazes de 2015 e outras informações

        O que a seguir se indica sobre o Círio da Prata Grande, na parte que à Encarnação diz respeito, pode ser complementado nas três mensagens do blogue aterraeagente de que no final se dá os linques.
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http://www.cnsn.pt/portal/index.php?id=1476  (Sítio da Nazaré - cartaz religioso, com programa de 2015)
http://senhoranazareencarnacao.pt/  (Aqui, História; Comissão; Eventos; Programa; Fotos – oito, de 1963 a 1914  e uma da Imagem; Vídeos; Contacto. Há hiperligações: facebook, programas e possibilidade de download do cartaz completo e do respeitante apenas à parte recreativa e cultural.)
http://senhoranazareencarnacao.pt/assets/programa_geral_NSN.pdf  (Cartaz  Grandiosos Festejos em Honra de Nossa Senhora da Nazaré – Encarnação ♦ Mafra – 20 a 30 de Agosto 2015)
http://www.paroquiadaencarnacao.pt/
http://www.paroquiadaencarnacao.pt/index.php?cont_=115&id=33  (23 Ago – Passagem de Testemunho dos «Velhos» para os «Novos»)
http://www.paroquiadaencarnacao.pt/index.php?cont_=115&id=4  (25 Ago – Primeira Procissão de Nossa Senhora da Nazaré)
http://www.paroquiadaencarnacao.pt/index.php?cont_=115&id=29  (13 Set – O Círio da Encarnação ao Santuário da Nazaré)
http://www.paroquiadaencarnacao.pt/index.php?cont_=115&id=30  (15 Set – Procissão dos «Novos»)
http://www.paroquiadaencarnacao.pt/index.php?cont_=115&id=39  (21 Nov – Nossa Senhora da Nazaré: Jantar-Convívio para Apresentação de Contas)

Círio da Prata Grande - O Rei Dom Rodrigo e a Senhora de Nazaré

28 de Agosto de 2016

Hoje é dia grande em S. Pedro da Cadeira. A esta hora em que escrevo, destaco, ainda, a saudação e acolhimento dos Juízes, ao meio-dia, e sobretudo a celebração da Eucaristia, presidida pelo Sr. Bispo Auxiliar de Lisboa, D. José Traquina Maria (15:00), a chegada das Bandas Filarmónicas (16:30) e a Solene e Imponente Procissão «Os Nomes de Maria» (17:00)
É dia de Círio da Prata Grande. No domingo, 11 de Setembro, será a ida à Nazaré, onde às 11 horas terá lugar a Eucaristia, seguida de procissão. No regresso, passagem pelas localidades: São Mamede da Roliça (17:00), Torres Vedras (18:15), Turcifal (18:45), Freiria (19:15), Arneiros (19:45), São Mamede da Ventosa (20:15), Ponte do Rol (20:45), Silveira (21:15), com chegada a S. Pedro da Cadeira, às 21:45.

Sobre o milagre de D. Fuas Roupinho nas escarpas do Sítio e o modo «como a imagem de nossa Senhora de Nazaré foi trazida ao lugar em que hoje está», ficam mais abaixo dois capítulos da Segunda Parte do livro Monarquia Lusitana, de Frei António Brandão, editada pela primeira vez em 1609, aos 37 anos do autor e dez anos após a publicação da Primeira Parte.
A grafia é geralmente actualizada. O texto fica intocado, para se ter acesso ao sabor da época. Há umas pequenas alterações: onde está «ende», pus «onde», deixei ficar «postaram-se», onde hoje se diz «prostraram-se», em «pode», alterei para «pôde», «falamos» – «falámos», «achamos» – achámos», «veneramos» – «venerámos», «alegramos» – «alegrámos», escrevi «pq», onde estão as mesmas letras com acento agudo sobreposto, por não ser possível fazê-lo aqui, em «pegadas» ressuscitei o acento grave «pègadas», onde está «cinitate», pus «ciuitate».
Começa por se oferecer o sumário dos quatro primeiros capítulos, transcrevendo-se de seguida integralmente o sumário e o texto do terceiro e do quarto.

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SEGUNDA PARTE,
DA MONARQUIA LUSITANA.

LIVRO SETTIMO
DA MONARCHIA
LVSITANA
CAPITVLO PRIMEIRO
De como elRey Dom Rodrigo reynou em Espanha, e se namorou da Caua
Filha do Conde Dom Iulião, por onde se ocasionou a perda gèral de
Espanha, & das varias opiniões que há nesta matéria.

CAPITVLO. II.
Da primeira ẽtrada dos Mouros em Espanha, perdas que fizeram em Andaluzia & Portugal, com o mais q passou, ate elRey Dom Rodrigo ser vencido na batalha de Goadalete, & o poder dos Godos desbaratado.

CAPÍTULO. III
Do que sucedeu a elRey Dom Rodrigo
Depois de perdida a batalha, e do que pas-
sou até chegar a Portugal: toca-se como
a imagem de nossa Senhora de Nazaré
foi trazida ao lugar em que hoje está.

CAPÍTULO IIII.
Do tempo que a imagem de nossa Senhora de Nazaré esteve escondida no lugar em que el-rei, e Romano a deixaram, como, e por quem foi achada: põe-se uma doação donde consta a verdade desta história.

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CAPÍTULO . III
Do que sucedeu a elRey Dom Rodrigo
Depois de perdida a batalha, e do que pas-
sou até chegar a Portugal: toca-se como
a imagem de nossa Senhora de Nazaré
foi trazida ao lugar em que hoje está.
PERDIDA de todo a batalha, e rotos alguns esquadrões, onde se fazia alguma sombra de resistência, mais para morrer vingados, que por esperanças de remédio, se veio a noite tão escura e temerosa, que parecia ajudar a sintir com suas trevas, o lamentável estrago da gente Espanhola, muita da qual se pôs em salvo com esta ocasião, que a lhe faltar fora impossível escapar ninguém com vida. E como cada um tinha cudado da sua, não houve quem se lembrasse de acompanhar ao triste Rei dom Rodrigo que cansado de pelejar, e o cavalo ferido por algumas partes, se foi retirando ao longo de Guadalete, até dar em um lamarão, donde o cavalo o não pode tirar [pôde?], e despindo suas armas, e reais insígnias, as deixou naquele sítio, para desconhecido poder escapar dos inimigos mais a seu salvo; inda que Albucacim diz, que achando um pastor mudou com ele o trajo e comendo alguma cousa que lhe deu, se partiu com seu cajado na mão por um recosto acima até o perder de vista, e sendo o pastor achado pela gente que Tarif, e o Conde mandaram em sua busca, souberam como não morrera na batalha, e temeram que metendo-se pelo meio de Espanha, se tornasse a refazer, para os vir demandar com maiores forças, mas ele que sabia quão poucas ficavam para resistir a inimigos vitoriosos, e conhecia o rigoroso castigo da mão divina, dado pela enormidade de suas culpas, e dos Reis seus predecessores ia com diferente imaginação, traçando meios para salvar sua alma e curando pouco dos que se lhe ofereciam, para tornar ao estado que perdera. Entre cruéis pensamentos e dor que lhe quebrava o coração, lembrando-se da morte de seus amigos e vassalos, e do estrago a que toda Espanha ficava sujeita, caminhou el-Rei alguns dias no hábito desconhecido, que trocara com o Pastor, até chegar junto a Mérida, cujos soberbos muros não veria sem grande cópia de lágrimas, trazendo-lhe sua grandeza à memória a muita em que já se vira, que cotejada com o estado presente serviria de renovar sua dor, a que não achava meio de consolação, tendo muitos com que se acrescentasse, porque divulgando-se a nova da batalha, e crueldade com que os mouros vinham assolando a terra, em cada lugar se ouviam gritos de mulheres e meninos, e se achavam os campos e caminhos cheios da miserável gente, que com o melhor de suas fazendas, iam guarecer-se nas cidades e lugares fortes; outros nos montes e sítios apartados, fazendo-lhes a fama, e temor natural maior o perigo, e mais propínquo do que na verdade era, sendo todos estes encontros para o triste Rei cruéis lançadas, que lhe atravessavam o coração, para remédio, e consolação das quais, permitiu Deus, que chegasse ao mosteiro de Cauliniana, de que já falámos algumas vezes nesta história, o qual estava fundado duas léguas da cidade de Mérida, que é a conta dos oito mil passos que lhe dá Paulo, Diácono da mesma cidade, no livro que compôs, da vida de alguns Arcebispos: e varões santos que ali floresceram, onde diz, que estava edificado tão junto do Rio Guadiana, que sucedia em tempo de cheias entrar-lhe a crecente nas celas dos Religiosos, o mesmo sítio lhe dá Ambrósio de Morales, referindo a vida do Santo Arcebispo Renovato, onde afirma, que viu uma carta de certo monge deste mosteiro, chamado Tarra, escrita a el-Rei Recaredo. Chegado el-Rei a este lugar com desejo de achar nele alguma consolação para seu espírito, encontrou matéria de maior lástima, e dobrado sentimento, porque os monges atemorizados com a nova que chegara poucos dias antes, e solícitos por salvar os ornamentos, e cousas sagradas, uns eram já fugidos para dentro de Mérida, outros se retiraram pela terra dentro buscando guarida em outros conventos, e os menos aguardavam o fim do negócio dentro no mosteiro, desejando acabar a vida pela honra e defensão da Fé Católica dentro naquele santuário. Entrou el-Rei na Igreja, e vendo-a nua de ornamentos, e desemparada de Religiosos, se pôs em oração, com tanta dor e angústia de coração, que desfeito em lágrimas, se não lembrava que podia ser ouvido de alguma pessoa, a quem o excesso delas desse conhecimento de quem podia ser, e como a fraqueza de não ter comido alguns dias, o desfalecimento do cérebro, pela falta do sono, e o quebrantamento de caminhar a pé, lhe tivessem as forças debilitadas, se lhe cerraram os espíritos, de maneira, que ficou em terra com um desmaio em que esteve privado dos sentidos até o achar um monge antigo, e de vida inculpável, chamado Romano, que com lhe lançar água no rosto, e lhe aplicar outros benefícios semelhantes o fez tornar em si, e procurou consolá-lo com palavras, e conselhos acomodados ao estado, em que o via, e como el-Rei conhecesse que era sacerdote, e visse no modo de sua pessoa, e modéstia de palavras, ser homem de santa vida, quis desalivar sua dor, e purificar sua consciência com uma confissão geral de pecados antigos; na qual lhe não foi possível encobrir quem tinha sido, e a estranha mudança de estado, a que o trouxera a ventura, deixando o monge tão lastimado de ouvir a tragédia de sua vida, e ver daquele modo ante seus pés tão grande Monarca, que lhe faltaram palavras para consolar sua mágoa, e com a voz interrompida de suspiros lhe deu absolvição, e ao dia seguinte, o Santíssimo Sacramento da Eucaristia, e como visse que se queria partir, buscando lugar mais apartado do comércio da gente, em que fazer penitência, sem que amigos, nem contrários tivessem notícia de sua pessoa, não se atreveu o monge a deixá-lo só no meio de tamanha desconsolação como levava, e tomando-o de parte, lhe rogou pela paixão de Jesus Cristo, que consentisse irem ambos de companhia, e salvarem uma venerável imagem da Virgem Maria Senhora nossa, que naquele mosteiro resplandecia com grandes milagres, e fora trazida da cidade de Nazaré, por um monge Grego, chamado Ciríaco, em tempo que se levantou nas partes de Oriente uma heresia contra o culto e veneração das imagens; e de volta com ela, uma relíquia do Apóstolo São Bartolomeu, e outra de São Brás, que tinha guardadas em um cofre de Marfim, e seria grande sacrilégio deixá-las oferecidas, ao mau tratamento dos Bárbaros, que segundo a fama publicava, não deixavam templo, nem lugar sagrado, que não profanassem lançando as imagens no fogo, e arrastando-as aos cabos dos cavalos para maior opróbrio da gente baptizada. Vendo-se el-Rei conjurar pela paixão de nosso Redentor Jesus Cristo, em quem [que?] só tinha consolação e esperança de remédio, e considerando a piedade da obra, para que o escolhia por companheiro, se deixou vencer de seus rogos, e tomando em seus braços a pequena imagem da Senhora, e Romano a caixa das relíquias com alguma provisão para o caminho, se meteram pelo meio de Portugal, levando o rosto sempre ao Poente, e demandando a costa do mar Oceano, por ser terra mais solitária naqueles tempos, e menos frequentada de gente humana onde lhe parecia que os Mouros não chegariam tão cedo, porque faltando-lhe terras que conquistar naquelas partes não havia ocasião que os levasse a elas; vinte e seis dias caminharam os dois companheiros, os mais deles sem tocarem povoado, e depois de passarem muitos trabalhos em atravessar terras, e vadear rios, houveram vistas do mar Oceano aos 22 de Novembro, dia de S. Cecília virgem e mártir, e como se tivessem naquela parte o fim de seus trabalhos tomaram algum alívio, e deram graças ao Senhor, que os salvara das mãos de seus contrários. Este lugar a que primeiro chegaram, é nos Coutos de Alcobaça, perto donde agora vemos a Vila da pederneira, junto da qual para a parte do Nascente se levanta no meio de certos areais um monte de rochedo e terra firma, prolongado algum tanto de Norte a Sul, tão alto, e bem proporcionado, que parece milagrosamente posto naquele sítio, por estar de todas as partes cercado de campos cobertos de areia, sem altura nem rochedo, de que pareça ter dependência. E como sua compostura leve trás si os olhos, de quem vê aquela máquina da natureza, desejou el-Rei, e o monge de subir ao alto dele, por ver se daria lugar a passarem sua vida onde acharam uma pequena ermida, com um devoto Crucifixo de vulto sem outro sinal de gente viva, mais que uma sepultura rasa, sem letra nem epitáfio que declarasse cuja fora. O sítio do lugar, que subindo a uma altura notável descobre, por mar e terra quanto os olhos alcançam e a repentina vista do Crucifixo, causou no ânimo d’el-Rei tanto abalo, e tamanha consolação, que abraçado com o pé da cruz, se esteve desfazendo em rios de lágrimas, não já de saudade dos reinos e senhorios que perdera, mas de consolação de ver, que a troco deles, se lhe oferecia naquele monte solitário, o mesmo Jesus crucificado, em cuja companhia determinou passar o que lhe restasse da vida, e assim o declarou ao monge, que por o contentar, e por ver o lugar acomodado à contemplação, aprovou o parecer d’el-Rei; e se deixou estar com ele alguns dias, nos quais foi vendo alguns inconvenientes, que havia para se poder viver no alto do monte, donde era necessário descer com muito trabalho, todas as vezes que haviam de beber ou buscar algumas ervas e frutas para seu mantimento; e conhecendo também que a vontade d’el-Rei era estar só para desabafar com lágrimas, e exclamações que muitas vezes fazia diante da imagem de Cristo, se veio de seu consentimento, a um sítio distante do monte pouco mais de uma milha, que ficando de uma parte chão, e de serventia fácil, e mui acomodada, se deixa cair da outra sobre o mar com tão íngreme quebrada, que terá duzentas braças a pique, desde a ponta do rochedo até ao remanso das ondas. Entre dous grandes penedos, cada um dos quais sai com sua ponta ao mar, e ficam suspensos no alto da rocha, em forma, que parecem ameaçar ruína a quem os contempla da praia, achou romano uma pequena cova, feita naturalmente no penedo, que acrescentou com alguns [?] paredes de pedra seca, fabricadas por sua mão, e ordenada certa feição de ermida, pôs nela a imagem da Virgem Maria de Nazaré, que trouxera do mosteiro de Cauliniana, que com ser pequena, e de cor morena com o menino Jesus nos braços, tem certa perfeição no rosto, com uma modéstia tão notável, que logo representa coisa miraculosa; e havendo tanto número de anos, que foi conhecida, e venerada, muitos dos quais esteve posta em lugar, que a não defendia das injúrias do tempo, se lhe não pôs nunca tinta, nem foi necessário renová-la. Estava o lugar da ermida, e está hoje à vista do monte em que el-Rei vivia, e posto que a memória donde vou tirando as forças deste sucesso, o não especifique, de crer é, que se veriam muitas vezes, e teriam colóquios tão divinos, como a vida, e santidade do lugar o pedia, havendo de permeio [?] as grandes tentações do demónio, que el-Rei padeceu no princípio de sua penitência, A que seriam necessários os avisos, e documentos do monge, e o socorro de suas orações, e presença das relíquias de S. Bartolomeu, que milagrosamente o salvou muitas vezes de várias ilusões do inimigo, e em nossos dias se vêem no alto deste monte fixas em uma rocha viva certas pègadas humanas, e outras de forma diferente, que a gente vulgar sem acertar no particular da pessoa, afirma serem de São Bartolomeu, e do demónio que ali foi vencido e suas ilusões desbaratadas pelo santo, socorrendo a um devoto, que chamou por ele na força de sua tribulação, que devia ser el-Rei, posto que a gente de agora o não alcance, a quem o santo deu visivelmente favor, e quis que para lembrança deste benefício, e do poder que Deus lhe deu sobre os maus espíritos, ficassem aqueles sinais impressos na pedra dura, e sendo o nome antigo do monte Seano, se mudou no do Apóstolo, e se chama hoje de S. Bartolomeu; e a ermida que permanece no alto dele, é da invocação do mesmo santo, e de S. Brás, o que devia nascer das relíquias destes dois santos, que Romano trouxe consigo, e as deixou a el-Rei para sua consolação, retirando-se ele ao lugar, que já temos dito, com a imagem da Senhora, onde viveu pouco mais de um ano, e sabendo o tempo de sua morte, o comunicou a el-Rei, pedindo-lhe que em satisfação do amor com que o acompanhara, se lembrasse de rogar a Deus por sua alma, e desse seu corpo à terra de que fora composto. E havendo-se de partir daquele lugar, deixasse nele as imagens e relíquias do modo que as ele comporia antes de morrer; com isto se partiu Romano a gozar do prémio merecido por seus trabalhos, deixando a el-Rei com novas ocasiões de sentimento pela falta de tão bom companheiro. O que mais passou neste lugar, as tentações e trabalhos que teve até o fim da vida, não há historiador autêntico, nem memória que no-lo certifique, mais que umas relações envoltas em alguns contos fabulosos, da crónica antiga d’el-Rei dom Rodrigo, onde entre as verdades que tira do Mouro Rasis há muitas cousas notoriamente impossíveis, como são o caminho que el-Rei fez, guiado por uma nuvem branca até junto a Viseu, e a penitência em que ali acabou a vida, metendo-se vivo em certa sepultura, com uma cobra, que criou para este efeito: Mas como isto sejam cousas duras de crer, passaremos tudo em silêncio, deixando no juízo dos curiosos o crédito que merece uma pintura antiga, que inda dura junto a Viseu, na igreja de S. Miguel sobre a sepultura do mesmo Rei dom Rodrigo, em que se vê a cobra pintada com duas cabeças, e no próprio sepulcro, que é de pedra lavrada, um buraco redondo, por onde dizem, que a cobra entrava; O certo de tudo isto é (como contam nossos historiadores) que el-Rei foi parar a esta parte, e na ermida de S. Miguel, que vemos junto a Viseu, acabou seus dias em grande penitência, sem pessoa nenhuma saber o modo dela, nem ter outra notícia mais clara que achar-se pelo tempo adiante um letreiro sobre certa sepultura desta igreja com as palavras seguintes.
HIC REQVIESCIT RVDERICVS VLTIMVS REX GOTHORUM.
Querem dizer. Aqui descansa Rodrigo último Rei dos Godos. As próprias palavras me lembra que vi escritas de preto, em um arco de parede, que está sobre a sepultura d’el-Rei, posto que o Arcebispo Dom Rodrigo, e aqueles que o seguem, ponham maior leitura, não advertindo que todas as mais palavras, que ele acrescenta, são pragas e maldições suas, que roga ao Conde dom Julião (como notou atentadamente Ambrósio de Morales, seguindo ao Bispo de Salamanca, e outros) e não razões do mesmo letreiro, como eles as fazem. A Igreja em que a sepultura d’el-Rei está ao presente é pequena, e de fábrica mui antiga, particularmente a capela-mor junto da qual ficam de cada parte sua cela do mesmo comprimento, mas estreitas, e escuras por não terem mais luz, que a que lhe entra por uma pequena fresta aberta contra o nascente, em uma das quais (que fica para o meio dia [meio-dia?]) se diz que vivia certo ermitão, por cujo conselho el-Rei se governava, no discurso [decurso?] de sua penitência, e ali se mostra hoje sua sepultura, encostada à parede da capela da parte da epístola: Na outra cela que fica contra o Norte passou el-Rei sua vida pagando na estreiteza do lugar, as larguezas dos paços, e liberdades da vida passada, em que ofendera a seu criador, e na parede da capela que corresponde à parte do Evangelho fica um modo de arco, em que se vê  a sepultura, em que estiveram seus ossos, e se visita dos naturais com devoção, crendo que por seu meio faz o ali alguns milagres em pessoas doentes de maleitas,e outras enfermidades semelhantes. Debaixo do mesmo arco, que fica respondendo para dentro da cela, vi pintados na parede o ermitão, e el-Rei com a cobra de duas cabeças, e li as letras acima referidas, tudo já gastado do tempo, com sinais de muita antiguidade, mas de modo que se podiam ver distintamente. O sepulcro é chão de uma só pedra, em que escassamente pode caber um corpo humano: ao tempo que eu o vi, estava já descoberto, sem ter ali a pedra que lhe servira de cobertura, nem os ossos d’el-Rei, que se levaram para Castela, sem saberem de que modo, nem por cuja ordem, nem eu o pude alcançar, por mais diligências que fiz com gente antiga daquela cidade, que tinha razão de saber uma cousa de tanta importância, quando fosse tão certa como alguns me afirmaram.
CAPÍTULO IIII.
Do tempo que a imagem de nossa Senhora de Nazaré esteve escondida no lugar em que el-rei, e Romano a deixaram, como, e por quem foi achada: põe-se uma doação donde consta a verdade desta história.
A grande veneração da imagem de nossa Senhora de Nazaré, que el-Rei deixou escondida no próprio lugar em que romano a pusera vivendo; e os contínuos milagres com que antigamente resplandeceu, e resplandece em nossos dias me obrigam a suspender um pouco o fio da história e dar uma relação sumária, do tempo em que esteve encoberta, e do estupendo milagre por onde foi conhecida. É pois de saber, que correndo o ano de Cristo setecentos e catorze, pelo mês de Novembro, chegou a Santa Imagem ao monte de São Bartolomeu., e entrando já o ano de quinze, a levou romano para a pequena ermida, feita entre as duas rochas de que se fez menção no capítulo precedente, onde a el-Rei deixou na melhor forma que lhe foi possível. E como andando o tempo viesse Portugal a ser senhoreado de Mouros, e as terras daquela comarca povoadas deles, permaneceu a Virgem, naquela humilde lapa, até os tempos de nosso primeiro Rei Dom Afonso Henriques, que conquistando Leiria, Porto de Mós, e toda a mais terra que agora chamam de alcobaça (de que fez andando o tempo doação a nosso Padre São Bernardo, como já contei na primeira parte de sua crónica) tornaram os cristãos a frequentar a terra, que antes fora sua, posto que vivessem nela como em fronteira, porque os Mouros do Algarve, Alentejo, e Estremadura, os inquietavam com perpétuas entradas que faziam pelo meio de Portugal. Era neste meio tempo Capitão do Castelo de Porto de Mós um valoroso cavaleiro, chamado dom Fuas Roupinho, célebre em nossas histórias Portuguesas, pelo valor com que desbaratou e prendeu a el-Rei Gami, senhor das terras da Estremadura, que o veio cercar a Porto de Mós, com grande poder de gente, como veremos na terceira parte desta história, e pelas vitórias honrosas que alcançou no mar de galés inimigas, que inquietavam as terras, e lugares marítimos deste reino, posto que andando o tempo fosse morto em certo recontro, que teve com os mesmos contrários no porto de Ceuta onde o estavam esperando com todas as forças Africanas juntas, de que se não pôde desviar por correr com fortuna contrária pela boca do estreito. No tempo que este cavaleiro residia na Capitania de Porto de Mós, e via a terra segura de inimigos, costumava sair muitas vezes à caça pelas gândaras, e matos que há entre o mar e a mesma vila, onde naquele tempo havia muita cópia de caça, e inda no de agora, com ser a terra tão povoada não deixa de haver alguma, e como continuasse este exercício (próprio de gente nobre, e animosa) e chegasse à costa do mar algumas vezes, foi dar naquela monstruosa rocha, que ficando da parte do Norte igual, e chã com a outra terra campina, se deixa subitamente quebrar contra o meio dia sobre as ondas do mar com uma altura monstruosa, causando tanto maior admiração a quem vem andando pelo campo raso sem os olhos descobrirem desigualdade alguma, quanto menos suspeita trazia de se ver repentinamente suspenso de tamanha queda: e como andasse por sua curiosidade vendo aquela maravilha natural, descobriu entre os dois maiores penedos (que saem da terra firme, e campeiam pelo ar grande espaço, ficando em vão sobre o mar, de maneira, que as pessoas que os vêem da praia, lhe parece que estão ameaçando uma perigosas ruína) uma feição de casinha composta de pedra seca, feita de modo que sua traça, e antiguidade obrigou ao capitão a ver por sua pessoa o que era, e descendo pela quebrada que se faz entre as duas rochas, entrou na humilde lapa, onde viu sobre um pequeno altar a venerável imagem da Virgem Maria de Nazaré, com aquela perfeição e modéstia, que se acha em mui poucas imagens daquele tamanho. Venerou-a o católico cavaleiro com toda submissão, e quisera levá-la para sai fortaleza de Porto de Mós, com intento de a ter mais venerada, se não temera ofendê-la, em lhe trocar habitação conservada por tantos anos. Esta consideração fez, com que por então a deixasse naquele sítio do próprio modo que estava, e posto que depois a visitasse as vezes que vinha por aquelas partes com ocasião da caça, não tratou nunca de melhorar a pobre ermida em que estava, nem o fizera se a Virgem o não salvara dum notório perigo de morte, que Deus por ventura permitiu, em castigo de seu descudo, e para deste modo dar a entender ao mundo a virtude da Santa Imagem. E foi, que vindo a seu ordinário exercício da caça pelo mês de Setembro, do ano de Cristo, mil e cento e oitenta e dous, aos catorze do próprio mês, em que a Igreja celebra a festa da Exaltação da Cruz, em que Cristo remiu o género humano, como amanhecesse o dia escuro com as névoas, que ordinariamente se levantam do mar e se não alcançasse da vista a terra ao redor, senão em pequena distância; sucedeu darem os sabujos com um veado (se porventura o era) e arremessando dom Fuas o cavalo em seu alcance, sem temor de perigo, por cudar que era tudo campo igual, e a névoa lhe não deixar ver por onde ia, se achou na última ponta do rochedo, que com mais de duzentas braças se deixa cair ao mar, a tempo, que não foi em sua mão ter as rédeas ao ginete, nem houve lugar para mais, que chamar o socorro da Virgem M A R I A, cuja imagem ali estava, e valeu-lhe ela de modo, que menos de dous palmos do fim da rocha, em uma ponta que faz estreita, e mui comprida, lhe parou o cavalo, como se fora de pedra, ficando em sinal do milagre as esbarraduras das mãos estampadas na rocha viva, como hoje se vêem de todos os peregrinos, e gente de romagem, que concorrem a visitar a imagem da  senhora; e é cousa notável, e digna de piedosa consideração, ver que no meio deste penedo em que o milagre sucedeu, em uma ilharga que fica para o nascente, em parte que por ficar suspensa no ar, não é possível chegar pessoa humana, estampou a própria natureza uma Cruz cravada na dureza da rocha, como se com ela santificara aquele penedo, e o marcara de tão santa insígnia, para teatro em que se havia de representar tão miraculoso passo, que por suceder em dia da exaltação da Cruz, parece que mostrava a honra e glória, que daí havia de redundar ao próprio Senhor, que nos remiu nela. Vendo-se dom Fuas livre de tamanho perigo, e conhecendo donde a mercê lhe viera, se foi à pequena ermida, onde com a grande devoção que a presença do milagre lhe causava, deu infinitas graças à Senhora, acusando diante dela o descudo de lhe melhorar a casa, e prometendo a tudo a emenda que sua possibilidade permitisse. Chegaram depois disto seus monteiros, seguindo a trilha do cavalo, e sabendo a maravilha que acontecera, se postraram diante da imagem da Senhora, ajudando com seu espanto a devoção de dom Fuas, que sabendo como o veado não parecia [aparecia?], nem os cães lhe achavam rasto por nenhuma parte, e a ele se lhe representara que o levava diante, entendeu ser ilusão do demónio, que buscara aquele meio, para o fazer morrer miseravelmente. Eram todas estas considerações causas de se acrescentar mais a grandeza do milagre; e a obrigação de dom Fuas que ficando-se ali alguns dias, fez vir de Leiria e Porto de Mós, oficiais para fazerem outra ermida em que a Senhora estivesse mais venerada, e como desfizessem a primeira, acharam metida entre as pedras do altar, uma caixinha de marfim, e dentro relíquias de S. Brás, S. Bartolomeu, e outros santos, com um pergaminho, em que se dava relação de como, e em que tempo, se trouxeram ali as relíquias e imagem, na forma que adiante veremos. Fez-se brevemente uma capela de abóbada bem traçada para tempo tão antigo sobre o mesmo lugar em que a Senhora estivera, e para ser vista de todas as partes a deixaram aberta com quatro arcos, que andando o tempo se taparam por evitar o dano que as chuvas e tempestades faziam dentro na capela, e deste modo permanece em nossos dias. Ficou a Senhora em seu lugar já conhecida e visitada dos fiéis que concorriam à fama do seu aparecimento, e milagres, sendo dos primeiros, o valoroso e Santo Rei Dom Afonso Henriques, a quem dom Fuas avisou do que sucedera, e acompanhado dos grandes de sua Corte, e de seu filho dom Sancho, veio visitar a imagem da Senhora, e ver com seus próprios olhos os sinais de maravilha tão rara, como acontecera, e de seu consentimento fez dom Fuas uma doação à Senhora de certa quantidade de terra, ao redor, que então eram matos bravos, e hoje o são ainda a maior parte dela, por ser quase tudo areais incapazes de dar fruto, e que não levam outra coisa mais que urzes, e alguns pinhais bravos. E porque dela consta a verdade de tudo o que tenho dito, e reconta por seu modo os sucessos da imagem da Senhora, a porei da forma que a vi no Cartório de Alcobaça, guardando em tudo o latim, e barbarismos de sua composição, que é a seguinte. Sub nomine Patris, nec non et eius prolis, in vnius potentia Deitatis, incipit carta donationis, quam ego Fuas ropinho, tenẽs Porto de Mòs,et terram de Albardos vsque Leirenam, et Turres veteres fatio Ecclesiæ Sãcta Mariæ de Nazareth, quæ de pauco tempōre  surgit fundata super mare, vbi de sæculis antiquis iacebat, inter lapides, et spinas multas, de tota illa terra, quæ iacet inter flumina quæ venit per Alcoubaz, et aquam numcupatam de furaturio, et diuiditur de isto modo: de illa foz de flumine Alcobaz, quomodo vadit per aquas bellas, deinde inter mare, et mata de Patayas vsq; finir in ipso furaturio, quam ego obtinut de Rege Adefonso, et per suum consensum facio præsentem seriem ad prædictam Ecclesiam Beatæ Mariæ Virginis, quam feci supra mare, vt in sæculis perpetuis memorentur irabilia Dei, et sit notum omnibus hominibus, quomodo à morte fuerim saluatus per pietatẽ Dei et Beatæ Mariæ quam vocant de Nazaret, tali succesu. Cũ manerem in castro Porto de Mòs, et inde veniebam ad occidendos venatos, per Meluam et matam de Patayas vsque ad mare, supraquem inueni furnam, et paruam domũculam inter arbustas, et vepres, in qua erat vna imago Virginis Mariæ, et venerauimus illam et abiuimus inde; veni deinde XVIII. Kal. Octobris, circa dictum locum, cum magna obscuratione nebulæ sparsa super totam terram, et inuenimus venatum, tresquẽ fui in meo équo, vsque venirem ad esbarrondadeiro supra mare, quod cadit aiuso sine mensura hominis, et pauet visus si cernit furnam cadentem ad aquas. Paui ego miser peccator, et venit ad remẽbrãcam de imagine ibi posita, et magna dixi S A N C T A  M A R  I A  VAL. Benedicta sit illa in mulieribus, quia meum equm sicut si esset lápis fecit stare, pedibus fixis in lapide, et erat iam vazatus extra terram in punta de saxo super mare. Descendi de équo, et veni ad locum  vbi erat imago, et ploraui, et gratias feci, et venerunt monteiros, et viderunt, et laudauerunt Deum, et Beatam Mariam; Misi homines per Leirenam, et Porto de Mos, et per loca vicina, vt venirent Aluanires et facerent ecclesiam bono opere operatam de fornice, et lapide, et iam laudetur Deus finita est. Nos vero non sciebamus vnde esset, et vnde venisset ista imago, sed ecce cum destruebatur altareper Aluanires, inuenta est arcula de ebore antiquo, et in illa vno enuoltorio, in quo erant ossa aliquorum sanctorum, et cartula cum hac inscrptione. Hic sunt reliquiæ Sãctorum Blasii, et Bartholomei Apostoli, quas detulit, â monasterio Cauliniana Romanus monachus, simul cum venerabili imagine Virginis Mariæ de Nazareth, quæ olim in Nazareth ciuitate Gallileæ multis miraculis claruerat., et inde asportata per Græcum monachum nomine Cyriacum, Gothorum Regum tempore, in prædictum monasterio per multum temporis manserat, quo vsq Hispania à Mauris debelata, et Rex Rodericus superatus in prœlio, solus lachrymabilis abiectus, et penè difficiens peruenit ad prœfatũmonasterium, Cauliniana, ibiq; â prœdicto Romano pœnitentiœ, et Eucharistiæ Sacramentis susceptis, pariter cum illo, cum imagine, et reliquiis ad Seanũ montem peruenerunt 10.kal.Decemb in quo Rex solus per annum integrum permansit, in Ecclesia ibi inuenta cũ Christi crucifixi imagine, et ignoto sepulchro. Romanus vero cum hac Sacra Virginis effigie inter duo ista saxa, vsq; ad extrremũ vitœ permãsit; et ne futuris tẽporibu aliquem ignorantia teneat, hœc cum reliquiis sacris in hac extrema orbis parte recondimus. Deus ista omnia à Maurorũ manibus seruet. Amẽ. De his lectis, et à Prœsbyteris apertis satis multum sumus gauisi, quia nomen de sanctis reliquiis, et de Virgine sciuimus, et ut memorẽtur per sempre in ista serie testamenti scribere fecimus. Do igitur prœdictam hereditatem pro reparatione prefatœ Ecclesiœ cum pascuis, et aquis, de monte in fonte, ingreßibus, et regreßibus, quantũ à prestitum hominis est, et illam in melhiorato foro aliquis potest habere per se: Ne igitur aliquis homo de nostris, vel de estraneis hoc factum nostrum ad irrumpendum veniat, quod si tẽtauerit peche ad dominum terrœ trecentos marabitinos, et carta nihilominus in suo robore permaneat, et insuper sedeat excommunicatus, et cum Iuda proditore pœnas luat damnatorum. Facta series testamenti, VI Idus Decemb. Era M. CCXX. Alfonsus Portugalliœ Rex confirm. Sancius Rex confirm. Regina Dona Tarasia confirm.
Petrus Fernandez regis Sancii dapifer confirm. Menẽdus Gunsalvi, eiusdem signifer confirm. Donus Ioannes Fernandez curiæ regis maiordomus, confirm.
Donus Iulianus Cancellarius regis confirm. Martinus Gonsalvi Pretor Colimbriæ confirm. Petrus Omariz Capellanus regis confirm. Menedus Abbas cõfirm. Theotonius conf. Fernandus Nuniz, testis. Egeas Nuniz, testis. Dumtelo (?), testis. Petrus Nuniz, testis. Fernandus Vermundi, testis.    Lucianus Præsbyter, Notauit.

Sua significação traduzida em língua Portuguesa, na melhor forma possível, com se guardar a propriedade de seus vocábulos, é a seguinte. Em nome do Padre, e também do Filho gerado, e do Espírito Santo juntamente, um em poder, de uma só divindade, começa a carta de doação, e devoção juntamente, que eu Fuas Roupinho Governador de Porto de Mós, e da terra de Albardos até Leiria, e Torres Vedras, faço à Igreja de S. Maria de Nazaré, que há pouco se edificou e está sobre o mar, onde estivera metida de tempo antigo entre pedras, e espinhas, de toda aquela terra, que está entre os Rios que vêm de Alcobaça, e agora que chamam do furadouro, que se demarca pelo modo seguinte. Desde aquela foz do Rio de Alcobaça, como vai por águas belas, depois entre o mar, e a mata de Pataias, até acabar no próprio furadouro, a qual terra eu alcancei d’el-Rei Dom Afonso, e de seu consentimento faço a presente doação, à sobredita Igreja da bem-aventurada Virgem Maria, que eu fundei sobre o mar, para que nos tempos futuros se tenham em lembrança as maravilhas de Deus, e seja notório a todos os homens, como fui livre da morte pela piedade de Deus, e da bem-aventurada Virgem Maria, que chamam de Nazaré, de tal modo que residindo eu no castelo de Porto de Mós, donde vinha à caça de veados, pela Melua, e mata de Pataias até o mar, achei sobre ele uma cova, e casinha pequena, entre matos e espinheiros; na qual estava uma imagem da Virgem Maria, a qual venerámos , e nos partimos daí. Depois disto vim ter junto ao sobredito lugar, aos catorze de Setembro, com grande çarração de névoa, que cobria a terra toda, e achámos um veado, trás quem arremessei o cavalo, até chegar, ao esbarrondadeiro sobre o mar, que cae abaixo sem medida que homem possa alcançar, e pasma a vista, se olha a fundura, que se deixa cair até as águas. Pasmei eu miserável pecador, e veio-me à lembrança a imagem que ali junto estava escondida, e em voz alta disse. Santa Maria val, Bendita seja ela entre as mulheres, que fez parar o meu cavalo como se fora de pedra, com os pés fixos no próprio mármore, e estava já lançado fora da terra na ponta do penedo que cai em cima do mar. Apeei-me então do cavalo e vim ao lugar onde a imagem estava, e com lágrimas lhe dei as graças, vieram também os monteiros, e vendo o que passara, deram louvores a Deus, e à bem-aventurada Virgem Maria. Mandei homens por Leiria, Porto de Mós, e pelos lugares ao redor, para que trouxessem pedreiros, e fizessem uma Igreja lavrada de boa obra, de abóbada, e cantaria, e já louvado Deus é acabada. Nós contudo não sabíamos donde fosse, nem de que parte tivesse vindo esta imagem, mas sucedeu, que desfazendo-se o altar pelos pedreiros, foi achada uma arquinha de marfim antigo, e nela um envoltório em que havia relíquias de alguns santos, e um pergaminho com esta leitura. Aqui estão relíquias de São Brás, e S. Bartolomeu Apóstolo, as quais trouxe do mosteiro de Cauliniana, o Monge Romano, junto com a venerável imagem da Virgem Maria de Nazaré; que antigamente resplandecera com muitos milagres em Nazaré, cidade da Galileia, e daí fora trazida por um monge Grego, chamado Ciríaco, reinando os Reis Godos, e no sobredito mosteiro esteve por largo tempo, até que sendo Espanha conquistada pelos Mouros, e el-Rei dom Rodrigo vencido em batalha, veio ter ao sobredito mosteiro de Cauliniana só desconhecido, choroso, e desmaiado, e recebendo aí os Sacramentos da confissão, e Eucaristia, por mão do dito Romano, se partiram ambos de companhia, e chegaram ao monte Seano, com esta Imagem, e Relíquias, no qual monte el-Rei viveu por espaço de um ano, em certa Igreja que ali achou com uma imagem de Cristo crucificado, e uma sepultura desconhecida, e Romano em companhia desta Sagrada Imagem da Virgem, perseverou entre estes dois penedos até acabar sua vida. E para que nos tempos futuros não ignorasse alguém estas cousas, escondemos esta lembrança com as sagradas relíquias nesta derradeira parte do mundo, Deus guarde todas estas cousas daas mãos dos Mouros. Amen. Lidas estas cousas, e declaradas por alguns Sacerdotes nos alegrámos todos muito, por sabermos o nome da Virgem, e das santas relíquias, e para serem tidas em perpétua lembrança, as fizemos escrever no processo desta doação. Pelo que dou a sobredita herdade à Igreja acima nomeada, para sua reparação, com seus pastos, e águas de monte em fonte, entradas e saídas, quanto cabe na jurisdição e poder de um homem, e na melhor lei que cada um a pode haver para si, para que nenhum homem de nossa, nem de estranha geração, contravenha a isto que fazemos, a qual cousa se intentar, pague ao senhor da terra trezentos maravedis; e a carta todavia permaneça em seu vigor, e além disto seja excomungado, e em companhia e em companhia do falso Judas experimente as penas infernais. Foi feito o processo deste testamento, aos dez de Dezembro, da era de César, mil duzentos e vinte (que é ano de Cristo mil e cento e oitenta e dois). O mais são confirmações d’el-Rei, e grandes da corte. Esta doação (de que constam os fundamentos de quanto tenho contado) não houve efeito por serem as terras dos Coutos de Alcobaça, que el-Rei Dom Afonso tinha alguns anos antes dadas a nosso Padre São Bernardo, e satisfez a dom Fuas com certos casais junto a Pombal, como consta de outra escritura, que anda junto a esta que deixo de pôr, como coisa que faz pouco ao fio de minha história, e tornando ao discurso dela, é de saber, que a Imagem da Virgem Maria de Nazaré, esteve na capela que lhe fez dom Fuas, até o ano de Cristo, mil e trezentos e setenta e sete, em que el-Rei Dom Fernando de Portugal lhe fundou a casa em que está ao presente, acrescentada, e forrada pela Rainha Dona Leonor mulher d’el-Rei Dom João o segundo, e cercada de alpendres por el-Rei D. Manuel. E agra em nossos tempos se fez uma capela-mor de boa fábrica à custa de esmolas, e rendimento da confraria, e na ermida da antiga fundada por dom Fuas, procurei eu com socorro de alguns devotos que se abrisse debaixo do chão outra capela, para ficar descoberto o mesmo rochedo, e lapa em que a Santa Imagem estiver escondida tanto número de anos, e se desce a ela por oito até dez degraus, com notável consolação de quem contempla a grande antiguidade daquele santuário. E porque se não perdesse a memória de coisas tão notáveis, compus um letreiro, em que brevemente se reconta tudo, e o mandou esculpir em mármore o Doutor Rui Lourenço, Provedor então da comarca de Leiria, e Visitador por el-Rei da mesma Igreja, e continha o seguinte. Sacra Virginis Mariœ veneranda imago, à monasterio Cauliniana prope emeritam, quo Gothorum tempore (â Nazareth translata) miraculis claruerat, in generali Hispaniœ clade ann. Dñi, DCCXIIII. À romano monacho, Commite, vt fertur, Roderico Rege, ad hanc extremam orbis partem aducitur, in qua dum vnus moritur, alter proficiscitur, per CCCCLXIX anos inter duo hœc prœrupta saxa sub parvo delituit tugurio: deinde à Fua Ropinio Portus Molarum duce, anno Domini MCLXXXII. (vt ipse in donatione testatur) inuenta, dum incaute agitato équo fugacem fictumq; forte in sequitur ceruum, ad vltimũq; immanis huius prœcipitii cuneũ, iam iam ruiturus accedit, nomine Virginis inuocato, a ruina, et mortis faucibus ereptus, hoc ei prius dedicat sacellum: tandem a Ferdinando Portugalliœ Rege, ad maius aliud templum, quod ipse a fundamentis erexerat transfertur, ann. Domini MCCCLXXVII. Virgini et perpetuitati. D. D. F. B. D. B. Sua significação em Português contém o seguinte. A sagrada e venerável Imagem da Virgem Maria, que sendo trazida da cidade de Nazaré resplandeceu em tempo dos Godos com milagres no mosteiro de Cauliniana junto à cidade de Mérida, foi trazida a esta última parte do mundo pelo monge Romano, tendo-lhe companhia el-rei Dom Rodrigo, no ano de Cristo, setecentos e catorze, em que aconteceu a perda geral de Espanha, e como o monge morresse, e el-Rei se partisse, ficou aqui escondida em uma pequena choça posta entre estes dois escabrosos penedos, por espaço de quatrocentos e sessenta e nove anos, e sendo depois achada por Dom Fuas Roupinho Capitão de Porto de Mós, no ano de mil e cento e oitenta e dois, como ele próprio testifica em sua doação; sucedeu que arremessando inconsideradamente o cavalo no alcance de um cervo que lhe fugia (e porventura era fingido) e indo já para cair na última ponta deste despenhadeiro, invocando o nome da Virgem foi livre da queda e mãos da morte, e lhe dedicou esta primeira ermida. Finalmente foi trasladada por el-Rei Dom Fernando de Portugal a essoutro templo maior, que ele mandou levantar desde os primeiros fundamentos, no ano do Senhor mil e trezentos e setenta e sete. Frei Bernardo de Brito, dedicou esta obra à Virgem, e a eterna lembrança, por voto que tinha feito. Destas coisas tiradas o mais fielmente que me foi possível da doação e histórias vemos claramente a grande antiguidade deste santuário, pois há oitocentos e noventa e três anos, que a imagem da Senhora foi trazida ao lugar em que está: e de Nazaré, inda que não saibamos o ano fixo em que foi trasladada, ao menos consta que foi antes d’el-Rei Recaredo, que começou a reinar no ano de Cristo, 586. assim há 1021. pouco mais ou menos que veio a Espanha, e como já viesse por mui conhecida e célebre em milagres nas partes de Oriente, bem se deixa entender, que foi esta imagem das mais célebres e antigas, e chegadas ao tempo dos Apóstolos, que teve e tem hoje o mundo, e de seus milagres, e cousas notáveis dissera muito, se me não chamaram os gritos e miserável estrago da gente Espanhola, a que me convém acudir, pondo silêncio a tão santa história.
[De Monarquia Lusitana II. Reimpressão da edição fac-similada de 1975. Edição da Imprensa Nacional-Casa da Moeda]