Há dias, um amigo enviou-me um mail com
um artigo de Vivek Meneses do jornal THE TIMES OF INDIA. Achei interessante. Em
Goa, o passado persiste, e a língua portuguesa? Em Lisboa, às vezes parece que
estamos numa certa Índia, tal é a apetência pelo inglês onde não haveria
necessidade.
O artigo é simpático para António
Costa, independentemente das simpatias políticas de quem ler. Uma figura a
conhecer é a do seu pai, Orlando da Costa.
Aqui vai o linque para o artigo, mai-la
tradução, que é uma boa maneira de ler o texto sem ser pela rama e ir
aprendendo inglês.
— Mas, gosta de inglês?
— Se gosto!
Para ter uma ideia do jornal THE TIMES OF INDIA, clique no
linque, abaixo, e saia da página «Goa», clicando em «home».
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THE TIMES OF INDIA Goa
António Costa: um goês,
primeiro-ministro para Portugal?
Vivek Meneses, TNN | Out. 3, 2015, 02.13 AM IST
Deverá
haver figas nestas praias distantes no domingo, 4 de Outubro, quando das
eleições para todos os 230 lugares no parlamento português, a Assembleia da
República[1].
A
coligação de centro-direita de Passos Coelho no poder enfrenta um desafio
poderoso que há anos tem vindo a amadurecer, de António Costa, o popular e
carismático presidente da Câmara de Lisboa, por três mandatos, do Partido
Socialista. Na balança está a história concani. O resultado pode ser o primeiro
goês chefe de governo.
Costa,
é o filho de 54 anos do escritor ferozmente anticolonial, o falecido Orlando da
Costa, cujo clássico «O Signo da Ira» se desenrola nos arredores de Margão em
que cresceu nos anos 30 e 40. Mais tarde, quando estudava em Portugal, o Costa
sénior tornou-se um firme opositor da ditadura de Salazar, membro do, então
fora da lei, Partido Comunista, e um bem conhecido intelectual de Lisboa que
toda a vida manteve afeição e ligação à sua Goa ancestral.
O
seu filho é um prodígio político. António Luís dos Santos da Costa foi ministro
português dos Negócios Estrangeiros e ministro da Administração Interna.
Encabeçou a lista do seu partido às eleições Europeias de 2004, serviu então na
Comissão das Liberdades Cívicas, Justiça e Assuntos Internos, antes de se
tornar um dos 14 vice-presidentes do Parlamento Europeu.
Em
2007, Costa jogou forte. Candidatou-se à presidência da Câmara de Lisboa, a peça-central
agitada de uma área urbana onde vive quase 30% da população de Portugal. Depois
de ganhar, imediatamente mudou o seu gabinete para a Mouraria, local
notoriamente infestado de criminalidade, onde começou a ver-se livre de
passadores de droga e da prostituição que costumava ser florescente em todo o
lado. Esforços semelhantes foram alargados persistentemente a toda a cidade.
Lisboa
transformou-se, apesar do repelão da crise económica dominante: é agora, na
Europa, a grande cidade mais segura, limpa, verde e melhor para viver. O seu
presidente foi três vezes reeleito.
Quando
Costa ganhou o direito de liderar o Partido Socialista em Setembro de 2014,
parecia certo que iria arrebatar o poder nas eleições de 2015. Mas, apesar da
popularidade pessoal avassaladora do candidato a primeiro-ministro, as coisas não
vieram a correr assim.
Uma
razão importante é o que aconteceu na Grécia. Tal como outras eleições
europeias recentes, o referendo[2] de
domingo gira em torno da chamada «austeridade». Mas, ao contrário da Grécia —
onde o eleitorado se rebelou contra o ajustamento económico sendo forçada no
país pela ultrajante «troika» de líderes (a Comissão Europeia, o Banco Central
Europeu e o Fundo Monetário Internacional) —, Portugal já sofreu três anos de
austeridade punitiva e emergiu para «dizer adeus» às medidas.
Há
alguns dias, o rating de crédito do
país subiu mesmo abaixo do grau de investimento, uma proeza que o partido
dominante está a usar para se defender da crítica sobre a recessão que
continua, o desemprego recorde e uma extraordinária vaga de emigração.
O
último factor também está a jogar contra Costa. Portugal está rapidamente a
esvaziar-se de jovens votantes que são a sua base de apoio. Centenas de
milhares de sub-30 migraram desde que a crise financeira se entrincheirou. É
uma crise para o país, que pode perder dois milhões de pessoas em poucas
décadas, mas é também uma crise para Costa. Quase todos aqueles votos podiam
ter ido para ele, e agora quase nenhum irá. Na última eleição, apenas 20% dos
portugueses a viver no estrangeiro votaram pelo correio.
Mesmo
que as sondagens mostrem os incumbentes a liderar, não cometam o erro de votar
contra Costa. No último debate da campanha, agilmente forçou Passos Coelho à
defensiva para ganhar o dia. «Nos últimos quatro anos, o país andou para trás
treze anos», disse Costa, que (embora não tendo o bigode retorcido nas pontas)
se parece cada vez mais com o pai. Disse, desdenhosamente: «O governo criou uma
série de empregos para enfermeiros, mas eles estão no Reino Unido, não em
Portugal.»
Quando
este escritor encontrou Costa num museu de Lisboa em 2014, convidou-me
espontaneamente para a esplêndida Câmara Municipal do século XIX, onde retratos
imponentes dos seus predecessores nos olhavam sobranceiros. Sentámo-nos no sofá
ao lado um do outro e o presidente gentilmente fez perguntas tipicamente goesas
sobre a aldeia de que vinha, enquanto me ia contando sobre a sua família em
Margão. Então, partilhou comigo os seus sonhos sobre desenvolver muito mais
fortemente conecções entre a Europa e a Índia, com Goa e Portugal a fazer ponte
entre as duas grandes entidades.
Os
seus olhos brilhavam de excitação. Permiti-me sonhar com um recém-eleito Costa
fazendo a sua primeira viagem oficial à Índia, mesmo a Goa, sem restrições. O
filho do Orlando da Costa de Margão, agora o primeiro-ministro de Portugal.
Essa improvável, inacreditável curva do destino pode estar exactamente do outro
lado da esquina.
O
escritor é um autor e fotógrafo publicado em larga escala.
[1]
Assim, no original.
[2]
O autor usa «referendum», que se traduz por «referendo» ou «plebiscito»,
apresentando-se ao eleitorado uma única questão. Na eleição, como no referendo,
está presente, no entanto, a ideia de consulta popular decisiva, pelo que não
deixa de se entender o seu uso, aqui; as eleições seriam um referendo à
austeridade, palavra usada pelo autor na mesma frase e associada ao precedente
«referendo».
*
Livro de Orlando da Costa, pai de António Costa e escritor, referido no artigo de Vivek Meneses. Próxima leitura.
*

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