2 de Abril
O
portal axial da igreja matriz deixa-nos a pensar na perfeição e equilíbrio da
arte grega clássica, num plano de igualdade. Para bem integrar no texto em que
Túlio Espanca descreve a fachada, sem contar com a pequena introdução em letra
miúda (uma dúzia de linhas), também importante, aqui deixamos uma descrição
integral.
DESCRIÇÃO: As
fachadas laterais e a cabeceira, robustecidas de torrinhas cilíndricas
rematadas por coruchéus cónicos e cogulhos graníticos, desenvolvidas num jogo
movimentado de arcobotantes que dividem os tramos, terminam por coroamento
ininterrupto de ameias chanfradas. Este jogo equilibrado e gracioso de
perspectivas é axialmente iluminado por opulento
portal flanqueado de botaréus angulares, de andares e gárgulas zoomórficas,
ainda esculpidas na arte gótica, que preenche o espaço elevado do arco redondo,
de dossel, que constitui a varanda da sineira. Lavrado em calcário da região,
desenvolve-se no espaço correspondente à nave central e dispõe-se em arcatura
geminada, de vãos e mainel torsos, bases e capitéis típicos do estilo nacional.
Envolvente e de maior volume, um segundo arco de meio ponto é circundado e
sobrepujado por arco de carena formado por dois troncos enroscados, emergentes
de pilares que ladeiam e emolduram o conjunto. Na cimafronte dominam as
empresas régias: o escudo de coroa aberta, esferas armilares e, sotoposta, no
medalhão floreado do tímpano, a Cruz da Ordem de Cristo. Todo o conjunto
assinala, com evidência, a marca decorativa de Diogo de Arruda, utilizada,
evidentemente, com outra exuberância e plenitude na Sala do Capítulo do
Convento de Tomar, c.ª de 1515. Dessa temática exótica avultam, além dos
elementos naturalistas dos troncos, o camaroeiro de D. Leonor, estilizado, as
faixas enroladas, em espiral, os encanastrados das bases, animais selvagens e
domésticos, anjos músicos, figuras humanas, de onde se destaca, no capitel
compósito da face esquerda do observador, S. JORGE A CAVALO LUTANDO COM O DRAGÃO
e, ainda, nos fechos laterais, as urnas preanunciando o estilo da Renascença.
Superiormente
rasga-se a fresta emoldurada, a que falta o vitral antigo e, na platibanda do
terraço, precedido de grande arco // de meio ponto, avulta o campanário, de
dois andares e três olhais lanceolados, de pedra e frontão triangular, muito
agudo e rematado pelo sinal do Redentor, de ferro forjado. Nele se dependuram
dois sinos de bronze fundido, destinados aos sinais da igreja, que apresentam
as seguintes inscrições: sino maior: 1856 (grande cruz gravada, estrelóide e dos
cravos do Martírio de Jesus). Sino menor: JOSE / GOMES / ME FES / 1760 (Cruz
gravada, de andares, com estrelas e pontas decoradas por vieiras como símbolo
do APÓSTOLO S. TIAGO).
Num degrau de
acesso ao campanil existe o fragmento de uma sepultura epigrafada, de letra
gótica e de difícil leitura.
No corpo lateral,
Norte, do monumento, abre-se a segunda porta pública, concebida no mesmo
estilo, mas de manifesta simplicidade, com verga trilobada, jambas chanfradas e
repisa florenciada.
Junto dela
levanta-se a caixa externa da CAPELA DOS REIS, concebida em planta
quadrangular, de cunhais de pedra facetada, gárgulas de canhão, bem esculpidas
e cortina de ameias chanfradas e torrinhas cónicas, decoradas por cordões e
cogulhos.
(Túlio Espanca, INVENTÁRIO
ARTÍSTICO DE PORTUGAL, DISTRITO DE ÉVORA, I
VOLUME, IX, Academia Nacional de Belas Artes, Lisboa, 1978, p. 417, cols. 1 e 2)
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