sexta-feira, 24 de abril de 2015

A igreja matriz de Viana do Alentejo

2 de Abril
O portal axial da igreja matriz deixa-nos a pensar na perfeição e equilíbrio da arte grega clássica, num plano de igualdade. Para bem integrar no texto em que Túlio Espanca descreve a fachada, sem contar com a pequena introdução em letra miúda (uma dúzia de linhas), também importante, aqui deixamos uma descrição integral.

DESCRIÇÃO: As fachadas laterais e a cabeceira, robustecidas de torrinhas cilíndricas rematadas por coruchéus cónicos e cogulhos graníticos, desenvolvidas num jogo movimentado de arcobotantes que dividem os tramos, terminam por coroamento ininterrupto de ameias chanfradas. Este jogo equilibrado e gracioso de perspectivas é axialmente iluminado por opulento portal flanqueado de botaréus angulares, de andares e gárgulas zoomórficas, ainda esculpidas na arte gótica, que preenche o espaço elevado do arco redondo, de dossel, que constitui a varanda da sineira. Lavrado em calcário da região, desenvolve-se no espaço correspondente à nave central e dispõe-se em arcatura geminada, de vãos e mainel torsos, bases e capitéis típicos do estilo nacional. Envolvente e de maior volume, um segundo arco de meio ponto é circundado e sobrepujado por arco de carena formado por dois troncos enroscados, emergentes de pilares que ladeiam e emolduram o conjunto. Na cimafronte dominam as empresas régias: o escudo de coroa aberta, esferas armilares e, sotoposta, no medalhão floreado do tímpano, a Cruz da Ordem de Cristo. Todo o conjunto assinala, com evidência, a marca decorativa de Diogo de Arruda, utilizada, evidentemente, com outra exuberância e plenitude na Sala do Capítulo do Convento de Tomar, c.ª de 1515. Dessa temática exótica avultam, além dos elementos naturalistas dos troncos, o camaroeiro de D. Leonor, estilizado, as faixas enroladas, em espiral, os encanastrados das bases, animais selvagens e domésticos, anjos músicos, figuras humanas, de onde se destaca, no capitel compósito da face esquerda do observador, S. JORGE A CAVALO LUTANDO COM O DRAGÃO e, ainda, nos fechos laterais, as urnas preanunciando o estilo da Renascença.
Superiormente rasga-se a fresta emoldurada, a que falta o vitral antigo e, na platibanda do terraço, precedido de grande arco // de meio ponto, avulta o campanário, de dois andares e três olhais lanceolados, de pedra e frontão triangular, muito agudo e rematado pelo sinal do Redentor, de ferro forjado. Nele se dependuram dois sinos de bronze fundido, destinados aos sinais da igreja, que apresentam as seguintes inscrições: sino maior: 1856 (grande cruz gravada, estrelóide e dos cravos do Martírio de Jesus). Sino menor: JOSE / GOMES / ME FES / 1760 (Cruz gravada, de andares, com estrelas e pontas decoradas por vieiras como símbolo do APÓSTOLO S. TIAGO).
Num degrau de acesso ao campanil existe o fragmento de uma sepultura epigrafada, de letra gótica e de difícil leitura.
No corpo lateral, Norte, do monumento, abre-se a segunda porta pública, concebida no mesmo estilo, mas de manifesta simplicidade, com verga trilobada, jambas chanfradas e repisa florenciada.
Junto dela levanta-se a caixa externa da CAPELA DOS REIS, concebida em planta quadrangular, de cunhais de pedra facetada, gárgulas de canhão, bem esculpidas e cortina de ameias chanfradas e torrinhas cónicas, decoradas por cordões e cogulhos.
(Túlio Espanca, INVENTÁRIO ARTÍSTICO DE PORTUGAL, DISTRITO DE ÉVORA, I VOLUME, IX, Academia Nacional de Belas Artes, Lisboa, 1978, p. 417, cols. 1 e 2)

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