Irene Vella escreve para depois, quando o seu texto vier a ser lido por quem viveu a crise em que nos encontramos, por quem não a viveu, nos anos ou séculos vindouros. Um dia haverá em que o seu grito de amor e esperança seja sepultado pelo tempo... Na hora em que escreve, fala aos seus irmãos contemporâneos, nós todos... Na maneira como o faz toca-nos profundamente. É poesia, é vida.
«Era Março de 2020, as ruas estavam vazias, as lojas fechadas, as pessoas não podiam mais sair. Mas a Primavera não sabia. E as flores começavam a florir,o sol brilhava, os pássaros cantavam, as andorinhas não tardariam a chegar. O céu estava azul e a manhã chegava mais cedo. Era Março de 2020. Os jovens deviam estudar on-line e arranjar com que se ocupar em casa. As pessoas não podiam ir mais aos centros comerciais nem tão-pouco ao cabeleireiro. Dentro em breve, não haveria mais vagas nos hospitais e as pessoas continuavam a adoecer. Mas a Primavera não sabia. Era altura de tratar dos jardins, a erva estava cada vez mais verdejante. Era Março de 2020. As pessoas foram postas em confinamento para proteger os avós, famílias e crianças. Acabaram as reuniões e refeições em família. O medo tornou-se real e os dias eram todos iguais. Mas a Primavera não sabia. As macieiras e cerejeiras e todas as outras árvores começaram a florir e as folhas cresceram. As pessoas começaram a ler, a jogar em família, a aprender outra língua. Cantavam nas varandas e convidavam os vizinhos a fazer o mesmo. As pessoas aprenderam uma língua nova, ser solidários e concentraram-se noutros valores. As pessoas aperceberam-se da importância da saúde, do sofrimento, deste mundo que tinha parado, da economia que tinha tombado. Mas a Primavera não sabia. As flores deram lugar aos frutos, os pássaros fizeram os seus ninhos, as andorinhas chegaram. Então chegou o dia da libertação. As pessoas ouviram na televisão. O vírus perdeu. As pessoas saíram às ruas, cantavam, choravam, abraçavam seus vizinhos sem máscaras nem luvas. E então o Verão chegou porque a Primavera não sabia. Ela continuou lá, apesar de tudo, apesar do vírus, apesar do medo, apesar da morte. Porque a Primavera não sabia, mas ensinou às pessoas o poder da vida.»
«Era Março de 2020, as ruas estavam vazias, as lojas fechadas, as pessoas não podiam mais sair. Mas a Primavera não sabia. E as flores começavam a florir,o sol brilhava, os pássaros cantavam, as andorinhas não tardariam a chegar. O céu estava azul e a manhã chegava mais cedo. Era Março de 2020. Os jovens deviam estudar on-line e arranjar com que se ocupar em casa. As pessoas não podiam ir mais aos centros comerciais nem tão-pouco ao cabeleireiro. Dentro em breve, não haveria mais vagas nos hospitais e as pessoas continuavam a adoecer. Mas a Primavera não sabia. Era altura de tratar dos jardins, a erva estava cada vez mais verdejante. Era Março de 2020. As pessoas foram postas em confinamento para proteger os avós, famílias e crianças. Acabaram as reuniões e refeições em família. O medo tornou-se real e os dias eram todos iguais. Mas a Primavera não sabia. As macieiras e cerejeiras e todas as outras árvores começaram a florir e as folhas cresceram. As pessoas começaram a ler, a jogar em família, a aprender outra língua. Cantavam nas varandas e convidavam os vizinhos a fazer o mesmo. As pessoas aprenderam uma língua nova, ser solidários e concentraram-se noutros valores. As pessoas aperceberam-se da importância da saúde, do sofrimento, deste mundo que tinha parado, da economia que tinha tombado. Mas a Primavera não sabia. As flores deram lugar aos frutos, os pássaros fizeram os seus ninhos, as andorinhas chegaram. Então chegou o dia da libertação. As pessoas ouviram na televisão. O vírus perdeu. As pessoas saíram às ruas, cantavam, choravam, abraçavam seus vizinhos sem máscaras nem luvas. E então o Verão chegou porque a Primavera não sabia. Ela continuou lá, apesar de tudo, apesar do vírus, apesar do medo, apesar da morte. Porque a Primavera não sabia, mas ensinou às pessoas o poder da vida.»
(Texto dito por Rui Unas, publicado no jornal
Petit Hong Kong, traduzido do francês, por Ricardo Capeloa e enviado a Rui
Unas, que o declamou no facebook; tem algumas adaptações em relação ao texto italiano, como se pode ver mais abaixo)
Era
o 11 de Março de 2020
Era
o dia 11 de Março de 2020, as ruas estavam vazias, as lojas fechadas, a as
pessoas já não saíam.
Mas
a Primavera não sabia
E as
flores continuavam a desabrochar
E o
sol a brilhar
E
voltavam as andorinhas
E o
céu coloria-se de rosa e azul
De
manhã amassava-se o pão e enfornava-se os pães de ló
Anoitecia
sempre mais tarde e de manhã a luz entrava pelas janelas entreabertas
Era
o 11 de Março de 2020 os rapazes estudavam ligados ao Google
E à
tarde infalível o encontro das cartas
Foi
o ano em que se podia sair só para fazer as compras
Pouco
depois fecharam tudo
Até
os serviços
O
exército começava a controlar as saídas e as fronteiras
Porque
já não havia espaço para todos nos hospitais
E as
pessoas adoeciam
Mas
a primavera não sabia e os botões continuavam a brotar
Era
o 11 de Março de 2020 toda a gente foi posta em quarentena obrigatória
Os
avós as famílias e também os jovens
Então
o medo tornou-se real
E os
dias pareciam todos iguais
Mas
a Primavera não sabia e as rosas tornaram a florir
Redescobriu-se
o prazer de comer todos juntos
De
escrever deixando a imaginação livre
De
ler voando com a fantasia
Houve
quem aprendesse uma nova língua
Quem
se pôs a estudar e quem retomou o último exame que faltava para a tese
Quem
entendeu amar realmente separado da
vida
quem
parou de descer a pactuar com a ignorância
Quem
fechou o escritório e abriu uma tasca só
com oito talheres
Quem
deixou a noiva para gritar ao mundo o amor pelo seu melhor amigo
Houve
quem se tornasse médico para
ajudar quem um dia venha a precisar dele
Foi
o ano em que se compreendeu a importância da saúde e dos afectos verdadeiros
O
ano em que o mundo pareceu parar
E
a economia ir a pique
Mas
a Primavera não sabia e as flores cederam o lugar aos frutos
E
depois chegou o dia da libertação
Estávamos a ver tv e o
primeiro-ministro disse a redes unificadas que a emergência tinha acabado
E que o vírus tinha perdido
Que os italianos todos em conjunto tinham vencido
E então saímos para a rua
Com as lágrimas nos olhos
Sem máscaras e luvas
Abraçando o nosso vizinho
Como se fosse nosso irmão
E foi então que veio o Verão
Porque a Primavera não sabia
E e tinha continuado a estar aí
Não obstante tudo
Não obstante o vírus
Não obstante o medo
Não obstante a morte
Porque a Primavera não o sabia
E ensinou a todos
A força da vida.
(Irene Vella)
(Traduzi)Era l'11 marzo del 2020
LA PRIMAVERA NON LO SAPEVA Era l’11 marzo del 2020, le strade erano vuote, i negozi chiusi, la gente non usciva più. Ma la primavera non sapeva nulla. Ed i fiori continuavano a sbocciare Ed il sole a splendere E tornavano le rondini E il cielo si colorava di rosa e di blu La mattina si impastava il pane e si infornavano i ciambelloni Diventava buio sempre più tardi e la mattina le luci entravano presto dalle finestre socchiuse Era l’11 marzo 2020 i ragazzi studiavano connessi a Gsuite E nel pomeriggio immancabile l’appuntamento a tressette Fu l’anno in cui si poteva uscire solo per fare la spesa Dopo poco chiusero tutto Anche gli uffici L’esercito iniziava a presidiare le uscite e i confini Perché non c’era più spazio per tutti negli ospedali E la gente si ammalava Ma la primavera non lo sapeva e le gemme continuavano ad uscire Era l’11 marzo del 2020 tutti furono messi in quarantena obbligatoria I nonni le famiglie e anche i giovani Allora la paura diventò reale E le giornate sembravano tutte uguali Ma la primavera non lo sapeva e le rose tornarono a fiorire Si riscoprì il piacere di mangiare tutti insieme Di scrivere lasciando libera l’immaginazione Di leggere volando con la fantasia Ci fu chi imparò una nuova lingua Chi si mise a studiare e chi riprese l’ultimo esame che mancava alla tesi Chi capì di amare davvero separato dalla vita Chi smise di scendere a patti con l’ignoranza Chi chiuse l’ufficio e aprì un’osteria con solo otto coperti Chi lasciò la fidanzata per urlare al mondo l’amore per il suo migliore amico Ci fu chi diventò dottore per aiutare chiunque un domani ne avesse avuto bisogno Fu l’anno in cui si capì l’importanza della salute e degli affetti veri L’anno in cui il mondo sembrò fermarsi E l’economia andare a picco Ma la primavera non lo sapeva e i fiori lasciarono il posto ai frutti E poi arrivò il giorno della liberazione Eravamo alla tv e il primo ministro disse a reti unificate che l’emergenza era finita E che il virus aveva perso Che gli italiani tutti insieme avevano vinto E allora uscimmo per strada Con le lacrime agli occhi Senza mascherine e guanti Abbracciando il nostro vicino Come fosse nostro fratello E fu allora che arrivò l’estate Perché la primavera non lo sapeva Ed aveva continuato ad esserci Nonostante tutto Nonostante il virus Nonostante la paura Nonostante la morte Perché la primavera non lo sapeva Ed insegnò a tutti La forza della vita. (Irene Vella)
[https://www.youtube.com/watch?v=fvp8tbm0wr8]
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