«A propósito de um texto, aqui, de António Rechena
Lembro-me de ver e ouvir o vídeo de Pilar del Rio (nome bonito ninguém lhe tira – «pilar» em castelhano significa «fonte») na sede da Fundação José Saramago a ensinar-nos, irritada e irritanta, que se devia dizer «presidenta» e não «presidente» e, aí, irritado e talvez irritanto, tanto, muito, fiquei eu... Falta de conhecimento da língua portuguesa não tem a tradutora de José Saramago!
Em Portugal, «presidenta», «chefa» e casos semelhantes, postos militares – a que não se acrescenta um «a» final –, só se usam com sentido de brincadeira (tom jocoso ou de carinho) e depreciativo. O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa (ed. Verbo) regista «presidenta», «1.Deprec. 2. Fam. e Pop. Mulher que desempenha as funções de presidente».
Mas há «infanta», que, não contente de estar igualada
com os irmãos se veio a separar. Da antiga irmandade plena dos infantes, filhos
de rei eles e elas, ainda há memória no Vale da Infante, a seguir a Estremoz na
estrada para Redondo...
Outra importante palavra, «fim», inscrita no túmulo de D. Pedro no mosteiro de Alcobaça, cansada de ser feminina, migrou para o lado masculino. AQUI ESPERA A FIN DO MUNDO – é uma interpretação da inscrição, não havendo dúvidas quanto a «a fim do mundo».
A língua é, assim, um rio que vai assimilando as margens sem nos pedir licença.
Não a forcemos.»
(Publicado, primeiro, na página do Facebook, «Cidadãos contra o Acordo Ortográfico». O texto de António Rechena inclui um outro que lhe foi enviado por José Riobom)
P. S. – O que atrás fica dito não visa o acordo ortográfico, a não ser na medida em que não o aplica. Todavia, sem o referir, esteve presente no meu espírito, na preocupação de defesa da língua.
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