Seleccionei este boneco, parecido com os que via na feira de Montargil. Sempre me fascinaram -- é a palavra --, pela sua simplicidade, pela madeira de que são feitos, pela perfeição, no seu género. Simples, também, e mais baratos, os moinhos de papel. Uma pequena haste e, em cima, uma rosácea de folhas. Com tão pouco se fazia a felicidade de uma criança!... A selecção deste motivo de interesse deve-se, aliás, a ter sido o ciclista o brinquedo que mais me atraiu na exposição recentemente inaugurada no ATELIER DOS BRINQUEDOS, espaço aberto a 26 de Setembro em Torres Vedras no requalificado CHOUPAL. Estamos todos de parabéns, muito particularmente os choupalenses de gema, de que conheço alguns.
A sala é um sítio de culto ao fado e ao futebol. Cachecóis, estandartes, galhardetes, o que for, forram integralmente as paredes e o tecto. Sobreleva a alma sportinguista, pela cor verde que predomina. Benfica, acha-se a custo sinais dele, mas há, incluindo, lado a lado, duas molduras com a fotografia das equipas rivais nos anos 60. Da parede oposta, consigo ver e reconhecer toda a linha avançada do Benfica: José Augusto, Torres, Eusébio, Coluna e Simões, por esta ordem. Não resisti a deixar aqui o galhardete da Associação de Educação Física e Desportiva de Torres Vedras. Estão representados os clubes portugueses de futebol, grandes e pequenos. O Oriental e tantos outros. Estrangeiros, como o Feyenoord. Boa parte dos que foram defrontando os nossos clubes na Taça dos Campeões europeus. Comparecem, em grande número.
Ontem foi dia de folia. Calhou jantar fora e em Lisboa, a cidade que é bela, já foi mais?, mas não se diga de uma cidade bela que já foi mais, Lisboa é bela, há várias Lisboas..., é coisa boa.
Entrámos ali, como num restaurante popular, com carácter. Não é uma casa de fados, mas a certa altura... Um senhor dá passos, dá-se pela sua presença. Já com alguma idade, forte, cabelo e bigode grisalho, ar um tanto fidalgo. Vai à porta, sai para a rua, volta. Junto à parede, dois guitarristas. É Gabriel Conde; começa a cantar. Fado triste, que nos transporta a vidas de negrume e tragédia. Gabriel Conde ou a sua personagem diz-se «sem norte e sem lei». Voz potente, nos momentos de clímax, em que remata as frases musicais e sobe nos agudos do seu registo.
Agora, Zita Rebelo interpreta várias peças: [O meu nome é Ninguém] «Sou um barco que... / Sou a chuva que cai/ Sou a esperança que volta/ (...) Nunca tive um abraço / (...) O meu nome é Ninguém / O meu nome não sei / Ando fora da lei / O meu nome é Ninguém / Sou a força que (...) / (...) Sou o grito da paz / (...) O silêncio da Noite / (... ) O meu sangue encarnado / Tem a cor desbotada (...) / O meu nome é Ninguém / O meu nome não sei / Ando fora da lei / O meu nome é Ninguém.
*
[Será pecado amar-te, assim?] Porque será que este amor é louco... / Será que os nossos [...] / Será que esta lei faz sentido? / Será mesmo proibido / Morar no teu coração!? / Será pecado amar-te, assim? / Será maldição ter esta paixão / Cá dentro de mim? Se ninguém pode mudar seu fado, / Dizei-me, Senhor, / Se este nosso amor / Será pecado? / Será que há um mal semelhante [?] / Andar de vida perdida / Se não oiço a tua voz? / Será que ninguém neste mundo / Sentiu amor tão profundo / Que amou assim como nós? / Será pecado amar-te, assim? / Será maldição ter esta paixão / Cá dentro de mim? [...]
[Aquela que mais amou] Quem por amor se perde, / Não chore, não tenha pena / Um dos santos do céu / Foi Maria Madalena. / (...) A Virgem, Nossa Senhora, / Quando amou, reconheceu / (...) / Fez da maior pecadora / Um dos santos melhores [?] / (...) / Aquela que mais amou / Foi Maria Madalena
[O cochicho] Na noite de S. João, refilão, / Ninguém quer calar o bico / Com um cochicho na mão, pois atão!, Um vaso de manjerico. / Olh'ò cochicho / Que se farta de apitar / ... ... ... ... ... / etc.
*
João Casanova: [Quando o Sol vai dormir] Quando o Sol está cansado, / Vai dormir, junto à Ribeira / (...) / Tal qual como Maluda, / Quando pintou as janelas / (...) / Mais além, no Bairro Alto / Onde mil noites vivi, / Ouço ecos dos poemas / (...) / ... ... ...
Outra: Hoje, acordei revoltado / Porque não sonhei com nada / ... ... ... ... ... / etc.
Outra: Portugal não é Lisboa, / Porque Lisboa é um bocadinho / (...) / Vai do Algarve até ao Minho. / Portugal não é Lisboa / Já tenho dito muitas vezes / Portugal é toda a terra / Onde nascem portugueses.
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O fadista, às vezes dirige-se às pessoas (lembro Gabriel Conde, fala para os ingleses que ali estarão; também falou um pouco em francês); pela assistência, a paisagem humana era indiferenciada; uma noite normal num restaurante, com gente portuguesa. Ouviu-se um pouco de português, afinal. João Casanova foi dos fadistas o que me pareceu menos profissional, não que não cantasse bem. Vi-o como um amador de fado, que frequenta habitualmente o meio, depois de um dia de trabalho, despreocupado, com à-vontade, chega, sente-se bem, conhece as pessoas, os acompanhadores, e canta, e canta agradavelmente.
No fim, Zita Rebelo propôs a compra do CD de que damos imagens, o seu primeiro trabalho discográfico, que dedica à sua família. Senhora simpática.
À saída, tive oportunidade de trocar duas ou três palavras com um italiano, homem ainda novo. Gostou muito.
Um empregado da Adega de São Roque, do lado do balcão, entra em jogo com ditos e chega mesmo a cantar duas ou três frases. Completa a encenação, gosta do que está a fazer.
E lá os deixámos, ainda.






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