sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A noite antes da conquista de Ceuta

Numa grande multidão, há homens de todo o metal, os corajosos e fortes e os outros, os de pequenos corações. Bela página de Zurara, em que nos sentimos no meio daqueles homens, como em vigília; somos mesmo um deles..., e o outro e todos; o de pior madeira ou metal e o da melhor. Primeiro, somos e vemos os pensamentos dos de pequenos corações; depois, os de mais ânimo e valentia, que «esquecem» a noite que talvez os espere e anseiam pela luz do dia que tarda. Olham mais para o que podem conseguir para si e os seus descendentes do que para uma morte antecipada, sem sepultura e longe do agasalho dos seus.
A seguir, é apresentado o capítulo LXVII da Crónica da Tomada de Ceuta, de Zurara, primeiro reproduzido de uma edição diplomática e, depois, em português moderno, mas afastado o menos possível do original. O primeiro motor deste meu texto foi a exposição, Torres Vedras no caminho de Ceuta.600 Anos patente no Museu Municipal de Leonel Trindade até ao dia 10 de Outubro. «Primeiro motor[1]» é expressão de Aristóteles. O autor grego é citado mais do que uma vez nesta crónica por Zurara, que o refere simplesmente por «o filósofo», tal foi a sua importância na Idade Média.
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 Como os da frota traziam por essa mesma guisa lume por seus navios, e das tenções que entre si haviam.   Capítulo LXVII.
Posto que aqueles mouros assim alumiassem sua cidade, a fim de acrescentar na semelhança de sua multidão, os outros que estavam nos navios, não alumiariam menos sua frota, mas isto era mais por necessidade, que por mostrar grandeza. Que tanto que assim os navios tiveram suas âncoras lançadas, logo cada um começou a cuidar no que lhe cumpria para o dia seguinte. E entre as tochas que os capitães tinham ante si, e as candeias que os homens traziam nas mãos, quando andavam corregendo suas cousas, era a frota muito alumiada, e parecia ainda muito mais aos que estavam na cidade, porque o fogo feria na água do mar, e parecia que tudo era lume; a qual cousa não punha pequeno espanto àqueles mouros, que o direitamente podiam olhar. Mas depois que se a noite se começou a gastar e os senhores se meteram em suas câmaras para filharem seu repouso, começaram cada uns daqueles de se acostar em seus alojamentos. E porque em semelhante tempo os homens têm vagar de cuidarem de quaisquer cousas, porque enquanto lhes a força do sono não tira o natural sentir, não podem arredar de si desvairadas imaginações, onde cada um leva seu entender àquilo que traz mais acerca da vontade; e certo é que em tal tempo pode homem melhor considerar o dano ou proveito que lhe pode vir, que em nenhum outro; que é dito pelo filósofo que o coração sendo se faz prudente. E estando assim aqueles deitados, começaram a considerar qual seria o seu fim no outro dia. Que posto que aí houvesse muitos corajosos e fortes, também estavam outros de pequenos corações; porque na grande multidão necessário é que haja de todo o metal; os quais toda aquela noite não podiam dormir senão a bocados, e batiam em seu peito tão desvairados pensamentos, que os não queriam deixar livres a um só cuidado. E assim como a nau quando traz pequena carga, a árvore seca anda sobre as ondas duma parte para a outra, sem ter rumo certo por que faça a sua viagem, bem assim andavam os pensamentos daqueles aluindo, sem curso certo. E uma vez se lhes apresentava ante a imagem da alma, como os mouros eram homens, que receavam pouco suas mortes, contanto que eles pudessem cumprir suas vontades, matando seus inimigos; outra vez pensavam que se ali falecessem, no que eles punham grande dúvida, quais sepulturas haveriam; e como não seriam acompanhados de seus filhos e de seus parentes, quando lhe fizessem sua derradeira honra, nem poderiam gemer sobre suas covas aqueles que grande sentido que grande sentido de sua morte tivessem. Ou diziam eles entre si, como foram bem-aventurados todos aqueles a que Deus deixou acabar seus dias no apartamento de seus leitos; os quais em tal tempo são acompanhados de suas mulheres e filhos, e aconselhados pelos seus abades com grande proveito de suas consciências; e estão fazendo a repartição de seus bens segundo o movimento das suas vontades. Mas nós outros que aqui morrermos, não veremos nenhuma destas coisas, antes jazeremos sem sepulturas, desprezados de todos os vivos. E assim se gastarão nossas carnes, sem de nós saber alguém parte, senão depois da derradeira ressurreição do juízo. E que proveito nos pode trazer o ganho dos trabalhos que levamos de nossas mocidades e mancebias, se não havemos de ter poder em nossos dinheiros para os darmos para saúde de nossas almas. Por certo mais nobres pensamentos tinham aqueles, a quem a natureza guarnecera de verdadeira fortaleza; os quais considerando em este feito, diziam entre si. Bem-aventurados somos nós, a quem Deus entre todos de Espanha outorgou primeiramente graça de cobrar terra nas partes de África; e que havemos primeiramente de despregar nossas bandeiras sobre a formosura de tamanha cidade. Vá com Deus, diziam eles, por bem empregado nosso trabalho em semelhante serviço, pois que o nosso sangue há-de ser espargido por remimento de nossos pecados. E que perda receberemos aqueles que aqui fizermos fim de nossas vidas, quando temos conhecimento certo que as nossas almas, que são espirituais, verão verdadeiros prazeres no outro mundo. E os autores das histórias apartados nos seus estudos, estarão contemplando na bondade de nossas forças; e escreverão os nossos feitos para ensinança de muitos vivos; e voará a fama de nossa morte por todas as partes, onde os homens conhecerem escrituras. E a nossa fortaleza será como espelho de todas aquelas gentes, que descenderem de nossa linha; os quais sempre viverão em favor de nosso merecimento; pois os reis que depois vierem a Portugal sempre terão razão de se lembrarem de tamanho feito. E pensando assim nestas coisas, muito amiúde se levantavam o olhar o movimento das estrelas, para conhecer que+ parte ficava por andar da noite; porque tarde lhes parecia que chegava a claridade do dia, para verem a hora antes desejavam.
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Guisa - maneira; acostar-se - recostar-se, deitar-se; jazendo - forma verbal de jazer: estar deitado, estar morto, estar sepultado, estar situado ou colocado...; Da Grande Enciclopédia P. e B.: árvore seca - mastreação sem as velas envergadas ou com elas todas ferradas; aluindo - aluindo - forma verbal de aluir: como intransitivo, vacilar, cair.



[1]  Aristóteles fala do primeiro motor na Física e na Metafísica. «Todo móvel deve ser movido por um motor.» (Física); «Uma vez que o motor deve ser eterno e nunca cessar, é necessário que haja um primeiro motor… e que o primeiro motor seja imóvel.» (Física); «É preciso que haja uma substância eterna e imóvel…. e que o primeiro motor seja imóvel.» (Metafísica) [As palavras de Aristóteles são retiradas de Rodolfo Mondolfo, O Pensamento Antigo, II, Editora Mestre Jou, São Paulo, 1965.]

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