O Infante Dom Henrique quer ter um papel
de primeiro plano. Neste e noutros textos isso se verifica. Já desde a
preparação da frota, no Porto; em Lisboa, e no afã de ser o primeiro a tomar
terra, em Ceuta. O quadro pintado por Zurara alça-o a alturas quase míticas.
Penso em Aquiles. Penso, também, na instabilidade que acompanha a acção de Dom
Henrique, no que podia ter corrido mal. O jovem de vinte e um anos, chega a ser
desertado de alguns dos seus, fugindo dos mouros, sem dar por ele. Uma figura
de militar e homem seguro parece providencial. Dom Henrique ouve-o. O homem a
quem o Infante ouve é Garcia Moniz. «O Iffante conheçia bem Garçia Moniz, que
era homem sesudo e boom caualleiro, e conheçeo que o comsselhaua muy bem.»
[Como Garçia Moniz filhou atreuimento de
passar aquella porta pera hir buscar o Iffamte, e das rrezoões que lhe disse.
Capitullo Lxxxii.]
*
Apresenta-se um dos
capítulos da crónica, em que se descreve a luta de Dom Henrique, dentro dos
muros de Ceuta. Reproduz-se o texto em linha da edição da Academia das Ciências,
por Francisco Maria Esteves Pereira, 1915, seguido de versão em ortografia de
agora, ligeiramente modernizada.
Como o Infante Dom Henrique tornou à Rua Direita, e das cousas que ali fez. Capítulo LXXVIII.
Dissemos nos outros capítulos, como o Infante Dom Henrique presumiu que seu irmão era em outra alguma parte. E por isso desceu-se contra a Rua Direita para ir atentar a fortaleza do castelo, pelo vencimento em que os mouros andavam. E menos era seu desejo contente de nenhuma boa dita, que naquele feito houvesse, não porque ele bem não conhecesse a grandeza da vitória, mas porquanto se houvera com tão pequeno trabalho. Que certo é que aquela cousa é de nós mais amada e prezada, cujo senhorio por grande trabalho cobramos; e, portanto, diz o filósofo no livro da económica, que os // mancebos desprezam as riquezas, porque as cobraram ligeiramente, e portanto naturalmente são liberais e gastadores, o que os velhos são pelo contrário. E por isso finge aqui o autor que dizia o Infante entre si mesmo. que me prestou a mim ser o primeiro capitão, que el-Rei meu senhor e pai mandou que filhasse terra, pois com tão pouco trabalho havia de haver a minha vitória, ou que glória poderei ter no dia da minha cavalaria, se a minha espada não for molhada no sangue dos infiéis. E indo assim em este pensamento, chegou à Rua Direita, pela qual seguindo um pequeno espaço chegaram a ele muitos cristãos, os quais segundo justa estimação seriam até quinhentos, que vinham fugindo ante os mouros. E vendo-os o Infante cerrou a cara do bacinete, e embraçou um escudo que trazia, e deixou passar por si todos os cristãos, até que chegaram os mouros, os quais muito asinha conheceram os seus golpes entre todos os outros, pois assim os cometeu rijamente, que os fez por força virara as espáduas, para onde antes traziam os rostos. E os cristãos, tanto que conheceram o Infante, cobraram esforço e fizeram outra vez a volta sobre os mouros; e começaram de o seguir, até que chegaram com eles a umas casas, onde descarregavam as mercadorias que vinham de fora; e ainda pousavam ali Genoveses, e chamava-se a aduana, e ainda se agora chama; as quais casas tinham uma porta barreirada daquela parte de Almina. E quando ali chegaram os mouros, ou por haverem outros de novo em sua ajuda, ou por sentirem que os cristãos não traziam tamanho esforço como da primeira, voltaram outra vez os rostos sobre eles e fizeram-lhes virar as costas com muito maior força que da primeira, e trazendo-os ante si, toparam outra vez com o Infante, o qual àquele tempo era de idade de vinte e um anos; e havia os membros grossos e fortes e coração não lhe falecia nem ponto para lhe fazer suportar os trabalhos. E quando assim viu outra vez os cristãos desbaratados, dobrou-se-lhe a sanha, e saltou outra vez entre eles, e tão fortemente os cometeu, que os fez desborralhar para uma parte e para a outra; mas os cristãos traziam consigo tamanho temor, que a maior parte deles passaram pelo Infante sem ter dele nenhum conhecimento; e não tornaram mais atrás. E os outros que ficaram, saltaram com o Infante no meio daquela pressa e revolveram o feito por tal guisa, que alguns dos mouros caíram ali, e os outros não puderam suportar a fortaleza daqueles golpes, e voltaram // as espáduas, por cuja razão receberam muito maior dano. Mas o Infante não os quis deixar assim como fizeram da primeira, antes os seguiu levando-os ante si até que chegaram à sombra dos muros do castelo. Mas aquela passagem se podia bem conhecer pelo rasto dos mouros, que jaziam mortos na rua, pois em breve espaço tinham companhia uns aos outros. E assim o diziam eles em seus brados, quando falavam aos dianteiros, que se abalassem rijamente, que os seus parentes e irmãos não podiam suportar tamanho dano. E era isto porque aquela rua era àquele tempo estreita, e os mouros eram muitos, e recresciam cada vez muitos mais, de guisa que os cristãos primeiros e os mouros derradeiros não podiam pelejar senão muito poucos, dos quais o dianteiro foi sempre o Infante, cujos golpes eram bem conhecidos entre todos os outros. E assim foram os mouros recolhendo-se os que podiam, até que chegaram à sombra dos muros, onde receberam algum acorro, porque se juntam ali três muros, a saber, o muro do castelo, e um muro de Barbaçote, e o outro muro que departe as vilas ambas.
[Nota: Respeitou-se geralmente as palavras usadas pelo autor e a ordem delas. Algumas pequenas cosméticas podiam não ter sido aplicadas, mas o leitor pode facilmente comparar com o texto, mais acima, da edição diplomática de Francisco Maria Esteves Pereira.
Algumas palavras e expressões: - «Iffante» - Infante; »Hamrrique» - Henrique; - «porem» (sílaba tónica: rem) - por isso; «contra» - em direcção a; «boa dita» - boa sorte; verbo «haver» - distinguir entre o sentido de existir e de ter; «o filósofo no livro da económica» - «O filósofo» é, por antonomásia, no período medieval, Aristóteles; Económicos é o título de uma obra do estagirita, que versa assuntos também tratados no livro V, em particular o capítulo V, da Ética a Nicómaco (ver recensão de Pedro Cardim, à tradução portuguesa); «filhar» - tomar, receber, conquistar; «leixar» - deixar; «asinha» - depressa; «acorro» - de acorrer, significa socorro, ajuda, auxílio.]



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